Isso não é...

33 Isso não é desistir.


Notas iniciais
Oi... A música I Won't Give Up de Jason Mraz - https://www.youtube.com/watch?v=O1-4u9W-bns

I won't give up on us

Even if the skies get rough

(Eu não vou desistir de nós

Mesmo se os céus fiquem furiosos)

33-Isso não é desistir. (Desistir é para quem tem medo de não conseguir.)

Segunda-feira, 09 de maio

Uma coisa que Ashton Irwin não tinha era paciência. Ele não gostava de ficar parado sem fazer nada; ele não conseguia ficar parado sem fazer nada, essa que era a questão. E agora Ash passava pela maior prova de resistência mental da sua vida, pois, se quisesse manter a farsa sobre está se sentindo bem, que ele estava bem com toda a situação – Ashton realmente não sabia qual era a situação, apenas que ela existia – ele precisava ficar deitado na cama de Julie enquanto esperava-a terminar de tomar banho.

E, para Ashton, o pior era saber que isso era sua culpa, que por causa da sua lerdeza, da sua demora para seguir Julie, ele a tinha perdido. Era por causa de alguns minutos que Ashton a esperava deitado. Era por sua própria culpa que ele se torturava.

É claro que Ashton poderia sair da cama se quisesse, mas ele sentia como se sair da cama fosse uma declaração de que era medroso e fraco, e ele não era nem uma coisa nem outra... Ash esperava que não. E, para provar isso, ele deveria esperar Julie sair do banho. E ganharia como adicional a descoberta de uma paciência que não tinha e a confirmação de quão maravilhosa e perturbada sua mente era, porque os pensamentos que Ashton tinha...

Ashton sabia que o chuveiro estava ligado – ele ouvia a água caindo assim como Julie cantando – e ele não conseguia não pensar na água caindo dele – ate porque ele ouvia a água caindo, e Julie; Julie era péssima cantando – e não conseguia não imaginar a pele pálida de Julie se molhando... Era uma tentação. Ashton estava sendo torturado pela sua imaginação, imaginação essa que o levaria ao inferno. Nem ele conseguia acreditar no qual baixo estava sendo por imaginar Julie tomando banho. Ou por vê-la só de toalha – só de toalha! – quando saiu do banheiro.

Sabe quanta determinação Ashton precisou para se manter neutro enquanto a observava passar de surpresa a raiva por tê-lo visto deitado na cama dela? Ashton não sabia, porque ele não tinha determinação, e se surpreendeu por ter conseguido ficar deitado naquela cama, pois estava crente que tinha gasto a pouca determinação que tinha controlando-se para não ir testar a porta do banheiro. Ashton não conseguia realmente acreditar que estava tendo pensamentos tão baixos quanto este.

—O que você... Saia! – ordenou Julie, batendo o pé. Ela o olhava com tanta raiva que Ashton ficou surpreso por não ter sido acertado por nada. – Eu só não jogo algo em você porque a única coisa que está estou segurando é essa toalha!

—Está explicado – murmurou Ashton, abrindo um sorriso descarado. – Mas eu não me incomodaria de ser acertado por essa toalha.

Descendo os olhos do rosto de Julie para os braços que se cruzavam longo abaixo do busto, Ashton não parou por aí e seguiu todo o comprimento de Julie, desde as pernas nuas até os pés descalços, antes de voltar a olhá-la no rosto novamente. Não que quisesse ficar olhando-a no rosto, mas era melhor focar ali e esquece-se que Julie não vestia nada por baixo, que se ela levantasse os braços, a toalha cairia e...

—O que? – perguntou Ashton, piscando inocentemente ao perceber a expressão de Julie.

Julie não conseguia acreditar que isso estava acontecendo. Não se podia mais nem tomar banho em paz e ir para o próprio quarto sem se sentir abusada? Isso era drama? É claro que era! Mas os olhos de Ashton a escaneava atentamente em busca de alguma imperfeição e Julie ficou com raiva por ter ficado com medo dele ver mais do que deveria, mais do que ela desejaria que ele visse.

Não é para você sentir vergonha das cicatrizes, repetiu Julie para si mesma o mesmo discurso que seu terapeuta dizia. Isso é prova que você venceu, que não desistiu, que tem uma determinação impressionante...

—Saia – repetiu Julie mais uma vez, dando tanto importância ao seu terapeuta quanto antes.

