Isso não é...
64 Isso não é um pesadelo.
Notas iniciais
Carry on my wayward son
There'll be peace when you are done
(Continue meu filho desobediente
Haverá paz quando você estiver terminado)
64-Isso não é um pesadelo. (Ele vai parar uma hora.)
Quatro anos atrás
O pior dia da sua vida era algo que Julie nunca iria esquecer. Ela também não queria esquecer, porque o pior dia também era o último dia que ela viu seu pai, e por mais que doesse Julie não iria querer esquecer um segundo que seja que passou com Andrew.
Andrew era... sua pessoa favorita. Não que Liz não fosse uma pessoa importante para Julie, ela admirava a mãe, amava-a, mas seu pai era o Cara. Ele sempre sabia o que Julie queria antes mesmo dela, como se previsse o que ela queria antes mesmo dela querer. E ele sempre a deixava fazer escolhas por si mesma, trilhar seu caminho por ela mesma, errar, quebrar a cara, o que fosse... entretanto sempre estaria lá com ela, para apoiá-la. E principalmente amá-la. Julie o amava.
—Você deveria ter me colocado a força dentro daquele ônibus – reclamou Julie cruzando os braços com birra. – Agora vou ficar se fazer nada. O que eu vou fazer?
—Você mesma já respondeu – disse Andrew. – Nada... Qual é, querida? – provocou ele, sorrindo de lado para a filha, sem retirar os olhos da estrada frente. – Não é como se suas férias fosse ser péssimas só porque você não estará com Luke.
—Claro que não, minhas férias serão ótimas. Estou preocupada com Luke – zombou Julie. – Você sabe como ele é, não consegue viver longe de mim
—Claro – concordou seu pai, assentindo com a cabeça. – Claro. E ele está sem Calum também...
—Mas pelo menos eu estou com Calum – lembrou Julie e franziu o nariz. – Parece que Luke e eu nos separamos e eu fiquei com o cachorro.
Andrew parecia impressionado com o pensamento da filha. E orgulhoso.
—Se Calum fosse um cachorro – disse ele, balançando a cabeça como se quisesse apagar o pensamento – ele seria um...
—Hachiko – completou Julie, animada.
—Eu iria dizer um são bernardo.
—Hachiko são mais bonito – explicou Julie, tentando se sentar de lado para olhá-lo – com toda aquela pelagem fofinha e lealdade. Ele é o cachorrinho que não posso ter por causa da aler...
—Ele não é um cachorro – interrompeu Andrew antes que ela fosse longe demais. Ele sempre pode contar com sua filha para ir longe demais. – E você não pode adotá-lo, Julie. Esqueça.
—Sim, mas você pode. Qual é, papai? Vai dizer que não amaria ter Calum como um... filho?
—Julie! – repreendeu Andrew. – Você estava pensando "ter Calum como um cachorrinho", não foi?
—Sim, sim, não importa – disse ela, com irritação. – Não podemos deixá-lo sozinho com os pais.
—Eles são os pais dele, Julie, e não irão fazer mal a ele. E não podemos adotá-lo... – Uma rápida olhada para a filha lhe confirmou que ela lhe lançava um olhar de cachorrinho abandonado. – Mas isso não significava que ele não pode ficar por lá.
—Lá do tipo "mal apareço em minha própria casa" ou "quando as coisas tiverem muito ruim..."?
—Qualquer tipo de lá – respondeu Andrew. – Já conversamos com os pais dele e Calum pode ficar lá quando quiser, ele só precisa aparecer nos... eventos sociais
Os dois calaram-se, horrorizados com isso. Não tinha nada pior do que ser obrigado a ir a eventos sociais, ambos não conseguiam pensar em nada pior nem mais horripilante. Ter que se vestir apropriado, comportar-se adequado a ocasião... Andrew e Julie não conseguiam pensar em nada mais excruciante dos que sapatos altos e gravatas apertadas.
Calum odiava também, mas não pelos motivos daqueles dois, ele odiava a falsidade desses momentos, do "que bom ver você!" enquanto pensava por que você ainda estava vivo. Calum odiava isso e Julie sabia, aquele era o pesadelo vivido do seu irmão.
