Isso não é...
43 Isso não é motivo.
Notas iniciais
Your little brother never tells you but he loves you so
You said your mother only smiled on her TV show
(Seu irmão mais novo nunca te diz, mas ele te ama tanto
Você disse que sua mãe só sorria no programa de TV dela)
43-Isso não é motivo. (Precisa de motivos para estar feliz?)
Três anos atrás
Terça-feira, 16 de abril
Uma chama de luz laranja surgiu, lançando uma aparência fantasmagórica a Luke e Julie apenas suspirou. Num bom dia, ela teria rido de Luke e de sua aparência, mas aquele não era um bom dia. Um bom dia não tinha ventanias, relâmpagos e... Oh, e trovões. Trovões era o símbolo de um mau dia.
Ashton concordava com Julie sobre aquele não ser um bom dia, mas não pelos mesmos motivos que ela; seus motivos estavam marcados na sua pele, não no céu. Seu braço tinha exatas dez marcas meias luas em vermelho, causadas por exatos dez dedos e dez unhas interligados a uma Julie Hemmings que tremia e apertava-o forte, afundando suas garras ainda mais fundo na pele dele, a cada trovão... De uma forma distorcida, o céu talvez fosse – era – o motivo primário para tudo isso.
—Você já pode me soltar, Julie – pediu Ashton. – Vou ficar bem, não se preocupe.
—Tem certeza? – questionou Julie, recusando-se a olhá-lo. – Eu não me importo de ajudá-lo a superar seu medo.
—Tenho – disse ele, retirando os dedos dela a força do seu braço.
—Tudo bem – murmurou ela, lançando um olhar irritado a ele antes de se arrastar para bem longe dele.
Ashton revirou os olhos. Isso era realmente necessário? Julie parecia achar que sim, assim como achou necessário marcá-lo com suas garras, assim como achava necessário ter alguma parte dela tocando-o...
Era impressão sua ou o pé dela continuava grudado nele? Não, não era. Os dedos de Julie tinha revelado um pedaço da pele de Ashton e tocavam insistentemente um pedaço da sua barriga, causando-o arrepios.
—Você está bem? – questionou Ashton. Como Julie conseguia ficar gelada desse jeito e permanecer indiferente ao frio? Ele estava tremendo, enquanto ela teve apenas um ligeiro arrepio depois de ouvi-lo.
Julie queria perguntar a Ashton o que ele considerava como “bem”. E se ele queria sabe se ela estava bem física ou emocionalmente, embora, em ambos os casos, a resposta seria a mesma... Resposta essa que Julie não sabia qual era.
Aquele dia podia não ser um bom dia, mas isso significava que ela não estava bem? Levando em consideração tudo, Julie estava bem. Mas, também levando em consideração tudo, ela não estava bem. Era difícil responder a essa pergunta.
—Claro que...
—Ela está bem – interrompeu Luke, olhando fixamente para os dedos de Julie que tocava Ashton. Mais ciúme impossível. – Mova-se para o lado, Ash.
—Ash? – perguntou Ash, movendo-se para o lado. Não seria ele que iria ficar entre o amor de dois irmãos.
—Ashton é muito comprido – disse Luke, jogando um braço sobre os ombros de sua irmã e puxando-a para si.
Parecia quase uma declaração de que ela era sua e que Ashton tirasse os olhos dela, ao menos foi isso que Ash entendeu. Principalmente quando Julie murmurou quase sonolenta e enrolou-se encolhida no seu irmão, suspirando confortavelmente, e Luke beijou-a com delicadeza na testa, olhando-a com tanto carinho e ternura, que Ashton sentiu-se como um intruso.
—Você ainda não está com raiva, está? – perguntou Luke, tentando distrair a irmã enquanto passava os dedos tristemente pelos cabelos curtos dela. – Eu te amo, você sabe, não é?
