Isso não é...

14 Isso não é uma fase.


Notas iniciais
Olá. Adeus. Ah, alguém percebeu a mudança na capa? Se não, vá ver. E aí? A música é Close de Nick Jonas com ft de Tove Lo. E é, eu sei, Nick parece que está possuindo. Quem quiser ver https://youtu.be/XgJFqVvb2Ws

Cause if I want you, then I want you, babe

Ain't going backwards, won't ask for space

Cause space was just a word

Made up by someone who's afraid to get too close

(Porque se eu te quero, eu te quero, amor

Não vou andar para trás, não vou pedir espaço

Porque espaço é apenas uma palavra

Inventada por alguém que tinha medo de ficar muito perto)

14-Isso não é uma fase. (E vai continuar não sendo.)

Sábado, 30 de abril

O que Julie mais odiava desde tudo o que tinha acontecido era “você está bem?”. Ela tinha vontade de dizer “se eu não pareço bem, eu provavelmente não estou bem”. Se fosse fazer alguma diferença saber ou não, Julie teria dito. Contudo não fazia. Não importava quantas vezes perguntaram isso a ela, ninguém queria realmente saber se ela estava ou não. E mesmo se quisessem nada mudaria. Tentavam ser solidários, mas só estavam sendo insensíveis e egoístas à dor alheia. Assim quando quem sabe quem perguntou se ela estava bem pela quem sabe quantas vezes, Julie pode ter gritado um pouco:

—Eu não estou bem!

Mas só um pouco. Seja quem fosse, isso foi o suficiente para virarem o rosto e a ignorarem. Julie também os ignorou. Ela havia deixado Ashton ou quem sabe foi ele que a deixou, não fazia diferença para Julie o que tinha acontecido. Quem se importava com o que ele fazia? Outro maldito. Sua vida estava infestada de pragas que só a pioravam.

—Você parece ruim – comentou Luke, olhando-a.

Apenas olhando-a. Não havia surpresa, pena ou curiosidade. Nada. Ele simplesmente tirou o blazer que vestia e o jogou sobre os ombros da irmã, sentando-se ao seu lado no chão com as costas contra a parede. Julie colocou os braços dentro das mangas e se aconchegou nele, levantando o seu braço e passando-o por cima dos seus ombros. Julie finalmente se sentiu quente e em paz. Luke tinha esse poder sobre ela.

—Você bebeu de mais, não foi?

—Um pouco – murmurou Julie, aspirando seu cheiro.

Ela gostava do cheiro de canela dele. Era doce. Ela gostava de doces.

—Por quê?

—Não quero falar sobre isso.

—Claro. – Um momento de silencio. – Quer ir dançar?

—Claro. Agora? – questionou Julie, franzindo as sobrancelhas.

Luke se levantou, oferecendo sua mão com uma elegante inclinação... Qual era o nome mesmo disso?, perguntou-se Julie. Ela achava que era floreio, o que fazia-a com que se lembrasse de Harry Potter. Sabe, Floreios e Borrões? Julie não sabia quem Luke estava tentando enganar com toda aquela educação, ela o conhecia melhor do que ninguém.

—Me concederia essa dança, princesa? – questionou ele, sorrindo. Um sorriso que era tanto sarcástico quanto honesto. Um sorriso que ele partilhava somente com sua irmãzinha. Ela retribuiu do mesmo jeito.

—Claro, majestade – disse ela, aceitando sua mão e sendo puxada para cima. Ela amava seu irmão e aquilo não mudaria nunca.

Três anos atrás

Terça-feira, 16 de abril

Julie abriu a porta devagar para impedir que ela rangesse, tentando não fazer muito barulho para que ele não acordasse. Mordeu os lábios e apertou os olhos, como se isso fosse fazer a porta parar de ranger, mas não funcionou. Ela rangeu. Quando tinha espaço suficiente para passar, espremeu seu corpo pela abertura, embora só virar de lado fosse suficiente. Ela podia ser um pouquinho magra de mais.

—Luke? – chamou Julie, baixinho. – Está dormindo?

