Isso não é...

49 Isso não é escuridão.


Notas iniciais
Descobri recentemente que se você pesquisar por mim - Yuki Kurohime - você vai perceber minha obsessão por esse nick. Eu fiquei tipo "Uau". Então, se você não fez isso ainda, faça! Stalkear os outros - digo isso com base na minha auto-stalkeação - é tão bom, embora o facebook não é meu. Ah, e eu tenho um blog. Descubra! Depois de ler o capitulo. Jet Black Heart - https://youtu.be/K0X7u_mmREE

Everybody's got their demons

Even wide awake or dreaming

(Todos têm seus demônios

Bem acordados ou sonhando)

49-Isso não é escuridão. (Muito escuro para ver?)

Três anos atrás

Escuridão. Tudo que Julie via era escuridão. Não importava para onde ela olhasse, tudo que conseguia enxergar era nada. Nada e algo vermelho brilhante atrás dos seus... Ah, demorou um pouco para ela entender que estava de olhos fechados e a luz brilhava através de suas pálpebras fechadas. Mas abrir os olhos era mais difícil do que Julie lembrava-se ou esperava.

Acordar-se no dia a dia era difícil, contudo aquilo não era apenas difícil, era quase uma tarefa hercúlea. Era como se suas pálpebras tivessem sido coladas com super bonder, ou com algo tão malditamente resistente. Ou talvez ela apenas estivesse muito cansada. Ou com as pálpebras dormentes.

Seria a primeira vez que suas pálpebras estavam dormente, mas para tudo se tem a primeira vez. E não seria realmente surpreendente. Julie já tinha acordado antes e encontrado seu braço todo dormente, sem conseguir se mexer – ela tinha até pegado-o com o outro e o viu cair, quando o soltou, embora tentasse mantê-lo estável – contudo agora não era apenas o braço. Julie sentia cada músculo do seu corpo, cada pequena parte dela, pesado, dormente. Mas os seus sentidos ainda funcionavam.

Que cheiro era aquele?

E aquele bip bip irritante?

Ou que tal aquela sensação macia nas pontas dos seus dedos e o sentimento que algo apertava seu rosto?

Julie estava odiando aquele dia e tinha o sentimento que ele seria longo... Era dia? Julie não... Qual foi a última coisa que ela lembrava-se?

Era, era, era... Os bip bip começaram a ficar mais alto, a capacidade de respirar mais difícil – mais difícil do que já era desde que ela acordou. Ela... Ela não se lembrava. Seus pensamentos estavam embaralhados; realidade e fantasia se misturavam; a verdade era algo que Julie não sabia se podia lidar. Ela lembrava-se de ter tido um sonho ruim, de ter acordado, de ter visto um clarão...

Morte era o único acontecimento que Julie conseguia pensar que tinha todos esses requisitos. Mas ela não conseguia acreditar que a morte seria tão dolorosa. A única outra possibilidade era que tudo era um pesadelo, que não havia acordado do primeiro sonho – sonho dentro de um sonho era... uau – e que agora estava num pesadelo noturno.

Mas pesadelos noturnos não tinham cheiro de alvejante, som de uma máquina monitorando seu coração ou vinha com uma máscara de oxigênio colada ao seu rosto. E Julie não dormia de luz acessa.

A próxima probabilidade, a menos provável, era a que acontecia: ela estava num hospital.

Droga, xingou Julie. Ela odiava hospitais. Odiava tomar remédios. Odiava estar doen... Ela não estava doente, então por que estava num hospital? Não fazia sentido. Ela estava bem... Ela não estava bem, lembrou-se Julie, sentindo os olhos arderem e o nariz coçar, sem entender o por quê.

Você está bem?, Julie ouviu, contudo o som não veio dos seus ouvidos, mas de suas lembranças.

Você está bem?, perguntou seu pai. E ele estava tão perto que Julie pode ver nos olhos brilhantes dele estrelas, como se um mapa astrológico tivesse sido sobreposto as íris azul celeste.

Julie queria balançar a cabeça, dizer que sim, mas o que saiu foi um choramingo de dor dos seus lábios, da sua garganta arranhada e desidratada.

—Pai...

Apenas uma palavra saiu e Julie mal a ouviu, pois não tinha forças, mas não existia diferença, pois seu pai não iria responder aquela pergunta. Não tinha como ele responder aquela pergunta, porque aquilo não acontecia ou era uma lembrança, era simplesmente um desejo de que ele estivesse vivo, porque... Porque seu pai tinha morrido e ela estava viva.

E, com esse pensamento, Julie Hemmings abriu os olhos.

