Isso não é...
7 Isso não é um presente.
Notas iniciais
You made my perfect picture look like black and white
I know I've never seen my color so alive
(Você fez a minha foto perfeita parecer preto e branco
Eu sei que eu nunca vi minha cor tão viva)
7-Isso não é um presente. (E essas lágrimas são de ódio?)
Cinco dias atrás
Domingo, 17 de abril
A festa já havia acabado, as coisas guardas, o jardim limpo, tudo estava em seu devido lugar. O lugar de Luke, Calum e Ashton acabou sendo sentados nas cadeiras da varadas em plena madrugada, cansados, mas sem sono.
Liz havia acabado de entrar em casa para ir dormir, avisando que queria silencio total, que não tocassem fogo na casa e nem deixassem Julie ficar bêbada, porque ela queria paz. Julie gostava de dá barraco sempre, principalmente quando tinha uma desculpa para ficar louca. Acenderia o fósforo para ver o circo pegar fogo sem culpa nenhuma.
—Onde está Michael e Demi? – perguntou Calum.
—Na cama elástica – respondeu Calum. – Você não viu o quanto Julie está irritada? Ela quer ir pular nela, mas não quer acabar com seja lá o que esteja acontecendo.
—E o que está acontecendo? – questionou Luke.
—Quem sabe – respondeu Calum.
Os três deram de ombros em conjunto após se olharem, numa sincronia incrível. Mas o rolo entre aqueles dois ultrapassava a paciência de todos ali. Ashton considerava-se com uma paciência incrível por conseguir manter a calma com Julie, mas, mesmo se não fosse o caso, Calum, que era quase um santo, não queria se envolver. Michael e Demi tinham mais historias do que Ashton sabia e queria saber, pois se não acabaria sendo obrigado a escolher um lado e ele tinha quase certeza que Mike não era inocente na historia.
—E Julie? – perguntou Luke. – Vocês a viram?
—Comendo? – chutou Ashton, contudo era um bom chute.
Quando Liz pediu que ele encontrasse sua filha durante a festa, Ashton a encontrou. Debaixo de uma mesa. Comendo. Toda lambuzada de brigadeiro, pior do que uma criança, e desesperada por mais. Julie só foi convencida a sair de lá com a proposta de cortar o bolo e comer mais. Só foi ouvir a palavra bolo que Julie já estava do lado de fora, contudo a mãe de Ashton, Anne, era uma ótima doceira. Além de que Julie era esfomeada por doces. Mas, principalmente, esfomeada.
—Eu a vi subindo as escadas e reclamando do vestido – comentou Calum.
Droga, praguejou Ashton, ele havia se esquecido do presente de aniversario dela. Ash o havia deixado em cima da cama no quarto de Julie, entretanto ele não queria que ela o visse assim, sem nenhuma preparação psicológica. Quem sabe o que ela poderia fazer a ele?
Julie entrou no seu quarto e foi diretamente para o guarda roupa, procurando um vestido confortável que pudesse usar no momento. Aquele vestido que ela usava era desconfortável, embora fosse muito bonito, tanto a cor azul tiffany quanto o decote meia lua. E os sapatos? Lindos, mas torturantes. Ser mais bonita do que já é, cansa, descobriu Julie.
Quando ela encontrou um vestido que a agradasse, rasgado a propósito, Julie finalmente viu ao se virar o que tinha em cima da sua cama, encostado na cabeceira. Dois retratos. Ela não podia acreditar que Ashton havia feito isso... Esse era o seu presente?
Apertando o vestido na mão – se fosse feito de papel, a este ponto, ele já teria rasgado – Julie desceu as escadas correndo, o som dos seus sapatos soavam irritantes como um tic tac de um relógio. Ela nunca havia se imaginado correndo de salto alto, – cair antes de dá um passo não conta – mas até que estava se saindo bem. Julie não escorregou, derrapou ou rolou pela escada, o que já era lucro. Ela encontrou Ashton entrando em casa, saindo da varanda que ficava de frente a escada, menos esforço para ela, e o assustou pulando dos últimos degraus direto para os seus braços.
—Obrigado – Julie agradeceu, apoiando o rosto no ombro de Ashton e apertando a camisa dele nas suas mãos, se bem que estava mais para se escondendo.
Ela sentia as lágrimas embaçando sua visão e não queria que ninguém a visse assim, Julie se recusava a deixá-las cair. Hoje, emocional parecia que era a palavra perfeita para defini-la. E ela não gostava disso, mas não conseguia se controlar.
Julie queria um quadro feito por Ashton desde que o conheceu, foi um sacrifício convencê-lo a grafitar as paredes do seu quarto quando viraram amigos. Ashton é bem tímido em relação a sua arte, – sua arte, que graça – mas não foi por isso que ela estava nesse estado lamentável critico – antes seu estado era lamentável leve, o que é... leve. Julie vivia nesse estado, o que para ela estava tudo bem, não tinha nenhum problema ficar melancólica de vez em quando, contudo, hoje, seu estado ultrapassava o ideal.
O primeiro quadro mostrava uma versão mais nova de Julie, ela tinha 12 anos e esse não era um palpite. Ela se lembrava daquele dia. Como Ashton conseguiu pintá-lo com tantos detalhes depois de todo esse tempo era impressionante. A memória de Julie não era muito boa, como sua mãe dizia “Você só não perdeu o corpo ainda, porque ele está grudado na cabeça”. Ainda. Liz não era exatamente o exemplo de juízo, é claro.