—Eu sei, é só que... – disse Julie, incapaz de continuar. Calum era da família e não poder fazer nada para ajudá-lo era desconfortante, como se tivesse poder para ajudar e negasse ajuda, como se uma injustiça acontecesse na sua frente e você olhasse para o lado, fingindo que não viu. – Eles podem não agredirem a ele ou recorrerem a violência física, mas existe uma tortura psicológica no que eles fazem para Calum.
—Eu sei, querida – disse Andrew. – Mas não podemos fazer nada para ajudá-lo. Infelizmente, dinheiro rege o mundo e os Hood têm muito para comprarem outros. Se iniciamos uma ação judicial sem prova, podemos sem proibidos de ver Calum
—Eu odeio isso – suspirou Julie, encostando-se no banco e fechando os olhos.
—Eu sei – disse o seu pai, apertando sua mão antes de colocar as duas no volante. Segurança em primeiro lugar. – Eu também.
Julie remexeu-se no banco e suspirou, não de alívio, mas de irritação. Ela se sentia... mal por não pode fazer nada para ajudá-lo, nada além de ficar ao lado de Calum. Ela odiava o sentimento de prepotência. Ela odiava não saber o que fazer ou para onde ia ou para onde estava indo naquele momento.
—Pai – chamou Julie depois de um tempo.
—Hum?
—Falta muito?
—Falta menos do que faltava há um minuto atrás quando você perguntou.
Julie nem tinha ficado calada mais um minuto quando o chamou novamente:
—Pai?
—Hum?
—Para onde estamos indo?
—Surpresa – cantarolou Andrew.
—Dica? – sugeriu Julie.
—Surpresas são surpresas e não tem dicas.
—Você só está com medo de que eu possa adivinhar – reclamou Julie, cruzando os braços. – Por que você me trouxe afinal? Não estou fazendo nada aqui!
—Porque você ficaria me ligando a cada segundo, dizendo que não está fazendo nada, como agora, e eu disse a sua mãe que cuidaria de você hoje.
—Cuidar de mim – zombou Julie. Ela não conseguia pensar em um eufemismo maior. — É serio?
—E ela estava com medo que você bebesse todo álcool que encontrasse em casa
—Foi uma vez! – exclamou Julie, arregalando os olhos. – Apenas uma vez! E eu só bebi porque não tinha o que fazer em casa. Você saiu com Luke e Calum, mamãe tava na escola trabalhando... Eu bebi porque me senti solitária. — Andrew a olhou cético e, a contragosto, Julie completou: – E porque eu estava curiosa sobre o gosto.
—Liz desconfia que você está bebendo um pouco cada dia – continuou seu pai, jogando verde.
—Eu possa estar um pouquinho viciada naquele vinho suave – confessou ela. – A culpa não é minha se ele é doce.
—Você beberia tudo de novo se estivesse lá, não é?
—Só se Calum não aparecesse... Espere, você não pode fazer isso! – reclamou Julie. Andrew a olhou inocente, como se perguntasse "fazer o que?" – Perguntar calmamente e me influenciar a responder!
—Não tem o que eu fazer aqui também – disse Andrew, olhando para um lado e para o outro antes de mantê-los fixos na frente. — Só podemos conversar.
—Não sobre meus vícios alcoólicos – assinalou Julie.
—Você sabe que precisaremos falar sobre Agatha em algum momento, não sabe? – questionou Andrew sem perder o fio da meada, como se esperasse isso desde o começo. Julie tinha certeza que ele esperava esse momento desde que entrou no carro. Ou desde que ela nasceu, também era provável.
—Um momento que não será agora – respondeu Julie, virando-se para o lado oposto ao dele e encostando a cabeça no banco com os olhos fechados. – E eu sempre posso dormir.
Apesar do que muitos imaginariam, Julie não gostava de dormir. Ela não apreciava o fato de apenas deitar numa cama, diminuir as funções básicas para as mais vitais e... dormir. Fazia-a se sentir uma inútil. Mas qualquer coisa para não conversar sobre Agatha. Conversar sobre Agatha – lembrar que foi amiga de Agatha por tanto tempo – a fazia parecer uma idiota suprema, e Julie preferia ser inútil a idiota.
—Certo. Você ainda não está pronta para conversar, eu entendo – assentiu Andrew. – E eu também dormiria para passar o tempo se não precisasse dirigir.
—Então o local é longe? – questionou Julie, virando-se num rompante, não disposta a perder uma dica grande tão facilmente.
—Se você quer conversar...
