Isso não é...
32 Isso não é tentador.
Notas iniciais
I won't lie to you
(…) you're spending all your time
(Eu não vou mentir para você
(...) você está desperdiçando todo seu tempo)
32-Isso não é tentador. (Tentar ou ser tentado? Eis a questão...)
Segunda-feira, 09 de Maio
Ashton nunca sonhou que um dia iria reconsiderar sua ideia sobre Julie ser um porre quando estava doente, mas ele reconsiderou. Ela não era um porre... Não, era pedir demais, porque ela era um castigo divino! Uma maldição mandada pelo próprio demo para fazê-lo pagar por todos os seus pecados!
Não que ele não merecesse, contudo sua carrasca tinha que ser Julie? É claro que tinha! Quem melhor do que a “garota que você com toda certeza irá quebrar o coração” e que era sua melhor e única amiga para o cargo de tentação? Por que Julie não tinha apenas esses títulos como era... ela. E Ashton gostava – fisicamente falando – de como Julie era...
Certo, quem ele estava tentando enganar? Ashton gostava de Julie muito mais do que no sentido físico, entretanto quem poderia culpá-lo? Ela era inteligente, bonita, engraçada, linda, pessimista... – e Ashton tinha problemas; como é que ele gostava de alguém que era assim?
Mas ser bonita não a impediria de ter o coração quebrado por ele. E era justamente por ser bonita que Ashton não conseguia manter os olhos longe de Julie naquele momento. Por que ela tinha que parecer tão adorável? Por que ele tinha que ser tão superficial? Ashton duvidava que encararia Julie daquele jeito – com ela gripada e tudo mais – se ela não fosse bonita.
Embora, uma parte do seu cérebro, tenha registrado que Julie estava acabada naquele instante. Ela parecia cansada, bocejando a cada minuto e murmurando algo incompreensível nesses momentos, e Ashton não entendia nada – ele não ouviu o que ela disse e, mesmo se tivesse, não entenderia.
—Você vai continuar me encarando? – perguntou Julie ao pegá-lo olhando-a pela septuagésima vez, cansada desse olha ou não olha.
Ashton achava que ela era cega? Ou isso era alguma brincadeira? Melhor ainda, ele era um idiota não tão sutil quanto achava, porque Julie deveria ser cega para não perceber que ele a encara. Ao menos, Ashton tinha a pretensão de tentar encarar Julie quando achava que ninguém – esse ninguém era para ser ela – estava percebendo, mas não estava funcionando.
—Eu quero te beijar – anunciou Ash antes que pudesse se impedir, falando a primeira coisa que lhe veio à cabeça ao ser pego de surpresa.
As palavras apenas pularam para fora da sua boca, que nem um peixe pulando e debatendo-se nas poças de uma lagoa seca... E ele deveria considerar o fato de ter pegado a gripe e o delírio de Julie. Ou de poder pegar se a beijasse. Mas seu raciocínio e sua sutileza caminhavam lado a lado, e já que Ashton não era tão sutil quanto achava que era, sua rapidez de pensamento também não era anda impressionante. Se ele fosse um hipopótamo numa loja de porcelana, todas as peças já estariam quebradas.
—E é? – questionou Julie, sorrindo.
Ela não pode se impedir, ainda mais ao ver o rubor se espalhando pelas bochechas de Ashton, desacostumado a ser tão.... desesperado. Julie duvidava que ele alguma vez disse isso a alguém com tanta veracidade e desespero. Ou que já ou viu corado daquele jeito.
Ciente disso, Ashton revirou os olhos, tentando menosprezar suas palavras, mas Julie não cairia nessa, então já que tinha dito as palavras proibidas – nenhum garoto deveria anunciar tão publicamente seus desejos! – ele decidiu pegar o caminho mais rápido para sua danação eterna.
—Que tal uma aposta?
Ashton decidiu-se se aproveitar do fato de Julie estar apaixonada por ele, de não conseguir rejeitar uma aposta...
—Eu não vou te beijar – disse Julie, olhando-o brevemente antes de retornar os olhos para a televisão.