Era por motivos assim que Julie não sabia como responder a pergunta “você está bem?”. Porque, mesmo quando coisas horríveis aconteciam, mesmo quando você estivesse horrível, ainda haveria boas coisas no final de tudo. E, mesmo Julie que tinha uma péssima memória, lembrava-se... Não, Julie não precisava lembrar-se, porque era uma parte dela, estava profundamente ligado a ela. Julie sabia que seu irmão a amava e isso a fazia sorrir. Ela sabia que não importava como discutisse com sua mãe e o quanto achassem que fossem diferentes, elas se amavam e sempre iriam fazer as pazes. Assim como sabia que seu pai a amava – e não um amava do tipo passado, mas do tipo para sempre e sempre e sempre... Para o alto e avante.
Isso fazia Julie querer rir e aconchegar-se mais perto de Luke, dizer que também o amava “para o amanhã e adiante”, mas... Julie ainda queria que ele sofresse um pouquinho por ter sugerido que ela deixasse a escola por um ano e só voltasse no próximo – que ela repetisse o ano – mas ela não queria que ele sofresse muito, porque o amava, então ao invés de ignorá-lo completamente e se afastar, Julie apenas questionou de olhos fechados:
—Quando é que a mamãe vai chegar?
Luke suspirou. Ele achava que deveria agradecer por ela estar ao seu lado e não ter recusado o toque dele, embora isso pudesse ter relação com a tempestade que acontecia.
Por um momento, os três ficaram em silêncio, observando as chamas que ondulavam nas velas e lançavam formas e sombras disformes nas paredes, no chão... Observá-las era a única coisa que eles podiam fazer, a única coisa remotamente interessante enquanto estavam sem energia.
Ashton tinha tentando começar uma conversa, mas ela morreu antes mesmo das palavras terem saído da sua boca. E, então, ele ficou ali. Sentado no sofá, como mais uma vela, esperando...
Luke foi o próximo a tentar iniciar uma conversa, pigarreando para chamar atenção e recebendo silêncio como resposta. Da segunda vez que pigarreou, a intenção não era mais chamar atenção, mas atrair sua própria coragem, que parecia ter se perdido. Ou nunca foi encontrada para começo de história. Se é que ele tinha.
—Você não deveria ficar ansiosa para perder a aposta – zombou Luke. – Mamãe tem que ser cega para não perceber que você mesma cortou o cabelo.
Julie sorriu sonolenta, mas, antes que pudesse retrucar, alguém gritou como uma garota, forçando-a a abrir os olhos, intrigada.
A porta da casa tinha sido aberta rapidamente com um baque por causa de uma forte rajada de vento, apagando as velas ao mesmo tempo em que um relâmpago atravessou o céu, iluminando a silhueta da pessoa na porta, e um trovão retumbou e fez todos tremerem... E então as lâmpadas piscaram antes da energia se restabelecer de vez e todos puderam ver quem era que estava na porta.
Aquilo era uma cena de filme de terror? Liz, da porta, toda molhada e com um monte de sacolas nas mãos, parecia achar que sim. Aquela... Aquela... Aquela era sua filha?! Ela não podia acreditar.
—Julie! – exclamou sua mãe, dando um passo para trás, horrorizada. – Você... Você... O que? – Ela parecia sem palavras enquanto Luke tinha muito que dizer, contentando-se apenas a lançar um olhar do tipo "eu te disse" a sua irmã. – O que você está vestindo?
Julie devolveu o mesmo olhar ao seu gêmeo. É claro que sua mãe percebeu sua roupa para fazer cosplay de mendiga e não o seu cabelo curto. Muito, muito curto. O que era mais de trinta centímetros de cabelos desaparecido comparada a uma roupa rasgada? O cabelo ao menos tinha algo de fashion enquanto aquela roupa apenas fazia-a parecer sem condição financeira – Liz, não Julie; Julie não se importava se parecia uma mendiga ou uma fashionista hippie Julie não se importaria menos com o que sua mãe achava da sua roupa.
—Gostou? – perguntou Julie, levantando-se e dando uma voltinha. – Eu chamo de...
—Não quero nem saber como você chama essa coisa – interrompeu Liz, tremendo com a visão. (Ou talvez pelo frio, pensou Julie. Luke achava que era ambos. Ashton queria desaparecer.) – Vou fingir que não vi isso e vamos comer. Trouxe pizza! – anunciou ela, levantando a bolsa e balançando-a, esperando alguma reação dos seus filhos... que não aconteceu. Liz suspirou (eles eram um caso perdido) antes de completar ainda animada (ela não iria desistir tão facilmente) dando um passo para o lado e fazendo uma reverência, como se anunciasse quem fosse entrar num baile real: – Eeee Caluuum Hood!
