Isso não vai prestar...
2 Harder We Fall
Notas iniciais

“Então, qualquer caminho que nós escolhermos
Haverá altos e baixos, haverá, sempre o mesmo
Oh, nós nunca vamos fugir dos nossos erros
Quanto mais dura a queda,
mais difícil de levantar”
Flash back– On. Pov Masato
– Errado, mais uma vez.
– Mas...
– Nada de “mas” Masato-san! De novo!
Suspirei, não adiantaria discutir com a Sensei. Mas meus pés doíam muito. Já havia deixado de sentir o sangue circular por meus braços há muito tempo.
Posicionei-me novamente, erguendo o leque dourado enquanto o outro ficava quase encostado em minhas costas.
– Frente. Frente. – dizia a Sensei. – estique mais o braço. Não. ERRADO! ERRADO! VOCÊ É UMA VERGONHA PARA OS HIJIRIKAWA!
Ela ergueu a vara de bambu que segurava e moveu-a em minha direção. Encolhi-me, pronto para receber outra surra. Senti o vento da aproximação da vara e quando ela estava prestes a acertar-me...
Hein? Parou?
Ergui o olhar, encontrando olhos raros que possuíam heterocromia. Um orbe roxo e o outro acinzentado.
– Que força hein? – disse ele com a voz naturalmente rouca. – você está bem?
Comecei a processar a cena, e meu cérebro pareceu finalmente raciocinar. Aquele desconhecido tinha cabelos espetados num tom acinzentado e um sorriso sacana. Vestia um jeans rasgado, junto a uma jaqueta quadriculada, blusa e coturnos pretos.
E ele...
Havia levado o golpe no meu lugar?
– Quem é você? – perguntei assustado.
– Não se lembra mais de mim Masato? – ele sorriu de lado. — Sou eu! Kurosaki Ranmaru, seu antigo amigo de infância!
“Não é engraçado como todos nós sentimos medo?
De que amanhã tudo pode mudar
Esquecemos que temos que curtir a noite,
isso mesmo, sim”
Kurosaki, Kurosaki...
– KUROSAKI-SAN? – gritei. – MEU DEUS! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?
– Não grite! – repreendeu-me a Sensei.
Ela ergueu novamente aquela vara, mas Kurosaki foi mais rápido e arrancou-a de suas mãos antes que ela pudesse me acertar.
– O que pensa que está fazendo com o meu noivo?
EU SOU O QUE DELE?
– Perdoe-me Kurosaki-sama! – a Sensei SE AJOELHOU! COMO ASSIM ELA SE AJOELHOU?! – Perdoe-me! Perdoe-me!
– Vá antes que eu perca a paciência!
A Sensei saiu correndo aos tropeços com os sapatos de madeira e Kurosaki suspirou, sentando-se ao meu lado.
– Você cresceu. – disse ele enroscando os dedos numa das mechas de meu cabelo. – ficou mais bonito.
– B-Bonito? – gaguejei e desviei o olhar. – não minta Kurosaki-san...
– Não estou mentindo. – os dedos no meu cabelo logo foram para as bochechas, acariciando-as. – e pode me chamar só de Ranmaru. Afinal, agora somos noivos Masato. – beijou-me na testa.
– E-Espera um segundo! – afastei-me se seu toque. – como assim “noivos”?
– An? – ele franziu a testa. – seus pais ainda não te contaram?
Neguei com a cabeça. Mas eu já devia esperar por isso. As famílias Hijikawa e Kurosaki sempre tiveram uma grande parceria, e há tempos queriam firmá-la com um casamento. Casamentos entre homens eram comuns na Yakuza. E eu como filho do Oyabun, sempre era usado no meio dos acordos.
Mas...
– Há quanto tempo sabe disso? – perguntei a Kurosaki.
– Me contaram há uns quatro anos. – ele deu os ombros. – fui levado para um treinamento especial, por isso sumi de repente. Desculpe-me por não ter me despedido direito.
– Tudo bem. – menti abraçando meus joelhos e apoiando o queixo nos mesmos. – hm... Noivos... Eu e você... É tão estranho.
– Também achei no começo. – admitiu. – quero dizer, você era meu melhor amigo e tudo mais. E do nada, meus pais falaram que iríamos casar, foi estranho.
– É. – eu ri. – infelizmente vai ter que largar o seu “harém”. O que elas acharão disso? – referi-me a um grupo de garotas que sempre o seguiam quando estávamos no fundamental.
– Acredita que ainda me seguem? – disse ele rindo. – mas raramente as vejo, já que meu pai vive mandando aquele esquisito do Reiji me proteger. Como se eu precisasse. – revirou os olhos.
Eu ri. Mas logo meu humor morreu e baixei a cabeça.