A primeira coisa que Julie sentiu foi a cegueira – suas pupilas tinham dilatado pela luz e tudo brilhava num tom vermelho, como se seus olhos ainda estivessem fechados.

A segunda coisa foi suas mãos retirando a máscara, depois a agulha da sua veia, a colcha das suas pernas.

A terceira coisa não foi o que Julie esperava. Ela esperava sentir o chão gelado, mas não o chão gelado com a cara, porque ela não sentia as pernas.

A quarta coisa foi algo que Julie não sentiu. A quarta coisa foi a confirmação que suas pernas não funcionavam.

A quinta coisa foi o desejo de tudo aquilo ser um pesadelo – um sonho dentro de um sonho que foi sonhado? – que ela acordaria e estaria sentada ao lado do seu pai no carro, mas...

A sexta coisa nunca veio, nem veria. A sexta coisa não existia. A quinta coisa era a última.

Pensar de forma objetiva em crises era o ponto alto de Julie. Quando Luke tinha quebrado o braço, fora ela que o levou para o hospital. Quando ela tinha quebrado o braço, fora ela mesma que ficou calma e levou a si mesma para o hospital, com um Luke preocupado a tira colo – embora quisesse matá-lo; seu irmão a irritava mais do que um braço indo para o lado errado.

Pensar de forma objetiva era a única coisa que Julie conseguia pensar em fazer naquela situação, mas não era fácil.

Ela não podia se levantar? Não tinha como voltar a se deitar na sua calma não confortável? Aquele chão seria seu até que alguém aparecesse para ajudá-la e lhe dar algumas respostar? Então... O que ela poderia fazer?, pensou Julie.

A melhor coisa a fazer seria encontrar uma posição confortável. Ficar esticada no chão não era o que Julie chamaria de aproveitar, mas ela jogaria com as cartas que tinha. E encontraria uma posição mais confortável. No chão. De um hospital.

Não importava, ela suspirou, descansando sua cabeça pesada nos seus braços entrelaçados. O único lado bom em não ter desenvolvido um corpo, de ser a tão chamada tábua, era poder ficar de barriga para baixo naquele momento. Julie duvidava que tivesse forças para virar. Ela ao menos esperava que, como estava num hospital, o chão fosse limpo. O cheiro de alvejante dizia que sim.

—O que você está fazendo? – alguém perguntou, forçando-a a levantar a cabeça.

Julie sorriu, sentindo a necessidade de dizer que aquele cheiro era horroroso, mas apenas fechou olhos. Ela não queria falar, por que...

Que droga!, Julie gritaria se abrisse a boca.

Que droga!, Julie choraria se tentasse ser forte.

Que droga!, Julie quebraria, porque ela não conseguiria.

Que droga!, Julie não diria.

—Julie

Foi apenas um sussurro. Tão longe, tão perto. Que via de todo lugar, que não tinha lugar, que fez com que Julie abrisse os olhos e a boca.

Mamãe. A palavra estava na sua boca antes mesmo dela entender quem era aquela pessoa na sua frente, mas ela a engoliu de volta.

Uau, pensou Julie. Ela não reconhecia nem mais a voz da sua mãe. Ou a aparência dela, mas era ela. Quem mais faria o seu coração doer daquele jeito? Quem mais andaria em círculos roendo as unhas, olhando-a preocupada?

—Ei, querida – sussurrou Liz, novamente, como se temesse machucá-la. – Você está bem?

Dando um passo em direção a ela, com a mão esticada para tocar seu cabelo, o bip bip que Julie pensou ter acabado iniciou-se, a máscara que não estava mais no seu rosto fazia falta...

Ela não podia.

Julie virou para o lado e fechou os olhos.

—Eu sei que você está acordada.

Julie nem sabia que estava acordada até que ouviu aquela voz. Tudo estava tão calmo, seu corpo tão pesado, que Julie pensou que estivesse na primeira fase do sono. Ouvindo, mas não vendo ou se mexendo.

—Vá para lá – disse seu irmão, empurrando-a. Julie abriu os olhos e viu o idiota. O idiota do seu irmão que tinha dito de propósito. – Ah, é mesmo. Você não pode. Agora gire.

Julie revirou os olhos. Idiota, pensou ela.

—Vamos lá, você não sabe o quanto eu preciso de uma cama. E não pense que seu irmão mais velho é um idiota.

Julie virou, sentindo a necessidade de esconder o sorriso que ameaçava aparecer no seu rosto. Luke era um idiota. Luke era seu irmão. Luke deitou ao seu lado, ajudando-a a encontrar uma posição boa para ambos, forçando-a a se deitar com o rosto contra o peito dele.

