Isso não é...

53 Isso não é errado.


Notas iniciais
Aqui está o capitulo! Cedo, na minha opinião. É o que? Quinze para nove da noite?! Minha nossa, eu deveria estar dormindo para acordar depois da meia noite! A música é Am I Wrong - https://youtu.be/bg1sT4ILG0w

So am I wrong?

For thinking that we could be something for real?

(Então estou errado?

Por pensar que poderíamos ser algo de verdade?)

53-Isso não é errado. (Errado, certo, diferença?)

Quinta-feira, 19 de maio.

—Mãe – disse Julie.

—Filha – disse Liz. – Espere, é você mesma?

Julie conseguia visualizá-la afastando o telefone para olhar o seu nome na tela; ela não a culpava. Julie não ligava para Liz desde... Ela não conseguia se lembrar. Sempre que precisava ligar para alguém, essa pessoa era o seu pai – e ele sempre estava disponível para ela, era como se soubesse que Julie precisaria dele antes mesmo dela precisar, porque sempre tinha uma hora vaga onde deveria ter uma consulta.

Às vezes, Julie sentia-se mal por isso: estar tomando o tempo de alguém, estar impedindo que seu pai salvasse alguém, que Andrew fosse o maravilhoso médico que era, mas... Julie era egoísta. E, antes de tudo, ele precisava ajudá-la a se tornar uma pessoa maravilhosa para que ela pudesse fazer sua parte como salvadora.

—O mundo vai acabar! Salvem-se! – gritou Liz enquanto Julie esperava pacientemente. Ela realmente não culpava sua mãe por essa reação. – Corram para as montanhas! Peguem tudo! Não peguem nada. Peguem... Não lembro do resto.

—Terminou?

—Eu não lembro do resto – repetiu Liz, exasperada. – O que é?

—Quero um conselho.

—O mundo vai acabar!? – Liz gritou, mas quando sua filha não disse nada, ela finalmente perguntou depois de um suspiro: – O que é?

—Qual é a segunda fase da Operação Seja Difícil?

—Ahhh... Quer dizer que a primeira fase deu certo?

—Pare de sorri – reclamou Julie. – Já é bastante ruim ligar para você, não torne isso pior.

—Se eu não tornar isso pior, quem vai?

—Muitas pessoas irão – respondeu Julie. – Tem muitas pessoas que definitivamente irão.

Duas dessas estavam inclusivamente na sua frente, tomando café, confusos e surpresos. Calum era o confuso – não tinha como Julie explicar sem contar sobre a Operação Não Seja Difícil do seu irmão, e ela não diria sem contar essa parte. Luke era o surpreso. E, talvez, também tinha um pouco de eu-não-quero-saber-do-resto, porque colocou o prato na pia e desapareceu.

—O que deu nele? – perguntou Calum, apenas movimentando a boca antes de colocar mais uma colher de cereal com leite nela.

—Nada – disse Julie, imitando-o.

—Sim, tem muitas pessoas que irão – concordou Liz pelo telefone. – Mas eu sou sua mãe, é meu dever deixar as coisas pior para você.

—Eu achava que era o contrário.

—Depende da ocasião – avaliou Liz. – Hum, certo, vou dizer a segunda fase, mas eu quero algo em troca.

Foi a vez de Julie de afastar o telefone para ter certeza que era sua mãe, porque sua mãe não era uma aproveitadora dessas. Julie não sabia se sentia orgulho ou medo.

—O que é?

—Vamos jantar com John.

—Quem é John? Esse nome é horroroso.

—Julie...

—Luke sabe? – perguntou Julie, interrompendo as lamentações.

—Ainda não, você é a primeira.

—Por quê? Por que eu?

—Você sabe o porquê – disse Liz. – Tudo certo?

Julie não gostava disso. Não era como se sua mãe estivesse perguntando sua opinião, era como se sua mãe não estivesse dando-a oportunidade de reclamar, de encontrar defeitos para reclamar. Como Julie iria dizer algo quando sua mãe aproveitava-se de uma situação e dizia que ela foi a primeira a ouvir? Julie nem podia reclamar sobre o fato de ter sido a segunda!

—Tá – concordou Julie, contra a sua vontade. O que mais ela diria?

—Ótimo, quando eu tiver uma ideia, eu te digo – disse sua mãe.

