Isso não é...
51 Isso não é diversão.
Notas iniciais
Until I can get your friend, I'm playing, though
But baby there's a little truth sprinkle in 'em
(Até poder pegar sua amiga; estou brincando
Mas talvez haja um pouco de verdade)
51-Isso não é diversão. (Conceitos diferentes para pessoas diferentes.)
Segunda-feira, 16 de maio
Oh, meu Deus, lamentou Julie, tremendo ao sentar-se na cadeira. Seus músculos não aguentavam, ela não aguentava mais tanto sofrimento. Ela nunca tinha sofrido tanto antes quanto naquele final de semana.
—Pior. Final. De semana. Da. Minha. Vida. – murmurou Julie, batendo a cabeça contra a mesa a cada palavra. – Eu quero dormir – reclamou ela, com sua voz saindo abafada pelo fato de estar com o rosto contra a mesa, sem força para continuar batendo-o.
Julie não aguentava mais. Ela não tinha dormido desde sexta, tirando apenas sonecas ocasionais que terminavam rápido demais para saciar o seu cansaço. Sua mãe estava tirando sua pele basicamente, fazendo-a se arrepender de ter fugido de uma conversa, embora não tivesse mencionado nem de passagem John... Que raios de nome era esse? John? Horroroso.
—Pior do que quando tivemos que passar o final de semana com a vovó? – questionou Luke, sentando-se na cadeira ao seu lado.
—Certo, não foi tão ruim assim – admitiu Julie, contra a sua vontade. – Mas estava quase lá.
—Pior do que quando Luke foi para o acampamento de inverno?
—Você nem estava lá! – retrucou Julie, levantando a cabeça para vê-lo entrando na sala vazia.
— Pior do que quando Luke foi para o acampamento de inverno? – repetiu Calum, levantando a sobrancelha.
—Certo. Certo – disse ela mais uma vez depois de respirar fundo. – Já entendi. “Pare de reclamar, Julie, vá arrumar algo para fazer”. Mas você não estava lá! Você me abandonou!
Vagamente, Julie ouviu os múrmuros chocados e confusos, que significava “Calum pegava não apenas o irmão, como também a irmã? Ambos os gêmeos?” – quando tinham entrado? – pois estava concentrada nas memórias do que tinha acontecido. No fato de ter sido abandonada por seus supostos amigos. Na sessão de tortura que aconteceu a Julie Hemmings...
Julie quase conseguia ouvir os pensamentos que sua mãe teve, quando a expressão de alegria dela pelas reclamações transformou-se numa careta de irritação, como se a música preferida dela tivesse se revelado – ao ser traduzida – numa maldição.
—Ah, e seu castigo – Liz tinha dito – começa hoje. Para onde você vai?
—Mãe... – reclamou Julie, sentindo-se sem palavras para continuar diante disso.
— Você está me expulsando de casa?
—Ainda não – sorriu Liz, jogando-se no sofá não ocupado e ligando a televisão. – Vamos continuar a reunião de família que não tivemos por causa de alguém. Vão querer ficar?
—Ah, não – respondeu Ash, levantando-se. – Já tive o bastante por hoje.
—E eu tenho o meu próprio castigo para cumprir – disse Calum. Completando para a testa franzida de Liz: – Por ter saído de casa tarde da noite sem permissão.
—Ah – disse Liz. – Mais uma semana de castigo por causa disso, Julie.
—Mas...
—Eu te dou uma carona – ofereceu Ashton a Calum, fechando a porta quando ele passou.
Assim – com um suspiro de frustração e um balançar de cabeça – Julie Hemmings aceitou seu destino de um mês e uma semana de castigo, mas... Liz não tinha terminado. Só foi Ashton e Calum desaparecer pela porta e o carro ter desaparecido – ela tinha inclusive levantando-se e espiado pela janela para ter certeza que ele tinha desaparecido – que Liz confessou o seu verdadeiro plano para aquela continuação prolongada da reunião de família. Ou como ela mesmo disse:
—Vou ensinarem vocês a se fazerem de difíceis.
—Vocês? – indagou Luke. – Vocês? Eu não preciso disso.
—Do que você está falando, Luke? Você estava praticamente suspirando e sentando-se em cima de Calum – zombou Julie, embora fosse justamente o contrário. Parecia até que Luke fugia de Calum.
—Você não estava muito melhor, querida – disse sua mãe, desgostosa.
—Eu não vivo suspirando e...