—Não! Foi uma recaída, eu vou dormir, eu juro – prometeu Julie, voltando-se para sua posição original de dormir. – E só acordar quando chegar ao nosso destino.
—Hum, sei — disse ele e começou a cantarolar e bater os dedos no volante no ritmo, como se quisesse ajudá-la a dormir.
Andrew sempre cantarolava para Julie e Luke desde que eles eram pequenos, era meio que uma canção de ninar nem um pouco melancólica. Ela era animada, com vários "taran, ran, ran, ran, ran-ran" como se fosse uma melodia de cancan, e Julie amava cancan...
—Pai? – chamou Julie, já sonolenta. Aquela canção era... milagrosa.
—Você não iria dormir?
—Hum, é só que...
Julie nunca sabia como começar a falar de sentimentos. Momentos sentimentais a faziam se sentir idiota e constrangida por estar sendo idiota, e mais idiota ainda por se sentir constrangida. Felizmente, seu pai a conhecia.
—Eu sei, querida – disse ele, colocando a mão na cabeça dela e alisando-a rapidamente antes de deixá-la ir. – Eu também sinto muito, mas...
—Calum é como fosse meu irmão – disse ela.
—Tenho certeza que ele sente o mesmo.
—E eu quero que ele seja feliz e supere Malia.
—Ele não vai su..
—Não superar do tipo esquecer dela, mas aceitar que ela se foi, que não foi culpa dele ela ter morrido.
—Sim – concordou Andrew. – Ele vai e você estará ao lado dele. Você e Luke.
Julie sorriu, ela acreditava nele. Ela acreditava em Andrew mais do que si mesma, mais do que em qualquer pessoa, mais do que... Bem, ela acreditava em seu pai tanto quanto em seu irmão. Era difícil dizer em quem mais confiava quando os dois se importavam tanto com ela, quanto amavam mais do que eles mesmos, quando fariam qualquer coisa para vê-la feliz, quando não mentiam para ela... Não que sua mãe não quisesse nada disso para ela – Julie sabia que Liz queria tudo isso e muito mais, que amava e todo resto – mas Julie não colocaria a mão no fogo por sua mãe enquanto ela mentia tanto. Julie quase nunca sabia dizer quando Liz falava a verdade ou mentia e ela odiava isso.
—Ah, e mesmo que não adotemos Calum – disse Andrew, tardiamente – ele será como um filho para mim.
Julie teria discordado e corrigido o tempo verbal de seu pai se já não estivesse dormindo; Julie teria reclamado e dito que esse tempo verbal sugeria que algo iria acontecer e Calum era como um irmão para ela e nada entre eles iria acontecer; Julie teria rido do seu pai e lhe diria que ele errou, que pela primeira vez Andrew Hemmings não fez uma previsão certa; Julie teria explicado ao seu pai que será era futuro e não presente — às vezes seu pai falava assim, como se fosse estrangeiro e aquela não fosse sua língua de origem e não soubesse como conjugar os verbos corretamente... Mas ela apenas dormiu.
Julie ouviu o que Andrew disse e talvez alguma parte do seu cérebro tenha registrado aquela informação para mais tarde — Julie não teria um mais tarde, ela não sabia – mas ela estava na primeira fase do sono (acordada, ouvindo, mas ainda sim dormindo) e não reagiu. Julie apenas dormiu.
E ela teria dormindo por mais tempo, aproveitando seu sono – e sonho – caso seu sonho não houvesse se transformado num pesadelo e feito-a se sobressaltar.
Seu sonho que tinha valsa, luar, príncipes e magia. Seu sonho que era como se ela estivesse no corpo de alguém, sem poder controlar, apenas olhando tudo aquilo por uma visão que não fosse a sua sem poder reagir, quase como se fosse um cântico de natal da Barbie. Seu sonho que se tornou rapidamente num de terror quando uma casa pegou fogo e a mãe dela – não dela de Julie, dela a garota que Julie possuía – estava dentro. Seu sonho agora pesadelo que a garota – seu eu que não era Julie (era bom deixar claro) – apenas deu as costas e a deixou queimando. A casa... A mãe... Tudo.
Seu pesadelo que Julie acordou de repente.
E que entrou rapidamente em outro.
Ainda assustada pelo sonho igual a pesadelo, com os nervos sensíveis, Julie se assustou com o caminhão que vinha diretamente em direção ao carro que estava, saindo da sua própria pista, e gritou... E depois ela não entendeu o que aconteceu.