—Ideia? Eu pensei que você já soubesse!

—Tchau, tchau. Dê um beijo nos meninos por mim... Menos no Ashton, você ainda continua sendo difícil – relembrou Liz antes que Julie só se ouvisse o tum tum.

—Mãe! – reclamou ela mesma assim. – Mãe! E pare de sorrir também, Calum! Você nem sabe do que estávamos falando!

—Não, eu não sei – concordou Calum, não parando de sorrir. – Mas parece que você está numa situação difícil e isso me dá uma alegria tão grande, eu não sei nem explicar o sentimento... Eu não entendo, mas eu gosto.

—Você é um... – Julie balançou o dedo, sem saber como completar a frase. – Arg, eu odeio isso!

Ódio era uma palavra forte e Julie tinha pleno conhecimento disso. Ou a falta, na verdade. Seu pai sempre dizia que ódio era a falta de conhecimento sobre algo, que quando você sabe e compreende o que for não tem como odiá-lo. Julie concordava com ele. Julie sabia que seu pai estava certo, mas...

Existiam algumas coisas que Julie não entendia, logo ela odiava. Julie odiava pessoas que não buscavam entender o que não entendia. Julie odiava pessoas que tinham medo do que não entendia. Julie odiava pessoas que fingiam ser o que não era, que fingiam ser sua amiga e depois mudava completamente, transformava-se em outra pessoa – ela não as entendia. Como alguém se daria a esse trabalho? Como Agatha pode ter se dado a esse trabalho? Julie não entendia e odiava isso.

E Julie odiava ser acusada de algo que não fez, quando não sabia o que alguém ganharia com isso. Ou quem era esse alguém.

—Julie Hemmings, por favor, comparecer a diretora. Julie Hemmings, por favor, comparecer a diretoria...

Confusa, como todos, Julie Hemmings levantou a cabeça, olhando para o alto-falante sem entender o que ele dizia. Quem era Julie Hemmings? Por que ela tinha que ir a diretoria? Porque a Julie Hemmings que estava sentada na aula de história, estava quieta e ocupada fazendo a prova final, e não iria levantar-se antes de terminá-la com a certeza que ganharia dez.

“O que você fez agora?” questionou Michael ao seu lado, apenas batendo o lápis ritmicamente na banca, com medo de falar e de ser acusado de pesca e colagem e impedido de fazer a prova.

“Nada” Julie respondeu em retorno, batendo com a unha. Traço, ponto, espaço; ponto, traço, espaço; traço, ponto, ponto, espaço; ponto, traço.

—Julie Hemmings, por favor, comparecer a diretora – disse a voz entediada novamente.

—Julie Hemmings – disse o professor, irritado com aquela atrapalhação no meio da prova. – Por favor, vá logo para a diretoria. Depois que você terminar a prova! – completou ele rapidamente, quando Julie levantou-se rapidamente.

—Dã – sorriu Julie, abaixando-se para pegar sua bolsa antes de caminhar todo o caminho desde o final da classe até a mesa do professor. – Eu já terminei.

—E-eu... – gaguejou Jordan, olhando para todas as questões marcadas. – Eu dei essa prova há dez minutos atrás.

—Essa é uma redundância – avisou Julie. – Quando se utiliza “há”, não precisa colocar o atrás, porque está subentendido que o que ocorreu, ocorreu no passado. E é de marca x. Eu não preciso escrever nada, então por que eu iria demorar? A propósito – Julie virou-se, encarando toda a turma que a encarava de volta – você ainda não terminou, Michael?

E um daqueles momentos que Julie odiava aconteceu: eles encararam um ao outro e Julie não entendeu o por quê, porque sabia que Michael tinha acabado de terminar a prova – ela pode ou não ter olhado para a prova dele ao levanta-se e visto-o marcando a última questão. Marcando-a errada inclusive, quando Julie sabia que Michael sabia qual era a resposta certa.

—Julie Hemmings, por favor, comparecer...

—Vá logo, Julie! – ordenou Jordan. – E, vocês, voltem para a prova, a não ser que queiram ficar sem férias e repetir o segundo ano!

