Isolamento?
1 Capítulo Único - Isolamento?
Notas iniciais
Capítulo Único – Isolamento?
Era um dia atípico na Universidade de Westminster, em Londres. Na verdade, eram dias e semanas anormais. Uma pandemia estava se alastrando por todo o mundo, mas especialmente na Europa. Hoje, por fim, as universidades, escolas, escritórios e todo o resto que funcionava e não era considerado essencial, parariam. A partir de amanhã, por ordem do governo britânico, todos deveriam permanecer em casa, saindo apenas para comprar o necessário, e sozinhos, evitando chegar perto de pessoas nas ruas e até na própria casa. Em resumo: um isolamento, de no mínimo um mês, estava prestes a começar.
Lilian saiu do prédio em que estudava apressada, a fim de encontrar Tiago. Seu namorado estudava no mesmo campus, mas era um pouco longe do dela, já que ele estudava medicina e, ela, literatura britânica. Lá, os prédios eram divididos por área de concentração, então as Humanidades ficavam o mais longe possível da Saúde. Por conta da distância, a ruiva decidiu ligar para o companheiro: gostaria de saber o que fariam juntos durante o período em casa. A propósito, em que casa: na dele ou na dela?
Antes que pudesse fazer a chamada, Lilian viu a notificação do WhatsApp em seu celular: era uma mensagem de Tiago, em que ele dizia: “Lili, eu fui escalado para trabalhar em regime de plantão no hospital regional por conta do vírus. Lado ruim de ser da área da saúde, sempre na linha de frente... Ficaremos um bom tempo sem nos ver, já que não posso lhe colocar em risco também. Aproveite seus muitos dias livres para ler, como gosta. Um beijo”.
A ruiva bufou, sentindo a frustração lhe arrebatar em cheio. Não estava frustrada por seu namorado ter de trabalhar, apesar de querer sua companhia; mas sim por ele ser sempre tão frio com ela. Ele não podia ao menos ter ido ao seu encontro no campus e ter lhe dito tudo aquilo pessoalmente e se despedido de uma forma decente? Todos estavam apavorados com toda aquela tensa situação, mas não era de hoje que o namorado agia como Lilian fosse apenas uma de suas obrigações; contudo, ela era a obrigação que sempre podia ficar para depois.
Não era de agora, e ela estava um pouco decepcionada pelo andamento de seu relacionamento. Quando começaram a sair, ela achava que estava perdidamente apaixonada, mas depois de uns meses, a sensação de empolgação deu lugar à mesmice, e ela sentia que, nesses mais seis meses que passaram juntos, estavam levando aquilo apenas por comodidade.
Deixando os pensamentos de lado, a garota decidiu que iria esperar seu melhor amigo para irem embora para casa juntos, já que ele também estudava no campus, e no mesmo prédio que o seu. Diferente dela, Severo cursava arte, mas também era um grande fã de literatura. Os dois eram amigos de infância e vizinhos desde que se entendiam por gente; sempre foram muitos próximos: quando crianças, brincavam juntos; quando adolescentes, iam juntos às festas, aos cinemas, aos museus, aos teatros, à formatura do colegial. Agora, como jovens adultos, frequentavam a mesma universidade e ainda mantinham a amizade, já que dividiam um apartamento, em uma zona estudantil, perto dali.
Só assim os pais de ambos ficaram mais tranquilos com a saída dos filhos de casa. A cidade natal de Lilian e Severo não era tão distante de Londres, mas o suficiente para que precisassem se mudar e não pudessem visitar os parentes com certa frequência, então, juntos, como sempre, os pais sabiam que um cuidaria do outro.
Severo possuía uma personalidade tímida e contida; Lilian o achava muito inteligente, além de afirmar para todos que seu amigo era o melhor escritor de todos os tempos. O garoto escrevia de tudo: canções, poemas, dramas e até peças de teatro. Lilian achava encantadora a forma como ele conseguia ser poético nas palavras até mesmo escrevendo um artigo científico, e não cansava de elogiá-lo por isso. Ela amava o jovem com todo o seu coração, de uma forma pura e genuína; amava o jeito como ele era retraído, mas também adorava como, com ela, ele conversava horrores sobre literatura, sobre filosofia, sobre artes visuais e tudo o mais; amava como ele a beijava demorado na bochecha, demonstrando todo o carinho que sentia por ela; amava seu perfume amadeirado que, apesar de ser extremamente comum, era único ao se misturar à sua própria essência; amava o jeito como ele a abraçava em situações ruins, dando-lhe coragem para enfrentar o que quer que fosse, além de sempre ter os melhores conselhos.
