Isso não é...

52 Isso não é uma fuga.


Notas iniciais
Estou usando o sistema de recompensa. Leia uma fic e escreva um pouco, veja essas artes e escreva mais... Tem tantas abas no navegador, que estou ficando com fome por causa do formato de nachos. Depois dos 25 perdi a conta e eu não estava nem na metade. E o sistema de recompensa não funcionou. Eu gosto dessa musica If i were a boy - https://youtu.be/AWpsOqh8q0M

You wish you were a better man(…)

You don't care how it hurts

Until you lose the one you wanted

(Você desejará ter sido um homem melhor (...)

Você não se importa como dói

Até perder a única que te queria)

52-Isso não é uma fuga. (Deixar para trás é o mesmo que fugir?)

Terça-feira, 17 de maio

A sensação de queimação não desapareceu mesmo quando Julie parou. Ainda estava lá. Sua garganta ardia, seus pulmões ardiam, seus pés ardiam. Mas aquele sentimento de ultrapassar seus limites era tão bom que Julie não podia parar. A cada passo, Julie achava que não conseguiria dar mais um. A cada passo, Julie descobria que podia.

Julie continuaria correndo até que ficasse sem fôlego, até que não tivesse mais nem uma gordura no seu corpo para queimar e ser transformada em energia – com aquele pouco peso dela seria logo – mas ela estava tão concentrada no próximo passo, na música que saia dos seus fones de ouvidos, na sua respiração ofegante, que não percebeu a pessoa na sua frente, forçando-a a parar... Até que bateu nela.

—Ai, ai – ofegou Julie, pulando nos seus pés, como se o chão estivesse quente e ela descalça, entretanto ela não poderia parar de correr até que alcançasse o estado de reflexão que tanto queria, se não teria que recomeçar de novo. E Julie Hemmings não começaria de novo todo aquele percurso. – Desculpe – ofegou ela novamente, desviando-se para o lado, sem levantar a cabeça.

—Por que você está me evitando?

A pergunta veio do nada e calmamente na voz de Ashton Irwin, infiltrando-se na sua cabeça acima da música que tocava no celular, como se sua mente estivesse testando seu conhecimento, sua força mental. Julie não sentia muita força quando repetiu a mesma resposta de sempre, cansada das pessoas não gravarem.

—Desculpe – gritou Julie novamente para o estranho, voltando a correr, antes de responder a sua mente perturbada: – Eu não estou evitando-o. Por que eu o evitaria? Eu estou ignorando...

Parando – realmente parando – Julie virou-se devagar para o estranho que continuava parado, esperando sua resposta. E respirou profundamente com a visão de que aquele não era quem ela esperava tão cedo. Você não encontra uma pessoa que você está ignorando e que todos pensam estar evitando numa corrida casual pela rua. Você não encontra essa pessoa a menos que você tenha a sorte de Julie Hemmings.

—Por que você está me ignorando? – corrigiu Ash, caminhando em direção a ela.

Evitando, ignorado, qual era a diferença? Ashton não via muita. Ashton não via Julie. Ela nunca estava onde era para estar e isso lembrava quando ela o ignorou/evitou depois de beijá-lo, e Ashton não esperaria tanto tempo para saber o que aconteceu como antes, ele não gostava... Ele não queria ficar sem ter o que fazer novamente.

—Como você sabia que eu estava aqui? – questionou Julie, olhando sedenta para garrafa de água que ele segurava.

—Responda a pergunta que eu te dou – chantageou Ashton, balançando-a tentadoramente.

—Próxima.

—Não existe isso de próxima.

—Próxima – repetiu Julie. Ela podia esticar a mão, roubar a garrafa e correr antes de Ashton perceber o que aconteceu de tão próximos que eles estavam. Mas Julie não era uma ladra. Mas se Ashton continuasse com esse joguinho ela se tornaria.

—Por que você me beijou? – questionou ele, finalmente, percebendo que Julie não responderia essa pergunta.

—Você terá que ser mais um pouco especifico.

—Seu primeiro beijo? – tentou Ash, balançando a garrafa de novo, como se fosse para relembrá-la do poder dele sobre ela.

—Ahn... – Julie não conseguia pensar num motivo para não dizer. Nunca houve um motivo para não dizer, se pensasse bem, além de que era eticamente errado fazer o que ela fez. – Me dê a água antes – disse Julie, esticando a mão.

—Não – recusou Ashton, esticando o braço para trás, longe das mãos dela.

—Eu não vou fugir. Ou não responder – disse Julie, considerando brevemente fazer justamente isso. – Mas você pode não gostar do que vai ouvir e eu quero a minha garantia.