—Estressado – murmurou Julie, muito longe para que Jordan a ouvisse, não podendo odiá-lo, visto que entendia a necessidade dele para estar no controle. E de manter a moral na sala de aula, se não os animais pensariam que podiam fazer o que bem quisesse no zoológico e a confusão estaria feita.

—Julie Hemmings... Quem é você? – questionou uma mulher, ajeitando a postura rapidamente ao ver a porta sendo aberta e relaxando-a tão rápido quanto antes ao ver quem era a pessoa. – Julie! – cumprimentou Beatrice, sorrindo amigavelmente. – Faz tempo que você não vem aqui.

—Você sabe. – Julie deu de ombros. – Eu cresci.

—Cresceu? – repetiu Beatrice, cética. – Você cresceu? A Sra. Wood está te esperando.

Não, Julie queria dizer enquanto arrastava-se para a sala de Cornélia. Eu não cresci. A resposta era algo que ela não gostava, embora entendesse – logo não poderia odiar. E não tinha como Julie odiar a resposta, já que o problema era justamente o contrario, era Ashton Irwin. Ela estava tão ocupada com Ashton que nem tinha tempo para arrumar confusões na escola... Agora Julie podia compreender o que sua mãe queria dizer com “você não é difícil”.

—Ei, Cornélia – disse Julie, sentando-se na cadeira e inclinando-se para frente. – Como foi a conversa com a mamãe segunda? Por que você deu...

—Você não está no clube de jornalismo, Julie – interrompeu Cornélia. – O problema é justamente esse, você não está em nem um clube. – (Julie conhecia bem esse problema, ela teve o mesmo na oitava série.) – Você tem que escolher um clube para participar dentro desses... – apontou a diretora para a mesa, que tinha diversos panfletos.

—Posso entrar no de esgrima?

—Dentro desses – apontou Cornélia. – Alguns clubes disseram que já estavam cheios e...

Ela hesitou. Julie sabia o que isso significava, era sempre a mesma coisa – embora isso nunca tivesse acontecido na oitava série, porque Julie não deixou nem escolha para Klaus dizer quais eram as opções disponíveis.

—Quase todos me rejeitaram – concluiu Julie. – Eu não sou realmente popular.

—Você não é nem um pouco popular – murmurou Cornélia para si. – Os únicos clubes que se mantiveram neutros foram o de futebol, basquete e tênis. Masculino. Você seria a gerente.

Julie sabia o que isso significava. Os únicos clubes que a queriam eram porque estavam com os hormônios fervendo, borbulhando. Eles não pensavam. Ou talvez soubessem como ela seria boa como gerente – a probabilidade era pequena, mas não impossível.

—Por que o de vôlei não disse... – Julie parou, apertando os olhos. – Você disse ao Oliver e ele depois disse que não me queriam, não foi? Aquele bastardo...

—O bastardo – disse Cornélia – é o meu filho.

—Mas você está aqui agora como diretora.

—Você quer ficar de castigo?

—Se eu ficar de castigo vou ter que ir para algum clube?

—O clube será o seu castigo – decidiu-se Cornélia, dando fim ao olhar entre ambas.

—Droga. Quais os clubes mesmo?

—Futebol?

—Ficar no sol quente? Não.

—Tênis?

—Vestir aquelas minissaias? Não.

—Então será basquete?

—Eu não posso mesmo ir para o de esgrima?

—Ótimo. Será basquete.

—Droga.

—Droga – murmurou Julie, entrando no ginásio, com passos pesados – Droga, droga, droga.

Qualquer um que ousasse entrar no seu caminho iria arrepender-se, Julie faria questão que isso acontecesse. Ela odiava quando a forçavam a fazer algo, ela odiava estar sendo forçada a entrar para um clube agora mesmo. Tinha tantas coisas que Julie gostaria de fazer, como nada, mas não... Ela estaria – poderia ser encontrada – no clube de basquete. Ela odiava ser encontrada!

—O que você está fazendo aqui? – questionou seu irmão, olhando-a confuso e levantando-se do banco. Por que sua irmã estava ali quando iriam anunciar o novo gerente?

—Você irá ser... – Calum ofegou, dando um passo cauteloso e temeroso para trás, caindo sentado no banco que havia acabado de levantar-se. Não podia ser verdade.

—Eu serei a nova treinadora de vocês. Agora tirem a camisa. – E cantarolou numa falsa animação, apontando para cada garoto: – Tire. Não tire. Tire. Não tire.