—Eu precisava disso – suspirou Luke, traçando padrões aleatórios nas suas costas. – Eu sei que você também precisa disso – confessou ele.

Papai, escreveu Julie nas suas costas, querendo que ele entendesse. Desejando que ele não fizesse.

—Papai – repetiu Luke, sentindo seus olhos marejarem por eles dois. – Você ficou em coma por uma semana. – Julie o empurrou, ela não queria ouvir o resto. Luke não a soltou. – Papai foi enterrado. – Julie o puxou de novo, ela não queria ficar sozinha. Luke apertou-a, apertando-a ainda mais quando sentiu "eu" ser desenhado na sua pele. – Você. Você – repetiu seu irmão – Você não está falando desde que acordou. Você teve cortes superficiais pelo corpo e... – a voz de luke travou, sentindo o forte aperto que Julie dava na sua perna. – Não tem nada de errado com suas pernas. Bem, algumas cicatrizes, mas nada que você não possa lidar. Quando você foi... salva... – Ambos pararam. Parecia errado dizer essa palavra; parecia errado ouvir essa palavra – Encontrada – corrigiu-se Luke. – Havia algumas coisas em cima das suas coxas, mas os exames não mostraram nada. Os médicos pensaram que você estava, que sua mente estava, criando o problema. Que você achava que não podia mover as pernas porque deve ter visto, sentido, suas pernas presas, mas você não reagiu quando estava dormindo também... E ninguém tem a mínima idéia do que fazer. Ninguém tem a mínima idéia do que aconteceu. Do que vai acontecer. Ninguém nem sabia se você acordaria. Eu entendo que talvez você não queira falar, não queria ouvir isso agora, mas... Eu estou feliz por você está aqui, Julie – disse Luke, apertando-a forte. – Eu te amo.

Julie mordeu o lábio, indecisa do que fazer. Ele estava certo. Como sempre seu irmão estava certo sobre ela. Julie não queria falar. Julie não queria ouvir sobre o fato de estarem felizes por ela estar viva enquanto seu pai não estava, mas... Ela desenhou um coração nas costas de Luke.

Julie abriu a boca para bocejar quando viu Michael na porta, encarando-a. Ela levantou o dedo do meio para ele.

—Uau, Julie – assobiou Mike, deixando a hesitação na porta e entrando como se fosse o dono do quarto. – Nunca pensei que você cairia tanto.

Julie mostrou-lhe a língua.

—Você pode guardar ela para o beijo de cinema que vou te dar quando sair daqui.

Mais um dedo do meio.

—Sério – disse ele, puxando a cadeira ao lado dela. – Vamos fazer uma aposta. Se você sair daqui, eu te namoro.

Julie bufou. Michael considerou como uma vitória e sorriu.

—Certo. Que tal: quando você sair daqui vamos toda convenção de rpg juntos... Eu sei – disse ele, sorrindo pela expressão cética dela. – Eu saio no lucro. O que acha? Ah, é mesmo, você não está falando. Trouxe isso para você. – Michael ofereceu um retângulo embrulhado. Julie não o pegou. – Pegue, não é todas as cartas de amor que escrevi para você. Ainda.

Desconfiada – e muito curiosa para negar – Julie rasgou o papel com cuidado.

—Isso não vai te matar – disse Michael, não recuando pelo olhar afiado dela. – Sim, eles falaram que não era para que eu dizer nada relacionado a morte, mas sabe o que? Acostume-se – levantou-se ele, caminhando para a porta. – E fale.

Julie sentiu brevemente o quadro branco na sua mão e o piloto que o acompanhava antes de jogá-lo no seu amigo. Ela queria um dos quadros verdes que vinha com giz, não um daquele branco. Já havia muito branco a sua vista.

Ficar muito tempo num local tornava Julie uma expert em todas as coisas daquele quarto. Ela não precisava nem abrir os olhos para saber o que tinha ali, ela poderia andar de olhos... Não. Ela não poderia. Mas ela poderia dizer que havia alguém na porta do seu quarto. Revirando os olhos para o teto, Julie levantou o seu quadro branco recém utilizado que tinha apenas uma palavra,que sempre teria apenas uma única palavra se alguém não lhe arranjasse um apagador, porque alguém tinha esquecido-se de comprá-lo – embora ela estivesse bem com isso.

Saia, Julie tinha escrito. Era a palavra universal da vida atual dela. Não que todos precisassem desse incentivo. Não que alguém a ouvisse

É um médico? Ele entrava antes que Julie tivesse a chance de jogar o quadro. Ela não ficava de plantão, esperando visitas.

