Isso não é...
22 Isso não é uma promessa.
Notas iniciais
She would not show that she was afraid
But being and feeling alone was too much to face
(Ela não mostrava que estava com medo
Mas se sentir sozinha era demais para suportar)
22-Isso não é uma promessa. (Não acredito mais em você)
Sexta-feira, 06 de maio
Depois de um último "ele é um idiota" a Calum, antes de sair do quarto do seu irmão, e "você é um idiota" a Luke, quando passou na frente do banheiro e o encontrou escovando os dentes com a porta aberta – Luke só deu de ombros com a boca cheia de pasta e a ignorou, Calum ao menos tinha concordado com ela – Julie foi para o seu quarto e o encontrou vazio. Seu banheiro também estava. Onde diabos Ashton tinha se metido? Ela não sabia muito sobre as peculiaridades do corpo masculino, mas Julie sabia que aquele era um problema que não era facilmente resolvido. Ou a menos achava que não. Devia ser uma droga ter sua excitação visível a qualquer um e nem poder disfarçar. Pelo que sabia, nas mulheres apenas os seios ficavam enrijecidos.
Oh, bem, suspirou Julie, isso não é da minha conta. Olhando para o relógio, ela constatou que não havia nenhuma razão para não ir à escola; seria até bom ela ir, porque Julie não queria pensar ainda no que descobriu.
—Mamãe vai chegar hoje que... – gritou Julie para Luke enquanto descia as escadas até que viu Ash. Ao lado dela. – Horas.
—Eu já chegue-ei! – cantarolou Liz, puxando a filha para um abraço.
—Mãe – reclamou Julie, retribuindo o abraço meio que a contra gosto. – Você me deu um susto!
—Desculpa, desculpa – desculpou-se Liz, sorrindo.
Olhando aquela cena, Ashton sorriu, dando-se conta de que Julie e Luke poderiam ser idênticos um ao outro e uma cópia fiel do pai – Ash só tinha visto Andrew de passagem uma vez, mas eles definitivamente tinham puxado a aparência dele – mas o sorriso de Julie definitivamente tinha sido herdado de Liz.
Afastando-se da filha, mas mantendo um braço ao redor da cintura dela – era o máximo que ela conseguiria por causa da sua altura – Liz empurrou a filha para a cadeira ao lado de Ashton e colocou comida após comida na sua frente, tentando recompensar o tempo perdido. Era sempre assim. Segunda, quarta e sexta não significavam apenas que Liz apareceria, também queria dizer que era os dias que Julie mais comeria. Ou, ao menos, mais do que o normal. Afinal, Liz precisava recuperar o dia anterior da visita, o que sempre significava cuidar de Julie em dobro. Se Andrew era despreocupado quanto sua função de pai, Liz preocupava-se até demais. Quando aparecia. Não era porque ela dizia vir todas as segundas, quartas e sextas, além dos finais de semanas, que ela vinha. Liz tinha quebrado sua promessa ao não aparecer essa semana em casa.
—Eu estava com saudades – explicou Liz, voltando ao fogão para mexer os ovos – por isso vim mais cedo.
—Então deveria parar de trabalhar longe – comentou Julie, como quem não queria nada. Mas nunca Julie não queria nada, ela não fazia um comentário apenas para comentar.
—Já conversamos sobre isso – lembrou sua mãe, que a conhecia muito bem e para quem não passou despercebido a indireta. – Eu gosto do meu trabalho.
—Mais do que dos filhos – murmurou Julie. Mas foi um murmúrio tão baixo que Liz não ouviu, embora Ashton, que estava ao lado dela, sim.
Sem saber o que mais poderia fazer, ele sorriu de modo mais reconfortante que achou possível e bateu o joelho contra dela, de maneira igualmente reconfortante. Ashton não sabia o que mais poderia fazer além disso: agir o mais reconfortante possível. Ele não gostava de se envolver em discussões familiares, principalmente nas dos Hemmings em que tudo saia voando pelos ares. A terrível mania da Julie de jogar as coisas no chão também foi herdada de Liz.
—Droga! – reclamaram as duas, abaixando-se para pegar o que derrubaram de maneira sincronizada.
