Isso não é...
19 Isso não é segredo.
Notas iniciais
Sick of all the insincere
I'm gonna give all my secrets away
(Cansado de toda esta insinceridade
Então abrirei mão de todos os meus segredos)
19-Isso não é segredo. (É segredo se for uma mentira?)
Quinta-feira, 05 de maio
Foi uma surpresa para Ashton encontrar sua mãe na porta do corredor, encarando-o quando saiu do banheiro. Amarrando a toalha em volta da cintura, Ash a contornou e entrou no seu quarto, esperando que ela dissesse o que queria enquanto procurava uma roupa para vestir. Ele não esperava que Anne estivesse ali aquela hora, ela normalmente estaria no restaurante esbravejando ordens com uma doçura que contradizia seu tom imperativo e sua pequena altura.
—Mais uma festa de comemoração? – perguntou Anne finalmente, suspirando.
Não era nenhum segredo como o seu filho gostava de uma festa, e nem se dava mais ao trabalho de dizer algo quanto a isso. Apesar de suas reclamações, Ashton continuaria saindo para as festas sempre que tinha vontade e retornando na hora que quisesse, e quase sempre bêbado. Ele era um bom filho, que sempre fazia o que ela pedia, retirando essa teimosia de ir para festas e ficar agarrando-se com as garotas pelos cantos. Mas o que Anne poderia dizer? Se retirasse isso dele, seria igual dizer: Aqui jaz Ash, meu filho amado.
—Bem, mãe, se isso vai ter acalmar, saiba que Julie estará lá... – disse Ash, levantando a sobrancelha com duplo sentido, quando olhou para baixo e de volta para Anne.
Se uma sobrancelha pudesse ser levantada com duplo sentido, aquela estava, pois ela estava levantada de um modo que perguntava “dá para imaginar Julie numa festa?” – e Ashton estava ciente que a informação dada não iria acalmar sua mãe, era mais provável preocupá-la ainda mais – assim como um pedido para Anne se virar, para que ele pudesse vestir a roupa sem ser encarado.
Rolando os olhos, Anne continuou encarando-o. Não tinha nada ali que ela não tenha visto antes.
—Julie, né? – murmurou Anne, ignorando-o seu pedido. Quem ele pensa que lhe deu banho?— Eu pensei que você estivesse evitando-a.
—Por que você pensa assim? – perguntou Ash, ficando ele mesmo de costas. Ele não sentia vergonha do seu corpo, mas ele sentia vergonha da sua mãe olhando para o seu corpo! Há um limite para o que ela podia ver, assim como pelas tatuagens que ela permitiria.
—Ela te ligou dez vezes seguida ontem e você não atendeu.
—Pare de pegar o meu celular escondido – reclamou Ashton.
—Como vou saber das coisas se você não me conta – murmurou Anne, nem um pouco arrependida. – Então, o que aconteceu? Por que está evitando-a?
Sempre que a situação tornava-se mais difícil do que poderia aguentar – ou que saberia como lidar – Ashton a evitava. Ele era assim desde criança, escondendo-se e adiando o que não conseguia controlar por tanto tempo quanto possível. Foi assim quando Julie disse estar apaixonada por Luke. E foi assim quando a beijou.
Eu beijei Julie, disse Ash mais uma vez para si mesmo. Ele ainda estava tentando se convencer disso, de que realmente a beijou, porque ele não podia acreditar. Assim como não conseguia aceitar o jogo de gato e rato que faziam. Quando Julie o beijou, ela o evitou; quando Ash a beijou, ele também a evitou. E, assim como ele queria saber o porquê daquela vez, Ashton tinha certeza que Julie queria saber agora, e esse era um joguinho que ele não aguentava.
—Nada de mais – disse Ash, revirando os olhos. Ao menos, para sua consolação, ele não precisou de tantos dias quanto Julie para perceber que isso não levaria em nada. – Nós já estamos bem.
Embora Julie não saiba disso, completou ele, não verbalizando seus pensamentos. Acenar para Julie, para Ashton, foi um gesto de rendição. Ele não iria mais evitá-la, mas Julie não sabia disso. Ela pareceu até surpresa ao vê-lo acenando para ela, como se acreditasse que ele a ignoraria para sempre.