Ela só usava-o quando precisava de alguém, algo, para justificar suas ações para si mesma. Ele era basicamente seu argumento de autoridade em tempos críticos, pois Julie não o usava muitas vezes. Seu terapeuta não deveria ter nenhum orgulho dela, Julie pensava, mas ela não sabia, fazia tempo que não ia vê-lo. Ela estava ate com saudades dele... Mas suas ações eram justificáveis! Julie não gostava de como se sentia nua na frente de Ashton – ate porque ela estava nua! Ou quase nua, já que vestia a lingerie por baixo da toalha, ainda bem que tinha levado o sutiã e a calcinha para o banheiro.

—Não – negou Ashton, ainda deitado na cama, como se discordasse da sorte da Julie. – Precisamos conversar.

—Podemos fazer isso depois. Que tal quando eu estiver vestida?

—Você não vai conversar comigo depois – anunciou Ashton, olhando acusadoramente para a janela. – Você vai fugir.

—Desde quando eu fujo pela janela? – questionou Julie, seguindo seu olhar. – Melhor, desde quando eu fujo?

—Que tal há poucos minutos atrás? Quando queria me beijar e disse que não?

—Não te beijar significa que estou fugindo?

Ashton tentou deixar a expressão mais poker possível, pois Julie não tinha desmentido a parte de que ela queria beijá-lo, embora Ash estivesse mais concentrado em si, no quão impulsivo foi por tentar beijar Julie. O que ele tinha na cabeça para – tentar – beijar uma garota que estava apaixonada por ele? Ashton sempre mantinha distancia quando isso acontecia e não saia beijando-as, mas... A garota era Julie e Ashton não iria ignorá-la, não iria manter distancia dela – embora essa tenha sido seu primeiro pensamento (e reação) – então porque ele não poderia aproveitar?

Ashton sabia o porquê e que estava sendo contraditório, mas ele não pode não querer beijá-la. Ashton sabia que era errado e que estava se aproveitando de Julie, do fato dela estar apaixonada por ele, mas ela parecia tão... tão linda, que Ashton não conseguiu manter a boca longe da dela.

Patético, Ashton sabia. Por que ele estava na no quarto de Julie, deitado na cama dela, tentando conversar com ela como se fosse um namorado arrependido? Ashton não sabia, mas era patético. Ele era patético, esse sentimento era patético, toda essa situação era patética... Começando por ele que era patético e a única forma de terminar com esse ciclo patético de acontecimentos patéticos é dizendo algo profundamente inadequado – e patético – para a situação.

—Esconder suas cicatrizes? – disse Ashton (Por que ela não ficou envergonhada quando ouviu cicatrizes? Ou pareceu culpada, como normalmente ficamos ao relacionar qualquer palavra a um acontecimento especifico?, refletiu Ash. Por que pareceu que ela não sabia do que eu falava?), acrescentando logo depois quando Julie não reagiu: – As cicatrizes que você fez nas coxas? Isso é fugir.

—Ah – disse Julie, subitamente iluminada. – Você quer dizer...

Ashton não entendeu como ela pareceu tão bem em relação a ele saber que ela se mutilava.

Julie se perguntou o que Ashton pensava dela para achar que ela se cortava.

Ela ate que ia desfazer esse mal entendido, mas Ashton não lhe deu oportunidades. Não que Julie fosse contar a verdade, apenas o essencial, porque percebeu que não sentiu como achou que fosse se sentir se alguém descobrisse das suas cicatrizes.

Julie estava com raiva de Ashton, de si mesma, com raiva dele, dele... e dele, mas por razões que não tinham relações com as cicatrizes. Era por Ashton ser um idiota e por ela estar gostando de um idiota, e por ser uma idiota para reconhecer que seu terapeuta – que ele nunca saiba disso – tinha certa razão: Julie era impressionante e aquelas cicatrizes não faziam diferença – e também não existia muita diferença do modo como Ashton a olhava, o que foi em parte a razão dela se sentir tão bem.

Ashton não a olhava como se ela tivesse algum problema, como se ela fosse culpada de algo – e Julie não era. E Ashton nem sabia qual era a verdadeira razão daquelas cicatrizes, o que só fez Julie achar a preocupação de Ashton mais fofa quando ele a abraçou apertado, como se tentasse tranquilizá-la, como se ela precisasse de conforto...

Julie tinha vontade de dar uma resposta ácida, que nem “Chegou tarde, querido. Uns três anos.”, mas o que saiu foi outra resposta ácida, porque a primeira ainda tinha traços de tristeza e Julie não estava certa que conseguiria pronunciá-la sem chorar, pois só de pensar em dizê-las, ela sentiu algo na garganta, um aperto no coração. Então, em vez disso, Julie provocou, meio brincando, meio séria:

—Agora você já pode se afastar, Ashton. Eu entendo que é impossível você sentir atração por mim quando existem tantas garotas perfeitas no...