Na tela, Julie usava uma jaqueta grande demais para ela mesmo depois de quatro anos, – ela esquentava tão bem que Julie a tinha até hoje e ainda usava-a – embora pertencesse a Ashton. O boné que descansava na sua cabeça também era dele. Ela sabia, isso era muito acomodação para com uma pessoa que havia acabado de conhecer naquele dia, pegando tantas peças de uma só vez, mas não era sua culpa. Ashton tinha dando e esquecido-se de pedir de volta; depois era tarde demais, já fazia parte do guarda roupa de Julie.
O cabelo dela estava comprido nessa época e caia solto e bagunçado, voando livremente pelo ar, do jeito que mais gostava. Fazia tempo que Julie não o deixava crescer novamente. O sorriso que ela dava era contagiante, dava ate vontade de retribuir para o retrato. O retrato. Isso se devia tanto ao brilho que os seus olhos emanavam quanto ao dente que faltava. A janelinha dela era tão fofa. Entretanto, o que realmente deixou Julie assim... chorosa, foi o segundo retrato. Esse não era uma “lembrança”, era um sonho que nunca iria se tornar realidade.
No segundo quadro, Julie tinha, mais ou menos, a idade atual e usava um vestido azul, seu cabelo estava longo e solto e ela deslizava pelos braços de um homem parecido com Luke, só que mais velho. Seu pai. A tal famosa dança de 15 anos de pai e filha que Julie não teve e nunca teria, agora ela poderia contemplá-la por uma imagem.
Julie soltou-se dos braços de Ashton e se virou, dando-lhe as costas. Ela já estava tempo demais neles, tentando segurar as lágrimas, mas Ash não disse nada, apenas a segurou e esperou. O que era um milagre divino na opinião de Julie, porque tinha vezes que ele não sabia a hora de calar a boca.
—Você pode abrir o zíper? – perguntou Julie.
Sua voz continuava embargada, ela tentou pigarrear sem chamar atenção. Não funcionou. Entretanto Ashton fingiu não reparar. Ele não sabia lidar com garotas chorando. Ele não sabia lidar com Julie chorando. Ainda mais quando a causa era emocional e não por dor. Se ele soubesse que ela fosse agir assim, Ashton não teria retratado-a. Mais aquela imagem dela mais nova queimava na sua mente desde que ele a olhou, implorando para ser desenhada.
Balançando a cabeça, tentando clarear os pensamentos, Ashton concentrou-se no vestido de Julie, que abraçava suas curvas ate seus quadris e caiam solto logo depois. Ele nem ficou surpreso ao sentir a pele gelada de Julie – ela sempre estava gelada – e deslizou lentamente, de maneira provocante, o zíper. Julie nem percebeu. Ele teria que fazer melhor.
—Você está mais atirada do que o normal hoje – sussurrou Ash, próximo ao ouvindo dela. E assoprou.
Julie agradecia por ele ter desviado do assunto, mas... Ela tinha cócegas em diversos lugares, principalmente nessa região da nuca, pescoço e orelhas. Em resumo, dos ombros para cima. Julie era muito sensível, não podiam nem falar com ela próximo a essas áreas que ela já ficava completamente arrepiada. Com todos os pelos do seu corpo arrepiado – não disse? – Julie tentou se desvencilhar de Ashton, contudo o maldito a segurava. As mãos deles a prendiam no lugar e faziam cócegas nela, ela o acotovelou, mas não pareceu funcionar. Ashton nem sentiu.
—Pare – ordenou Julie, batendo nas mãos dele, contorcendo-se, tentando fugir de Ashton e de suas mãos. Logo depois de tanta tortura ela já estava implorando: – Por favor, pare.
—Eu nunca imaginei que veria Julie Hemmings implorando – comentou ele, rindo no seu pescoço. Julie se arrepiou ainda mais.
—Vamos, me solte – pediu ela, emburrada e sem fôlego.
Ashton a virou em sua direção, suas mãos mantidas no quadril da garota a sua frente. Julie ficava fofa quando estava com raiva, Ashton gostava de provocá-la sempre que tinha a chance para poder ver isso. Os momentos fofos de Julie Hemmings eram raros. Imperdíveis e por tempo limitado, pois a morte tornava-se inevitável.
—Não fique com raiva, Julie.
—Quem disse que estou com raiva? – perguntou ela, tentando levantar uma sobrancelha. Ela não se saiu nenhum pouco bem. – Eu não estou com raiva.
—Você está.
—Não estou.
—Está.
—Não.
—Não.
—Ótimo. Agora, me solte – disse Julie, sorrindo. Era tão bom ganhar.
—Não era para você dizer não – reclamou Ashton. Tem gente que não sabe perder.
—Não posso fazer nada se sou inteligente e você não – disse Julie, frisando o não. Passando na sua cara a vitória, ela sabia ganhar, como sabia.
—Ah, você não disse isso...
Ashton iria recomeçar os ataques, contudo Julie foi mais rápida do que ele e aproveitou o momento de distração para correr. Ela meio que derrapou na saída e teria batido com tudo na porta de vidro se ela tivesse fechada. Uma vez Julie havia batido e que dor, ate hoje ela ainda conseguia sentir só de imaginar. Naquele dia, segundo Luke, seu rosto ficou todo amassado, pressionado contra a porta de um jeito muito engraçado. Deve ter sido mesmo, pois seu irmão não conseguiu para de rir em nenhum momento e, sempre que a olhava, o ataque de risos retornava. Ate hoje, algumas vezes, Luke começava a rir sem motivo ao vê-la.
—Quem morreu? – gritou Luke quando Julie desviou dele e continuou correndo.
—É pega-pega – gritou Calum e começou a correr atrás dela. Julie não negou, preocupada demais em fugir de Ashton e manter o vestido no lugar, já que ele estava aberto.
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