—Julie sabe que vocês estão bem? – perguntou sua mãe.
O modo como ela lia sua mente era perturbador. Ashton a ignorou. Também havia um limite para o que ela podia saber.
—E não precisa se preocupar mãe – disse Ashton, beijando-a na testa. – Não vou beber, sou o motorista designado de hoje. Tchau.
—Oi – disse Ashton, quando a porta se abriu.
—Olá – respondeu a pessoa, sem sair da frente.
—Vai me deixar entrar? – perguntou Ashton quando Calum continuou na sua frente, não abrindo espaço para ele.
Empurrando-o para fora e guiando-o até que suas costas batessem contra a parede – num local escuro e afastado, que ninguém pudesse vê-los se olhasse pela janela – Ashton pensou por um instante que Calum iria se jogar para cima dele. E ele ainda não sabia como agiria quanto a isso. Ashton nunca pensou em Calum dessa maneira – nem de qualquer outra maneira – e ele não sabia o que faria se aquele garoto realmente se jogasse contra ele. Isto é, se conseguisse superar a surpresa que sentia naquele momento. Estava difícil ele superá-la.
—O que está acontecendo entre você e Julie?
—Oi?
Ashton não esperava por essa. Tudo bem que ele esperava que Julie contasse a Demi o que aconteceu entre eles – sua experiência dizia que garotas sempre contam tudo umas às outras, não existia segredos entre elas – mas ele não esperava que ela fosse contar a Calum... Embora não houvesse nenhum motivo para ela não contar a ele, percebeu Ash, assim como suas habilidades comunicativas ao ser pego de surpresa continuar as mesmas. Oi, Ashton? Serio, questionou-se ele.
—Eu não sou cego. Você está evitando-a – disse Calum. Ashton concordava, Calum pegava as coisas no ar. – Julie está distraída...
—Espere – interrompeu Ashton, sorrindo. – Julie está distraída?
—E com raiva – complementou Calum, mas Ashton continuou sorrindo. Ele simplesmente adorava provocar Julie e continuaria sorrindo estando ela feliz ou irritada. – É serio. Pare de sorrir – reclamou Calum. – Estou preocupada com ela. Num momento está sorrindo, no outro bufando.
—Você já pensou que isso pode ser TPM?
—TPM? – repetiu Calum. Ele não tinha pensado nisso.
—Eu não preciso te dizer o que é TPM, preciso? – perguntou Ashton, falsamente irônico, tentando cobrir seu medo com sarcasmo.
Essa era uma conversa que Ashton não queria ter nunca mais na sua vida. Nunca. Quando sua mãe achou que ele já era grande o suficiente para essas revelações, Ashton descobriu que preferiria ser uma criança. Ele não precisava saber de todos os segredos do corpo humano. E ele nunca – nunca mesmo – teria outra conversa desse tipo com ninguém.
—É, você tem razão. Pode ser – concordou Calum, olhando-o como se ele fosse louco. – Por que eu não pensei nisso antes? Ah, é, porque eu nunca vi Julie assim, seu idiota! Eu sei o que é TPM e Julie não age assim quando está!
—Para tudo tem uma primeira vez... – disse Ash, dando de ombros. – Falando em primeira vez, será que você já pode sair de cima de mim?
—Eu não estou em... – olhando para baixo, Calum percebeu que aquilo era meio que verdade. – Talvez eu esteja meio que em cima de você.
Calum começou a colocar espaço entre eles ao mesmo tempo que a porta abriu e Mike apareceu, olhando ao redor, procurando-os.
—Eu tinha certeza que a campainha tocou – falou Mike, dando um passo para fora. Ele não via ninguém.
—E tocou – concordou Julie, ao lado de Michael. – E Calum veio atender.
—Para onde será que Calum foi? – perguntou Demi, aparecendo também. – Ah...
—Ah... – concordou Julie, seguindo seu olhar.
—Nós podemos voltar mais tarde se estivermos atrapalhando – disse Mike, indiferente a cena que via.
