It Must Have Been Love
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A mulher sentada diante da janela mantinha o olhar fixo na rua que passava em frente a sua casa, o cigarro aparado em sua mão esquerda, enquanto a direita segurava displicentemente aquela carta, a única despedida de sua filha que partiu em uma aventura mortal há exatos sete anos.
Mamãe...
A hora em que você estiver lendo esta carta, possivelmente já estarei a alguns milhares de quilômetros de casa, sentada na garupa da moto que Ian roubou para podermos fugir. Lembra-se dele, mamãe? Era aquele assassino que ajudamos papai a cuidar algumas vezes, quando ele tinha que sair por alguma emergência policial. Em três dias ele estaria sendo transferido para a cadeia, aguardando o julgamento, por isso não podíamos mais esperar.
Sei que a senhora me avisou sobre ele, que eu não podia de modo algum me aproximar, nem deixá-lo puxar papo comigo. Afinal, ele era um criminoso, um homem que mata por diversão. O problema, mamãe, é que foi impossível não me aproximar dele, pois no fim das contas, ele era, pelas avessas, tudo o que eu sempre quis, apesar de isso parecer um tanto irônico, quando na verdade eu sonhava com um príncipe encantado.
Gostaria de te pedir que não fique chateada comigo, estou apenas seguindo meu coração. E se por um acaso ficar muito brava, será que um dia será capaz de me perdoar? Prometo que vou ficar bem, ele jurou que sempre me protegeria, acima de tudo.
É, talvez você nunca me entenda. Talvez me chame de estúpida por acreditar nas palavras de um marginal, desde que ele pode estar me enrolando, assim como talvez tenha feito com tantas outras, mas sem saber como explicar, posso apenas dizer que é diferente. Eu sou a vida dele. E ele é a minha.
Por isso, mamãe, peço-lhe que não deixe papai mandar ninguém atrás de mim. Eu não quero ser achada. Nem quero que o achem. Sei que se ele for pego, provavelmente será preso e talvez até morto, assim como a probabilidade de que eu seja presa também possa ser grande, desde que fui cúmplice em sua fuga.
Será que poderia também, como uma última promessa silenciosa, continuar sua vida? Fazer o papai continuar a vida dele também? Provavelmente vou sentir saudades de todos os dias, exatamente as sete da noite, o papai chegar em casa, me abraçar e chamar-me de sua princesa. No entanto, agora não sou mais princesa. Sou uma rainha. A rainha dele.
Possivelmente essa não foi umas das decisões mais sábias que já tomei, muito menos uma das mais racionais, mas pela primeira vez estou seguindo meu coração.
Agora, com tudo que estava engasgado em minha garganta há mais de um mês finalmente liberto, sei que posso terminar essa carta com a sensação de ter feito meu dever, não os abandonando sem uma única explicação. Posso dizer que me sinto realmente aliviada.
Eu te amo, mamãe. E diga ao papai que o amo também. Quem sabe um dia voltamos a nos encontrar, não é?
Um grande beijo junto à essa carta de despedida,
Livia.
Exatos sete anos. E durante todo este tempo, nada. Nenhuma notícia. Livia nunca retornou. Nunca mandara uma nova carta nem dera um telefonema. Durante sete anos, Renee ficou a espera. Sentada àquela janela, olhando para a rua, da mesma forma que fazia agora.
Esperando.
No entanto, Livia nunca voltara. Nem nunca voltaria.
Tinha saído no jornal. A menina, que completaria vinte e cinco anos dentro de um mês, morrera com um tiro de fuzil na cabeça durante uma briga de gangues. No entanto, a briga acontecera há mais de uma semana e só agora seu corpo fora encontrado, boiando em um rio que tinha perto da vila em que ocorrera o acidente.
No momento, Renee não esperava a filha chegar caminhando em casa, com uma mochila nas costas e dizendo que sentia muito por todo o tempo que passara longe.
No momento, Renee esperava o carro funerário que traria o caixão com sua menina dentro para que o velório pudesse ser realizado na casa dela, o local para o qual ela retornou, afinal de contas.
Morta.
A mulher, sentada à frente da janela deu uma última tragada em seu cigarro, jogando a ponta do mesmo, assim como a carta na lareira acesa, ao seu lado.
Levantou-se da cadeira, dando as costas à janela. Esta era a última vez que se sentaria naquela cadeira, àquela janela, esperando por alguém que jamais voltaria, pelo menos não mais vivo.
Deixou-se soltar um pesado suspiro. Suas esperanças enfim morreram, mas pelo menos agora poderia ter algum descanso, algum tipo de paz.
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