Kurosaki era um grande amigo, mas eu não queria me casar com ele.
– Eu sei que você não quer. – falou como se Lê-se meus pensamentos. – mas não temos escolha.
– Sei disso. – suspirei encarando o chão.
– Mas... – Kurosaki segurou meu queixo, erguendo-o com cuidado. – você pode ser infeliz e casar-se comigo, serei o futuro Oyabun de minha família, ou – colocou uma mecha atrás de minha orelha e avançou um pouco mais, enroscando os dedos nos fios de minha nuca. – pode tentar me amar e ser feliz comigo. De uma maneira ou outra estaremos juntos, o que acha de me dar uma chance?
“Não é engraçado como somos todos iguais
Apenas com as histórias e nomes diferentes
Esquecemos que temos que curtir o passeio essa noite”
Senti ele se aproximar, cada vez mais rápido. Foi numa fração de segundos que tudo aconteceu.
Num segundo Kurosaki estava me deitando no chão de madeira, aproximando nossos lábios.
No outro, ouvimos o estrondo alto de uma explosão e estilhaços voaram e nossa direção.
Kurosaki me puxou para si e virou de costas, protegendo-me dos estilhaços.
– Que merda foi essa?! – gritou ele.
– Jinguji... – sussurrei com os olhos arregalados. – são os Jingujis, só eles tem petulância o suficiente para nos atacar em nossa própria casa.
– Filhos da mãe...
– Tenho que entrar. Meu pai me proibiu de participar das brigas até quando bem entendesse. Ele diz que sou fraco demais e acabaria morrendo em menos de um segundo. – dei um sorriso triste.
– Seus pais não sabem nada sobre você. – falou seriamente. – e pelo o que eu vejo eles não mudaram em absolutamente nada desde que fui embora.
– Ranmaru...
Mais um estrondo, o resto das janelas se estilhaçaram e a porta foi arrombada.
– Ei! Essa é uma área sagrada! – reclamei.
O homem que a arrombara sorriu.
Ele era alto, o cabelo castanho-alaranjado estava preso num rabo de cavalo. Usava óculos escuros presos por um elástico. Botas de cano-longo que alcançavam abaixo do joelho. Calça preta e uma regata vermelha cor de sangue um pouco rasgada. Uma bazuca presa as costas e uma pistola na mão.
– Então é você a princesinha dos Hijirikawa? – ele riu.
– Quem é você? – exigi. – o que fez com meus homens?
O desgraçado apenas riu e apontou a pistola em direção a Kurosaki.
– Você deve ser o prodígio dos Kurosaki, hum? — continuou a falar. – seu Oyabun matou vários de meus irmãos. Acho que matar-te seria uma troca justa, não?
Kurosaki rosnou e se pôs na minha frente.
– Fique atrás de mim Masato.
– Ow, que bonitinho. – disse o castanho-alaranjado. – protegendo sua princesinha é? Lamento informar, mas...
Ele se moveu agilmente. Em poucos segundos golpeou Kurosaki com o cano da arma, deixando-o desnorteado por um breve minutos que foi o suficiente para que atingisse-o com uma rasteira e o derrubasse no chão.
– ...Meu pai pediu a princesinha.
Recuei dois passos para trás. Merda, merda... Isso não podia estar acontecendo...
– Têm ideia da moeda de troca que você seria? – tornou a rir e puxou meu queixo para cima.
Naquele momento consegui ver seus olhos através dos óculos escuros. Eram de um azul celeste misturado a marinho. Incrivelmente belos.
“Diga, que tem que viver sua vida
Verdadeiramente,da forma como você se sente
Você, você tem que viver sua vida
Ponha as mãos para cima, o cinto de segurança e voe”
– Não me toque. – reclamei e dei uma tapa em seu pulso.
Ele riu novamente e olhou para a marca avermelhada no pulso.
– Que força princesinha. – ele se curvou. – muito prazer. Meu nome é Ren Jiguji. Sou o filho mais novo do Oyabun dos Jinguji. Meu pai me pediu para vir pessoalmente te buscar.
– Não me chame de princesinha! – cruzei os braços. – eu tenho um nome!
– Eu sei. M-a-s-a-t-o. – soletrou.
– Não ouse me chamar pelo primeiro nome!
– Ficou com vergonha Masato? – tocou meu rosto com a ponta dos dedos.
– NÃO ME TOQUE!
Pelo canto dos olhos pude ver Kurosaki se levantar e sorri mentalmente.
– Pelo visto seu pai te manda fazer todo o serviço sujo, não é? – enrolei-o. – justo por ser o mais novo, estou certo? Parece-me que mesmo sendo filho do Oyabun é tratado com um simples de qualquer clã.
– Como se atreve...
