Notas iniciais
“Tenho treino até as 18:40. Pode pedir comida para o jantar. P.s: Nada de tailandesa de novo!!!”
Joguei o papelzinho amarelo colado na geladeira na lixeira com um sorriso no rosto.
Mamãe era daquele tipo ligada 24h sem parar. Ela simplesmente não tinha um modo descanso ou economia de bateria, nunca parava em lugar e era multitarefas de uma forma que fazia todos ao redor repensar seu estilo de vida sedentário. E eu me incluo nessa lista, uma vez que estou sempre comparando seu modo hiperativo com o meu quase parando.
Mas, não me entenda mal, nós tínhamos muito mais em comum do que eu deixava transparecer em primeiro momento. Ou havíamos tido, era difícil precisar nesse momento e nesse ritmo que as coisas vinham tomando.
Stela Stwart havia sido uma das patinadoras mais conhecidas da costa leste dos Estados Unidos aos dezesseis anos de idade, tendo adquirido para sua academia um total de cinco troféus consecutivos na modalidade livre. Ela não era apenas boa ou bonitinha, com seu tom de pele escuro contrastando com o tecido claro, olhos castanhos claros e beleza gentil e frágil; minha mãe era realmente boa, a ponto de fazer grandes nomes das competições nacionais estremecerem com a menção de seu nome. Sua técnica era perfeita (cuidadosa e tão doce), seus modos eram comparados com os de uma princesa e suas notas eram quase o sonho impossível de toda patinadora. Ela era simplesmente uma referência do esporte não só na nossa cidade pequena e patética, quanto no país e até mesmo em alguns lugares fora dele.
E como uma ex-patinadora como essa não termina treinando novos prodígios?, você deve se perguntar. Minha mãe se tornou treinadora, minha treinadora. Quando ainda era criança, passava tardes namorando as gravações de suas apresentações na TV do porão (a única da casa inteira que tinha suporte para fitas cassetes depois da revolução que foi o DVD), e aquilo era tão perfeito! Ela nem mesmo se parecia minha mãe, mas sim um ídolo distante da terra da fantasia, como a Ariel havia sido depois de assistir oito vezes em um mesmo final de semana a maldita fita com selo oficial da distribuidora da Disney. Aquela jovem garota patinadora era tudo no que eu queria me tornar quando tivesse quinze anos -não que eu soubesse porque idealizei aquela idade na época, na minha cabeça apenas era a idade perfeita para ser uma princesa.
E eu implorei. Choraminguei. Rastejei. Fiz promessas. Deixei de comer.
Eu tentei de tudo para convencer minha mãe que eu dava conta.
Não sei se ela aceitou como uma forma de me fazer calar a boca ou simplesmente viu algum brilho em mim, o que importava era que eu finalmente tive o que tanto queria.
Na minha primeira aula de patinação foi simplesmente uma porcaria. Eu não conseguia ficar de pé sozinha e o sonho de ser uma princesa do gelo parecia impossível. Não preciso dizer que eu não quis voltar e minha mãe me lembrou de todo o auêque eu fiz para conseguir aquelas aulas, as quais ela tinha pago antecipadamente. E ao primeiro ano que se passou, eu não era nem sinal de um grande nome do esporte, mas conseguia me mover sozinha e era todo o meu orgulho, dar voltas e voltas no rinque de patinação enquanto gritava a plenos pulmões o quanto eu estava feliz.
No ano seguinte, estava intercalando entre aulas de ballet e mais aulas de patinação.
Mamãe queria perfeição e eu estava disposta a mostrar que podia fazer aquilo.
Fui uma das patinadoras mais jovens na minha primeira competição, com menos de dez anos –eu chutaria oito. Era algo meia-boca, nem mesmo havia um prêmio de verdade e o juri era composto de alguns responsáveis pela manutenção do clube esportivo perto da praia. Fiquei em quarto lugar, o que mamãe tentou me convencer o tempo inteiro durante a volta para casa que era uma ótima classificação para a minha primeira vez sendo avaliada, e eu nem mesmo apareci na foto das meninas que ficaram no pódio.
Ao contrário do que todos pensaram, não vencer aquela competição me fez continuar treinando com mais afinco do que eu nunca tinha feito em toda a minha vida. Eu me esforçava mais, ouvia mais e definitivamente falava muito menos, todo o meu tempo e concentração estavam naquilo. Eu queria estar entre as três primeiras, como o inferno eu queria aquele maldito troféu de bala para mostrar a todos que eu podia ser como minha mãe.
E um dia, eu realmente o ganhei. E cinco medalhas de bronze, oito de prata e duas de ouro em competições estaduais.
Mamãe finalmente viu algo em mim quando estive no pódio pela segunda vez levando o ouro. Vi nos olhos dela. Ela me via como a si mesma.
