Isso não é...
46 Isso não é silêncio.
Notas iniciais
I wanna lend you my coat, one that's as soft as your cheek
So when the world is cold, you'll have a hiding place you can go
(Eu quero te emprestar o meu casaco, um que é tão suave como a sua bochecha
Então, quando o mundo estiver frio, você vai ter um lugar para ir)
46-Isso não é silêncio. (Isso é tipo UAU!)
Sexta-feira, 13 de março
Pontos fracos sempre eram algo que você era ruim, que você sentia-se despreparado não importa o quanto tentasse corrigir, mas... Sua dificuldade em ler não era o ponto fraco de Ashton. Ele era ruim com letras, sentia-se despreparado quando via todos aqueles rabiscos se movendo, contudo – surpreendentemente – Ash não se sentia prejudicado por isso. Agora.
Quando era pequeno Ash odiava esse fato e recusava-se a fazer algo para melhorar, não contribuindo em nada em suas consultas, refugiando-se nos seus desenhos. Desenhos não tinham letras; desenhos não faziam seus olhos dançarem; desenhos era muito fácil, mesmo para uma criança disléxica.
Ash não se sentia prejudicado agora por sua dislexia, não achava que ela era um dos seus pontos fracos, porque por causa dela ele tinha praticado tanto e hoje era um ótimo artista. E pontos fracos não viam com recompensa. Mas com silêncio a coisa era totalmente diferente.
Ash era ruim com silêncios e sentia-se despreparado, não importava o quanto tentasse preenchê-lo. Ele não sabia lidar com silêncios, não sabia como agir num silêncio. E, com toda certeza, silêncio não era o que Ashton esperava de Julie em nem uma situação.
Desde que Calum havia sido entrego em casa, ela manteve-se calada. Ashton também. Ele estava surpreso o bastante para poder falar; surpreso o bastante para não saber o que falar. Julie, ela... ela…
Uau, pensou Ashton novamente.
A primeira vez que ele pensou isso, Ash estava muito bem aquecido no sofá contra a tempestade que acontecia lá fora. Camadas e mais camadas de colchas sobre ele; chocolate quente e... o colo da sua mãe. Ash não era um filhinho de mamãe, mas ele não iria perder a oportunidade de aproveitar a companhia dela.
Se Anne queria fingir que ele ainda era uma criança, ele fingiria que era uma criança enquanto ela alisava seus cabelos. Ashton fingiria para sempre que era uma criança se pudesse permanecer assim. Havia algo de relaxante naquilo, como se nada pudesse...
—Ashton – chamou sua mãe, empurrando algo no seu ouvido. – Telefone.
—Alô? – murmurou ele, sentindo-se sonolento. E com pena de quem estivesse enfrentando a chuva forte e gelada, ele tremia apesar de estar dentro de casa com o aquecedor ligado.
—A Julie está ai?
—Por que ela estaria aqui? – questionou Ashton, sentando-se subitamente alerta.
—Algum problema? – perguntou Anne, preocupada.
Ashton rejeitar carinho de sua mãe era surpreendente, Julie não está em casa numa reunião de família mais ainda, mas nada foi tão surpreendente quanto Luke ligando para ele após tudo que havia acontecido. Ou o silêncio que se seguiu.
Luke calou-se. Ashton odiava essas pausas silenciosas. O silêncio sempre era a resposta que algo estava terrivelmente errado.
—Qual o problema, Luke? – questionou Ash.
—Julie – respondeu ele, frustrado. – Julie sempre é o problema. Aquela garota... Arg! Ela desapareceu!
—Desa...
—Ela não se preocupa com ninguém!
—Isso não é...
—Na maioria das vezes – admitiu Luke, a contragosto. – Mas hoje ela se superou. O que ela tem na cabeça? Nada, obviamente. Ela pensa em algo, alguém, alguma vez...
—O. Que. Aconteceu? – perguntou Ashton, pausadamente.
Ele nunca que iria acreditar que um dia teria que interromper Luke enquanto ele falava negativamente de Julie. Citar todos os pontos positivos de Julie? No quanto ela era boa e maravilhosa nisso e naquilo? Sim, com toda a certeza sim. Ouvir Luke admitir que Julie era egoísta? Algo tinha acontecido. Algo muito, muito errado.
—Julie desapareceu – sussurrou Luke no telefone, temendo que dizer as palavras tornasse-a real.