—Sim, você não vive, mas também não sabe ser sutil.
—É o meu chame – lembrou Julie. – Eu sou direta e honesta.
—Seja um pouco menos – recomendou Liz. – Ashton já sabe que você gosta dele, então o deixe achar que se enganou. Aqui, uma tarefa simples para você: ignore-o. Faça-o vir atrás de você. Seja difícil.
—Eu sou difícil!
O olhar que sua mãe lhe deu dizia que ela era tudo, menos difícil. Julie sentia-se injustiçada, porque ser difícil era uma de suas metas de vida e ela não estava sendo difícil o suficiente? Sua mãe nem a considerava – remotamente – difícil!
—É para eu ser difícil também? – questionou Luke, com um súbito ataque de sarcasmo.
Liz considerou aquela pergunta seriamente – Julie também, mais do que feliz por opinar na vida amorosa de alguém que não era a sua. Luke ser difícil? Hum... Luke era bem melhor nessa coisa de sentimento do que Julie – ele deve ter puxado Andrew, ambas pensaram – contudo... Sua honestidade era digna de orgulho para mamãe, pensou Julie, mas Liz não estava tão orgulhosa assim.
—O seu caso é justamente o contrário – disseram ambas.
—Seja fácil – continuou Liz. Julie acenou, concordando. – Mas não muito fácil para não acharem que você está desesperada – disse ela, olhando de lado para sua filha.
—Isso é uma indireta? – questionou Julie, surpresa ao perceber que sorria, que se divertia. Ela não esperava por isso. – Porque não foi muito sutil. Você usou “ela”.
Se Julie fosse ver o final de semana completamente, ela tinha se divertido – muito mais do que quando foi obrigada a ir com Luke para a casa da sua avó; e, com toda certeza, muito mais do que quando Luke foi para o acampamento de inverno sem ela.
Julie tinha se divertido, mas estava incrivelmente cansada. Sua mãe não tinha dado-a um momento de folga, levando sua palavra a sério e colocando-a para dormir as 21:00 para acordá-la as 7:00. Julie não estava acostumada a dormir tão cedo e acordar mais cedo ainda; Julie não estava acostumada a ser acordada num final de semana. Seu corpo estava completamente desajustado para isso!
—Ei, ei, o que... – Julie olhou ao redor, desorientada enquanto abria a boca para bocejar, voltando para o presente. – Foi...? Uau, de onde surgiram todas essas pessoas?
—A aula vai começar – disse Calum.
A primeira tarefa que Liz mandou Julie fazer foi ignorar Ashton – dormir seria a melhor forma de fazer isso real, por isso, para deixar seu álibi forte, ela passou o dia todo dormindo, acordando, mudando de sala e dormindo mais um pouco. Mas Ashton claramente não compreendia quando estava sendo ignorado. Ou que não se acordava alguém que estava dormindo.
—Urg, Julie, a aula já terminou – disse ele, empurrando a cabeça dela. – E não babe em cima do trabalho.
—Me deixe dormir – murmurou Julie, virando-se para o lado... e sobressaltando-se com a mão estapeando sua mesa.
Julie fechou os olhos com força e virou-se novamente para sua posição original, desejando que esse fosse mais um sonho esquisito e que ela ainda estivesse dormindo, mas a sensação de estar sendo observada não desapareceu. Ela abriu os olhos, deparando-se com sua querida professora de arte. Julie queria saber qual era a perseguição que os professores de arte tinha com ela. Todos os professores de arte perseguiam-na! Sem exceção!
—Dormir? – sorriu Mireille, ferozmente. – Sem chance. Onde está o seu trabalho? A menos que queira ficar reprovada. Eu já dei essa chance em consideração ao Ashton...
Claro, Julie revirou os olhos enquanto fechava-os para bocejar. Ashton era o aluno preferido de Mireille; isso não a surpreendia. Ashton sempre era o aluno preferido dos professores de arte. Por que será?
—Aqui – disse Ash, entregando uma folha amassada e molhada no canto para Mireille. Julie reconhecia aquela marca de algum lugar...
—Isso está praticamente vazio – observou Mireille, franzido a testa ora para o estado do papel ora para Julie. – Por que todos esses pontos de interrogação, Julie?
—Porque mentir é errado. Falsificar informações também.
—Hum... – ela olhou para Ashton em busca de respostas, que balançou a cabeça e deu de ombros. – Certo. Tome, faça tudo e entregue até a próxima segunda – disse Mireille, especificamente para Ashton – se não vai ficar de recuperação em arte. É, arte também reprova – completou ela para Julie.