– Quem aqui é o mais atrevido? Você explodiu metade da minha casa, matou grande parte de meus seguranças, teve a ousadia de me tocar e me chamar pelo meu primeiro nome!
Ele fez uma careta, mas logo em seguida um sorriso travesso brincou em seus lábios.
– Você é como dizem os boatos. – falou enfim. – mimado, atrevido, prepotente e afeminado.
– AFEMINADO? COMO OUSA ME CHAMAR DE AFEMINADO?!
– E estou mentindo? Olhe seu rosto. Tem traços delicados de uma mulher. Seu Kimono é o mesmo modelo do que as mulheres do clã usam. Até seus sapatos. Saltos de madeira, tsk. É tão fresco quanto uma mulher.
– Maldito...
– Mas isso também é uma vantagem, certo? – tornou a aproximar-se. – por exemplo...
Tomou meu rosto entre ambas as mãos e aproximou nossos lábios.
E me beijou.
Esse maldito roubou meu primeiro beijo.
“Então, qualquer caminho que nós escolhermos
Haverá altos e baixos, haverá, sempre o mesmo
Oh, nós nunca vamos fugir dos nossos erros
Quanto mais dura a queda, mais difícil de levantar”
Nem tive tempo para reagir. Kurosaki arrancou-me do Jinguji com tanta força que o maldito mordeu meu lábio inferior e o gosto metálico do sangue invadiu minha boca.
– COMO OUSA TOCAR NO MEU NOIVO?! – berrou em pleno estado de fúria.
O Jinguji arregalou os olhos, mas antes que pudesse responder mais uma explosão foi ouvida junto a barulhos de tiro.
– Merda... – disse o Jinguji olhando em direção à explosão e depois tornando a olhar para mim. – não se preocupe princesinha, eu volto. – dito isso correu para fora do templo.
Franzi a testa com suas palavras, pra que ele voltaria? E o maldito achava mesmo que depois desse ataque a segurança ao meu redor não seria dobrada? Tsk. Não me importa. Eu nunca mais o veria mesmo.
Pelo menos, era o que eu achava.
◦◦◦
“Alguma vez você já quase perdeu a cabeça?
Então percebeu que era um desperdício de tempo
Pensando sobre as coisas que você não pode controlar, não”
◦◦◦
– O que você pensa que está fazendo aqui? – eu quase gritei, mas logo tive meus lábios tapados por uma mão. – hm... Huhum...
– Se acalme. – sussurrou a última voz que eu queria escutar na vida. – vim te ver princesinha.
– Não me chame assim! Você ficou louco?
Sim. Na minha frente estava em carne e osso o próprio Ren Jinguji que, de alguma maneira, havia conseguido invadir minha casa no meio da noite sem ser pego e agora aparecera como magica no meu quarto. E já faziam três meses que ele fazia aquilo!
– Como passou pela segurança? – falei abismado.
– Entrei pela varanda.
– Como fez isso? Tem atiradores prontos pra...
– Por Deus, já disseram que você fala demais?
Fiz uma careta.
– Te dou um minuto para sair antes que eu grite.
– Já vai pedir ajuda princesinha? Não consegue se virar sozinho seus seguranças? Achei que como filho único do Oyabun Hijirikawa seria mais forte.
– Não fale de minha família com seus lábios imundos. Não tem ideia do que nos somos.
– Acho que tenho sim. Isto por exemplo... – apontou para uma marca arroxeada em meu braço. – não me parece que tenha a conseguido em algum tipo de treinamento para se tornar o novo Oyabun. Suponho que sejam os castigos por sua falta disciplina, estou certo?
– Como você...
– Também passo por isso. – deu os ombros. – vê? – apontou para uma cicatriz costurada em seu pescoço. – mas pelo que vejo, seu caso é bem pior. – olhou-me de cima a baixo, parando em cada marca, cicatriz ou hematoma que encontrava.
– Isso não é dá sua conta, saia daqui! Eu vou gritar!
Off. Pov Masato
“Alguma vez você já quase enlouqueceu?
Focando sobre as coisas que não pode explicar?
É bom saber que eu não sou o único, vamos”
On. Pov Ren
– Isso não é dá sua conta, saia daqui! Eu vou gritar! – disse ele olhando para os lados, como se procurasse alguma coisa.
Sorri de canto, ele estava nervoso.
– O que foi princesinha? – perguntei aproximando-me. – não gosta da minha presença?
Ele se encolheu indo para mais perto da janela a cada passo que eu dava.
– Fique longe... – repetiu ruborizando violentamente à medida que estávamos mais próximos.
– Não precisa ter medo. – peguei a rosa que havia deixado no bolso da calça e retirei-a com cuidado para que não estragasse. – eu não quero te machucar. – ofereci-a.