É a sua mãe? Liz olhava-a como se tivesse sido esfaqueada antes de entrar e olhar para Julie como se ela fosse a culpada por sua dor.

É seu irmão? Luke levaria o quadro até o banheiro, resmungando sobre o mau humor dela e só saia de lá depois que a palavra tivesse sido apagada – Julie sempre a escreveria novamente depois.

É seu bff? Calum odiava esse termo e Julie gostava disso, de provocá-lo, e ele reclamava, sorrindo, provocando-a em retorno.

É Michael? Julie jogava o quadro nele antes que ele pudesse cruzar a porta.

É Demi? Seria a primeira vez.

Quando nada aconteceu, nem uma reclamação ou questionamento por não ter um quadro jogado na sua direção – Michael era um masoquista e gostava de relembrar Julie do seu sadismo – Julie levantou a cabeça.

—Soube que você não está falando – murmurou Demi, hesitando sobre os seus pés.

Julie levantou o quadro. Demi não a visitava durante todo o tempo que ela estava ali e agora vinha com essa conversa, como se estivesse acusando-a? Julie apontou para o quadro com vontade. E jogou o piloto quando ela não fez nada – Demi nem entrou nem saiu, continuou onde estava.

—Eu posso te ensinar libras – ofereceu Demi em resposta ao quadro pronto a ser jogado.

Julie o abaixou, devagar.

Julie observava seu pulso quando uma questão se sobressaiu de sua mente: O que aconteceria se a agulha do soro soltasse e entrasse na sua veia? Ela iria direto para o coração? Doeria antes que...

Não. Julie parou. Sua mão direita pairando sobre se um pulso esquerdo.

—Julie – chamou Calum, entrando no quarto cauteloso. – O que você está fazendo?

Olhando do pulso para Calum e de Calum para o pulso, Julie começou a se sentir tonta e fechou os olhos.

Respirando devagar, ela baixou a mão até o pulso, mas... Sentiu a mão de Calum na sua, entrelaçando-as juntas.

—É difícil? – perguntou Calum, baixinho. – Dói, não é?

Julie balançou a cabeça, sentindo seus olhos lacrimejarem e sua própria fraqueza, que amargava sua boca.

—Isso quer dizer que você está viva – disse Calum, apertando sua mão. – Que você o amava bastante. E isso – ele apertou sua mão novamente – mostra que você não está sozinha. Você esteve comigo, Julie, antes. E agora estou aqui por você. Para o que der e vier.

Mas..., Julie queria dizer. Ela não...

—Malia – disse Calum, sentindo seus próprios olhos lacrimejarem. – Ela me disse uma vez que o caminho para felicidade seria longo, mas valeria à pena. Que existia muitas dificuldades a vista e podia ser que, no fim, você não alcançasse o que esperava, mas isso não significava que é ruim. Que muitas coisas aconteceram no passado, mas não se pode temer o futuro. E, que no fim do arco-íris, sempre tem um pote de ouro.

Julie queria rir. Aquilo era algo que Malia diria. Aquilo não seria as únicas coisas que ela diria. Malia a bateria e diria o quanto ela era idiota. Malia a mandaria gritar até ficar rouca e mandar todos se lascarem. Malia choraria por ela e com ela. Mas... Malia também não estava aqui.

—Isso foi algo que Andrew disse uma vez a ela – contou Calum, olhando para as mãos deles. Julie também olhou. – Antes... Antes que... Que ela morresse. E você precisa encontrar o pote de ouro, Julie.

Calum segurou a mão dela até ela adormecer.

Pela primeira vez desde o acidente, Julie acordou sozinha. Não havia ninguém falando com ela, ninguém havia entrado no quarto e feito-a abrir os olhos, ela apenas queria... Ver.

Julie estava cansada de toda aquela escuridão.

Julie estava cansada de ficar com os olhos fechados, de suas pálpebras brilhando vermelho, do bip bip e do cheiro de alvejante.

Julie estava cansada de toda aquela escuridão no seu coração.

Pela primeira vez desde o acidente, Julie queria sair daquele quarto. Ela não queria falar sobre o que tinha acontecido, mas ela não queria estar ali dentro. Ela não estaria pronto para pensar sobre o seu pai ali – seria como se sujasse a imagem dele, com se ela desmerecesse a morte dele e a vida dela.

Pela primeira vez desde o acidente, Julie achou que era hora de descansar indefinidamente daquela depressividade.

Pela primeira desde o acidente, Julie quis viver.

Notas finais
Não sei se acharam dramático ou o quê, as vezes exagero no drama sem sentindo, espero que esse não seja o caso.