Isso não é...
41 Isso não é uma brincadeira.
Notas iniciais
I don't work hard when it's easy
I put in work when it's hard
(Eu não me esforço quando algo é fácil
Me esforço quando é difícil)
41-Isso não é brincadeira. (Perder é inaceitável!)
Sexta-feira, 13 de março.
Todos sempre achavam ruim brincar com Julie, porque ela não sabia brincar. Não aceitava desistir, não queria perder; para ela, somente ganhar era aceitável e qualquer coisa no meio do caminho era um obstáculo a ser superado. Ou se machucar tentando.
Caso alguém a desafiasse subir até o topo de uma árvore, Julie subiria e seria encontrada horas mais tarde no pronto socorro com um braço quebrado, emburrada por ter caído antes de alcançar o galho mais alto.
Caso jogassem adedonha, pode ter certeza que ninguém sabia se as palavras que Julie dizia existia ou não fora da sua cabeça, só que não importava – no final da discussão, eles que estavam sem sua cabeça, tão esgotados que qualquer coisa que Julie dissesse era verdade.
Mas a história era outra – completamente diferente – quando era esconde-esconde. Julie era ótima em se esconder. Ela se escondia e ninguém a encontrava. Nunca. E só saia do seu esconderijo quando anoitecia, porque esse era o sinal dela ter ganhando – e Julie sempre ganhava. Contudo não era apenas em se esconder que ela era boa, Julie era ótima em encontrar pessoas, em saber o que elas queriam e para onde iriam.
Por isso, Julie sabia o que Klaus, seu amado diretor, queria. Ele queria a cabeça dela numa bandeja de prata, porque Klaus podia não saber muitas coisas, mas tinha um bom palpite de quem era a catalisadora da briga que acontecia no meio do jardim.
Julie sabia que fez por onde, que merecia o que acontecesse, mas, mesmo assim, ela se abaixou e puxou – inutilmente – Calum consigo. Ele já estava lá antes de Julie ter reagido, como se soubesse a encrenca que eles tinham se metido... Na verdade, apenas Julie.
—Shiu! – pediu Julie, movendo os olhos ao redor, a procura de uma saída. Qual a probabilidade de engatinhar até a cozinha e sair pelas portas dos fundos sem ser pega?
—Eu pensei que ele estivesse viajando! – sussurrou Calum com os olhos arregalados.
—Faça silêncio! – assobiou Julie, tão baixo quanto sua respiração. – Você não quer que ele nos ou...
—Julie! – gritou Klaus. – Eu sei que você está por aí, então faça algo em relação a isso!
Qual a probabilidade de engatinhar até a cozinha e sair pelas portas dos fundos sem ser pega?, pensou Julie novamente. Mas a resposta continuava a mesma: Nenhuma. Não tinha como Klaus não vê-la engatinhando pelo chão e Julie com toda certeza não era rápida o bastante para conseguir correr e não ser vista por ele. Só restava uma opção.
—Oi, Klaus – disse Julie, levantando-se devagar e silenciosa. Apoiando os cotovelos sobre o parapeito e o queixo sobre as mãos, ela tentou ser o mais natural possível. – No que posso te ajudar?
—Oh, não sei... – pensou ele, encarando-a acusadoramente. – Quem sabe parando essa luta?
—Por que você não para? – questionou Julie, com o sorriso mais gentil que conseguiu, decidindo tentar o método calmo e controlado de terapeutas e psicólogos. Esse método nunca funcionava com ela, mas Klaus não era ela.
—Porque já não tenho idade para me intrometer nas brigas alheias. Agora faça...
—O que te fez pensar que eles iriam me ouvir?
—Eu sou seu padrinho, Julie – lembrou Klaus, levantando a sobrancelha. – Te conheço desde que você e Luke nasceram, não me venha com essa história de que você...