Mas ele deveria saber que nada com ela era fácil. Não era porque Julie estava apaixonada por ele, que ela iria querer beijá-lo. Outras garotas com toda certeza iriam querer, com Julie as coisas nunca eram claras. E sempre existia o fato dela ter mentido enquanto delirava, assim como existia uma primeira vez para tudo: aquela era a primeira vez que Julie rejeitava uma aposta e que Ashton pedia – suplicava, rastejava, tudo a mesma coisa – um beijo. Mas Ashton tinha escolhido o pacote da danação eterna e nele não vinha incluso desistir fácil só porque Julie fazia-se de difícil. Ou porque suas tradições estavam se quebrando, ate porque elas não adiantava nada diante do mármore do inferno.
Como estavam lado a lado no chão gelado – com toda a febre que teve, Julie não deveria estar ali, mas... as coisas nunca aconteciam como ela queria, e daquela vez não foi uma exceção – num movimento só, Ashton rolou para o lado ate esta por cima de Julie, não a prensando contra o chão, apenas ficando por cima dela, mantendo ambas as mãos apoiadas ao lado do rosto dela; afinal, Julie ainda estava doente e ele não poderia machucá-la. Não que Ashton quisesse que Julie se machucasse se ela estivesse bem, embora ele não tenha conseguido impedir os pensamentos sádicos que povoaram sua mente.
Culpe os hormônios, decidiu Ashton.
—Qual é, Julie? – perguntou Ash, compartilhando a mesma respiração que ela. Se ele se inclinasse um pouco... A mão de Julie estava lá no seu peito para impedi-lo. – Por que você tem que ser tão difícil? – exigiu Ashton, frustrado.
Aquele pequeno beijo que ele roubou dela só o fez desejar mais – e querer cuspir aquela bala horrorosa de terra; o que Ethan tinha na cabeça para entrar num sorteio com isso como premio? E o pior nem era isso, era que Julie fingia que não queria o mesmo que ele, como se Ashton não tivesse percebido a alteração na respiração e no batimento cardíaco dela, os olhos ligeiramente arregalados, a boca entreaberta... Embora essas características também se assemelhassem demais a alguém pega de surpresa, porque as próximas palavras de Julie o fez duvidar de qual seria a realidade:
—Saia – ordenou ela, muito controlada para a situação. E um pouquinho horrorizada, como se o pensamento de Ashton beijá-la deixasse-a nauseada. E olhando para o cabelo dele como se não o reconhecesse – o cabelo, não Ashton. E tocando-o para comprovar que era realmente ele.
Julie estava tão acostumada ao cabelo de Ashton sempre caindo no rosto, que não ver isso acontecer a deixava um pouquinho desorientada. Ela gostava mais de Ashton com cabelo grande. Ou da sensação de tê-los contra seu rosto, embora a sensação de tocá-los também fosse muito boa. E não gostava da expressão que Ashton tinha no rosto, aquela expressão deixava-a desorientada e Julie não gostava disso, era como não ter controle sobre si mesma, e se não pudesse controlar como se sentia – e seus desejos, como o de beijar Ashton naquele momento – ela podia controlar o que faria. Não era porque Ashton parecia uma tentação para Julie, querendo levá-la para o mau caminho, que Julie deixaria. Cadê sua motivação? Sua força de vontade?
Julie parecia gostar muito da posição para Ashton acreditar 100% que ela não o queria ali, em cima dela. Em resposta ao toque no seu cabelo – que nem caia no seu rosto para que Ashton acreditasse nessa desculpa, se Julie quisesse usá-la – ele se inclinou para frente, acreditando que ela o queria ali. Mas Julie virou o rosto e os lábios de Ashton pousaram delicadamente na bochecha dela. Na bochecha?!
—Mas que...
Eles por acaso eram amigos? Sim, pensou Ashton, irritado, mas, mas... Mas isso o irritou! Ele queria beijá-la, mas não como um amigo beijava uma amiga, e foi justamente isso que ele fez! Que Julie o influenciou a fazer!
—Luke vai chegar daqui a pouco...
O barulho de chave a interrompeu antes que Ashton pudesse fazê-la calar a boca e impedisse que ele pensasse demais sobre o assunto, Luke não iria chegar daqui a pouco, ele já havia chegado. Ashton nem tinha percebido o tempo passando, mas era incontestável que era Luke abrindo a porta, só ele fazia tanto barulho com uma chave.