—E a minha garantia?

Julie balançou a mão, impaciente. Ela não se importava com a garantia de Ashton, ela só queria tomar a água, sentindo-a escorrer pelos seus lábios, parando apenas algumas vezes para respirar antes de voltar a bebê-la. E usar o pouco que restou para jogar em suas mãos e molhar sua nuca e testa, limpando o suor e refrescando sua pele. Foi o que ela fez quando Ashton deu a água.

—O que foi? – questionou Julie, passando a mão na boca para limpar a umidade que ficou. – Dá para tirar os olhos dos meus seios?

—Por que você está apenas de sutiã no meio da rua? – soltou Ash ao invés disso.

Julie tinha bebido a água com um desespero impressionante, como se não a visse há décadas e fosse morrer a qualquer momento desidratada. Era uma visão perturbadora – e não apenas por causa do desespero dela. A água tinha escorrido pelo seu queixo, pingando, e Ash a acompanhou, seguindo o movimento dela pela garganta de Julie, deslizando lentamente... Até que chegou ao vale que era os seios dela. Era uma visão perturbadora.

—Eu não estou apenas de sutiã, é um sutiã esportivo – explicou Julie, tentada a cruzar os braços, mas se ela tinha corrido até ali assim, não seria agora que teria vergonha. Era um pouco tarde para isso. – E estou com uma saia-short, não nua.

—Por quê? – repetiu Ashton, impaciente. – Você não... – ele balançou a mão, abrangendo ela completamente e o parque ao redor. – Você não se exercita.

Julie tentou não se sentir ofendida porque era verdade, mas era difícil quando ele tinha afirmado e não dito "eu não sabia...", como se ela fosse previsível e nunca feito exercício físico antes. Porque era mentira. Julie era uma esportista adormecida!

—Essa é a sua pergunta?

—Não – disse Ashton, dando um passo mais perto. – Ainda não. Podemos trocar a pergunta por um beijo, estou me sentindo meio solitário já que minha amiga prefere correr a estar comigo por alguma razão que não é me evitar, mas me ignorar, e não quer dizer.

—Parando ai, querido – avisou Julie, empurrando-o antes que ele estivesse perto demais. – Eu não sou cega, consigo te enxergar de longe.

—Por que você me beijou no dia... Naquele dia depois do seu aniversário? – Ash lembrava-se muito bem do dia, mas esse era o tipo de informação que não se compartilhava. Não quando a própria garota que te beijou e era apaixonada por você com certeza não se lembrava. – E não, não podemos passar para a próxima.

—Eu apostei com Michael – confessou Julie, sentindo-se mais leve ao balançar-se e sorrir. E um pouco zombateira. – Eu não te beijei porque quis, Mike me desafiou e eu não fujo de desafios, você sabe.

Essa era... Essa não era a resposta que Ashton esperava. Essa não era uma resposta certa. Existia certo modo de como o mundo funcionava e dizer esse tipo de verdade não fazia parte. Esse tipo de verdade era escondido debaixo de muitas e muitas mentiras e meias verdades, e só era revelada por outra pessoa que não gosta de você, e não pela pessoa que gosta de você enquanto ela sorrir zombateira. E não era para Ashton sentir vontade de beijá-la, era para ele ficar com raiva. Existia um modo como o mundo funcionava e Julie acabou de arruiná-lo.

—Você sabe o quanto isso é errado? – questionou Ashton, olhando-a incrédulo. – O que você diria se eu fizesse isso com você?

—Você não faria isso comigo – retrucou Julie, balançando a mão. (Ashton odiava o quanto ela estava certa, o quanto ela normalmente estava.) – E me poupe do discurso de boa pessoa, é hipocrisia quando você já roubou.

—Tecnicamente, eu não roubei – recuou Ashton.

—Tecnicamente eu não te obriguei a me beijar... – imitou Julie. – Ah, não, foi na prática mesmo. – (Ashton não tinha o que dizer em relação a isso, ele não estava reclamando do beijo fosse por qual motivo fosse, as coisas iam muito bem até agora). – Então como você sabia que eu estava aqui?

—Calum – respondeu Ash simplesmente. – Por que você está correndo?

—Estou fora de forma e percebi que, se um apocalipse zumbi acontecesse ou qualquer outro tipo de apocalipse, eu não conseguiria sobreviver nem um por um segundo.

—Impressionante – assobiou Ashton. – Você é mais doida do que eu acreditava inicialmente.

—É, mentira – riu Julie, empurrando-o. – Em parte, ao menos. Eu não posso ficar em casa e preciso me exercitar então...