Com cuidado, Ashton colocou as mãos no rosto de Julie, passando os polegares abaixo dos olhos, como se enxugasse lágrimas imaginarias, imaginando todas as imperfeições que Julie tinha – e não era apenas em relação às pernas – ele pensou no quanto aquilo só tornava Julie ainda mais maravilhosa. Seja lá o que tivesse acontecido com ela, ela superou – Ashton não esperava nada menos de Julie.

Ao sentir os dedos de Ashton sobre si, Julie calou-se. Ela não pode fazer nada além de soltar um fraco suspiro. Por ele está tocando-a como sempre? Pelas coisas parecerem como sempre e diferentes? Por ela está gostando daquilo? Por alguma parte de si ter tido esperanças que algo pudesse... E mais uma vez lá estava aquele aperto no coração e Julie não soube dizer se era de ansiedade ou medo. Talvez os dois. Talvez nenhum. Talvez arritmia cardíaca.

Ouvir aquele suspiro fez Ashton levantar a cabeça e olhá-la surpresa. Julie estava apenas de toalha, percebeu ele. E eu a tocava! Ashton não tinha abraçado-a para que pudesse sentir Julie de toalha – ele tinha ate se esquecido que ela estava de toalha – ele só queria mostrar a ela que... que seja lá o que tivesse acontecido com ela, ela superou, e ele sentia orgulho dela, que aquilo não mudava quem ela era, como ela era.

—Você é linda – disse Ashton, com uma voz que Julie classificou como tentadoramente rouca.

Julie pigarreou – ele estava rouco e ela que pigarreia! – e tentou falar com o máximo de compostura e arrogância que conseguiu:

—É claro que eu sou lin...

Mas sua compostura de nada serviu quando Ashton grudou a boca na dela, beijando-a. Naquele momento, o desejo falava mais alto do que qualquer coisa. Julie não se importava com os motivos que Ashton a beijava – era pena? – ela nem estava pensando direito – e desistiu de tentar – porque se tivesse iria pergunta-se se era pena e a única coisa que Julie fez foi beijar Ashton de volta. Se Julie fosse pensar, ela também iria confessar – mentalmente – que gostava de beijá-lo.

E Ashton só queria mostrar a Julie o quanto ela era linda. E, se isso não fosse o bastante, ele acrescentaria – relembraria – que queria beijá-la. Principalmente beijá-la. Sentir cada pedaço dela, conhecer cada centímetro do seu corpo e prová-lo. Ash gostaria de vê-la implorando por mais, contorcendo-se de impaciência, mas... Isso teria que esperar.

—Eu não vou transar com você – anunciou Ashton num murmúrio, com os lábios não muito longe do pescoço, como se não conseguisse ficar longe.

Baixando os lábios para o pescoço dela, Ash a mordeu fortemente, marcando-a para que todos soubessem que ela era tinha alguém, que ela era sua, antes de descer ainda mais.

—Você não vai transar comigo? – perguntou Julie, arrepiada por aqueles dedos que a tocavam sem hesitação. Nem permissão. Não que Ashton tenha ouvido alguma reclamação ou que Julie tenha expressado algo contra. – Eu pedi que você transasse comigo? Você está fugindo do assunto... Ou nesse caso do beijo.

—E eu diria que... – tentou completar Ashton, incapaz de fingir que não sabia, (Era assim que Julie deveria ter reagido ao ouvir “cicatrizes”, assim como ele reagia por “fugindo”, xingou-se Ashton. Por que eu não podia ser cara de pau que nem ela?) mas Julie beijou-o e Ash aproveitou por um momento antes de se afastar, sabendo que assim que colocasse para fora as palavras, Julie fugiria dele. – Eu diria que não dizer que está apaixonada por mim é fugir do assunto.

Se Julie não estava com raiva antes, agora ela recompensava o tempo perdido. E Ashton pensou que seja lá qual fosse o motivo de Julie ter se cortado para fugir da sua dor, ele sabia que ela não faria isso por ele. Oh, não, ela faria isso nele.

Ao ouvir as palavras de Ashton, ela arregalou os olhos para logo depois semicerrá-los. Como ele sabia disso? Mas fora isso, ela não reagiu, ela não fez nada, Julie apenas ficou lá, olhando-o e pensando.

Querendo alguma reação, quase ansioso para isso – e para mostrar a si mesmo que conhecia Julie – Ashton completou depois de um tempo:

—Você disse que me amava.

Ele estava pedindo para ser machucado, mas ao menos isso fez Julie se manifestar.

—Eu podia estar delirando – falou ela, olhando-o como se fosse louca, como se ainda estivesse delirando. Ou como se Ashton fosse o louco. – Mas eu não disse isso.