Severo também amava a amiga demais. Via em Lilian uma pessoa que não o completava, mas sim o transbordava. A jovem mulher o inspirava a ser melhor todo dia, por mais clichê que isso possa parecer. Ele adorava o jeito desafinado que ela cantava todas as músicas dos Beatles, como ela suspirava de puro contentamento nas manhãs de sábado, em que podia acordar cedo, preparar uma xícara de seu chá favorito e sentar-se no sofá dos dois para ler, enquanto o sol batia na altura de seus ombros, deixando seus cabelos brilhosos como nunca antes.
Os dois amigos nunca tiveram uma briga séria, nunca ficaram um dia sem se falar. Seus pais achavam que haviam sido feitos um para o outro, mas os dois sempre riam e descartavam a hipótese, sem nem ao menos pensar nela. Na verdade, ambos tinham medo de encarar o que sentiam, pois mudar a relação, transformar a sólida amizade em um incerto amor, poderia não dar certo, e nenhum dos dois estava pronto para se separarem. Como melhores amigos, estavam seguros. Tinham a segurança de que sempre poderiam contar um com o outro, porque nenhum dos dois iria embora. Contudo, quando se deitavam à noite para dormir, cada um em seu quarto, em suas camas, não podiam evitar de pensar: e se nos permitíssemos ser mais?
Severo finalmente saiu de sua aula. Logo, avistou sua amiga sentada em um dos bancos que ficavam na frente do prédio em que estudavam, esperando por ele. Estava preocupado com a situação que assolava o mundo todo e ficara feliz com a quarentena. Lilian sempre tivera uma imunidade baixa e há dias ele estava preocupado com a ruiva; não queria que nenhuma doença lhe acometesse.
—Ei, está esperando por mim? –A ruiva sorriu quando ouviu a voz de seu melhor amigo. Fechou com delicadeza o livro que estava lendo enquanto a guardava a saída de Severo e se levantou para irem para a casa.
—É claro, alguém tinha de proteger você da Eleonora. –Lilian elevou um pouco o tom de voz ao lembrar da colega de classe que estava interessada demais em Severo. –É capaz de ela se oferecer para passar a quarentena com você.
No início da semana, a garota de quem Lilian falava pedira a ela que intermediasse uma possível apresentação e encontro com Severo. Muito a contra gosto, Lilian se mostrou solícita e disse que falaria com o amigo. A verdade era que ela só havia ficado simpática e prestativa por fora, pois por dentro queria mandar a colega para o inferno, embora não soubesse o porquê. Quer dizer, Severo era um jovem atraente e solteiro, qual o problema de ele se relacionar? Ela mesma possuía um namorado.
Para o alívio de Lilian, Severo deixou claro para a garota que não seria se envolver e não podia aceitar seu convite para um encontro, pois gostava de outra pessoa. A consolação da moça durou apenas até ela saber daquela última informação: como seu melhor amigo estava interessado em alguém e não havia contado para ela? Aquilo era ridículo e infundado, mas ele se recusava a contar. Lilian tinha esperança de que nessas semanas de isolamento, o rapaz se abrisse com ela, já que nunca foram de guardar segredos – exceto a paixão secreta que um nutria pelo outro, mas fingiam desconhecer por medo.
–Nada mais justo, já que você passará com seu namorado, não? –O tom de Severo ao mencionar Tiago também não era nada amistoso, já que os dois se odiavam. Lilian não aprovava a desavença dos dois, mas entendia: eram opostos demais.
—Não, ele vai ter de trabalhar. –Na hora, havia ficado frustrada com o jeito que Tiago deu a notícia a ela, mas agora estava até mesmo animada em passar um tempo sozinha, apenas com seus livros, seu gato e Severo.
—Não posso dizer que fico triste com isso, cenourinha. –Severo tinha inventado esse apelido para a amiga quando ainda eram crianças. Com seis anos, ele dizia que Lilian parecia uma cenoura por conta da cor do seu cabelo, então sempre a chamava assim. A ruiva fazia que não gostava do apelido carinhoso, mas se derretia quando ele se referia a ela daquela forma mesmo depois de tanto tempo.
—Sabe que eu também não? Tenho o Darcy, você e meus livros para me fazerem companhia.
