Isso não é...
20 Isso não é desejo.
Notas iniciais
It feels good, in my heart, in my soul
When you're right here beside me
(É uma sensação boa, em meu coração, em minha alma
Quando você está bem aqui ao meu lado)
20-Isso não é desejo. (Eu não sinto, não penso, não existo.)
Quinta-feira, 05 de maio
Os olhos de Ashton, por mais que tentasse não fazer isso, vez ou outra, moviam-se a procura de Julie... E Demi. Dado ao fato de não poder beber, de ser o único que com certeza não beberia, ele se sentia no dever de protegê-las. Demi era lerda e inocente, e Julie, por mais que se comportasse daquele jeito, também era inocente. O que ela tinha feito para não ser? Julie não tinha nenhuma experiência de vida. Ela era uma idiota.
—Você vai dançar comigo ou vai continuar olhando para aquela vadia?
—Que vadia? – perguntou Ashton, antes de se contar de quem ela falava e começar a rir. – Você está dizendo que Julie é uma vadia?! Isso passou bem perto da verdade!
Ouvi-lo rir depois de chamar Julie, a amiga dele, de vadia, não era a reação que Bianca esperava depois da explosão que teve. Mas ela já estava ficando irritada com o fato de ter dançando duas musicas com Ashton e nada ter acontecido. Ele era Ashton Irwin! E ela era uma garota! Era meio lógico o que deveria acontecer, não?
—Mas sabe, Bianca – sussurrou Ashton próximo do ouvido dela, mandando calafrios para todas as partes do seu corpo. – Acabei de descobrir uma coisa. Eu não gosto de garotas... Como você.
—V-você não... e-eu?
—Julie é uma vadia, isso é certo – confidenciou Ashton, dando de ombros. – Mas ela é minha melhor amiga vadia, então pense antes de falar. Isto é, se você sabe pensar.
—Você sabe quem eu sou? – indignou-se Bianca, batendo o pé. – Quer saber? – Ashton não queria, mas ela falou do mesmo modo: – Não me procure mais!
Virando ao redor do próprio eixo e jogando o cabelo por cima do ombro, Bianca saiu indignada dali, bufando de raiva e atraindo a atenção de todos. Mas Ashton apenas riu. Ele sinceramente acreditava que as garotas agiam assim de brincadeira – Julie vivia fazendo isso de brincadeira –não falando sério, como ele sabia que Bianca estava.
Bem pouco surpreso pela descoberta – ele realmente não se surpreendeu com o fato das garotas agirem assim – Ashton caminhou até o bar improvisado, ficando realmente surpreso ao ver o bar improvisado. O bar improvisado não tinha nada de improvisado! Ele era um mini bar – bancada de vidro, cadeiras altas giratórias – com uma pequena adega particular e um barman! Tudo bem que o barman era na verdade um dos alunos do segundo ano – Ethan, que era jogador de vôlei, se Ashton não se enganava – mas mesmo assim!
Olhando ao redor, Ash percebeu o quanto aquela casa era chique – ele não queria nem saber o que aconteceria se algum daqueles vasos caros quebrasse – e grande. Apenas aquela sala era quase do tamanho do seu apartamento. Ashton estaria impressionado se já não tivesse visto casas/mansões melhores, como as do Hood. A pequena casa de Calum Hood daria de dez a zero naquela em todos os aspectos. Ashton nem sabia que tinha alguém quase tão rico quanto Calum na sua escola.
—Trooouxa – zombou Michael, dando-lhe um empurrão assim que se sentou num dos bancos ao lado dele. – Perdeu uma de suas seguidoras.
—Você não faria o mesmo se alguém chamasse Julie de vadia?
—Sim – concordou Mike, dando de ombros e levantando a mão, pedindo uma bebida. – Mas eu esperava que você fizesse isso apenas depois de ter ficado com ela.
Ashton também esperava isso. Era o que ele normalmente fazia e desse jeito nada era perdido. Afinal, Ashton não gostava de repetir sabores. Era apenas uma vez e pronto, sem retorno. Sempre que algo desse tipo acontecia – e acontecia mais vez do que ele gostaria, esse ciúme sem sentido e xingamentos contra Julie – Ashton as chutava. Mas é claro que ele aproveitava antes. Sem culpa na consciência. Ele sempre dizia o que queria, o que aconteceria, antes que algo acontecesse, mas existiam dois tipos de garotas – ou ao menos, Ashton as dividia assim. As garotas que aceitavam o desprendimento dele e queriam o mesmo, e as garotas que acreditavam que poderia mudá-lo. As que mais o irritava. E era por isso que Ash ficava – tanto no sentido de “ficar com elas” quanto “ficar consigo mesmo” – sem culpa, pois ele sempre deixava claro o que queria. Ou o que não queria.