Tanto coisa aconteceu ao mesmo tempo que Julie não sabia o que realmente acontecia. O carro desviou-se para o lado, tombou na ribanceira e capotou; o vidro do carro estourou. Antes? Depois? Do que? O caminhão virou-se para o outro lado com tanta rapidez que também tombou, mas nada tão grave. Ele não desceu girando, não se amassou, se quebrou, não jogou os passageiros para fora ou os agitou dentro até que ultrapassem o vidro... Foi aí que o vidro quebrou?
Julie foi jogada para fora... E não sabia o que acontecia com seu pai, apenas que ele não estava ao seu lado. Ela estava só. Ela continuou só por muito tempo, esquecida... Ela não se lembrou de nada. Ela não se lembrou de ter sido encontrada, de ter entrado numa ambulância, levada a um hospital, de seus ficarem ao seu lado. Ela não se lembrava de ter visto seu pai morrendo. E o que Julie lembrava não fazia sentido.
Ela lembrava de ter chorado, soluçado, clamando por seu pai. Ela lembrava de não sentir nada e estar com medo por isso; de sentir algo sobre sua perna – Julie tinha tocado algo duro quando tentou se sentar, mas ela não sentia nem um peso....
Julie não conseguia movimentar as pernas e não sentia nenhuma dor. Ela não sentia nada da cintura para baixo. Ela sentia as mãos molhadas de algo viscoso e um cheiro metálico, ela sentia um cheiro de borracha queimada, ela sentia as lágrimas que deslizava pele seu rosto, mas ela não sentia as pernas.
Julie tentou se sustentar sobre as palmas da mão e sentiu algo doloroso, uma ardência, mas ela a ignorou – ela não era fraca e tinha coisas mais importantes para se preocupar do que feridas nas mãos – e apoiou-se nos cotovelos também ralados e olhou ao redor.
Tudo... Agora era nada.
Não havia nada de carro, só destroços espalhados.
Não havia nada de luz, só escuridão.
Não havia nada de silêncio, só algo farfalhando, estrelando... Como madeira queimando.
Não havia nada de seu pai.
—Pai? – chamou Julie, novamente, hesitante.
Ela podia ficar sem... Sem qualquer coisa, menos o seu pai. Ele não poderia ter morrido. Não ele, não Andrew Hemmings, não o seu pai.
—Ei, preciosa – disse suavemente uma voz e depois Julie sentiu-se sendo arrastada e uma mão no seu cabelo, tentando acalmá-la. – Você está bem? – perguntou seu pai.
Julie queria rir aliviada, mas começou a chorar, soluçando e tremendo. Nada doía. Tudo doía. Ela não entendia nada que acontecia, só que algo acontecia e que aquela pergunta era tão errada. Julie odiou essa pergunta, como nunca odiou nada nem ninguém antes. Ela não estava bem. Seu pai não estava bem.
—Pai – chorou Julie, tentando olhá-lo, mas não o vendo. Tudo era escuro, tudo era preto, menos o que era vermelho. – E-eu não estou sentindo as pernas e...
—Estará tudo bem daqui a pouco – prometeu ele, enxugando suas lágrimas. – Você só precisa saber que eu te amo. Você e Luke e sua mãe. E-e diga a Liz que eu não... q-que eu a amo. E sempre vou amá-la.
—Por que você... Você que vai dizer a ela! – exclamou Julie, não entendendo porque ele falava assim.
Andrew se comportava como se fosse que ele que estivesse com um buraco na barriga, saindo sangue, sangue, sangue, muito sangue... E apesar de todo esse sangue, nenhuma dor o acompanhava. Julie se sentia fraca, cansada, mas não dor... E a falta de dor sempre era um mal sinal. Ela pressionava as mãos contra a ferida na barriga, fez tanta pressão quanto pode, mas elas só ficaram manchadas do vermelho viscoso. Nem a pressão a fez sentir dor; nem quando suas mãos foram substituídas pelas do seu pai, que apertou-a com mais força; nem quando o vermelho agora estava nas mãos dele, Julie sentiu dor.
—Estará tudo bem daqui a pouco – prometeu Andrew novamente.
E por mais improvável que isso fosse, Julie continuou acreditando nele. Ele não mentiria, não o seu pai, não em um momento importante, não quando ela estava a beira da morte. Ele não a deixaria morrer numa mentira.