—Ei, eu não disse nada – reclamou Julie, mostrando as mãos limpas.
—E nem fez ao que parece – murmurou Mireille, olhando para o quadro de Ash. – Bom trabalho.
Bocejando mais uma vez, Julie fechou os olhos e bateu a cabeça contra mesa, querendo voltar a dormir. Pela primeira vez na sua vida, Ashton servia para algo. Mireille não a mandaria para a detenção enquanto ela não prejudicasse seu aluno preferido, bem como não iria querer que seu aluno preferido não gostasse dela caso mandasse sua melhor amiga para a detenção. Ser amiga de Ashton até que tinha seus benefícios.
—O que você vai fazer hoje a tarde? – perguntou Ash, aproveitando o fato de Julie estar acordada.
—Não te importa – murmurou ela.
—Ah, e é assim? Não vou te levar quando for abastecer o carro!
—O-o q-que? – gaguejou Julie, levantando a cabeça, chocada. Ela tinha ouvido direito: Ashton iria reabastecer o carro?
—Quem gosta do cheiro de gasolina? – questionou ele, tentando não sorrir.
—Eu gosto – saltitou Julie para fora da cadeira, arregalando os olhos. – Quem não gosta do cheiro de gasolina?
—Certo – disse Ashton, levantando-se e pegando a bolsa dela. – Vamos.
—Vamos? A aula ainda não...
A sala estava vazia, percebeu Julie, parando. A aula tinha terminado. O horário de ficar na escola já era. Julie estava oficialmente desabrigada até as 19:00 horas. E tinha a tarefa de ignorar Ash, lembrou-se ela. Para onde iria?
—Eu não posso – respondeu Julie, esfregando os olhos. – Combinei com a Demi que passaria por lá.
Não era inteiramente verdade, mas também não era mentira. Julie tinha um plano feito de onde estaria durante aquela semana – a próxima ainda não estava certa, porque ela não sabia o que aconteceria se seguisse as ordens da sua mãe – e já que Calum e Luke estariam de suspensão, a única pessoa que Julie poderia ficar era Demi ou Michael. Logo, ela ficaria com ambos. Ambos moravam na mesma casa – o problema tinha começado justamente por isso, lembrou Julie.
—Eu pensei que você estivesse superando Michael – observou Julie pela janela.
—E estou – respondeu Demi, suspirando com a visão.
—Então por que estamos stalkeando-o?
Tantas coisas tinham acontecido com ela mesma, inclusive sua própria superação incrivelmente rápida, que Julie sentia como se a conversa com Demi houvesse acontecido há muito tempo e não há quatro dias. Quatro dias atrás parecia outra vida.
—Não estamos stalkeando-o – defendeu-se Demi, sem tirar os olhos da janela. – Essa é a minha casa, minha janela...
—E aquele é Michael sem camisa – apontou Julie, olhando brevemente para o mesmo local que Demi antes de desviar o olhar para suas cartas.
Contra fatos não há argumentos, refletiu Julie, não recebendo nada de volta além um suspiro. Ela não entendia – Julie não entendia a reação de Demi. O que tinha demais em ver Michael sem camisa, cortando lenha como um cortador de lenha pré-histórico? Era para ela fazer o que? Admirar a quantidade de lenha que ele tinha cortado no pouco tempo ou seguir o suor que escorria pelo seu corpo? Afinal, para que ele cortava lenha se não era nem inverno?
—Sabe quando drogados vão para a clínica de reabilitação e o colocam em frente a uma droga para ver se eles conseguem resistir? – perguntou Demi depois de um tempo.
—E? – perguntou Julie sem entender. Formar um jogo com cartas do mesmo naipe ou numero? Qual era a maior probabilidade: tirar mais uma rainha ou...? Ela não decidira agora. – Sua vez, Demi.
—Michael é a minha droga – explicou Demi. (Julie continuou sem entender. E daí?, pensou ela.) – Estou vendo se consigo resistir.
—E?
—Michael fica bem sem blusa, não é? – suspirou Demi.
—Acho que isso é um não. Pare, Demi – gemeu Julie, segurando-a pelos ombros e balançando. – Concentre-se no jogo.
—Vai dizer que não fica assim quando ver Ashton? – questionou Demi, finalmente retirando os olhos da janela.
—Não, não fico. O que eu e Ash temos é intelectual, sabe?