E começamos a treinar para valer depois daquilo. Pois é, todo o meu empenho anteriormente era brincar de carrinho perto da verdadeira rotina de uma profissional de verdade. Não que eu tenha dado para trás ou feito corpo mole depois de, sei lá, cinco meses de treino intenso. Mas parecia que eu era parte de uma festa da qual sempre ouvia falar, mas nunca havia sido popular o bastante para frequentar antes, era como se um segredo universal tivesse se aberto diante de mim. E eu queria ir cada vez mais longe.
Até os quatorze anos e meio, quase quinze, eu fui exatamente como minha mãe.
Eu tinha aquela energia esquisita que escapa dela o tempo inteiro.
Nós falávamos a mesma língua, andávamos na mesma sintonia, tínhamos os mesmos objetivos, estávamos na mesma festa dançando a mesma música. E eu adorava isso, que compartilhássemos a patinação e o amor por ela.
Até que o que eu nunca imaginei aconteceu.
Quando você está no topo, é difícil imaginar que pode cair.
Mas eu caí.
E sofri uma concussão que me deixou fora do rinque de competição.
Não era uma decisão definitiva pelo serviço médio, eu poderia ter uma melhora nos meus nervos e voltar a patinar na modalidade artística. Só que o que os médicos não sabem é que quando você é uma garota (ou uma mulher) existe um limite de tempo até que consiga deixar sua marca em algo que meramente envolva esporte e entretenimento. Se um dia meu corpo me deixasse dar mais do que dois giros e um salto sem entrar naquele ciclo estrondoso de dor poderia ser muito tarde para estar nas interestaduais novamente, e sem pelo menos oito competições interestaduais eu jamais poderia estar em uma nacional.
Aquela queda meio que me expulsou do mundinho da minha mãe, como se eu tivesse mijado em um vaso de plantas ou arremessado o cachorro para o outro lado da cerca.
E desde então, mamãe deixou de ser a grande treinadora de igualmente sua grande e prodigiosa filha única, Ronnie Stwart.
Eu jamais poderia pensar em dizer que ela me culpa por alguma coisa ou que ela sente algum rancor, até porque esses são os meus sentimentos. Eu sinto que fiz merda, que pisei na bola tanto com ela quanto comigo, e é apenas isso.
Estalei a língua, voltando para a minha realidade.
Tinha uma pilha de dever para fazer, fruto da minha procrastinação e eu precisava arranjar melhor alguns pontos do meu resumo sobre como as mídias sociais assumem grande influência no consumismo exacerbado das massas. Sério, eu odiava ter tanto trabalho acumulado, mas ele não existiria se eu não adiasse tanto minhas responsabilidades, então novamente até aqui tudo é culpa minha.
Tirei a camiseta que vesti durante todo o dia, subindo correndo para o segundo andar e praticamente atravessando o corredor como um velocista. Conectei meu celular na caixa de som no canto do quarto, um trambolho que custou pouco menos de cinquenta dólares em uma venda de garagem. Demorou pelo menos dois minutos antes da música que eu estive ouvindo no caminho de volta para casa começar a tocar no mesmo trecho em que dei pause.
Theysaythisisthecity
The cityofangels
All I seeisdeadwings
Theysaythisisthecity
The cityofangels
All I seeisdeadwings¹
O refrão da música encheu o silêncio com força total, dilacerando a monotonia da casa como uma motosserra em toda a sua potência fazendo um estrago dos infernos nas estruturas da casa.
Despretensiosamente, quase que sendo levada pelos acordes da música, comecei a me mover em uma dança agitada e sem muitos critérios. Arranquei a calça jeans com velocidade enquanto acompanhava a voz que ecoava pelo quarto naquele refrão viciante, me sentindo um pouco bêbada pelos acordes independentes.
Era um rock do início da década 00’ que Riley havia me mostrado casualmente em uma aula vaga, porque o cara era fascinado em achar novas músicas para guardar em mixtapes personalizadas que ele usava para absolutamente qualquer coisa. Desde seu trabalho no rinque de patinação em patins no shopping (é, parece que todo mundo ao meu redor está mergulhado no mundo da patinação, para ter noção da minha imensa sorte) até presentes para aniversários que ele acabava esquecendo. Tenho pelo menos oito fitas em uma caixa de sapatos e sei que minha coleção ainda vai aumentar bastante com o decorrer dos anos, mesmo que eu não tenha um aparelho de som que reproduza as fitas e saiba apenas ocasionalmente o que Riley colocou nelas porque ele simplesmente deixa escapar vez ou outra. O cara se acha um verdadeiro descobridor das boas músicas perdidas.
Essa, contrariando boa parte da discografia questionável do meu amigo, é a minha favorita tem alguns dias.