Os dois trocaram um sorriso caloroso e seguiram andando pelas ruas de Londres, agora já um pouco desertas. Como haviam feito compras recentemente, não precisariam sair tão cedo de casa, o que era ótimo. Seguiriam as recomendações à risca.
(...)
No primeiro dia de confinamento, uma chuva forte caía sobre a cidade. Lilian acordara cedo, como de costume, e estava em seu sofá, relendo seu clássico favorito: Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf. A ruiva estava no início da história, mas parou em um trecho que sempre fazia com que ela se identificasse com a personagem:
“Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse”.
Lilian sentia que não aproveitava sua vida como deveria. Quer dizer, nunca lhe faltou nada, sempre fez o máximo de coisas que podia, mas sentia que se continha quando o assunto era Severo. Em alguns momentos, que com o passar do tempo ficavam mais frequentes, tinha rompantes de emoção e quase falava para o rapaz, afoita: “será que a gente não ia ser melhor ainda se ficássemos juntos, juntos?”
Entretanto, ela continha sua emoção, e trancava dentro de seu peito à sete chaves. Se ele nunca tinha mencionado essa opção, por que ela mencionaria? Eram bons amigos e isso já era uma sorte que muitos não tinham. Mesmo assim, ela sentia, assim como Mrs. Dalloway, que era coadjuvante de sua própria vida, que acompanhava tudo de fora, apenas vendo seus sentimentos conturbados se afogarem na imensidão das ondas que era amar seu melhor amigo.
Severo ainda não havia saído do quarto naquela manhã, embora já estivesse acordado. O jovem buscava evitar a melhor amiga, mesmo que não soubesse o porquê. Desde que ela começara a namorar com o tal do Tiago, inconscientemente, tomou uma distância segura da ruiva. Os dois ainda conversavam sobre tudo, ainda conviviam, mas ele estava mais isolado do que o normal, e freando seus impulsos de lhe lançar um beijo no rosto, lhe fazer cócegas, ou deitar em seu ombro enquanto viam um filme.
O moço não entendia como uma garota como Lilian estava com Tiago, era o oposto de tudo que ela era; o namorado de sua amiga era egoísta, adorava se exibir e via a jovem mais como um troféu do que como uma companheira. Severo tinha verdadeiro nojo de gente exibida, e essa repulsa do futuro médico era multiplicada por cinco só pelo fato de ele namorar Lilian. Severo sabia, no fundo do seu coração, que nunca poderia gostar de ninguém que se relacionasse com ela, já que a inveja falava mais alto. Antes de Lilian começar a namorar, os dois nunca tinham se envolvido a sério com ninguém, e aquilo meio que o deixava tranquilo; agora, parecia que sua amada cenourinha queria seguir a vida, e com outra pessoa.
Quando sua barriga roncou de fome, o jovem se obrigou a sair de seu quarto e ver o que iam almoçar. Já era perto das 11h e ele sabia que sobraria para ele cozinhar na maioria dos dias que ficariam isolados. Lilian não gostava muito de preparar nada, e ele era, de fato, muito habilidoso na área gastronômica. Assim que atravessou a sala para chegar à cozinha, viu sua melhor amiga dormindo no sofá, com o livro que estava lendo apoiado em seu peito e Darcy, o gato dos dois, deitado nos pés da ruiva. Ele revirou os olhos e riu baixinho da cena.
Adorava a visão de Lilian em casa, tão à vontade, dividindo a vida com ele e Darcy – mesmo que fosse apenas como amigos; contudo, seu coração se apertou ao saber que aquilo não duraria para sempre. Um dia, ela resolveria se casar – talvez com Tiago, ou talvez com outro; ou simplesmente sairia dali para morar sozinha, em outro bairro ou em outra cidade ou em outro país. Ele ficaria sozinho e infeliz, pois sabia que nunca conseguiria viver em paz sem ela. O rapaz não sabia, mas a ruiva se sentia do mesmo jeito.
Talvez a falta de diálogo franco fosse a ruína daqueles dois.
Severo preparou um molho a bolonhesa e cozinhou uma massa pronta, um prato rápido e simples. Não estava muito inspirado para preparar a massa ou realizar uma comida mais elaborada.