—Intelectual? Com Ashton?
—Certo. É intelectual da minha parte ao menos.
—Com Ashton? – repetiu Demi, cética. – Tipo, eu sei que ele é talentoso no basquete e bom em desenhar, e você o acha engraçado, uma pessoa para todas as horas e tudo mais, mas vai dizer que não o ver? Ver realmente, sabe? Até eu vejo que Ash tem um bom físico, que ele é bom de olhar e... Ei, você acha que isso significa que estou superando Michael? Julie? – chamou Demi, balançando a mão na frente do rosto dela. – Você está me ouvindo, Julie?
Julie piscou, olhando assombrada para sua amiga. Ela preferia não ter ouvido tudo isso. Era isso que as pessoas achavam que ela gostava em Ashton?
—Eu não gosto disso nele. Ash não é talentoso, pessoas talentosas parecem ter nascido para aquilo e ele com certeza não nasceu para o basquete, mas ele trabalha duro. Assim como nos seus desenhos. Pode parecer olhando agora que Ash é um gênio, mas Anne me mostrou o primeiro caderno dele e ele era péssimo, completamente abstrato, embora ela dissesse o contrário a ele para não desanimá-lo. Pode parecer mentira – insistiu Julie, como se Demi tivesse discordado quando ela nem abriu a boca – mas Ashton trabalhou duro para se aperfeiçoar. E que história é essa de “engraçado, uma pessoa para todas as horas e tudo mais”? Michael é engraçado, Calum e Luke são para todas as horas e tudo mais. – Julie sinceramente não sabia quem escolher entre os dois para cada posição. – Ashton apenas é... Ele. Ashton Irwin, um idiota de marca maior. Que não sabe socializar com os outros apesar de tentar não demonstrar isso; que não sabe o que dizer na maioria das vezes, mas que tenta mesmo assim; que continuou ao meu lado depois de saber que eu estava apaixonada por ele, com medo de perder a única amiga. Embora ele nunca vá concordar com isso. Que eu sou a única e melhor amiga dele.
—Certo – disse Demi, surpresa. Julie falar sobre o que gostava no Ashton era mais do que ela esperava; falar tanto era surpreendente. – Esses são bons motivos não físicos, mas... – Ela não iria deixar para lá. – Vai dizer que não tem nada estético do Ash que você gosta?
—A covinha dele – respondeu Julie rapidamente. – Acho que tenho uma queda por covinhas. Acho que é a única coisa do meu ideal que Ash tem. E eu gosto dos olhos castanhos dele mesmo que não faça parte do meu ideal, com todas aquelas manchas esverdeadas girando, como se fosse pequenas galáxias num universo. Eu gosto do céu – confessou Julie.
Demi queria saber como é que não sabia disso mesmo depois de ver um céu estrelado no teto do quarto dela e sempre precisar segurar a mão de Julie, como se ela fosse uma criança, quando saiam de noite, porque sua amiga tinha a mania de sair com a cabeça levantada, encarando e tentando encontrar e descobrir todas as constelações. Demi queria saber como não sabia que Julie gostava do céu antes dela mesmo ter confessado isso.
—Só isso? – incitou Demi, embora estivesse surpreendida por Julie ter dito coisas tão não físicas. Parecia ate filosóficas depois de sua explicação.
—Hum... – pensou Julie, mordendo alternadamente as bochechas. – O fato de eu gostar do cabelo de Ash conta? Não do cabelo em si... ou talvez sim. Eu gosto de como ele não é completamente liso que nem o meu, mas isso não significa que ele prende minha mão quando a deslizo por eles, é apenas como se oferecesse um pouco de resistência. Tipo a gravidade. E você?
—Ahn... Você quer saber o que eu gosto no Ashton? – questionou Demi, olhando-a duvidosa.
—Eu realmente não sei dizer se você é lerda desse jeito ou cínica. Mas... – Julie sorriu. – Eu venci – disse ela, sorrindo ao mostrar todas as suas cartas, mas... não por muito tempo, porque a madrasta malvada entrou no quarto.
—Demi! – ralhou Ella, olhando-a desaprovadoramente. – O que você está fazendo aqui? Não era para você ir com Mike para... Julie – sibilou ela, parando ao perceber a outra garota no quarto.
—Oi – acenou a própria. – Salut. Privet. Konichiwa. Hello. Hola...