—Um brinde a mim então! – comemorou Ashton, levantando o copo com refrigerante – e sem álcool – numa falsa animação.
06 de Maio de 2016
Ashton foi encontrado por Julie antes que estivesse pronto para ir, não havia se passado muito tempo desde que tinham se separados. Devia ser duas ou três horas da manhã, então ele ficou surpreso quando ela apareceu de repente, agarrando seu braço e dizendo:
—Nós precisamos ir!
—Um momento – pediu Ashton, desvencilhando-se dela.
Não é porque ele não estava bêbado e nem poderia ficar que isso significava que também não poderia se divertir. Bebida e alegria não estavam diretamente relacionadas naquela noite. Ou manhã. Madrugada seria melhor? Talvez ele tivesse bebido o ponche batizado também.
—Agora! – ordenou Julie, puxando seu braço novamente, acordando-o dos seus pensamentos. – Eles estão descontrolados!
—Se essa é mais uma...
—É verdade!
Julie não parecia bêbada, apenas um pouco doida. Os olhos dela estavam arregalados, os cabelos bagunçados e a roupa amassada, como se tivesse fugido ao ser pega em um amasso. Ashton não queria ir, mas ele estava curioso para saber quem era eles, imaginando que Michael e Luke tivessem aprontado – eles sempre aprontavam algo, ninguém os segurava quando ambos bebiam – e ele estava certo, mas não eram apenas eles.
Calum estava sentado no sofá com a cabeça apoiada no ombro da Demi. Enquanto Ashton o olhava, ele acordou do nada assustado, entretanto seus olhos foram se fechando e a cabeça caiu para o lado. Mais uma vez.
Demi não estava incomodada por Calum está muito próximo dela ou por está usando-a como travesseiro. Sua blusa estava abotoada toda errada, o sapato direito e a meia do pé esquerdo estava faltando, apesar de está com o sapato esquerdo. E ela encarava Michael com raiva.
O que mais chamou a atenção de Ash ao olhar para Mike foi a marca vermelha na forma de uma mão no seu rosto. Ele sentava na cadeira ao lado na pontinha, preparado para saltar a qualquer instante, e parecia não saber o que fazer: dá um sacolejo na Demi ou sair num amasso com ela, embora parecesse tentado a tirar Calum do lado dela a força se necessário.
—O que aconteceu? – pediu Ashton uma explicação.
—Droga, eu deixei o Luke aqui – reclamou Julie, olhando ao redor. – Cadê ele?
—Eu vou pegar o carro – anunciou Ash, nem dando um passo antes de ser impedido.
—Não – negou Julie, agarrando sua camisa mais uma vez. Ele não sabia o que acontecia com ela e todos esses agarros. – Não podemos deixá-los sozinhos. É que nem o desafio de atravessar o rio na jangada dois de cada vez, mas não poder deixar a ovelha com as cenouras ou o lobo com a ovelha.
—O que?
Julie o olhou como se Ashton estivesse brincando, mas ele não tinha ideia do que ela falava. Quando percebeu que Ash não brincava, Julie revirou os olhos. Nem todos conseguiam acompanhar seu raciocínio, ela não sabia porque ainda tentava achar alguém que a compreendesse.
—Nada. Não saia daqui que vou buscá-lo – disse Julie e saiu, entrando no mar de pessoas bêbadas, já acostumada a elas. Ashton estaria orgulhoso se tivesse visto-a, mas ele encarava os que ficaram.
—Então... – disse ele. – O que aconteceu?
—Nada – respondeu Mike sem desviar os olhos da Demi, enquanto a mesma balançou a cabeça, fazendo o mesmo. Ao que parecia, eles travavam um jogo de quem piscava primeiro.
—O que? O que aconteceu? O que houve? Ashton?! – acordou de repente Calum, desorientado.
Demi o ignorou, empurrando sua cabeça de volta ao seu ombro e batendo nela, ou alisando, como se dissesse “nada, volte a dormir”.
—Sentado, Michael – ordenou Ashton quando ele tentou se levantar.
Ashton, com certeza, estava sonhando. Por que eu tinha que ser a babá deles?, Ashton queria saber. Por que justo no dia que eu sou o motorista designado, eles se embebedam?
Para Julie, as coisas não estavam melhores. Ela voltou logo depois arrastando um Luke bêbado e molhado. Ele tinha dado um pulo na piscina, sem dúvidas.
—Não pergunte. Levante-se, Michael. Eu fico com a Demi e você com o Calum.
Pegando-a pelo braço, Julie levantou Demi, passou um braço ao redor da sua cintura e saiu andando, caindo de um lado para o outro, desequilibrada.
—Você está olhando para a Julie – disse Luke ao seu lado.