O chichiar dos gafanhotos foi a única coisa que Liz ouviu. Olhando de canto de olho, ela percebeu que Calum Hood não estava ao seu lugar, esperando sua apresentação. Suspirando, Liz colocou as coisas no chão e murmurou “um já volto” antes de sair de casa.
—Mamãe está louca? – questionou Julie, porque esse não era o eu habitual de Liz Hemmings. Não chegava nem perto. Mas...
Talvez as coisas tivessem mudado. Não era porque o tempo parecia ter parado para ela, que os outros sentiam o mesmo. Aquele sofá não era o mesmo que Julie lembrava-se há quatro meses, tinha muitas mais manchas nele do que achava ser possível, assim como marcas de água no centro. Se sua mãe tinha superado o TOC por limpeza, tudo poderia ter mudado. O que mais teria mudado?
Com toda certeza não foi a patologia por mentiras de Liz. A Terra poderia não ser o único planeta com vida, Luke poderia descobrir que tinha Dather Vade como pai – Julie seria uma princesa então? – poderia ser o fim de tudo, mas Calum não iria aparecer ali quando na sua própria casa tinha um jantar muito importante. Ele tinha até ligado para pedir desculpas!
Por isso, Julie surpreendeu-se quando sua mãe retornou irritada, puxando um Calum Hood que ela conhecia muito bem para dentro.
—Calum? – questionou Julie para si mesma, porque não podia ser verdade. Mas Calum estava... Na sua frente! – Calum!
A próxima coisa que Calum sentiu foi os braços de Julie ao redor do seu pescoço – ela tinha o péssimo habito de sair jogando-se em cima das pessoas. E, a contragosto, ele colocou as mãos na cintura dela, segurando-a apertado antes de deixá-la ir. Se Julie superou seu repúdio por abraços e demonstrações de sentimentos, ele poderia fazer o mesmo por alguns segundos. Ela merecia. Mas, pelo visto, Julie achava que merecia mais do que Calum estava disposto a dar, porque ela continuou segurando-o.
—Ele estava andando de um lado para o outro na porta de casa, como se não soubesse se deveria ou não entrar – explicou Liz, suspirando ao tirar os saltos altos. – Ou não tivesse a chave de casa.
Julie riu, ainda presa a Calum, por nem um motivo em especial. O que Liz disse não era engraçado, não tinha nada que a faria rir num bom dia, mas aquele não era...
Julie merecia aquele braço, ela tinha trabalhado duro por ele, assim como Calum merecia a chave de casa. E Calum tinha bons braços para abraços, que estavam sendo desperdiçados. Combine os braços perfeitos com o batimento compassado e Julie se sentia em paz. Ela merecia... Não, ela precisava daquilo. E ela não precisava de muitas coisas.
—Ei, cara – cumprimentou Luke, batendo a mão nas costas dele, como se o parabenizasse pelo abraço ainda em andamento. Aquilo era uma (na verdade duas) quebra de recorde ao vivo: o maior tempo que Calum e Julie continuavam abraçados! – Hum, Julie? Você não vai soltá-lo hoje?
—Não quero – murmurou ela, respirando no pescoço dele.
—Ashton – cumprimentou Calum, balançando a mão.
Ashton permaneceu estático, ainda sentindo-se um intruso. Isso parecia muito íntimo para que ele permanecesse ali, só que ainda chovia forte para que ele desaparecesse. E seu plano de desaparecer agora foi por água abaixo depois que Calum lembrou a todos de sua presença. Inclusive Liz, que abriu os olhos e olhou-o diretamente.
—Ashton? – repetiu ela.
Liz não se lembrava de nem um Ashton na gigantesca lista de visitas que sua filha tinha todos dias quando estava no hospital. Gigantesca lista que só tinha garotos. E o garoto desconhecido, que se sentava muito confortável no seu sofá, era desconhecido.