O que era uma pergunta idiota, ela sabia. Se ele tivesse dormindo, iria dizer o que? Contudo quando não sabemos o que dizer, somos idiotas, falamos coisas sem sentido ao invés de ficarmos calados.

Luke estava deitado na cama e sem dizer nada ou olhar para irmã, ele apenas rolou para o canto, abrindo espaço para ela ao lado dele. Olhando para cima ainda com os olhos fechados, Luke bateu no lugar vazio, convidando-a a se deitar ali. Julie correu em sua direção, levando consigo seu travesseiro pressionado contra o peito e os pés batendo sem proteção no piso gelado. Colocou o travesseiro aos pés de Luke e se deitou, cobrindo-se com sua colcha. As mãos de Luke encontraram-se com as dela no meio do caminho, buscando conforto. Elas ficaram palma sobre palma ate que eles puxarem os dedos, criando meio que um encaixe.

No lado de fora, a chuva caia e a cada barulho Julie sentia seus pelos se arrepiando e o medo envolvendo-a. Cada vez que ela fechava os olhos, Julie via o que não queria. Antes de chegar em casa, tudo parecia uma mentira, entretanto agora ela não tinha mais como fugir da verdade.

—Você se lembra que costumávamos dormir um na cama do outro antes?

—Você fugia para a minha cama – corrigiu Julie.

Entretanto era verdade. Quando eram pequenos eles sempre acabavam um na cama do outro, Luke ou Julie ia, saiam das suas e pulavam na do outro, embora Luke fosse quem saia frequentemente. E mesmo quando Luke mudou de quarto isso continuava acontecendo. Eles não conseguiam dormir separados, apenas com o tempo foram se acostumado. Contudo sempre que algo acontecia, os dois voltavam para os velhos hábitos. Eles não conseguiam ficar longe um do outro.

A primeira vez que Julie perdeu uma aposta foi justamente quando decidiram ver quem iria fraquejar primeiro, ela podia ter ouvido Luke choramingando no quarto ao lado e ter ido confortá-lo apesar de saber que perderia. Apenas podia.

—Você é a irmã corajosa – disse Luke, apertando a mão dela.

Julie sorriu. Aquilo era verdade e um conforto para os dois, mas seu sorriso rapidamente morreu quando outro trovão retumbou e ela se encolheu na cama, apertando os dedos com mais força.

—Você acha que vai manhã ao...

—Você continua com chulé – interrompeu Julie, tentando não ouvir nada.

Ela não queria saber de nada, ela queria fingir mais um pouco, ficar mais tempo absorta na mentira, mesmo sabendo que era mentira. Se Julie fosse para lá, ela não podia mais ficar em negação, e ela ainda estava na fase de negação. Era como se o luto estivesse parado, esperando... Antes Julie estava concentrada em outras coisas e agora não havia mais nada para ocupar sua mente. E cabeça vazia é oficina do diabo. A dela tinha tantas coisas, aglomerando-se uma sobre a outra que daqui a pouco Julie teria que fazer um bazar para desocupá-la.

—Certo, Julie, vamos deixar isso para depois – disse Luke, decepcionado. Sua irmã não estava sendo a irmã corajosa no momento, entretanto ele não poderia reclamar. Ela havia sido essa pessoa por muito tempo, Julie merecia ao menos aquele momento para ser covarde. – Que tal falar daquele garoto de hoje à tarde...

—O que tem ele? – perguntou Julie, mais rude do que deveria.

Ela tinha quase certeza sobre o que Luke falaria e Luke tinha quase certeza que não iria querer saber mais, contudo escutar Julie sendo tão retraída em fofocar sobre alguém, o deixou curioso. E com medo, é claro.

—Como vocês se conheceram?

—O que isso tem a ver com você? – continuou Julie, perguntando rudemente.

—Julie, eu conheço todos os seus amigos. Seus amigos são os meus amigos. E eu não conheço ele – falou Luke, devagar. Julie sabia o que ele queria, mas...