—Por que não me chamou?

—Você corre? – questionou Julie, cética.

—Por que você não foi lá para casa? – especificou Ashton.

—E o que nós iríamos fazer? Eu não posso usar computador, televisão ou celular... E não, Ashton – Julie disse em resposta ao olhar malicioso dele – eu não vou desrespeitar a ordem da mamãe, ela é que nem a Anne, saberia de longe. E Anne diria a ela, aquelas duas estão tipo carne e unha...

Já planejando nosso casamento, pensou Julie, não confessando em voz alta.

—Eu não pensei nisso – confessou Ashton, claramente sem compreender o significado de espaço alheio ou de orgulho próprio ao inclinar-se para mais perto dela. – Eu estava pensando que nós poderíamos nos beijar, você me deve pela aposta.

Julie bufou, rindo. Ashton claramente não tinha noção de algumas regras simples, como não dar em cima de alguém que se recusou a te beijar. Julie não sabia se considerava isso bom ou ruim – isso é, se ele tinha feito isso com outras garotas antes ou não – mas ela sorriu. Ela realmente não conseguia se lembrar de um bom motivo para não tê-lo dito antes porque o beijou, só que... Antes era tão difícil estar ao lado de Ashton, relembrando-se daquele momento, mas agora... Agora não mais.

—Claro, querido, claro – disse Julie, batendo no peito dele.

—Por quê? Está com medo de se apaixonar por... Ah, é, você já está.

—Bastardo – assobiou Julie, desejando negar. Mas pior do que mentir é mentir quando todos sabem que é uma mentira.

—Hum, sim – sorriu Ashton, arrogante. Agora ele entendia o desejo de sua mãe de comemorar ao estar feliz; ele queria comemorar o fato de Julie não ter negado sua afirmação. – Quer companhia? – perguntou Ash, não esperando pela resposta dela e começando a se alongar.

Um, dois. Para cima, para baixo. Para um lado, para o outro. Gire os membros superiores sem mexer os inferiores. Tente tocar os dedos dos pés com as pontas dos dedos.

—Se você conseguir me acompanhar – desafiou Julie, tomando à dianteira.

O plano Seja Difícil ate que, surpreendendo as expectativas, era fácil. E tinha resultados imediatos. A primeira parte era ignorar? Ok, Julie tinha conseguido resultados em um dia, era surpreendente. Faça Ashton correr atrás de si? Fácil. Ela faria ele lutar para conseguir alcançá-la. Agora só restava a última parte, a mais difícil delas: seja difícil. Como Julie seria difícil quando sempre pensou que difícil a definia?

Quarta-feira, 18 de maio

Ashton tornava fácil ser difícil, percebeu Julie. Era fácil ser difícil com alguém que você está apaixonada quando muito provavelmente está irritada com ela também, pois pior do que não ser difícil como achava que era, de ter sido quase que rejeitada, era ser alvo de clichê. Num cinema. Com Ashton, o cara que a rejeitou.

Eu quebraria o braço dele se aquilo fosse um encontro, suspirou Julie, quando Ashton esticou o braço novamente sobre seus ombros, numa terrível imitação de bocejo. Ela quebraria sem aviso, sem segunda chance.

—Tire seu braço dos meus ombros antes que eu o quebre por você – avisou Julie, calmamente ao colocar mais um pouco de pipoca na boca.

—E eu fico com o outro – cantarolou Luke ao lado de Ashton. Inclinando-se para o lado, ele sussurrou: – Coloque essas suas garras na minha irmã novamente e eu te quebro em pedacinhos.

—Shii! – pediu Calum, chutando-o com o pé antes de colocá-lo sobre a cadeira e puxá-lo para o seu peito.

—Não diga para eu ficar quieta – rosnou Julie, apontando o dedo por cima de Ashton. – Eu amo você, Calum, mas não espere que eu...

—Não era com você – disse Calum, horrorizado. – Você não ouviu...

—Calum! – avisou Luke, pegando disfarçadamente a mão de Calum que iria apontá-lo e puxando-a para baixo. – Shii!

—Vocês querem calar a boca? – questionou Michael, duas cadeiras depois de Julie, inclinando-se para frente para que todos pudessem vê-lo. – Tem gente que quer assistir o filme.

—Você está falando de quem, Michael Hood? – ironizou Demi, sentada ao lado de Julie. – Você não para de falar o quanto o filme é ruim. O quanto não quer estar aqui. O quanto foi obrigada por...

—Já entendemos, Demi. Eu não quero estar aqui.

—Não sou eu quem está dizendo. – Demi deu de ombros.