Calum e Ashton estavam tão próximos que poderiam ter estado se beijando, ainda mais no escuro que era ali. Como Demi os enxergou, para começo de conversa, era um mistério.
—O que você acha, amor? – perguntou Ashton, passando um braço ao redor da cintura de Calum.
—Você decide – respondeu ele, dando de ombros. – Podemos continuar de onde paramos depois...
—Vamos logo – pediu Julie, revirando os olhos. – Estou quase desistindo de ir para a festa. Não me façam realmente desistir de ir à festa.
Julie não gostava de festas. Ela não gostava de sair de casa para começo de conversa. Mas aqui estava ela numa festa, ou numa comemoração da vitória como todos chamavam. Julie tinha a impressão que se os garotos tivessem perdido o jogo ainda sim existiria uma festa. Álcool para afogar a infelicidade!
Assim que chegaram à casa de... Julie não fazia ideia de quem era casa e nem queria saber. Ela não se importava. Enfim, só foi entrar dentro da casa que todos acabaram se separando, havia muitas pessoas ali, contudo Ashton e Julie continuaram juntos, pois ele havia pegado no seu braço, segurando-a quando quase caiu ao ser empurrada por algum ogro.
—Minha nossa! – exclamou Julie, agarrando-se a Ashton para se levantar. – Como são educados. Lembre-me por que eu vim.
—Porque você nunca sai de casa – respondeu Ash prontamente, ignorando o fato daquela ser uma pergunta retórica. – E sua mãe mandou você e Luke voltarem apenas de madrugada para ela ter uma desculpa para colocarem vocês de castigo.
—Eu sei o porquê, Ashton – disse Julie, revirando os olhos, um pouco surpresa por ele realmente está falando com ela, já que estavam sozinhos. – Não preciso do discurso.
—Não, você precisa de uma bebida – falou ele, sorrindo. – Vou pegar para você e não...
—Aceite bebidas de estranho – completou Julie, revirando os olhos mais uma vez. – Eu sei.
—Só estou repetindo para ter certeza – disse ele, levantando as mãos em rendição, não deixando de sorrir. Ele parecia estranhamente feliz, apesar de não poder beber. – Sou o motorista designado, ou seja, o único que ficará louco se você desaparecer.
—Que alivio... – murmurou ela, observando-o ir atrás das bebidas.
Ashton andava desviando-se das pessoas muito bem, não trombando em ninguém. Ele estava acostumado com essas multidões em lugares apertados. Julie não. Parada num canto da parede, ela já estava vendo à hora de ser pisoteada. Julie também não entendia a mudança súbita em Ashton. Num momento, ele a evitava. No outro, agia como se nada tivesse acontecido. Julie ficava ate com receio de dizer algo, era como se Ashton estivesse planejando alguma coisa assustadora.
—Oi – disse uma garota, levantando o copo em cumprimento.
Olhando desconfiada, Julie demorou um pouco para retribuir o cumprimento. Ela já havia visto a menina na escola, mas a garota nunca havia nem olhado na sua cara uma vez. Julie fez a varredura nela: cabelos castanhos alisados, rímel lilás, batom vermelho e roupas do tamanho PP que caberiam na minúscula da Melanie. Aquela devia ser uma vadia e de duas uma: apostaram algo ou ela estava ali com segundas intenções com os seus meninos. Ou era lésbica, sempre existia essa opção.
—Oi – disse Julie, finalmente.
—Vocês são namorados? – perguntou ela, não perdendo tempo e apontando para Ashton que voltava com as bebidas. Julie demorou um pouco para responder de tão surpresa que estava com essa pergunta, mas conseguir dizer um bom não. Era engraçado. – Vocês ficam tão fofos juntos.
O que basicamente significava na língua das prostitutas: ele é um gato e eu o quero, saia da frente, vadia. O que mais uma vez era engraçado e fazia Julie ter vontade de rir. E de se parabenizar por ter descoberto tão rápido qual era a sua intenção. Seus meninos. E, em particular...
—Ashton – concluiu Julie para si mesma.