—Eu já entendi isso.
—Mamãe disse que está namorando e...
—Liz está...? – Ashton estava sem palavras.
—É. E Julie enlouqueceu e fugiu. De pijama, pantufa e sem sombrinha. E-eu pensei que ela fosse voltar logo, que ela precisava de um tempo sozinha para esfriar a cabeça, mas... Já faz tempo e ela não voltou. Ela não levou telefone, está chovendo e, e se algo tiver acontecido com ela? Então eu pensei “Julie está apaixonada por Ashton, é claro que ela vai procurá-lo”, mas já deu tempo dela ter chegado ai, então... – A voz de caiu para um sussurro. – Ela deve estar realmente no...
—Onde Julie está? – perguntou Ashton, movendo-se apressado atrás de tudo que pudesse precisar. Chaves do carro, guarda-chuva e... Oh, e uma blusa.
—Cemitério.
Ashton parou na entrada do seu quarto. Ele tinha ouvido direito?
—Cemi... Uau.
—Ela vai para lá – afirmou Luke, confiante.
—Certo.
Ashton abriu a porta, pronto para sair, ao mesmo tempo em que sua mãe ordenou:
—Pare ai mesmo, mocinho. Onde pensa que vai a essa hora?
—Julie... – Ashton parou novamente. Ele queria dizer a verdade para sua mãe, forçar Anne a ver quem era sua “filhinha querida”, mas... Não. Ash não poderia. – Julie, ela... Ela saiu de casa e...
—E? – Anne levantou a sobrancelha. Só Julie para sair de casa, ademais nesse frio e nessa hora.
—E precisa de uma carona – disse Ash, parecendo mais uma pergunta do que uma afirmação.
—Por que ela precisa de uma carona há essa hora? Nesse clima?
—Por causa do clima? – tentou Ash. – Chove muito e... Um carro seria bom?
—E a hora?
—Está muito tarde para ficar sozinha na rua? Posso ir agora?
Ashton realmente queria ir agora. Quanto mais tempo demorasse pior seria.
—A verdade.
—Mãe... – reclamou Ashton. – Está tarde, chovendo e Julie está sozinha na chuva. Ela, eu... Eu não posso deixá-la sozinha na chuva. Você me criou para ser um cavalheiro, lembra?
—Vou querer a verdade depois – disse sua mãe, enxotando-o com a mão, como se dissesse “vá, vá, desapareça da minha frente”. – Não demore.
Dando as costas a ela, Ashton correu, entrou no carro, deu partida e... e chegou tarde. Embora achasse que era muito cedo para suspirar de alivio, porque... Uau. Julie estava um bagaço abraçando Calum e chorando silenciosamente.
Ash realmente odiava silêncios e aquilo era apenas o começo, ele sentia.
O silêncio começou novamente após a repreensão de Calum para Julie – foi quando Ash pensou “U-A-U” pela terceira vez. Durante todo o caminho até a casa/mansão dos Hood, Julie apenas ficou em silêncio, encolhida perto de Calum apesar da reclamação do mesmo que ela ficaria toda molhada novamente.
—Ela está bem? – perguntou Ashton, movimentando apenas os lábios para Calum numa placa de pare. Ele olhou-o como se fosse a pergunta mais idiota da vida dele e Ash não teve alternativa além de ficar calado. Em silêncio. Mais. Uma. Vez.
—Você vai ficar bem? – perguntou Calum, olhando-a mais uma vez quando bateu a porta do carro, já em frente a sua casa.
—Calum, Calum – cantarolou Julie, balançando a cabeça em descrença enquanto abria a porta e saia do carro. – Tsc, tsc...
—O que você esta fazendo?
Podia não estar mais chovendo, mas não havia razão para Julie descer ali. Calum não queria que ela descesse ali. Julie iria ficar na casa dos Irwin, não dos Hood, então por que ela estava descendo ali?!
—Você sabe como odeio essa pergun...
—Não é a mesma – discordou Calum antes dela terminar de falar. – Eu não perguntei se você está bem, eu perguntei se você vai ficar.
—Seu canalha! – exclamou Julie, indignada. Ela era quem usava esses jogos de palavras, ela não era a pessoa que esses jogos eram usados! Ainda mais quando era Calum, mas aquele maldito sabia seus pontos fracos!