Ash pareceria muito mais confortável se não estivesse na cara que ele quer correr daqui e nunca mais voltar, pensou Julie. E tentou ver o mesmo que sua mãe, sem se soltar de Calum: garoto estranho e molhado (aviso, avisou seu cérebro) vestido com uma blusa do seu filho (código amarelo) e, principalmente, cabelo desarrumado (código vermelho; repito, código vermelho) – sua mãe devia estar odiando o cabelo dele e sentido os dedos coçarem para arrumá-lo.
—Olá, querido – cumprimentou Liz.
—Uhh – zombou Julie. Sua mãe, assim como ela, só utilizava "olá" quando estava desconfortável. Liz definitivamente não tinha gostado de Ashton.
—Cuidado – avisou Liz, apontando o dedo para a filha. – E solte Calum e vá arrumar a mesa.
—Por que eu que tenho que arrumar a mesa? – questionou Julie. Mas soltou Calum. (Calum agradeceu a Deus por isso.) – Por que Luke não vai...
—Lavas os pratos – decidiu Liz. – Ele vai lavar os pratos. Ou você quer lavar os pratos?
—Mesa. Eu quero a mesa – escolheu Julie, pegando a mão de Calum. – Vamos, Calum.
—Por que eu tenho que...
—Você sabe – sorriu ela, presunçosa, arrastando-o – você não me deu presente, você disse que não iria vim hoje, depois você não quis entrar...
—Certo, certo, pare com a chantagem emocional – disse Calum, indo para a cozinha. – Eu já entendi. Vou arrumar a mesa com você.
—Quem disse que eu vou arrumar a mesa? – questionou ela, passando um braço ao redor da cintura dele. – Eu vou dar apoio moral enquanto você arruma tudo...
—Hum, sei... – murmurou Calum. – E esse seu cabelo? Precisou de apoio moral?
—Shiu, Calum – sussurrou Julie, lançando um olhar preocupado a sua mãe antes de voltar-se, irritada, para o seu amigo. – Luke e eu apostamos que mamãe não iria perceber.
—Ela claramente não percebeu – mentiu Calum. Quem não iria perceber aquele novo corte?
—Sim, mas Luke é um pequeno trapaceiro e dirá que não estabeleceu um tempo...
—Com quem será que ele aprendeu? – murmurou ele.
—Então é melhor esperar até a amanhã – completou Julie, satisfeita. – Oh, você disse algo?
—Então... – disse Liz, sentando-se ao lado de Ashton, que virou a cabeça com tudo em direção a ela. – Você é amigo de Luke? De onde vocês se conhecem?
Oh, Deus, isso não se tava acontecendo. Ash queria gritar para Julie não deixá-lo sozinho, para ela voltar e socorrê-lo, principalmente quando Luke sentou-se no outro lado dele. Ele agora estava preso.
—Da escola – respondeu Luke, surpreendendo Ashton. Ele iria realmente fazer o que Julie disse: fingir que Ash era amigo dele? – Somos da mesma classe.
—É? – questionou Liz, desconfiada. Luke não iria trazer um recém amigo para casa quando Julie estava finalmente em casa. – Por que eu nunca te vi...
—Ele é novo – explicou Luke, apressadamente. – Começou a estudar lá esse ano...
—Hum... – murmurou Liz, não acreditando.
Mas já que seus sensores de mãe não estavam acionando, ela não via nem um problema em Ashton. E Liz não ira expulsar um garoto estranho da sua casa enquanto chovia tanto, sua consciência não a deixaria dormir a noite – se é que Liz conseguisse dormir a noite, ela costumava passar as noites revirando-se na cama desde o acidente.
As roupas dele eram péssima? Liz não sabia, porque Ash vestia uma blusa de seu filho. O corte dele parecia pertence mais a uma garota? Sem duvida, embora isso não significava nada, já que sua filha estava com menos cabelo do que aquele garoto.
Lançando um olhar desconfiado a sua filha que parecia bastante concentrada em vigiar Calum arrumando a mesa, Liz inclinou-se sobre Ashton para chegar ao seu outro filho e perguntou, num sussurro:
—Por que ela cortou o cabelo?
—Ela disse que estava com calor – respondeu Luke, também sussurrando.