—Julie – disse ele, aproximando-se, desconfiado.
Ash entregou a ela um copo, que julgando pelo cheiro era ponche, enquanto o seu tinha apenas refrigerante – Julie estava de prova, ela havia conferido, pois não iria para casa com um bêbado dirigindo. Ashton estava cauteloso ao redor de Julie, ela tinha um olhar de quem iria aprontar algo. E era verdade, se tivesse tido tempo.
—Oi, sou Bianca – apresentou-se a garota ao seu lado, praticamente empurrando Julie e oferecendo o corpo, não apenas a mão. A voz dela tinha aquela ronronar felino e infantil que parecia dizer “me chama de Bianca; vai, me chama”.
—Ashton.
Ele havia apertado a sua mão e sem soltar, Bianca o puxou, obrigando-o a dançar com ela. Lançando um olhar a Julie, Ashton deu de ombros, tentando dizer que não tinha culpa, e a seguiu, deixando-a sozinha.
Por mais que Julie quisesse dizer que aquilo era algo surpreendente, que nunca tinha acontecido antes, era mentira. A surpresa estava no que aquilo a provocou, a raiva que sentiu.
Ashton dançava com qualquer uma que pedisse – parecia ate que ele era incapaz de recusar um convite – e não apenas dançava, Julie já tinha visto a mesma cena repetidas vezes para saber o que acontecia. O que aconteceria. Ela sempre ficava um pouco irritada ao ver essa rotina se repetir sem pausa, mas aquela vez era diferente. Não era um simples incomodo, não era algo que seria esquecido assim que virasse as costas. Era um mal estar, um sentimento que sufocava-a e dava um gosto ruim na boca. Julie passava mal só de pensar naqueles dois dançando.
—Ah, droga – suspirou Julie, tendo uma epifania do que aquilo era.
Ela odiava essas epifanias que tinha. Principalmente quando estava cercada por tanta gente, no meio de tanto barulho, que nem poderia pensar ainda mais na descoberta que fez, tendo a probabilidade de esquecer o que descobriu a qualquer momento. Mas, pela primeira vez, Julie tinha certeza que não esqueceria de uma revelação e ela odiou isso. Droga.
E Demi apareceu do seu lado do nada, assustando-a. Como se tivesse ali desde sempre e nunca tivessem se separado na entrada.
—Jesus, Demi. Estou te avisando... – ameaçou Julie, sem muito convicção. Ela nem tinha cabeça para ameaças! O mundo já podia acabar de uma vez!
Pelo brilho dos seus olhos, Julie diria que ela já havia tomado algumas e ela era fraca para bebida, o que significava que Demi era sua responsabilidade, porque era inocente demais para o próprio bem.
—O que foi? – gritou Demi, pois só assim para ser ouvida. -
Ao mesmo tempo em que Julie balançava a cabeça tentando dizer “mais tarde”, ela esperava que Demi não se lembrasse e nem ela própria disso, porque simplesmente não podia ser verdade. E, mesmo se fosse – algo que ela rezava para Deus para não ser – Julie não tinha certeza que contaria para Demi. Quanto mais bem guardado estivesse, mais secreto fosse, menos gente soubesse, menor a probabilidade daquilo ser realmente verdade.
—Precisamos...
Julie não sabia do que precisava, nada poderia fazer se esquecer do que descobriu. Nada além de bebida, que estava estritamente proibida para ela, já que era necessário que alguém, além de Ashton – ele não era confiável – ficasse lúcido.
—De mais ponche – completou Demi mesmo assim, puxando a amiga com um conhecimento impressionante para alguém que estava numa festa adolescente pela primeira vez na vida. – Esse ponche está de mais!
Julie deixou-se levar, pensando que aquilo, o fato do ponche está batizado, seria mais uma coisa que guardaria para si. Ela realmente queria estar em casa e nunca ter vindo a essa festa, nunca ter deixado Demi convencê-la. Ficar em casa, no conforto do seu lar, a protegeria de todo esses segredos e mentiras que guardava para si. Julie achava que estava apaixonada pelo Ashton. E isso só podia ser mentira.
Fale com o autor