-É melhor sair de cima de mim – continuou Julie, olhando-o como se não tivesse feito nada, com olhos inocentes demais para ser realmente ela. – Ou vai admitir a Luke que está cobiçando sua irmãzinha?
Lançando um olhar que Ashton esperava que pudesse transmitir todo o ódio que sentia por Julie – e tentando não passar por eles que se sentia culpado por estar dando em cima (quase abusando) a irmã do seu amigo – ele rolou para o lado, completando quando estava confortavelmente sentado ao lado dela como antes, bem a tempo de Luke não vê-lo em cima de Julie:
—Eu vou acabar te matando – sibilou Ashton, embora pensasse o contrario. Ela que iria matá-lo desse jeito.
Indiferente ao que acontecia – e o que poderia ter acontecido se não tivesse chegado naquele momento, se Ashton tivesse tempo para persuadir Julie; eram muitos se – Luke entrou na sala, encaminhando-se para a escadaria – ele iria ver como sua irmã estava – ate que percebeu aqueles dois na sala e no quanto eles pareciam... culpados. Quase como se tivessem sido pegos roubando biscoito antes do jantar. Talvez Luke não estivesse tão indiferente assim ao que acontecia.
—Qual é o problema? – perguntou Luke, cauteloso.
O espaço de Julie e Ashton estava o mesmo de sempre, mas eles não pareciam os mesmo de sempre. Havia um tensão quase...
—Ash quer me agarrar loucamente – confessou Julie – mas não quer admitir.
—O que? – questionaram os dois ao mesmo tempo, entreolhando-se brevemente antes de olhar para Julie.
Ashton estava chocado por Julie dizer a verdade.
Luke por quanto aquilo parecia verdade.
—Ele está com medo de se viciar e não poder mais voltar a ser meu amigo – zombou Julie, fazendo Luke rir pela improbabilidade daquilo acontecer.
A tensão entre eles eram quase sexual, mas Luke não se preocupou com isso, devia ser outra coisa “não sexual” e ele que não estava entendendo.
Uma coisa que Luke sentia-se relaxado era o fato de que nada aconteceria entre sua irmãzinha e Ashton. Ele não era o tipo dela. Luke poderia ate dizer que era um irmão mais velho abençoado por não precisar se preocupar com isso; todos os irmãos mais velhos deveriam morrer de vontade de ter uma irmãzinha assexual!
Embora às vezes Luke sentisse um pouco de... não pena – Julie o mataria se ele usasse essa palavra para se referir a ela – estava mais para tristeza. Ele ficava triste por ela não sentir as alegrias e tristezas de se apaixonar, mas isso era facilmente esquecido ao pensar em sua irmãzinha com alguém.
Se Luke soubesse a verdade... Julie podia não saber o que seu irmão pensava com clareza, mas sabia para onde os pensamentos dele tinha ido e não gostava nem um pouco dessa direção. Não que pudesse culpá-lo quando escondia coisas dele. E não que pudesse continuar não contando se continuasse ali.
Ver a confiança de Luke sobre ela fazia querer contar a verdade a ele, inclusive o que não entendia, especialmente o que não entendia, mas Julie não achava que esse era o melhor momento, não com Ashton como telespectador. O melhor que Julie poderia fazer, que não era contar a verdade, era sair dali para não contar a verdade, deixando Luke e Ashton sozinhos. Talvez deixar Luke e Ashton sozinhos não fosse o melhor a fazer, mas Julie não estava se importando.
Murmurando um “vou tomar banho”, ela desapareceu.
Murmurando um “preciso perguntar sobre o... trabalho de artes!”, Ashton a seguiu depois de um tempo.
Murmurando um “não me importo”, Luke saiu para comprar material para fazer uma sopa para Julie. Ela precisava comer, e de preferência algo que não fosse industrializado e cheio de corante. E viver com uma mãe ausente e uma irmã aficionada por ovos o transformou num cozinheiro decente, ate porque as ofertas eram limitadas: era isso ou só comer ovos ou congelados.
E Luke não queria ficar ali dentro vendo seu amigo – que não teria nenhuma chance – dar em cima da sua irmã. Luke não sabia se devia ficar triste por Ash ou com raiva dele.
Fale com o autor