—Ei, eu fiz o nosso almoço. –Ele cutucou gentilmente Lilian, para que ela despertasse. A ruiva abriu os olhos rapidamente, e Severo, por um momento, se perdeu fitando aqueles olhos claros que pareciam safiras azuis, de tanto que brilhavam. O jovem gostava de pensar que eles só refletiam daquela forma brilhosa quando olhavam para ele, mas isso era mais uma esperança do que uma afirmação.
—Meu Deus, por quanto tempo eu dormi? Eu queria ter lido... –Severo riu do quão absurda a garota era. Ele não conhecia ninguém que se lamentava por ter dormido.
—Acredite, você vai ter tempo para isso. –Afirmou, tristemente, dada a situação do país. –Mas, você já não leu esse livro?
—Já, mas eu gosto de reler.
—Por quê?
—Porque me identifico um pouco com a personagem... Ela analisa suas escolhas, depois de um tempo, e age como se estivesse inteiramente feliz, mas por dentro, ela está pensando em como poderia ter sido escandalosamente alegre se tivesse tomado outro caminho. Quer dizer, isso faz a gente pensar... –A ruiva corou ao perceber que divagava demais e havia se perdido nas palavras. Severo ficou intrigado. Afinal, de que diabos ela estava falando?
—E de quais escolhas você se arrepende para se identificar com a personagem?
Os dois sentaram-se à mesa para fazer a refeição. Severo aguardava curioso e ansioso por uma resposta da melhor amiga, mas esta não veio. Em vez disso, a ruiva mudou de assunto:
—Sabe, você cozinha muito bem mesmo e eu te amo por isso.
Ele sorriu, um pouco triste pela melhor amiga não confiar nele mais o suficiente para ser franca naquele momento. Será que ela tinha arrependimento por ter as mesmas atitudes que ele teve, durante todos esses anos de amor comedido? Severo achava que não, pois seria absurdo. Terminaram de comer em silêncio, mas ao contrário das demais vezes, a falta de conversa não era confortável. O silêncio era pesado e parecia ressoar no ambiente. Pela primeira vez, desde que se conheceram, ficaram sem saber como agir um com o outro.
(...)
—Você está brincando, certo? Não tem a menor possibilidade de Agatha Christie ser melhor do que Virginia Woolf, seu louco! –A ruiva parecia realmente ofendida com a opinião de seu amigo. –Em termos técnicos, a escrita dela é muito superior, intimista...
—Bem, em termos técnicos pode até ser; mas eu, como leitor, só quero ficar curioso com a história, e a Agatha faz isso com perfeição, do início ao fim da história. Pelo amor de Deus, a Virgínia é tão depressiva em seus escritos, ela passa um livro inteiro relatando apenas um dia na vida de sua personagem, dá vontade de se matar logo nas primeiras páginas. –Severo se referia à Mrs. Dalloway e ele sabia que aquilo irritaria a amiga.
—Seu cretino! Você sabe que dentro desse dia, ela faz toda uma reflexão de como a vida daquela mulher era aparentemente feliz, mas visivelmente vazia. Várias histórias acontecem em simultâneo dentro daquele dia, as memórias, os pensamentos! Eu te odeio, Snape!
Era o segundo dia de isolamento, e os dois estavam no meio de uma discussão calorosa sobre quem era a melhor escritora de língua inglesa de todos os tempos; obviamente, não estavam chegando em um consenso. Lilian só se referia ao melhor amigo por seu segundo nome quando estava realmente brava, e ele riu de sua atitude infantil.
—Não seja idiota, eu sei que você me ama.
—Não mais.
Os dois estavam sentados no sofá, pegando um pouco do sol que entrava pelas janelas do apartamento.
—Admita logo.
—Não.
Lilian parecia uma criança birrenta. Ela estava sentada, de braços cruzados sobre o peito, e sustentava em seu rosto um bico enorme, sinal claro de que estava chateada. O amigo não conteve seu impulso, aproximou-se dela e começou a fazer cócegas em sua barriga, tal qual fazia quando eram pequenos e tinham alguma discussão idiota sobre com o que iriam brincar.
—Para com... isso, por... favor... –Lilian implorava, entre as risadas que soltava forçadas. Severo aumentou as cócegas, e riu ao vê-la daquela forma.
—Só quando você dizer que me ama, mesmo eu odiando sua escritora favorita.
Demorou alguns poucos segundos até que a ruiva se rendesse. Ela não conseguia ficar brava com ele por muito tempo, e também não aguentava cócegas.
—Certo, mesmo você sendo chato, eu te amo.