Rapidamente, Luke jogou sua camisa foram e Calum continuou com a dele. Não se discutia com Julie; não se discutia com Julie quando ela estava realmente irritada e não se fingindo de irritada.

Bons garotos, pensou Julie, contudo nem todos sabiam disso, nem todos tiraram ou se quer levantaram-se do banco, apenas ficaram rindo. Os risos dessas pessoas eram irritantes; pessoas que riam como se fossem dono de tudo, como se soubessem de tudo, irritava Julie. Devagar, muito devagar, ela virou-se e os encarou.

—Algum problema? Porque eu adoraria ouvi-los – disse Julie, ainda cantarolando e saltitando de alegria. E sarcasmo. Todos se calaram. – Ótimo.

—Eu tenho – sorriu Jorg, sem menção de se levantar do banco para cumprir a ordem dela. – Quem é você?

—Você sabe quem eu sou, Jorg – disse Julie, retribuindo o sorriso. Só que mais feroz. – Se eu me lembro bem, você me chamou para sair no ano passado.

—Uhh – zombou os colegas deles, empurrando-o.

—Eu me lembro disso – falou Ashton, entrando no ginásio atrasado. O que ele tinha perdido?

Quase que certamente a memória, porque Ash não conseguia entender como tinha achado engraçado o pedido de Jorg – ele estava presente na hora – e agora não mais. Agora Ashton... Uau, percebeu Ash, não parando ate estar completamente no espaço de Julie, ciúmes era assim. Ele até que gostava do sentimento de protecionismo, do desejo de ter Julie apenas para si, de protegê-la de tudo que pudesse incomodá-la, de que todos soubessem disso. Isso era errado?

—Mais alguém? – perguntou Julie, olhando ao redor. – Eu adoraria contar como eu conheço vocês. Cada um de vocês. Cada pequeno segredo sórdido.

—É – concordou Ash, jogando o braço por cima do ombro dela, sorrindo docemente quando Julie o olhou: – E eu adoraria saber. – E sussurrou, perto do ouvido dela enquanto encarava seus companheiros de time: – É para mim tirar a camisa também, querida?

—Lugar errado, Ash. Aqui não é um prostíbulo – respondeu Julie, alto o suficiente para que todos ouvissem. – O que estão fazendo? – gritou ela, batendo palma para chamar atenção de todos que já estavam prestando atenção nela. Ela precisava de um apito. – Jogando!

Sexta-feira, 20 de maio.

Julie não podia acreditar que iria fazer isso. Julie não podia acreditar que sua mãe havia lhe mandado fazer isso. Que tipo de mãe te joga para os zumbis e ainda coloca molho de carne em cima de você? Liz Hemmings! Ela tinha até comprado o molho especialmente para isso, o que nesse contexto significava que Liz comprou vestido, sapato, maquiagem – com um post-it escrito “Não use mais a minha, Julie!” – e um par de ingressos.

Julie não podia acreditar nisso. Ou que tinha colocado a perna em cima da mesa para impedir que Ashton passasse assim que o sinal tocou. Ela precisava de privacidade para o que iria fazer!

—Tenho ingressos para a exposição de amanhã – anunciou Julie, batendo-os com força na mesa dele. – Eu te pego às 18 horas, esteja pronto.

—Ahn... e-eu... – gaguejou Ashton, vendo-a caminhar para a porta. – O que?

Julie suspirou, praguejou e retornou.

—Certo. Desculpe. Força do hábito. Você me pega às 18 horas, certo? – indagou Julie, piscando as pálpebras devagar. (Ela estava de batom?, perguntou-se Ashton, encarando os lábios dela para ter certeza.) – Estarei pronta. Ah, e é um encontro.

Notas finais
Alguém sabe de qual livro é “Corram para as montanhas! Peguem tudo! Não peguem nada.”? Eu não lembro. Isso de molho de carne e jogada para os zumbis... Alguém leu Dearly Departed? No começo é meio monótono, mas depois fica bom. Recomendo. Qualquer confusão é em decorrência do fato de eu estar lendo Só Perguntas Erradas de Lemony Snicket, desculpem antecipadamente pela dor de cabeça. E diga qual a confusão para eu arrumar depois!