—Você jogou isso no chão – sussurrou Ashton a Julie, de modo que somente ela o ouvisse.
—Julie, vá chamar... – começou Liz, entretanto desistiu.
—É claro que sim – sussurrou Julie, esperando que sua mãe dissesse o que queria e parasse de encará-los. – Duvido que Deus me perdoe se eu jogar na pessoa que eu quero.
—Isso serve para Liz também?
—É claro. Ou você duvida da relação mãe e filha... Cadê a mamãe? – perguntou Julie, percebendo que sua mãe não estava mais ali.
Depois de perceber que sua filha não dava importância ao que ela dizia, concentrada demais na conversinha paralela com o namorado, Liz tinha ido ela mesma chamar os garotos para o café da manhã. Ela vinha para casa depois de tanto tempo longe e era ignorada! Liz ate ficaria com raiva se não estivesse ansiosa pelo momento de ter Ashton como seu genro; se eles já estavam de segredinhos assim, a coisa estava ficava séria.
—É a cara dela desaparecer assim... – comentou Julie, dando um gole no café que tinha sido posto na sua frente e fazendo uma careta. Sua mãe não sabia fazer café nem tentava aprender. – Liz nunca encara as coisas de frente. Ela sempre foge quando a coisa está ficando séria.Ashton mais uma vez bateu o joelho no dela, perguntando-se o que mais ele poderia fazer além disso.
—Você está... irritada com ela? – perguntou ele, no lugar de um adjetivo melhor. A quantidade de coisas que Ash poderia fazer era limitada.
—Não. Eu já tive, você sabe – disse Julie, dando de ombros. – Mas agora eu nem ligo mais. Até porque ela já fez coisas piores, se eu fosse ligar só por isso...
Julie deu de ombros mais uma vez para mostrar sua indiferença e essa desculpa não colou em Ashton. Ela estava tentando demais se fazer de indiferente e estava tendo o efeito oposto nele.
—Mentira... – começou a dizer Ashton, mas foi interrompido por Julie que empurrou a cadeira com raiva, fazendo barulho.
—Ah, me poupe – disse ela, batendo os pés enquanto distanciava-se dele. – O que te importa se eu estou ou não mentindo? Ainda estou com raiva dela pelo meu aniversario? Estou! Mas foda-se! Foda-se ela, foda-se você... – ditou Julie, pisando com tudo nos degraus da escada, dando uma de louca. – Foda-se todos logo de uma vez nos poupe o tempo!
Um ano atrás
Sexta-feira, 17 de abril
O relógio soou a meia noite, dando doze badaladas, quando Julie disse, num tom monótono e sem esperança:
—Ela não vem.
As palavras que saíram da boca dela assustou a todos, que encontravam-se num estado de letargia enquanto assistiam a televisão sem realmente vê-la. Eles – Calum, Michael e Ashton – estavam calados, sentados no sofás sem falar nada, com medo de ser o primeiro a dizer alguma coisa. Ao menos, antes de Julie falar, a razão foi essa. E depois, o motivo do silêncio continuou o mesmo. Não seriam eles que se envolveriam naquela conversa, embora concordassem completamente com as palavras de Julie. Liz não viria mais para o aniversário dos filhos. Não tinha como ela chegar depois de seis horas de atraso. Seis horas! Não eram dez minutos, não era uma hora. Eram seis horas de atraso!
Os amigos dela a acompanharam com o olhar até a cozinha e voltaram para Luke, que também observava a irmã. Ele poderia se envolver. Ele deveria se envolver. Eles tinham a mesma mãe – eles eram gêmeos! – e reclamar com Julie, ou defender Liz... Ou o que quisesse fazer, Luke tinha direito a isso. Afinal, aquele também era o seu aniversário – eles eram gêmeos!
—Hum... Eu tenho certeza que mamãe vai chegar daqui a pouco – disse Luke, seguindo-a. – Ela disse que viria, então ela vai vir.
—Oh, Deus, Luke! Mamãe não vai vir! – gritou Julie, voltando-se para ele. – Ela não vai vir! Pare de ser um idiota, porra, e arranjar desculpas para ela! Ela não vai vir! Foda-se ela!