—Você não precisa fazer isso – disse Calum, pegando-a de surpresa ao puxá-la para um abraço. Abraços espontâneos sempre eram surpreendentes.
—Fazer o que? – murmurou Julie.
—Fingir que está bem.
—Você está certo – sorriu Julie, minimante. – Mas preciso acreditar que ficarei melhor.
—Uau! – disse Ash, surpreso para si mesmo.
—Essa frase foi boa, não foi? – questionou Julie, virando-se para ele com um grande sorriso. – Foi tipo... Uau. Impressionante. Você pode enviar para o Luke, Calum? Eu não quero esque... O que? – Calum olhava-a como se ela fosse uma idiota; Julie estava acostumada, mas mesmo assim! – Certo. Então vá embora e me deixe sozinha. Vá para sua casa.
—Pare de drama – disse Calum, pegando-a de surpresa novamente ao colocar as mãos na cintura dela depois de ter sido despachado. – Eu já não estou? – Julie continuou estática (Ele tinha dito o que ela achava que ele tinha dito?) quando Calum beijou-a na bochecha antes de se virar e disse: – Até amanhã.
—Até amanhã – cantarolou ela, sorrindo ao puxá-lo pelo pulso, piscando o olho antes de beijá-lo nos lábios. – Amor.
Uau, pensou Ashton. Ver os lábios de Julie contra os de Calum era algo que ele nunca havia pensado. Mas agora era tudo que conseguia pensar. Os lábios de Julie contra os de Calum. Os lábios de Julie contra os de Calum. Os lábios de Julie contra os de Calum. Os lábios de Julie contra os de Ca... Era difícil tirar essa cena da cabeça! Era difícil suportar o silêncio e o olhar confuso de Calum, pois, aparentemente, ele também não esperava por isso, visto que nem ficou corado – como Julie esperava.
—Ahn... Por que você... – seguindo o olhar de Julie, Calum viu o porquê. Sua mãe na porta de casa. Kora parecia irritadíssima. – Você deveria parar de provocá-la. De me usar para provocá-la – corrigiu-se ele.
—Ela deveria parar de me – frisou Julie – provocar.
—Certo, certo – disse Calum, abrindo a porta e empurrando-a para o banco de passageiro. – Vou enviar a frase para o Luke, ninguém quer que você se esqueça de colocá-la no seu caderno de frases marcantes, mas ligue para ele depois para dizer que ficará com o Ashton. E para Liz.
—Por quê? – reclamou Julie. – Você já vai ligar.
—Você me deve pelo beijo. E nem diga que não foi um beijo – continuou Calum antes que Julie pudesse interrompê-lo. – Você me beijou pensando que seria um beijo que irritaria a Kora, então foi um beijo.
—Sua lógica é a de um perfeito canalha – murmurou Julie. Ela não podia discutir isso agora, não quando não sabia quem ganharia o duelo de orgulho VS orgulho naquele momento. Calum chantageava-a! – Vamos, Ashton.
—Uau. – Ashton não apenas pensou como disse e piscou, acordando. Ele estava surpreso o bastante para não poder falar; surpreso o bastante para não saber o que falar. Julie, ela... ela… — Uau – repetiu ele, devagar, tentando assimilar tudo que havia acontecido. – O que você fez?
—Espero que esse não seja o primeiro beijo do... Ah, espere, é mesmo. Ele beijou Luke hoje. Que cabeça a mi... – Julie parou, arregalando os olhos quando voltava-se para Ash, maravilhada. – Incesto! – gritou ela, agarrando seu braço.
—Oi? – piscou Ash, olhando-a brevemente antes de voltar a encarar a pista.
—Eu beijei Calum, então é incesto. Incesto duplo! Porque eu também beijei indiretamente Luke que beijou Calum!
—Você está doida? Por que fez isso?
—Eu não gosto da Kora – confessou Julie. – Ela também não gosta de mim.
—Isso é razão para sair beijando alguém?! – rosnou ele, apertando o volante até que seus dedos ficaram brancos, sem sangue.