—Eu prometi não dizer – disse ela por fim.

—Ceerto – disse seu irmão, prolongando as vogais, surpreso. Julie sempre dizia a ele tudo, ela não conseguia guardar nada para ela, todavia ela também não quebrava uma promessa, então não adiantava insistir. Luke mudou para outro tópico em relação ao garoto que o perturbava. – Você não está colocando ele para substituir...

—Você não está fazendo pouco caso dele assim? – perguntou Julie, cutucando-o na cabeça com o pé.

—Como...? – perguntou Luke de volta, desviando do pé dela.

—Sugerido que ele poderia ficar no lugar do papai. Eu não posso ter me tornado amiga dele por que gostaria de ser amiga dele? Pior, sugerido que o papai poderia ser substituído?

Envergonhado, Luke ficou calado, porque ela estava certa, entretanto Julie não havia sido a única a ter ido ao psicólogo e ele também sabia que poderia estar certo. Talvez os dois estivessem. Talvez Julie quisesse um amigo para poder substituir o pai e quando encontrou o sujeito perfeito, ela poderia ter se esquecido do que procurava e apenas desejou que ele fosse seu amigo. Encontrar alguém que se encaixava nos seus parâmetros era difícil.

—Desculpe – disse os dois ao mesmo tempo, rindo bobamente pela sincronia.

Luke desculpava-se por ter sugerido algo tão irritante e Julie se desculpava por ser irritante, embora, nenhum deles, realmente quisesse se desculpar ou achasse que estava errado. Eles apenas não gostavam de ficar brigado um com o outro. E Julie tinha certeza que seu irmão estava sendo ciumento e, por isso, ela lhe deu o gostinho de se desculpar. Ele nunca concordaria com ela, mas isso não importava. Julie sabia que aquilo era ciúme e isso desculpava o fato dela ser desculpar. Se fizesse algum sentido.

—Não acho que você deveria ir à escola ainda – comentou Luke, como quem não queria nada, embora soubesse que isso faria Julie ficar irritada de novo.

—Não vou repetir de ano, Luke – disse Julie, ficando, obviamente, com raiva.

Ela avançava e regredia rapidamente nas fases, embora se fosse ver realmente a historia completa, Julie estava em negação desde o que aconteceu, não agora. Agora ela fui obrigada a aceitar a verdade. Julie odiava essas fases, fazia-a parecer uma adolescente revoltada e previsível, mas seu psicólogo diria que isso fazia parte da fase. E ela tinha que concordar com ele. A raiva que Julie sentia da raiva que ela deveria sentir era apenas a raiva que ela não queria aceitar que estava enraivecendo. Se fizesse algum sentido, novamente.

—Você deveria parar de arrumar desculpas para brigar comigo – aconselhou Luke, sentando-se, ainda de mãos dadas. – Eu sou seu irmão mais velho, estou sempre certo.

Julie imitou sua posição para que ele pudesse vê-la revirando os olhos e dando língua antes de se deitar novamente. Luke tentando dar um de arrogante não dava certo, mas ele sempre fazia isso, apesar de não gostar, quando sua irmã ficava muito chata e era sempre a mesma desculpa. E isso fazia Julie amá-lo ainda mais, ele fazer algo que não gostava por ela sempre deixava-a feliz, principalmente agora que ela precisava. Necessitava disso. Além de que ele não mudou a forma como se comportava, não deu razão a Julie independente do que aconteceu a ela. Do que aconteceu a eles.

—Apenas por três minutos – retrucou Julie, fechando os olhos e sorrindo. Se ela não fizesse, não seria ela. – Você é meu irmão mais velho apenas por três minutos.

Notas finais
Sério, como não shippar Luke e Julie desse jeito? Eles são tão fofinhos juntos! Mas não posso esquecer o verdadeiro casal dessa fic, eu tento me convencer disso, e, - sinceramente? - no momento, Jush (é como eu chamo, até o nome do arquivo no pc é esse) só continua porque sou de corpo e alma Caluke. O que acharam? Comentários ainda são bem vindos.