—Mas ela tem um elástico no pulso! – exclamou Liz.
—Foi o que eu disse! – concordou Ashton... antes de perceber que estava se intrometendo. Era difícil não se intrometer, quando conversavam ao redor dele, ignorando-o sua presença.
—E é quem ele? – perguntou Liz, apontando para Ashton, como se ele não estivesse ouvindo a conversa, como se não soubesse quem ele era “ele”.
—Amigo da Julie da escola.
—Mas você disse que ele começou esse ano – disse Liz, confusa – e Julie não foi para a escola ainda.
—Foi o que eu disse! – concordou Luke dessa vez. (Ashton esperou que Liz ignorasse-o como fez com ele, mas aparentemente ela apenas não gostava quando garotos molhados e desconhecidos diziam “foi o que eu disse”.) – E, por mim, ela não estudaria esse ano.
—Sem chance – negou Liz, balançando a cabeça para dar mais ênfase. – Julie vai para a escola.
—Por quê? – perguntou Luke, embora já soubesse a resposta.
—Você sabe o porquê.
É claro que ele sabia “o porquê”, mas ainda o achava uma idiotice. Eles não podiam forçar Julie a fazer o que não queria? Oh, sim, Luke faria isso, pode ter certeza que sim. Era ele que conhecia sua irmã; ele que sabia do que ela precisava e não uma psicóloga qualquer. Sua irmã precisava que ele fosse o mesmo irmão de sempre; e forçar Julie a fazer o que ela não queria era um dos deveres de irmão mais velho. Principalmente quando ela estava errada.
—É por isso que você não perguntou sobre o cabelo?
Liz sorriu tristemente para o seu filho, mas, antes que pudesse responder, Julie a chamou e ela endireitou-se rapidamente, quase como se Julie fosse a mãe e ela a filha que tinha aprontado. Contudo Liz não sabia o que fazer, ela temia fazer algo errado.
Julie tinha perdido a pessoa mais importante da vida dela – Julie tinha visto Andrew ser retirado dela na sua frente sem poder fazer nada para impedir – e depois tinha passado por tantas coisas, e Liz... Liz não sabia como ajudá-la.
Se a psicóloga dizia que sua filha precisa de espaço para descobrir quem era – e se isso incluía um corte de cabelo horroroso e um novo amigo duvidoso – e se isso fosse a única coisa que Liz podia fazer para ajudar Julie, ela o faria. Deus sabe o quanto Liz queria que Julie voltasse a ser a mesma garota de antes e faria o que fosse necessário para sua filha ter o mesmo brilho de antes nos olhos.
—Mãe – chamou Julie novamente, impaciente, na frente dela. Sua mãe estava na lua? – Ei, mãe, onde está o vinho?
—Você não está tomando vinho, Julie Hemmings – recuperou-se Liz, porque apesar de tudo ela ainda era a mãe.
Liz podia não saber o que fazer, mas ela sabia o que não poderia fazer, e deixar sua filha de 12 anos – na verdade recém completados 13 – beber vinho não era a coisa certa. Ainda mais quando sua filha de 13 anos era uma viciada em doce e na sua casa só tinha vinho suave, que constantemente era encontrado pela metade.
—É uma comemoração – reclamou Julie. – É meu, nosso, aniversário.
Aniversário?, pensou Ashton. Aniversário? Isso era sério? Ele não tinha apenas intrometido uma festa de bem vinda ao lar, como também um aniversário? E Julie era gêmea?
—Sem vinho – repetiu Liz, levantando-se.
—E vamos tomar com o que? – perguntou Julie, seguindo-a para a cozinha. – Você não trouxe refrigerante também!
—Sem refrigerante também. Agradeça por eu já ter trazido a pizza.
—Então a pizza é meu presente de aniversario – repetiu Julie, observando sua mãe sentando-se na mesa. – Você está falando sério? Eu fiquei quatro meses num hospital, comendo comidas insossas e amargas, fui liberada hoje, no meu aniversario, e eu ganho pizza como presente?
—Essa conversa pode funcionar com Calum, querida, mas não comigo. Agora, sente-se... – disse Liz, servindo-se. – Ashton, o que você está fazendo ai? Venha sentar-se e comer um pouco de pizza.