—É você quem está dizendo – interrompeu Julie.

—Certo – disse Michael. – Vão calar a boca ou...

—Desculpe interromper – interrompeu um homem com uma lanterna.

—Uou – piscou Julie, completamente desorientada. – Quem ficou cego agora?

—Desculpe – repetiu o homem, sem tirar a luz. – Mas vocês podem sair? – perguntou ele, num tom de voz que ordenava que eles saíssem. Não era um pedido. E que existia pessoas que gostariam de assistir o filme, quem Julie não sabia, já que eles eram praticamente os únicos, sentados lado a lado na mesma fileira.

—Vocês acreditam nisso? – questionou Julie pela terceira, saltitando pela entrada. – Eu fui expulsa! Obrigada, obrigada, obrigada – cantarolou ela, mandando um beijo para cada um dos seus fãs. – Podemos ir jogar agora? Porque estou incrivelmente entediada e aquele filme era... Assistir filmes num cinema conta como estar quebrando meu castigo?

—Não desperdice sua linda cabecinha, Julie – disse Ashton, dando um peteleco na têmpora dela. – Ninguém vai te dedurar.

Sem saber, Julie olhou para Luke. Em busca de qual apoio – palavras tranquilizadoras que dissessem que ela não quebrou seu castigo ou que ele não diria a Liz? – Julie não sabia. Mas seu irmão estava ocupado demais imaginando como iria matar Ashton. Nos jogos. Mesmo que fosse apenas um jogo.

—Eu não vou – disse Demi. – Isso é tão...

—Não patricinha? – ofereceu Julie, interpretando o arrepio dela. – É uma casa de jogos, Demi. Quem não gosta de jogos?

—Eu – respondeu ela. – Você gosta de jogos, eu de música. Simples: vou estar na loja de música.

—Musica? Hum, sei. Isso não tem nada haver com o vendedor...

—Não – sorriu Demi. – Nem um pouco.

—Sei – repetiu Julie, observando-a caminhar para a loja. Ela acreditava totalmente na sua amiga. – Vamos... Ei, esperem por mim! – gritou Julie ao perceber que estava sozinha.

—Você sabe como funciona – cantarolou Ashton, empurrando um longo taco, maior do que o usado no baisebol, no seu rosto. – Beije o taco.

—Não – disse Julie, batendo-o para fora do seu rosto. E mais uma vez o taco estava lá.

—Beije.

—Não.

—Julie – disse Ashton, exasperado.

—Ashton – imitou ela. – Eu beijo se você beijar o meu quando eu for jogar.

—Você não precisa disso! – retrucou Ashton, tirando o taco que ela enfiou na sua cara.

—Você não se esqueceu da ultima vez? – questionou Julie, deixando de fora muitas coisas, mas Ash não precisava relembrá-las, elas estavam vivas na sua mente. Muito vivas.

O modo como Julie era manipuladora e como ele precisava tomar cuidado com ela? Ashton nunca se esqueceria disso. O medo de perder para ela tinha ficado enraizado na sua mente.

—Você trapaceou – acusou Ash, atacando-a com o taco. – Você disse que não sabia como jogar e me distraiu quando eu fui jogar.

O fato de Julie não recuar mesmo com o taco a poucos centrímetos do seu nariz só fez Ashton sentir-se mais como um perdedor. E um psicopata. Quem atacava uma pessoa com um taco? Quem agia assim com uma garota? Independente dela estar apaixonada por você ou de você poder estar por ela.

—Distrair? O que você quer dizer com distrair? – perguntou Julie. ela não fez nada para distraí-lo.

No seu aniversário de quinze anos, quando Liz achou que estava além de atividades mãe&filhos, Julie tinha se vestido de modo que sua mãe aprovaria, mas acabou que não foi ela a aprovar. Ashton era quem tinha aprovado seu vestido decotado, principalmente quando Julie abaixou-se para jogar sinuca, mostrando o que tinha a oferecer. No jogo.

—Você está... Não quero mais você beijando meu taco! – gritou Ashton, indo para longe com o seu taco.

—Oh, meu Deus – riu Julie. Será que era apenas que ela ou isso parecia, de algum modo, indecente? – Isso é sério? – Com certeza, apenas ela pensava assim, mas Julie não podia não ajudar a si mesma. – Eu não preciso dele, só não venha implorando por mais. Eu sou difícil!

Notas finais
Quem gosta da Julie? Minhas experiências cinematográficas num cinema referem-se exclusivamente a filmes que aparecem cinemas. O mesmo acontece com sinuca, só que em livros. Hush Hush.