Obrigada, The Distillers! Todo o meu amor e admiração a vocês!
Vou pulando pelo quarto, balançando meu cabelo cacheado e revolto por todo lugar, sentindo cada fibra do meu corpo vibrando pela música. Meus quadris se movem junto com um ritmo próprio em uma dança vergonhosa de calcinha e sutiã com desenho de lacinhos lilases.
Minhas pernas, já mais grossas pelo tempo de batatas fritas e séries na TV o dia inteiro, se sentem gratas por estarem livres do aperto dos jeans e adoro o contato dos meus pés descalços com o carpete do quarto.
De frente para o espelho contemplo o caus. Sério, não dá para acreditar em quanto frizz tem no meu cabelo, atualmente três tons mais claro graças aos cremes massageadores a base de camomila da mãe de Julie. Meus olhos, um tom tão claro de verde que poderia muito bem ser castanho, analisam o conjunto da obra apenas para ter certeza de que eu já estive em melhor forma, sem o relevo notável de barriga e as estrias no quadril, mas não é como se eu me importasse o suficiente com isso. Dolly Parton não se importava, e ela era linda e talentosa.
Amarro o cabelo em um coque, visto uma camisa dos Lakers (herança do meu pai) velha e um short velho de limpar o quarto. É duvidável que aquelas roupas estivessem cem por cento limpas, mas não me importo tanto com isso também.
Desço as escadas novamente, apenas para pegar minha mochila e poder estudar no quarto até meu pai chegar do trabalho.
Quando estou no meio das escadas, escuto o toque conhecido de Julie, que nós mesmas fizemos enquanto nos escondíamos atrás das arquibancadas para não das as cinco voltas pela quadra coberta –que nem era tão grande assim, mas éramos preguiçosas para caramba e estávamos com vergonha de nossas bundas dentro da bermuda de lycra que a escola disponibilizava como parte do uniforme.
Hey, é Julie, lálálá;
Hey, é a Julie, lálálá;
Hey, é a Julie, lálálá.
Puxei meu celular, um modelo já bem baleado e com a tela trincada do iPhone 3.
Uma foto de Julie com um cheetos acima dos lábios superiores como um bigode amarelo e bizarro me fez rir feito idiota antes de atender a ligação.
—Ei, estranha! -Esse era nosso cumprimento/piada interna desde que um grupinho de garotas metidinhas tinha achado engraçado nos chamar assim na sexta-série. —Acabamos de nos falar no ônibus da escola e você já está morrendo de saudades de mim? Dá um tempo, garota!
—Você já viu o blog da escola?
Ignorei o ressentimento quando ela não respondeu ao nosso cumprimento/piada interna e engoli a vontade de perguntar se ela havia sido abduzida.
Joguei a mochila no chão do quarto, perto da escrivaninha pintada de rosa bebê quando eu tinha doze anos. Agora a tinta estava praticamente toda descascada e boa parte da pintura original da madeira estava exposta, mas eu achava que ela tinha seu charme da forma que estava.
—É, eu passo as tardes da minha vida me perguntando o que o anônimo vai postar sobre a elite petulante e sem noção da nossa escola. -Revidei os olhos da forma mais teatral que pude e foi uma pena que ela não tivesse visto aquilo. —Claro que eu não vi, aquele blog é um desserviço! Eu nem posso acreditar que você leu!
—Algumas vezes é legal ler alguma coisa que não seja séria, sabia? -Ela diz na defensiva.
Julie é um projeto de fofoqueira adolescente, mesmo que se envergonhe disso quando ressaltamos seu pequeno podre.
Quer dizer, todo mundo é um pouquinho fofoqueiro e está tudo bem nisso, mas ela realmente se sente parte da galera popular quando acessa o blog anônimo feito por algum aluno desocupado da nossa escola para falar mal justamente da pequena elite dos intocáveis. Não posso negar que a proposta é interessante, mostrar para os idiotas metidinhos que eles são como nós e podemos expor uma coisinha ou outra vergonhosa sobre eles, mas também não é maldade e invasão de privacidade?
Uma parte pequena de mim prefere não se render à tentação e fica bem longe do blog de fofocas da escola.
Não é divertido tirar sarro de alguém, mesmo que esse alguém faça isso com outras pessoas o tempo inteiro.
—O que você leu de tão interessante que valesse a pena interromper meu trabalho de sociologia, senhorita Zhao?
—Kurt Smith e Logan Henderson brigaram feio no pátio externo depois do treino de futebol do time da escola. -Julie despejou de uma vez só.