—Foi a única coisa que consegui pensar. Eu não trabalho bem sobre pressão, você sabe! – acusou Julie, dando de ombros. – A pior coisa que Kora pode pensar é em mim beijando seu precioso filho. Tipo, quando éramos pequenos, ela adorava o fato de Calum ter uma garota como amiga, depois nem tanto. Porque ou significava que Calum era traído, gay ou... – Julie parou, avaliando as próprias palavras, antes de balançar a cabeça e continuar. – Em qualquer caso, Kora não gosta de mim, mas... Se o Calum fizer algo mais desse jeito – confessou Julie, virando-se para Ashton com os olhos brilhando e um sorriso que doía as bochechas só de olhar – acho que posso desistir de você e concorrer com Luke por ele.
—Hum, sim, certo. Sonhe. – Ignorando o sentimento de traição, Ash continuou: – Você está bem?
—Eu odeio quando me perguntam isso, você sabe – murmurou ela.
Quem não sabia? Julie estava crente que Ash só tinha perguntado para descontar o fato dela ter dito que iria desistir dele para ficar com Calum, parecia algo que ele faria.
—Responda, Julie.
—Eu sei que mamãe nos ama – disse ela, puxando as pernas para cima do banco. – Eu entendo porque ela não pode, não quer, ficar aqui, mas mesmo assim, é difícil não ficar com raiva dela de vez em quando. E agora ela vem com essa de está apaixonada? Ela não tem tempo para os filhos, mas tem para um namorado? E o que aconteceu com o papai? Ela não o ama mais?
—Liz está namorando não significa que ela não ame mais o Andrew. Acho que ela tem o direito de amar alguém...
—Você está do meu lado ou do dela? – reclamou Julie. – Não estou com você para te ouvir apoiando mamãe. Não preciso que você apoie a mamãe. Eu só quero que você diga que estou certa. Certo?
—Certa.
—Quando eu me... Se eu me casar – corrigiu-se Julie. (Não entendendo o sarcasmo ou ignorando-o?, Ash votava na segunda opção, embora a primeira também fosse possível.) – Eu quero ter a certeza que seja com alguém que eu ame mesmo, que eu tenha certeza que esse sentimento não mudará, alguém que eu nunca conseguirei esquecer. E nem irei querer. Que eu nunca consiga encontrar ninguém para substituí-lo
—Essa é você, Julie. Não sua mãe. Ela não tem o direito de ser feliz?
—Hum,tem, mas é que...
—E isso não significa que ela esqueceu Andrew ou que está tentando substituí-lo. Apenas que...
Ashton nunca tinha se encontrado nessa situação e nunca imaginou que estaria. Dá conselho amoroso a alguém? Ouvir Julie sendo tão romântica assim? Por um momento, ele manteve-se calado, concentrado no caminho a sua frente, quando completou tardiamente:
—Ela encontrou alguém que a faz feliz, então você deve ficar feliz por ela.
—Você parece estranhamente maduro... – murmurou Julie. – Eu me sinto uma idiota sendo repreendida por você. Por Calum até vai, mas por você?
—Não se preocupe, Julie, o Ashton que você tanto gosta está aqui pensando na garota com que ele dormirá hoje. Não se preocupe – repetiu o seu cara, piscando os olhos inocentes. – Eu prometo me comportar mesmo se você me atacar.
—Oh, que diferença – ironizou Julie. – Ashton prometendo não me atacar? Já me sinto segura!
—Pare de ser chata. E Liz está em casa, eu não iria desrespeitá-la na frente dela.
—Se ela não tivesse, você iria?
—Claro que sim – disse Ashton, com seu melhor sorriso. – Se estivesse só nós dois numa casa, o que você acha que iria acontecer?
—Eu não estaria nela.
Ash sorriu. Ele não gostava de silêncios, ele nunca sabia o que dizer, o que fazer em um. Era como se precisasse preenchê-los, mas nunca houvesse o suficiente; um buraco que crescia constantemente. Entretanto...
Ashton gostava de está com Julie. Apenas está com ela. Sem conversa, sem nada. Ele preferiria uma conversa? Com certeza. Mas só o fato de estar com ela tornava as coisas melhores; Ash esperava que Julie sentisse o mesmo e que ele estivesse ajudando-a apenas por ficar ao lado dela. Ele não sabia mais o que poderia fa...
Ele gostava de Julie, percebeu Ashton, sentindo os olhos arregalarem e a boca abrindo-se de surpresa, os nós dos dedos ficando branco pela segunda vez. Ele gostava de Julie mais do que apenas amigos. E... e, assim como aconteceu com o silêncio, aquilo não era tão ruim quanto ele achou que seria.
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