Ele me olhou desconfiado e timidamente pegou a pequena rosa avermelhada de minhas mãos, olhando-a admirado.
– Meus pais proíbem flores nos clãs. – sussurrou. – eles dizem que trás azar.
– Serio? O que eles têm na cabeça? – ri baixinho. – no meu caso é diferente. As flores nos dão sorte. Principalmente as rosas. E você... – acariciei suavemente uma das bochechas, ela era macia como seda. – é mais bonito do que qualquer uma que eu já tenha visto.
Masato corou ainda mais e desviou o olhar.
– V-Vá embora logo. – gaguejou. – não entendeu que nossas Yakuzas são inimigas?
– Não me importo com isso. Só sou um membro por que meu pai é o Oyabun, se não fosse por isso, nunca faria parte dela.
Ele ficou me observando admirado e surpreso. Era comum a pessoa reagir assim quando eu confessava isso. Era um absurdo, e eu sabia disso.
– Eu também. – sussurrou encarando o chão. – também faço parte por que sou filho do Oyabun. Se não fosse por isso, também não estaria aqui.
Agora era a minha vez de olha-lo admirado.
Ele também não queria? Eu não era o único que pensava desse jeito?
Masato sorriu tímido e estendeu a mão.
– Desculpe a grosseria da primeira vez. – disse ele levemente corado. – hm... Façamos uma trégua, que tal?
Apertei sua mão. Os dedos eram longos e finos, a pele macia como veludo. Parecia quebrar ao mínimo toque, mas...
– É só um palpite. – falei. – mas você toca piano?
– Toco. – respondeu surpreso. – como sabe?
– Suas mãos. Conheço alguns pianistas, elas são iguais as deles.
– Você conhece? – os olhos azul-arroxeados brilharam. – pode me apresenta-los?
– Posso, mas...
– Quando? Onde? – um enorme sorriso surgiu em seus lábios.
Deus ele era tão... Lindo.
“Diga, que tem que viver sua vida
Verdadeiramente,da forma como você se sente
Você, você tem que viver sua vida
Ponha as mãos para cima, o cinto de segurança e voe”
– Quando você quiser. – sorri e ele tornou a corar.
O sorriso ficou em seus lábios por alguns segundos, mas logo se desmanchou.
– Ah, é mesmo... Desculpe. – ele se afastou. – nossas famílias são inimigas, você deve ir.
– Espere eu...
– Apenas vá. – vi lagrimas brotarem em seus olhos. – e-eu... Não posso mais tocar...
– Mas por quê? – me aproximei novamente e de tanto recuar, ele bateu as costas na parede.
– Estou proibido de tocar. – ditou firmemente apesar das lagrimas. – não posso mais... Destruíram meu piano...
– E se eu te der um novo? – tentei convence-lo, demorei muito a encontrar alguém como eu e não iria perde-lo daquele jeito.
– Não posso, eles quebrariam meus dedos novamente. – apertou as mãos contra o peito. – por favor, vá.
“Então, qualquer caminho que nós escolhermos
Haverá altos e baixos, haverá, sempre o mesmo
Oh, nós nunca vamos fugir dos nossos erros
Quanto mais dura a queda, mais difícil de levantar novamente”
– Eu não vou. – prensei-o contra a parede, pondo uma mão de cada lado de sua cabeça. – você vai simplesmente desistir de tocar por causa de sua família? Simplesmente vai desistir? Não é possível que seja tão fraco pra chegar a esse ponto!
– Eles são a Yakuza! – as lagrimas se tornaram mais presentes em seu rosto. – não se pode simplesmente fugir da máfia seu louco!
– Quem garante? Vamos tentar!
– An? Andou fumando maconha? Não podemos fazer isso!
– Vamos tentar! Sei que você odeia isso tanto quanto eu! Não custa nada tentar.
– Mas eles vão me punir quando me encontrarem, você não têm ideia do quão cruéis podem ser! E eu tenho um noivo agora, não posso simplesmente...
– Você pode. – segurei sua mão entre as minhas e beijei o anelar. – venha comigo.
“Quanto mais dura a queda
Nós iremos tentar novamente
Então, qualquer caminho que nós escolhermos
Haverá altos e baixos, haverá, sempre o mesmo”
Ele me olhou receoso. Estava com medo, muito medo. Mas apertou minha mão com firmeza e disse com a voz embargada:
– Eu vou.
Sorri e aproximei meus lábios de sua orelha, sussurrando roucamente.
– Ótimo. Por que não seremos os únicos a fugir.
“Oh, nós nunca vamos fugir dos nossos erros
Quanto mais dura a queda, mais difícil de levantar”
Fim do Flash Back – Off. Pov Ren
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