—Julie – interrompeu Ella, fechando os olhos por um momento antes de abri-los novamente, desejando estar enlouquecendo e não vendo aquela garota na sua frente. – O que você está fazendo aqui?
—Eu acho que ela ainda não me perdoou pela televisão quebrada – sussurrou Julie para Demi.
—E pelo vaso raro e caro que recebi de presente – completou Ella – e que você quebrou.
Julie suspirou. Ela tinha se esquecido do vaso, sinceramente. Eram tantas coisas que tinha feito e que Ella a culpava que Julie achava mais fácil não ir lá e pronto. Era por isso que não aparecia direto na casa dos Clifford. Ou Lovato. Tanto faz. Ella não gostava de Julie na sua casa com a grande probabilidade de quebrar algo e Julie não gostava dos olhares perseguidores sobre si, sempre que ela entrava pela porta. Por isso, Julie escalava a arvore e pulava a janela.
—Eu estou de castigo – disse Julie.
—Vou ter que ligar para Liz e falar da sua fuga?
—Acho que ela também não esqueceu o fato de eu ter flertado com seu pai no casamento deles – sussurrou Julie novamente para Demi.
—E todos os dias antes. E depois – relembrou Liz.
—Ou por ter incendiado a cozinha – disse Julie diretamente a Liz dessa vez. Aparentemente, Liz tinha a mesma audição incrivelmente poderosa que ela, que era capaz de ouvir sempre que alguém falava dela. Julie ouviria ate se estivesse dormindo.
—Ou por... Foi você? É claro que foi você! Por que não estou surpresa?
—Certo. Já chega, vocês duas. Parecem até crianças. Vamos, Julie, levante-se – disse Demi, levantando-se com um suspiro e uma ultima olhada a Michael. – Temos compras a fazer.
—Você acredita nisso? – questionou Julie, balançando a cabeça em direção a Demi antes de segui-la. – Elas crescem tão rápido.
—Não volte, Julie! – gritou Ella. – E leve o Michael!
Julie conhecia aquele carro de algum lugar...
—Por que eu tenho que ir atrás?
—Meio tarde, não, Julie? – questionou Michael, puxando o freio de mão depois de estacionar. – E nós já conversamos sobre isso: quando você tiver uma carteira de habilitação, você dirige e escolhe quem vai na frente – disse ele, sorrindo para Demi, que revirou os olhos.
Julie conhecia aquela pessoa de cabelos loiros compridos, que era baixa ao mesmo tempo graciosa...
—Quando você chegar na hora e não ficar de papo com Ella – corrigiu Demi, virando-se para trás – você vai na frente.
Julie devia estar alucinando.
—Você não quer ficar aqui atrás comigo? – perguntou Melanie, olhando-a com os seus grandes olhos castanhos cheios de água.
Parabéns, Julie, congratulou-se ela. Você não apenas destruiu os sonhos de uma criança, como a fez perder a admiração em você.
—É claro que eu quero ficar com vo... Abaixem-se – ordenou Julie, colocando a mão na cabeça de Michael e Demi e forçando-os para baixo.
—O que foi agora? É um meteoro? – questionou Demi, irritada. – De novo?
—É pior – sussurrou Julie, arregalando os olhos. – É a Anne.
Apesar de acreditar que alucinava, Julie não conseguia retirar a sensação de que algo estava errado. E quase sempre essa sensação estava certa e quase sempre ela a ignorava, mas dessa vez Julie não conseguia ignorá-la. Carro parecido com o da Anne? Todos os carro tinham quatro roda, mas... Confere. Pessoa parecia com a Anne? Confere. A probabilidade da pessoa que estava no banco do motorista ser Ashton? Julie não queria descobrir.
—A-Anne? – Demi não entendia o por quê de tudo isso, Anne não era um monstro de sete cabeças e amava Julie. – Qual o problema? Você está evitando ela?
—Não. Por que eu estaria? Anne é um amor de pessoa – disse Julie, confusa. – Eu estou ignorando Ashton. E se ela está fazendo compras, então quem está no carro? Ashton.
—Por que você está evitando Ashton? – perguntou Michael, também se virando.
—Eu não estou evitando Ashton, estou ignorando-o – repetiu Julie, impaciente. Por que ela evitaria Ash? – Porque mamãe mandou.
—Eu não vou ficar aqui abaixada esperando Anne sair – disse Demi, abrindo a porta.
—Nem eu – disse Mike, seguindo-a.
—Nem...
—Por favor, Melanie – pediu Julie, juntando as mãos. – Por favor.