Em outro impulso, causado pela declaração doce da amiga, Severo, aproveitando a proximidade, puxou sua amiga para um abraço apertado. Ela retribuiu o carinho na mesma hora, aninhando-se mais no peito do jovem. Ele permaneceu com um braço ao redor da cintura de Lilian, enquanto com a outra, começou a fazer carinho no cabelo ruivo e sedoso dela.
O tempo parou para os dois amigos naquele momento. Não sabiam quanto tempo permaneceram dentro daquela bolha, e nem se importaram com isso. Lilian e Severo focaram toda a sua atenção em aproveitar aquela sensação: de carinho, amor, cumplicidade e felicidade plena.
(...)
—Can anybody find me somebody to looooveeeeeeeeeee?
Era o terceiro dia de isolamento. Severo havia se levantado cedo e decidira arrumar a casa. Decidiu ir até o quarto de Lilian acordá-la e pedir sua ajuda naquela missão, mas mesmo com seus chamados, ela não acordava por nada. Então, apesar de saber que seria o alvo do ódio dos vizinhos, ligou o som da casa em um volume alto e deixou que Queen acordasse a amiga, juntamente, é claro, com seus berros enquanto cantava junto, ou ao menos tentava.
—Que merda você pensa que está fazendo? –Uma Lilian descabelada e sonolenta saiu brava de seu quarto. Ele riu ao ver a cena, mas continuou varrendo a sala.
—Te acordando para que você me ajude na limpeza. –O jovem atirou um pano para a amiga. –Vamos, tem muito pó para tirar dessa estante que você entope de livros.
Lilian o xingou baixinho, mas não estava irritada realmente. Ela adorava manhãs, adorava passar tempo com seu melhor amigo, e adorava limpar e organizar sua estante. Não havia motivos para reclamar, afinal. Ah, ela também gostava de ouvir Queen, embora não apreciasse muito a segunda voz de taquara rachada que vinha de Severo acompanhando as canções.
Severo varreu rapidamente os quartos, o banheiro e a cozinha. Quando terminou, auxiliou Lilian na organização de seus livros. Ela passou um pano molhado no chão, limpando-o bem, enquanto o amigo fazia o almoço por mais um dia consecutivo. Dessa vez, comeriam apenas alguns ovos cozidos com saladas e bifes de frango. O amigo continuava sem vontade de cozinhar, mas a ruiva não reclamava, já que mesmo as coisas simples que ele cozinhava ficavam fantásticas.
Baixaram o volume do som, contudo, continuaram ouvindo Queen ao fundo. Depois do almoço, deitaram-se no chão da sala, ao lado do sofá e sobre um tapete felpudo muito confortável que havia sido presente da mãe de Severo. Depois de um tempo, o jovem levantou-se, correu para seu quarto e retornou com seu diário em mãos. Lilian ficou empolgada: será que ele finalmente a deixaria ler o que tanto escrevia ali?
—Nem venha com essa cara. –Ele logo cortou. –Só vou atualizar meu diário, pois desde que entramos em quarentena, não escrevi mais nada. Não vou deixá-la ler nada. –Lilian fez um bico, demonstrando sua pura frustração.
—E o que você vai escrever? Querido diário, hoje passei o dia fazendo vários nadas na minha casa; querido diário, hoje limpei toda a minha casa. –Ela debochou.
—Você é muito insensível, sabia?
—E você muito antiquado.
Não era uma total mentira. Severo gostava de escrever à mão, gostava de ter papéis, livros e diários. Sabia que Lilian apreciava aquelas coisas também, embora ela usasse aquilo para implicar com ele.
—Você não vai mesmo me dizer o que tem escrito aí?
A garota tentava ver por cima do ombro do amigo, mas ele se afastava cada vez mais.
—Não.
—E por quê? Pensei que éramos amigos...
—Ah, e por que você não me conta então de quais escolhas se arrepende?
A ruiva recuou. Como poderia dizer que se arrependia de não ter se declarado para ele? Se ele sentisse o mesmo por ela, tudo ficaria bem; contudo, e se não fosse recíproco o sentimento? Tudo ficaria estranho, e acabariam perdendo também a amizade.
De repente, os sentimentos que ela guardara escondido por tanto tempo começaram a transbordar, contra a vontade de Lilian, claro. Seus olhos ficaram marejados e ela começou a balançar as pernas, típica ação que fazia quando ficava nervosa.