Julie fingiu esconder um bocejo, fazendo Klaus parar. Ele sabia que aquele bocejo era falso, tanto quanto que aquele papo de "eu te conheço" não funcionava em sua afilhada. Julie só conhecia uma língua. Apenas uma única língua. E Klaus odiava cair na armadilha de Julie, mas que escolha ele tinha? Ou fazia o que Julie queria, ou seu outro afilhado e o amigo dele iriam continuar brigando, ou...
—Eu não vou te dar aqueles livros que você tanto queria...
—Ótimo, certo – resmungou Julie, afastando-se da janela. Aquilo era golpe baixo!
—E cuide dos ferimentos deles também – gritou Klaus, dando as costas aquelas crianças irritantes.
Ele tinha se aposentado para se livrar de uma profissão que só tinha crianças irritantes rodeando-o, mas se mudou para a casa vizinha das crianças mais irritantes que conhecia. Klaus devia realmente amar seu emprego, pois agora trabalhava de graça, sempre mantendo um olho sobre seus afilhados quando sua comadre viajava... Bem, mantendo um olhar sobre Julie. Luke podia ser quem brigava, mas ela era o verdadeiro problema. Julie podia influenciar seu irmão como ninguém e algumas vez era preciso controlá-la para que Luke fosse atingindo, pois, para o bem ou para o mal, Julie podia cuidar daquela situação sem realmente se envolver; a questão era ela querer e Klaus fez um ótimo trabalho comprando-a.
Andrew teria orgulho dos filhos, reconheceu Klaus, antes de fechar a porta da sua casa e voltar para o seu jogo, ao mesmo tempo em que Julie abriu a dela.
—Para dentro – rosnou ela, apontando para eles, como se fossem cachorros. – Vira latas tem mais classe que vocês.
—Como se você não estivesse gostando disso – sussurrou Calum, permanecendo ao seu lado. Ele era o quê agora? Seu segurança? Seu fantasma particular?
—Shiu! – pediu Julie, sussurrando pelo canto da boca sem retirar a expressão de raiva. – Não arruíne meu papel de irritada!
—Mas Julie... – começaram os dois ao mesmo tempo, apontando para o outro sem deixar de olhar para ela. – Foi ele que começou!
—Não perguntei quem começou – disse Julie, o mais impaciente que conseguiu. (Batendo o pé no chão, os dedos tamborilando na porta, a expressão raiva... Calum achava tudo isso um exagero, principalmente quando os cantos dos lábios dela teimavam em subir.) – Agora entrem e terminem isso dentro de casa sem quebrar nada. Céus, vocês nem sabem fingir que são educados.
—Ela está sugerido que briguemos dentro de casa? – sussurrou Ashton para Luke ao passar por Julie.
Luke lhe deu um olhar afiado antes de entrar, parecendo tentado a bater a porta na cara dele, mas Julie o avisou com um olhar que ela permaneceria aberta, e disse a Ashton:
—Não, claro que não. Agora vamos cuidar desses ferimentos. Você vai primeiro, Luke – disse ela, puxando-o para a cozinha.
—Eu estou pior do que ele – reclamou Ashton. – Eu não mereceria uma atenção especial?
A atenção especial que Julie queria dá-lo era um soco na cara dele por ter machucado seu irmão. Tudo bem que Ashton já estava bastante machucado, com a pele dos braços passando de vermelho para roxa e pelo que Julie podia perceber algumas costelas haviam sido machucadas – Ashton andava como um velho, todo curvado – mas só ela podia brigar com seu irmão!
—Não. Por que eu te daria uma atenção especial? E mamãe vai me matar se Luke ficar com alguma cicatriz nesse rostinho lindo. Não é, querido? – questionou Julie, beliscando a bochecha dele com força.
—Ei... – reclamou Luke, tentando se desviar, mas só sentindo mais dor. A única forma de evitar a dor era seguir sua irmã como se fosse um cachorrinho obediente enquanto ela marchava para a cozinha. – Isso está doendo.
—Essa é a intenção. Aprenda que eu não preciso que você entre em brigas por mim, Luke. Não quando você nem sabe lutar direito – murmurou Julie, empurrando-o para uma cadeira.