—Eu mereço a pizza! – continuou Julie, não disposta a deixar seu presente de lado. – Eu deveria ganhar, eu não sei...
—Seu presente – interrompeu Luke, empurrando um cofre nas mãos da irmã.
Um cofre?, pensou Ashton, quase parando ao ver a expressão de felicidade no rosto dela. Julie estava ganhando um cofre de presente do seu irmão gêmeo e parecia muito feliz... Qual era o problema dessa família?
—Para mim? Owwnnt – disse Julie, pegando-o com os olhos arregalados. – Você fez o que eu disse e...
—Coloquei uma moeda nele cada vez que pensei em você – completou Luke.
—E aqui estou! – exclamou Julie, abraçando Luke precariamente. Era difícil abraçá-lo e segurar o cofre ao mesmo tempo! – Seu desejo foi ouvido em alto e bom som!
—E o meu presente? – perguntou Luke, não dizendo a palavrinha mágica, mas ela estava subentendida e Julie o soltou.
Podia ser aniversario dos dois – eles eram gêmeos – mas Julie não tinha nem um presente para o seu irmão. Perguntar sobre o presente era o mesmo que ordenar que Julie soltasse-o e desaparecesse. E, enquanto ela não iria desaparecer – Julie iria aproveitar sua pizza de presente! – ela com toda certeza iria manter distância de Luke. Ou tanta distância quanto possível, sentando-se na cadeira ao lado dele e servindo-se.
—Eu não sei se considero bom o fato do cofre está cheio ou ruim pelo fato de ser apenas um... Você não pensou em mim diariamente?
—Meu presente? – repetiu Luke. Ele não iria cair na da Julie.
Ou contar que, se seguisse o desejo de Julie, ele iria colocar apenas uma moeda de 5 centavos no cofre, e Luke tinha colocado logo uma de 1 real. Ou dizer que tinha trocado as moedas por papel depois que completou um cofre num dia. Ou que tinha mais cofre esperando por ela quando Julie entrasse no quarto. Não, Luke, não diria. Seria uma surpresa.
—Julie...
—Você sabe que eu não tive tempo! – reclamou Julie.
—O que você mais teve foi tempo – discordou Luke, puxando a cadeira para si.
—Eu pensei que eu fosse seu presente – sorriu Julie, inclinando-se contra ele. – Eu saí hoje apenas para me dar a você.
Ashton engasgou-se e torceu para ninguém perceber o duplo sentido que ele tinha entendido, mas, aparentemente ele não foi o único.
—Oh, meu Deus – gemeu Liz, enterrado o rosto nas mãos. – Você percebe o duplo sentindo, Julie, ou eu estou sendo maliciosa? Meu Deus, eu sou uma péssima mãe!
—Do que você está... – murmurou Calum, sem entender. – Oh!
—É – concordou Liz, envergonhada. – Oh!
—Os médicos só queriam assinar para amanhã – continuou Julie, ignorando-os – mas eu convenci a Margaret que eu estava bem para ela convencer os médicos que eu estava bem... Você sabe o quanto foi difícil?
Não, Luke não sabia. Só ela sabia o quanto foi difícil convencer a todos sobre isso, quanto tempo gastou planejando para ser liberada justamente no seu aniversário para dar a Luke – e a ela, mas principalmente seu irmão – isso de presente. Julie quase pode ver os olhos de Luke ficando suave, amolecendo diante dessa declaração, e soube que estava livre de dar um presente ao seu irmão por um ano. Julie já precisava começar a planejar sua desculpa para o próximo ano para não quebrar a tradição de nunca dar um presente ao seu irmão.
—Agora que tal eu quebrar esse cofre para comermos? Ah, não, espere... – Julie olhou ao redor da mesa, surpreendo-se ao ver todos comendo. – Vocês não vão bater parabéns? Vocês sabem o quanto eu gosto de cantar!
Todos sabiam o quanto Julie gostava de cantar – e o quanto ela era péssima. Mas eles não esperavam que Julie fosse se lembrar disso – eles que não iriam lembrá-la disso! Como ela mesma tinha se lembrado disso?! Aquele dia estava para ficar pior.
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