—É claro que eu estou.
—Estou dizendo olhar olhar para a Julie.
O que?, Ashton virou a cabeça com tudo, confuso, mas como se tivesse explicado tudo, Luke seguiu sua irmã. Seguiu realmente, ele foi para fora cambaleando bêbado. E molhado. Julie estaria orgulhosa se tivesse olhado para trás, mas ela estava muito ocupada olhando para os próprios pés para não cair.
—Levante-se, Michael – ordenou Ashton dessa vez. E suspirou ao vê-lo deitado inconsciente na cadeira. Só era Demi sair da sua vista que ele desmaiava?
—Demi vai na frente – anunciou Julie, abrindo a porta do carro e a colocando no banco de passageiro com um zelo atípico dela.
—Por quê? – perguntou Ashton, estranhando esse comportamento dela.
Na ida, como eram seis, um tinha que ir nas pernas e esse alguém foi Demi. Julie informou que iria na frente e foi, então Demi teve que ir sentada nas pernas de Michael. Tudo parte de um plano, ninguém tinha duvidas disso, apenas os dois em questão não perceberam.
—Porque não vou deixar Demi no meio de um bando de garotos bêbados e tarados, ela será molestada – explicou Julie, inclinando-se para afivelar o cinto.
—Você está certa – concordou ele. Ela seria... Ash controlou um arrepio que subiu pelo seu corpo, ele não queria nem pensar nisso.
—Eu sempre estou.
Revirando os olhos, Ashton empilhou todos no carro. Michael, Luke, Julie e Calum, respectivamente. Julie era tão magra que cabia entre os dois sem problema – aparentemente todos estavam certos sobre a existência do plano.
O caminho foi um silencio total, eles eram bêbados silenciosos. Os melhores. Ashton odiava os que reclamavam da vida. Mas, apesar de Julie não está bêbada, ela não falou nada durante todo o caminho até chegarem ao primeiro destino. Casa dos Lovato. Onde Mike morava também. E Ashton nem tentou inicializar uma conversar. Ver se ele estava errado e Julie bêbada? Depois da ultima – e primeira – Ashton aprendeu a não mexer com Julie quando ela não queria papo.
—Você sabe o esquema, certo? – perguntou Julie, cutucando Mike para acordá-lo. – Eu, Demi. Você, Michael. Vamos.
Depois de abrir a porta e retirá-lo de dentro do carro, Ashton deixou Michael encostado na porta para tentar ajudar Julie a sair, mas ela não precisou. Passando por cima de Luke que tremia de frio – quase ficando de joelhos sobre o irmão – Julie saiu sozinha do carro e foi até Demi, batendo nas portas com força por algum motivo, quem sabe assustá-los. Ou talvez apenas por raiva. Ashton não tinha visto nenhum “gatinho” de quatro por Julie, embora aquele vestido fosse ótimo para se agarrar. Nele existiam tantos detalhes que ajudariam na hora de dá uns amassos.
Olhando-a enquanto saia cambaleando com Demi ate abrir a porta da casa com a chave escondida no telhado – a segurança dos Lovato era impressionante – continuando desse jeito enquanto subiam as escadas silenciosamente para o primeiro andar onde ficava os quartos – ou tão silenciosamente quanto possível, o que era difícil arrastando dois bêbados escada acima, batendo na parede vez em quando e ouvindo-os murmurar coisas sem nexo em meio ao sono – Ashton, em nenhum momento, parou de pensar sobre como aquele vestido era bom para se agarrar. Ou de se imaginar agarrando-se com Julie naquele vestido.
Não tinha como pensar em vestidos, agarros e não incluir a si mesmo na formula. E só foi pensar em si mesmo na formula que os delírios de Ashton atingiram proporções imensuráveis, algo que nem ele esperava. Ash nunca pensou em Ashton, Julie e agarros na mesma frase, mas ele se viu só pensando nisso. A forma como o vestido moldava-se ao corpo dela e deslizava mais um pouco para cima quando suas longas, longas pernas, que parecia não ter fim, subia mais um degrau. Ashton acompanhou todos esses movimentos, semiconsciente do bêbado ao seu lado. Seus sonhos de empurrar Julie para uma parede, provar sua boca mais um pouco, acompanhar com suas mãos aquelas curvas que o tentavam...
Concentre-se, ordenou-se Ashton. Se estivesse sozinho, Ashton tinha certeza que estaria batendo a cabeça na parede... Não, se tivesse sozinho, Ashton tinha certeza que estaria realizando esses sonhos, não os tendo. Mas aqueles sonhos eram mais fortes do que seu autocontrole. E ele nunca teve autocontrole para começo de conversa. Isso era o que normalmente finalizava suas conversas antes mesmo delas começarem!