—Não me venha com o papo de que... – tossiu Julie, sentindo um gosto de sangue na boca. (Devo ter tido alguma hemorragia interna, pensou Julie com base nas séries policiais e hospitalares que assistia.) E completou sem forças: – Que quando eu morrer vou para um lugar melhor.
—Eu não sei – sorriu seu pai e Julie viu isso. A luminosidade. E ela pode imaginá-lo dando de ombros. Ela pode sentir seu coração apertar e as lágrimas descerem com mais vontade pelo seu rosto. — De qualquer jeito, você não irá descobrir.
—Sem mentiras, papai – lembrou Julie, fracamente, sem entender como continuava acreditando nas palavras dele. Seu pai devia ser um mentiroso tão bom quanto sua mãe, pois Julie não viu ou sentiu que ele mentia.
—Diante do ar, da água, da terra e do fogo – cantou Andrew, alisando seus cabelos. – Meu fôlego é seu, meu sangue é teu, minha carne é a sua carne, meu brilho é teu brilho.
Julie fechou os olhos e ficou feliz ao saber que seu pai estava bem e que ele estava com ela, que não estava sozinha como imaginou. Embora ficou surpresa ao perceber que seus últimos minutos vivos seria com ela delirando, porque ela sentiu umas coisas estranhas. Estranhas estranhas, estranhas do tipo que nem bebendo muito conseguiria imitar os resultados.
Estranhas como alucinar ao ouvir algo e relacionar a outra coisa, como, quando seu pai disse "meu fôlego é seu", Julie acreditou que sentiu um sopro. Um vento que via de todo lugar. Um ar que a envolveu e a fez respirar. Respirar que era uma função básica, mas que não parecia ser uma reação involuntária do corpo. O que era forçado agora era leve. Seu peito era leve. Julie se sentia leve.
Em "meu sangue é teu", os dedos melados de Andrew a tocou no rosto, quase como fizesse "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" – ou o que ela achava que fosse esse sinal, Julie estava quase crente que viu o padre fazer isso no único dia que foi a igreja – tocando-a primeiro no meio da testa, depois numa bochecha e depois na outra.
Nas próximas palavras, "minha carne é sua carne", Julie sentiu sua própria carne sendo cortada. Andrew tinha de alguma forma cortado-a – talvez com um dos muitos pedaços de vidros quebrados ao redor? – a palma da sua mão, um rápido e limpo corte que nem fazia diferença com todo o sangue que ela perdia. O que era um corte feito pelo próprio pai quando você já sangrava tanto? Não era como se fosse fazer alguma diferença.
Embora quando ele entoou "meu brilho é o teu brilho" e apertou a própria palma da mão cortada contra a dela, Julie pensou que talvez fizesse alguma diferença. Os olhos do seu pai perderam um pouco do seu próprio brilho, como se percebesse que nada que fizesse iria fazer alguma diferença, por mais louco ou imprudente ou simplesmente lunático que fosse.
Mas Andrew não parou... de fazer o que quer que estivesse fazendo.
Ele apertou a mão mais forte contra a da sua filha, quase como que se quisesse que o sangue e a carne deles se mesclassem, virassem apenas uma... E pressionou um beijo na testa dela, suavemente; tão suave que pareceu um sopro – o sopro da vida dele. E depois pousou as mãos deles ainda entrelaçadas em cima do peito dela, sentindo os batimentos cardíacos cada vez mais lento, desejando que aquele fosse o seu coração e não o da sua filha;
Ele não queria fazer isso, Julie sentiu, mas também não tinha outra escolha. E a última parte saiu hesitante, quase como se tivesse sido criada na hora e não soubesse como adequar a melodia:
—Meu coração é teu coração e meu poder é seu.
E depois disso...
Sempre depois disso...
Julie acordava.
E pensava no quanto aquilo parecia algo que sua mente criou para lidar com tudo que não entendia antes de se virar para o outro lado, fechar os olhos e dormir novamente. Não importava o que tinha acontecido, se era ou não uma criação da sua mente, nada iria mudar o fato de que seu pai estava morto.
Só que aquela vez foi diferente. Daquela vez Julie percebeu que aquela não era sua cama; ou seu teto estrelado; ou seu irmão adorável. Aquela era uma cama muito pequena para uma pessoa; um teto muito sujo; e aquela cama era muito, mas muito pequena para duas pessoas. Como ela tinha acabado ali?
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