Severo percebeu que havia algo errado com Lilian. Não aguentando ver a ruiva nervosa, ele aproximou-se e juntou gentilmente uma de suas mãos com a dela. Aquilo fez com que a garota parece de mexer suas pernas e, logo, ela soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Aquele homem tinha a incrível habilidade de deixá-la calma com apenas um toque.
–Vamos fazer assim: eu leio uma parte reveladora do meu diário, se você me contar do que se arrepende. Pode ser? –Severo propôs.
—Mas como vai ser? Se eu falar primeiro e você não gostar do que ouvir, pode ser que escolha outra parte do diário, que nem será tão reveladora assim.
—Você tem um bom ponto. –O jovem analisou. –Façamos assim: dizemos ao mesmo tempo. Mesmo se não entendermos tudo o que o outro diz, não teremos como mentir depois.
Os corações dos dois batiam acelerados, como nunca antes. Estavam ansiosos e ao mesmo tempo temerosos ao serem sinceros um com o outro, já que esse seria um passo decisivo.
—Certo, eu concordo. No três?
—Isso.
—Um...
—Dois...
—Três.
Ambos começaram a falar juntos, mas Lilian foi a primeira a terminar de falar.
—Eu me arrependo muito de não ter dito para você que eu sempre quis tentar algo mais entre nós. Certo, desde sempre não, mas desde a adolescência, quando comecei a perceber que te amava muito mais do que como meu melhor amigo. Independente de amor ou amizade, nossa relação é um encontro de almas. Pelo menos eu acho.
Ela fora breve e direta, sem enrolações. Ao terminar de ouvi-la, Severo se concentrou mais na leitura de um trecho de seu diário, já que agora tinha certeza de que não seria escorraçado para fora de casa. Ela sentia o mesmo.
—Querido diário, eu acho minha melhor amiga realmente linda. Não linda daquele tipo que te encanta pela aparência de cara, mas daquele tipo que te conquista aos poucos: por dentro e por fora. Ela repete as expressões faciais dos personagens quando lê; ela canta Beatles incansavelmente quando está animada ou bêbada, ou os dois; ela sabe argumentar como ninguém; ela ama literatura como poucos; ela é minha melhor amiga, minha melhor pessoa, e meu único amor, em todos os sentidos que emanam dessa palavra tão pequena. Eu só queria poder dizer-lhe isso algum dia.
Quando Severo terminou de ler o trecho revelador, como ele mesmo chamara, mirou seus olhos em Lilian. A ruiva, que ainda estava sentada ao seu lado, no tapete macio, estava com os olhos marejados, mas sustentava um sorriso emocionado em seus lábios. O jovem suspirou aliviado e retribuiu o sorriso da garota na mesma proporção. Ela não sairia correndo, ele não seria expulso do apartamento. Deviam ter sido sinceros um com o outro há tempos.
Os dois pareciam leves, tranquilos e felizes, agora que tinham tirado aquele peso de seus ombros. Cansada de se conter, Lilian enroscou seus braços no pescoço de Severo, puxando-o para mais perto dela. Severo deixou que fosse levado pela ruiva, e logo estava com seu corpo em cima do dela, que estava praticamente deitada sobre o tapete felpudo. Como se realizasse uma ação há muito ensaiada e desejada, o garoto fitou os olhos que tanto amava; eles estavam brilhantes como nunca antes.
Finalmente, tocou os lábios de Lilian com os seus; uma onda de borboletas espalhou-se pelo corpo da jovem, enquanto Severo quase confundia seus batimentos cardíacos com uma bateria de uma banda de rock. A garota aprofundou o beijo assim que pôde, para aproveitar ainda mais aquele momento. Nunca se sentira tão especial quanto agora, sendo beijada por aquele homem que a encantava de tantas maneiras.
Severo também se sentia único ao receber os carinhos de Lilian. Era maravilhoso saber que ela retribuía seu amor, e não apenas o fraternal, mas sim todos os tipos possíveis. Naquele momento, eles não se importaram com a faculdade, com o ainda namorado egocêntrico de Lilian, e com nada que os lembrasse do mundo lá fora. Fecharam-se dentro daquela bolha de amor, carinho, desejo e saudade, querendo, mais do que tudo, que fosse possível recuperar o tempo que perderam.
O resto, eles lidariam quando o isolamento acabasse. Não que Lilian e Severo estivessem com pressa.
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