De tal concentrado que estava nos seus próprios pensamentos libidinosos, Ashton demorou para perceber que Julie, ao invés de levar Demi para o quarto dela, entrou com ele no de Michael.
—O que você está fazendo? – sussurrou Ash, observando-a jogar Demi na cama, se bem que estava mais para soltou Demi e por acaso ela caiu na cama. Que sorte.
—Você acha que eles vão se lembrar de algo amanhã? – questionou Julie, sorrindo para ele. – Os dois vão acordar doidos para saber o que houve.
—Você é má – afirmou Ashton, retribuindo o sorriso ao entender o que ela queria.
—Sem duvida... Ah, espere.
Com uma ideia, Julie caminhou até Ashton que colocava Michael sentado na cama e começou a desabotoar a camisa do garoto bêbado. A posição dele fazia com que o próprio caísse praticamente com o rosto nos peitos da Julie. Ash teve que segurá-lo, sentindo-se um pouco invejoso por não ter uma desculpa dessa...
—E da Demi? – perguntou Ashton, tentando se concentrar em algo alem dos peitos de Julie.
Concentre-se, Ashton!, suplicou ele a si mesmo. Ele imploraria aos céus por mais força mental se não achasse que seria tão... Amendoim! Ashton odiava amendoins e começou a repetir como um mantra contra o mal ate se lembrar de como conheceu Julie por causa de um... Julie! Julie novamente! Sempre Julie! Mas que merda!
—Não – respondeu Julie, sem parar de trabalhar. – Você é um tarado.
—E você não é? – perguntou Ashton, já sem esperança. Ouvir Julie chamá-lo de tarado também não o ajudava em nada... E Ashton viu-se sem nada na sua mente...
—Quer tirar a roupa do Mike, então? – perguntou Julie, parando e observando-o. Ashton não se mexeu, apenas arregalou os olhos. Era isso!— Achei que não.
Um Michael, dois Michael, três Michael... cantarolou Ashton, alegremente no seu consciente traidor.
—Eu queria ver isso – lamentou Julie ao fechar as portas silenciosamente. – Mas vamos ter que nos contentar com a imaginação.
Passando o braço ao redor dos seus ombros, numa forma de mostrar a si mesmo quem estava no comando e de se castigar, Ashton caminhou com Julie até o carro. Eles ainda tinham dois pacotes para entregar. Calum tinha a cabeça para trás e os dois já viam o momento dele quebrar o pescoço, e Luke deslizou no banco ate está com a cabeça encostada na janela, embora continuasse sentado no meio. Aqueles dois teriam uma dor infeliz amanhã.
—Calum vai dormir na sua casa ou vamos...
—Na minha – interrompeu Julie rapidamente.
Ashton lançou um rápido olhar a ela em busca de explicação antes de voltar os olhos para a estrada. Suspirando frustrada, sabendo que pediu isso – ela quase parecia desesperada ao falar! – Julie fechou os olhos e esfregou a nuca, pensando no que poderia dizer sem falar mais do que deveria. Ela demorou tanto – eles tinham chegado à sua casa e subiam as escadas em direção ao quarto de Luke – que Ashton pensou que Julie não diria mais nada, pegando-o de surpresa, quando começou hesitante:
—Os pais do Calum... – E olhou para Calum, vendo que ele ainda dormia, antes de continuar: – Eles têm uma relação perturbada, você sabe. – Ashton não sabia, mas Julie demorou um pouco para perceber isso e murmurar: – É claro que não sabe, se soubesse não estaria me perguntando... Ah, cara. Isso é tão difícil.
—Eles brigam direto? – perguntou Ashton, tentando ajudar Julie a contar o que acontecia.
—Brigam? – repetiu Julie, rindo. – Antes fosse, isso não é nada. Certo, por razões que não te interessa e que nem eu devo contar, eles não se dão bem, e é por isso que – completou Julie num sussurro, como se contasse um segredo: – Calum praticamente vive lá em casa.
—Mas...
—Não pergunte, Ashton – avisou Julie. – Esse é um segredo de Calum e eu devo respeitá-lo, assim como não contei nada sobre você a Anne, não vou dizer nada do Calum a você.
Ashton ficou calado, pensando em qual deveria ser o segredo de Calum, antes de perguntar, indicando a cama:
—Vai fazer o mesmo com esses?
Ele havia levado Luke e Julie ficou com Calum. Ash era um cavalheiro, então deixou o mais leve para ela. E ela o olhava como se ele fosse louco antes de jogar Calum ao lado do seu irmão, exclamando indignada e levando a mão até o coração:
—É claro que sim! Você não me conhece?
Ahhh, suspirou Ashton. Ele a conhecia. A conhecia bem demais. E seus problemas resistiam justamente nisso.
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