—Até onde eu sei, eles estão sempre brigando, não é? -Abri meu caderno na escrivaninha, pegando meu estojo escolar e umas fontes que imprimi na biblioteca da escola. A maioria já tinha algumas partes marcadas com marca texto azul bebê, rosa e amarelo por ordem de importância (azul: referência boa demais para perder; rosa: referência boa; amarelo: é importante, mas é chato também), mas algumas folhas ainda precisavam ser revisadas com um pouco mais de calma e cuidado. —Não é o acordo secreto deles de cachorrões da escola? Não cruzar o território do outro e nem mijar no hidrante alheio? Acho que a testosterona dos dois é sempre tão alta que eles deveriam ser mantidos em uma distância de dois planetas um do outro! Sério!
—Ronnie, você não tá me entendendo! -Ela repetiu com um pouco mais de calma. —Kurt e Logan brigaram feio! Os dois foram encaminhados para o hospital local por causa dos ferimentos!
Meus olhos saltaram brevemente.
Beleza, Smith e Henderson eram esquentadinhos e não se suportavam, mas aquilo era coisa nova.
Quando se tratava dos dois, o máximo que eu consegui presenciar foi um empurrão aqui e uma provocação ali. Os dois eram tipo cachorros pitbulls prontos para avançar um no outro a qualquer momento desde sempre. Smith não era um dos jogares de futebol, ele nem mesmo era atleta, mas era popular justamente por não dar a mínima para a elite da nossa escola e não ter medo de recusar convites para qualquer interação social que fosse idolatrada na nossa escola.
No meio dos dois ficava Peter, que era amigo de Henderson e de Smith, e parecia ser tarefa difícil estar na posição dele.
Eu não podia negar que Kurt tinha um charme de bad boy que chamava a atenção, mas não me imagino sentindo a pressão de gostar de um garoto como ele. E ele não tem os olhinhos de filhotinho de Peter.
—Eles nunca foram tão longe assim antes.
—Finalmente você me entendeu! -Julie suspira cansada.
—Ainda assim, parece um pouco ridículo você me ligar só por isso.
—Abra a blog, veja as fotos e depois me diga se não é motivo para exagero.
Seguindo os comandos de Julie, levantei resignada da cadeira enfrente a minha escrivaninha e atravessei o corredor, indo para o escritório do meu pai, onde ficava o computador de acesso geral da casa.
Segundo meus pais, eu ainda não tinha idade para ter o meu próprio, mas desconfiava que fosse ganhar um de presente de aniversário ou de natal. Digamos que meu pai não sabe esconder sua lista de presentes e eu sei ser persuasiva com ele sem a presença esmagadora da minha mãe.
Liguei a máquina, esperando alguns bons segundos até que ela terminasse de inicializar.
Abri o navegador e digitei o endereço digital da página, que demorou um pouco para carregar.
A postagem já era simplesmente a mais visualizada do blog, com centenas de comentários e curtidas. As fotos, um pouco amadoras, eram realmente reveladoras o quanto aquilo era totalmente atípico entre os dois rivais naturais. Kurt estava por cima de Logan, com o punho fechado pronto para acertar seu nariz com tudo. Henderson, por outro lado, parecia estar pronto para acertar o joelho no meio das costas no garoto sentado em seu abdômen e segurava os cabelos descoloridos de Smith em uma posição que puxava sua cabeça para trás.
Eles pareciam animais encurralados naquele círculo de pessoas que assistia empolgada a briga.
—Você viu? -A voz de Julie quebra o silêncio do outro lado da linha.
—Ok, eu admito, isso parece muito mais sério que as briguinhas de primário dos dois. -Soltei o ar que estava prendendo enquanto descia o mouse pela página. Por que eu perdia esse tipo de coisa quando estava na escola? A parte egocêntrica do meu cérebro não me dava um desconto. —Peter viu isso?
Ele devia estar arrasado!
Quer dizer, em que mundo seus dois amigos mais próximos são rivais naquele nível?
Pensei em seus olhos de filhotinho novamente e a forma que eles tinham um brilho mesmo quando parecia decepcionado com alguma coisa. Já vi isso acontecer, quando o diretor quase trancou a verba para da horta dos alunos no terreno da escola por tempo indeterminado. Havia sido ideia de Peter e ele tinha tido muito trabalho recrutando alunos para ajudar no projeto. Naquele dia, durante a votação decisiva, foi a primeira vez que o vi realmente decepcionado com algo e Smith e Henderson o consolaram durante o dia inteiro (separadamente, é claro, nem naquelas circunstâncias eles conseguiam se unir).
O pensamento de que ele poderia estar triste daquela mesma forma fez meu coração se apertar.
O que uma paixonite adolescente não faz!
—Aparentemente foi ele quem separou a briga. -Julie disse com a voz um pouco abalada, sabendo que eu me preocupava com Masset. —Deve ser uma merda ser ele.
—Eu ia dizer o mesmo agora mesmo.
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