—Você disse – insistiu Ashton, apertando os dedos na pele dela.

—Eu te amo – afirmou Julie, sem piscar; Ashton piscou – mas eu disse que provavelmente estava apaixonada por você. Você sabe o que significa provavelmente, não sabe?

—Como é que você vem com provavelmente depois de dizer que me ama? Ou é ou não é.

—Amor e paixão são duas coisas diferentes – apontou Julie, espetando-o no peito.

—E você sente os dois por mim – rosnou Ashton, puxando-a com força. – Você se declarou para mim!

—Não. Eu não fiz isso. Eu estava dormindo e com febre, isso não conta como declaração. Além de que tinha “provavelmente” na frase.

E, mais uma vez, eles se beijaram. Só que, dessa vez, eles não souberem dizer quem começou primeiro, quem deu o primeiro passo, somente que seus lábios se encontraram na metade do caminho, batendo-se numa mistura de dor e prazer que os fez gemer em sincronia.

Quando as mãos de Ashton deslizaram para seu quadril, puxando-o para si, Julie pensou no quanto aquilo era errado. Primeiro, ela estava doente e poderia passar a gripe para ele. Segundo, ela estava de toalha. Terceiro, a questão “Ash me beijava por pena?” surgiu na mente de Julie. E quarto, uma única palavra: culpa. Seu irmão estava no andar de baixo, indiferente ao que acontecia no andar de cima, e Julie sentia-se culpada por isso.

—Luke – disse Julie, empurrando Ashton para longe, fazendo o próprio olhá-la engraçado.

—Você realmente não tem uma queda pelo seu irmão, tem...?

—Não, seu idiota – negou Julie, revirando os olhos. Ashton realimentou acreditou nessa mentira, não? – Mas não vou ficar te beijando acima do nariz de Luke.

—Hum, certo, mas Luke não está em casa – disse Ashton, puxando-a novamente para mais perto. – Ele saiu para...

—Vou continuar não te beijado – interrompeu Julie, com firmeza. Por mais que não quisesse, ela não podia mais adiar as suas próximas palavras: – Nós não vamos mais nos beijar, Ashton. Eu sou apaixonada por você...

—Você é apaixonada por mim! – exclamou Ashton, sem saber o que fazer com essa afirmação.

Ouvir Julie dizer a ele, completamente acordada, e para ele e não para seu pai num delírio, era diferente; só que, apesar de saber o que ela diria – Julie não iria mentir para ele, a menos que sua própria declaração fosse uma mentira – Ashton não tinha se preparado para uma resposta. Não que Julie esperasse alguma.

—Mas eu não sou uma idiota – continuou ela, ignorando seu ataque – e não espero um pedido de namoro. E gosto muito da sua amizade para temos algo como “amizade colorida” – disse Julie, prevendo o próximo pedido de Ashton – e é justamente por isso que te peço para não me beijar.

Dando a deixa, e não pegando, Julie deu as costas a Ashton e foi ate o guarda-roupa para procurar uma roupa para vestir, mandando-o embora sutilmente, mas Ash não saiu. Ele olhou para as costas dela, para o quão firme Julie parecia em sua decisão, como ela tinha sido direta e verdadeira para com ele como sempre. E em como ela não parecia ela por estar desistindo assim. Julie nem tinha tentado conquistá-lo! E em como ele próprio não sabia o que fazer. Em como ele não tinha se confessado, mas se sentia rejeitado.

—Posso te beijar para fechar essa promessa? – perguntou Ashton, sem saber o que mais poderia dizer.

Sem olhar para Ash, Julie revirou os olhos, embora Ashton não pudesse vê-la e contando com isso – ela não queria que ele a visse sorrindo para si mesma, feliz por não está se sentindo uma idiota e por acreditar que isso era o que ela deveria fazer; e não queria que ele visse como ela queria chorar ao ordenar mais uma vez:

—Saia.

E em como se permitiu parabenizar por ter agido como ela mesma ao dizer aquelas palavras, em como foi determinada. E não se permitindo pensar no porque escolheu aquele pijama, no quanto àquela situação parecia com uma desistência.

Notas finais
Eu iria postar ontem, mas me esqueci que tenho outros motivos pessoais além do Enem que torna minha vida sem cronograma (álcool, para curiosos). Contudo estou feliz que não postei, não acho que teria conseguido fazer um capitulo tão bom ontem. Tive mais ideias hoje – teve tantos títulos e musicas que achei que se encaixava que sorteie! – e gostei desse capitulo – eu não estava gostando muito antes, mas agora sentir que foi para frente. Espero que partilhemos da mesma opinião, caros leitores. Comente e me diga!