—Você não quis ficar comigo – disse Mel, ressentida. (Não, não, pensou Julie, vendo-a abrir a porta e pular fora. Não me deixe... O que essas crianças aprendem na escola? Era muito ressentimento para uma criança de seis anos!) – Tchau.
—Droga – murmurou Julie, abrindo a porta e deslizando devagar pelo banco.
Mantendo-se abaixada, ela tentou esconder-se atrás dos carros estacionados, tentando passar despercebida por Anne, que já tinha cumprimentado Michael, Demi e Melanie em ordem decrescente. Que demora infeliz era aquela para guardas as compras no porta malas? E cadê Ashton para ajudar?
—Julie, querida, eu posso te ver – disse Anne, sem nem parar ou olhar para trás.
—Eu não estou te evitado – disse Julie, levantando-se rapidamente, como se ser pega engatinhando por estacionamentos fosse normal. Ou tivesse encontrado a moeda que perdeu. – Olha ela aqui – disse ela, levantando a moeda imaginária antes de enfiá-la no bolso igualmente imaginário.
—Eu sei que você não está me evitando – disse Anne. – Por que você estaria me evitando?
—Ahn, você sabe...
—É, eu sei.
—A história é muito longa e eu não tenho... Você sabe? – questionou Julie, parando. Ela esperava um “eu não sei”, não o contrário dele.
—É claro que eu sei – zombou Anne, finalmente olhando-a. – Eu não concordo com o plano de Liz...
—Você sabe do plano de Liz?
Ao mesmo tempo em que as palavras saiam da sua boca, Julie sabia o quanto aquela pergunta era obvia. Era obvio que Liz tinha contado para Anne, aquelas duas viviam de segredinho como duas adolescentes. Mãe e sogra não deveriam se odiar? Aquelas duas claramente tinham perdido essa aula.
—É claro que eu sei – zombou Anne novamente. – Como eu dizia: não concordo com o plano, é como se vocês estivessem criando problemas para não ficarem juntos, mas ao menos isso fará Ashton agir. Eu espero...
—Porque ele é um idiota – completou Julie, abaixando-se novamente. – E eu não estou aqui.
—O que...
—Mãe – chamou Ashton ao longe, enquanto Anne observava Julie desaparecer entre o carro ao lado. – Aquela era a Julie?
—Quem? – questionou ela, voltando-se para o seu filho idiota.
—A garota que... Deixe para lá – disse Ash, balançando a cabeça pela expressão da sua mãe. Ele tinha certeza que não queria saber.
Sim, pensou Julie, voltando-se a se erguer depois das portas automáticas do supermercado terem se fechado as suas costas. Deixe para lá. Não olhe para mim. Não pense em mim. Esqueça-se de mim. Quando você menos esperar, eu me esgueirarei por trás de você com uma faca e...
—Onde você estava? – perguntou Demi, olhando-a brevemente antes de voltar a tentar decifrar a caligrafia de Ella.
—Planejando assassinatos – confessou Julie.
—Cuidado com os ouvidos puros e inocentes da Melanie – avisou Michael, surgindo com a própria sobre os ombros.
Julie sentia metade de uma inveja completa. Melanie deve estar se sentido no céu, observando todos como uma rainha, mas ao mesmo tempo ela devia estar morrendo de medo, porque seu irmão era um irresponsável e tinha soltando-a para tampar os ouvidos dela.
—Ei! – reclamou Mel, tentando tirar as mãos de Mike enquanto tentava não cair. – Eu ainda posso ouvir.
—Segure-a direito! – ordenou Demi, batendo-o no braço.
—Claro, querida – disse ele, sorrindo ao pegar as mãos de Mel e colocá-las no seu cabelo, como se fosse as rédeas dele. – Não queremos que nossa filhinha se machuque e que arruíne nosso dia. E nem conte a vovó o que a tia Julie disse, se não ela não deixará que a titia brinque com você novamente.
Observando a cena, Julie só pode sorrir e ir atrás de um congelador para se refrescar. Era isso que ela queria dizer com “Michael é engraçado”; não no sentindo “Michael faz piadas engraçadas”, porque as piadas dele eram péssimas, mas que por mais que tentasse fingir que era uma má pessoa, ele era uma boa pessoa. Era engraçado o fato dele tentar fingir ser o que não era, Julie ao menos achava engraçado. E esperava que eles não fossem que nem o Ashton e a esquecem no supermercado.
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