—Ashton está pior do que eu – murmurou Luke, remexendo-se desconfortável na cadeira.
Ele se sentia mal por ser repreendido pela irmã quando esse era o seu papel. Era ele que dava lições de moral para Julie e não o contrário, mas... Ele merecia isso, Luke sabia. Ele não deveria ter começado uma briga, mas Ashton também não deveria estar... estar... estar pegando suas irmãzinha!
—Ashton só está pior do que você porque se sente mal – explicou Julie, vasculhando a geladeira. – E não devolveu os golpes além do necessário. Ou você achou realmente que era melhor do que Ashton lutando, Luke? Faça-me o favor.
Murmúrios baixos de reclamações saíram da boca de Luke, muito baixo para Julie entender, mas ela sabia o significado geral. Luke tinha lhe pedido desculpas; Luke estava envergonhado; Luke lhe pediu para não contar a mamãe; e, é claro, Luke não conseguia acreditar que sua irmã fosse tão idiota ao ponto de se apaixonar por Ashton.
—Cristo, Luke. Já entendi – disse Julie, empurrando um saco de pão de queijo congelado no rosto. Seu irmão nem estava tão mal assim, iria ficar apenas com um olho roxo. Nada tão grave, nada tão grave quanto seus pãezinhos de queijo cheirando a sangue. – Eu e Ashton? Não. Nope. Not. No...
Se Julie fosse sincera, ela diria que já estava ficando paranoica, meio que antecipando a reação de todos. Talvez porque agiu do mesmo modo que eles e não culparia ninguém por ficar chocado. Mas ela já estava ficando com raiva por vocalizarem o que pensavam. Ninguém sabia esconder para si mesmo o que pensava? Ou ficava feliz por ela ter se apaixonado e pela queda da possibilidade dela passar o resto da sua vida com um monte de gatos mesmo que fosse alérgica a eles?
—Eu não disse isso – retrucou Luke, num tom mais audível, puxando o saco das mãos dela. Sua irmã o deixaria pior se continuasse empurrando-o daquele jeito. – Eu só não consigo acreditar como eu não percebi isso quando as provas estavam bem visíveis e na minha frente.
As provas eram tantas que Luke nem sabia por onde começar, mas as que mais marcaram ele foram duas, exatamente pelo mesmo motivo.
Quando Ashton fingiu estar conversando com sua mãe por mensagens – Luke percebeu agora que era fingimento – Luke não tinha lembrado-se no momento de um fator decisivo, que justamente Julie – que era esquecida – lembrou-se poucos minutos atrás: Ashton tinha dislexia, então... Como? Como Luke foi tão burro para não ligar os pontos, que Ash esperou o encontro de Julie chegou, assustou-o e depois a levou para sair?
E, agora, Julie parecia disposta a deixar seu anime favorito de lado para Ashton não se sentir desconfortável ao olhar para tela... Pensando bem, Luke não conseguia lembra-se de Julie ter assistido algo com legenda enquanto Ashton estava na sala, ela sempre dava um jeito de tirar.
Isso era fofo, pensou Luke. Os dois estavam dispostos a fazer algo que não gostava pelo outro... Ate lembrar-se que a garota em questão era sua irmãzinha e isso era horroroso.
—Não que eu aprove – disse Luke.
—Ou que eu tenha pedido sua aprovação – lembrou Julie.
—Ou que você fosse ligar para ela – concordou ele.
Julie sorriu, tudo estava bem. Seu irmão não tinha ficado com raiva – talvez porque ela não deu oportunidade a ele para isso – e estava levando tudo numa boa. Numa boa caso retirassem a parte que ele acabou de sair de uma briga. E que ficaria com o olho inçado e roxo amanha. Não que Luke pudesse reclamar, ele ainda sairia no lucro, pois era realmente uma decepção lutando.
—Ou que eu e Ashton tenhamos algo realmente – lembrou Julie, dando um olhar avaliativo em Ashton. O estado dele, sim, era crítico.