Aquela explosão de Julie fez todos sentirem-se constrangidos, como se estivessem olhando algo que não deveria. Julie não gritava assim. Julie não se irritava com algo por uma razão justificável. Julie não falava palavrão. Julie não chorava... E naquele momento, os olhos dela brilhavam de uma maneira incomum. De maneira sincronizada, todos voltaram os olhos para TV, fingindo não ver o que acontecia. Eles eram meros telespectadores invisíveis para a cena que ocorria ao lado deles.
—Julie... – disse Luke, parando na metade do caminho.
Ele não sabia o que dizer e nem Julie sabia que queria ouvir. Ela se virou para a pia, olhando fixamente para o copo que segurava. Ela nem tinha percebido que pegou um copo antes de olhar para baixo e vê-lo espremido entre seus dedos, que ficavam pálidos devido a pressão que ela fazia.
—Ela não vai vir – murmurou Julie, dando-se conta que ela não iria realmente vir. Sua mãe mentiu para ela, prometeu que comemorariam o aniversário juntos pela primeira vez desde o acidente que levou Andrew, mas não era verdade. Liz não viria.
—Julie! – ofegou Luke, acordando-se da situação e correndo para irmã, para ajudá-la.
Sangue escorria entre os dedos de Julie, saindo da ferida recém feita pelo copo. Julie tinha batido o copo com força na pia ao se dá conta de que sua mãe, a pessoa que mais confiava tinha traído. Tudo bem que a confiança que Julie depositava nela estava depois de Andrew – mas ele não contava mais, já que estava morto – e depois de Luke – mas também não contava, pois ela e Luke eram praticamente um, a relação deles de gêmeos os unia de um jeito que palavras não eram necessárias, promessas também não, nem confiança – e sua mãe mentia demais para Julie ao menos acreditar em tudo que ela dizia. Mas mesmo assim! Aquele era seu aniversario. O primeiro aniversario que tinha concordado em comemorar desde que seu pai morreu. E sua mãe não tinha nem dado as caras. Ou ligado. Ou mandado uma mensagem. Nem uma palavra ou justificativa tinha saído da boca dela!
—Está doendo? – perguntou Luke, observando as lágrimas que escorriam pelo rosto dela, intrigando quanto ao verdadeiro motivo delas. Julie chorava por dor física ou emocional? Talvez os dois.
—Nãããooo, imagina – ironizou Julie, levantando a cabeça para o irmão. – Está ardendo, merda.
Pegando a mão da irmã com cuidado, Luke retirou os pedaços de vidro que tinham ficado e então a colocou debaixo de água, enquanto procurava um pano para atar na sua mão. Saia muito sangue para que um band-aid fizesse diferença e continuaria assim por um bom tempo – Julie tinha uma péssima cicatrização e não pararia de sair sangue tão cedo.
—Qual é a dos palavrões agora?
—Estou me sentindo revoltada com a vida. E isso inclui utilizar palavrões, caralho.
—E sem repetir?
—Exatamente – concordou Julie. – Cassilda.
—Cassilda? – repetiu Luke, retirando a cabeça de dentro do balcão para olhá-la. Aquela era velha. – Essa é velha. E eu duvido que você consiga continuar desse jeito por mais tempo.
—PQP.
—Você realmente está irritada com ela, né? – perguntou Luke, referindo-se a sua mãe. Ele também estava. Aquele aniversario não era apenas de Julie, era dos dois, e Liz nem havia mandando uma explicação para não está ali!
—Onde você quer ir? – perguntou Julie ao invés disso. – Não é porque ela não vem que eu não vou comemorar, malaka. Hoje é meu aniversario.
—Ontem – corrigiu Luke, pacientemente – foi o nosso aniversario.
—Onde você quer ir? – repetiu Julie, impaciente. – Aproveite que estou me sentindo inclinada a seguir seus gostos, cacete.
—Hum... – pensou Luke, enquanto enfaixava sua mão. – Shopping.
—Shopping? – ecoou ela, ainda um pouco desnorteada com todas aquelas voltas ao redor da sua mão. – Nós vamos a um shopping?
—É. No shopping tem de tudo. Comida, cinema, jogos, comida... Eu já disse que tem comida?
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