—Ou que vocês não irão ter se continuarem se olhando desse jeito – murmurou Luke, percebendo o olhar que um dava ao outro com um cômodo de distância. Como não tinha percebido isso antes?
—O que você disse? – perguntou Julie, levantando a cabeça. Luke abriu a boca para desviar do assunto (ele não diria o que realmente pensava) quando ela balançou a cabeça. – Não importa. Mande Ashton vim para a consulta dele – disse ela, sorrindo provocativa de um jeito que Luke sabia que dizia "serei a enfermeira dele" (ele preferiria não ter sabido isso). – E não saiam brigando no meio da sala se não jogarei água gelada em vocês!
—Você já está gritando – sussurrou Luke para ela – então porque você não o chama?
—Porque vocês dois vão conversarem como animais civilizados – gritou Julie dando as costas a ele para ver seu outro paciente. – Ouviu, Ashton?
Curvando a boca numa careta, Ashton não respondeu, apenas se levantou do sofá e trombou com Luke na metade do caminho para a cozinha – ou para a sala, dependia para onde você ia – com bastante força. Julie quase podia ouvir os ossos estralando, contudo ambos continuaram seu caminho sem hesitar.
—Irwin – disse Luke sem olhar para trás.
—Hemmings – disse Ashton, seguindo os passos do amigo.
Luke ainda era o seu amigo? Ash esperava que sim, ele não tinha um monte de amigos para perdê-los por vontade própria, mas imaginava ter pedido isso ao pegar a irmã do amigo.
Eu deveria ter pensando nisso melhor antes de ter pegado a irmã do amigo, percebeu Ashton, mas não era como se ele tivesse tempo de pensar. Era apenas agir. Julie o beijou? Ashton a beijaria de volta. Julie estava perto dele e Ashton queria beijá-la? Ele a beijava. Não tinha reflexões ou porquês, era apenas instinto.
—Conversem direito – rosnou Julie, sem olhá-los. Ela precisava de um remédio para aquelas fraturas de Ashton e não precisava olhá-los para saber o que faziam.
—Hunf... – bufou Luke, mas virou-se. – Você está bem?
—Você bate mais fraco que uma garota – provocou Ash.
Luke pensou no que aconteceria se ele cutucasse-o nas costelas para mostrar o quanto seu soco de garota era fraco. Não iria doer muito se ele apenas encostasse o dedo, sem fazer pressão... Isso mostraria a Ashton a não...
—Luke – assobiou Julie em aviso. – Nem pense nisso.
—Deve ser por isso que sou eu quem estou mancando – retrucou Luke, não cedendo aos seus desejos.
—Você vai deixar isso? – questionou Ash, voltando-se para Julie, quando não conseguiu pensar em mais nada.
—Por quê? Você precisa de uma garota para te defender? Eu pensei que Luke batia como uma garota então por que você está mancando?
—Acho que eu ganhei – sussurrou Luke, sorrindo ao continuar seu percalço, sentindo um pequeno conforto apesar de tudo.
Ele não sabia o que fazer em relação a Ashton. Não era como se fosse uma surpresa saber que Ash sentia algo por sua irmã – seria uma surpresa se ele não sentisse – mas era uma surpresa saber que sua irmãzinha tinha começado a gostar de alguém – ela tinha superado a fase assexual? — e ele não percebeu. Que tipo de irmão era desse jeito?
—Tire esse sorriso da cara, Luke – ordenou Julie. Ela não tinha visto o sorriso, mas o céu cairia antes que Julie Hemmings não soubesse como seu irmão se comportava. Luke era tão previsível às vezes. – Você também, Ashton. Você não está numa boa situação para ficar sorrindo... E por que você está sentando na mesa?
—Para que você... – sussurrou Ash, colando as mãos no quadril de Julie e puxando-a para ele (apenas para provocar Luke; talvez não apenas por isso) – possa ficar na ponta dos pés para ser minha enfermeira.
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