Isolamento

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura!! E desculpem qualquer erro... . . . História atualizada dia 09/04/17

Já era o final da tarde e o sol estava completamente alaranjado, lançando uma luz dourada sobre os prédios decrépitos dessa parte da cidade. Tudo parecia muito feliz, completamente o contrário do que eu esperava de um lugar tão temido pela maioria dos moradores daqui. O céu estava o mais colorido que eu já vira antes, o que só fazia piorar o meu humor.

Por causa da situação atual em casa com meus pais e minha irmã, eu decidi que daria uma volta para esfriar a cabeça antes que fizesse alguma coisa sem pensar.

Sempre que eu achava que tudo ficava demais pra mim, eu vinha pra cá. Era um bairro esquecido por todos, exceto os criminosos. Qualquer um que morasse aqui sem ter algum problema com a lei local, com certeza estava fugindo ou escondendo alguma coisa.

Olhando em volta eu notei que não havia ninguém por perto. Era melhor assim, preferia que ninguém me visse.

Lugares como esse costumam me acalmar. Pode parecer mesquinho da minha parte, mas ver que meus pequenos problemas de adolescente não são nada comparados aos que se encontram aqui me ajuda a me sentir melhor comigo mesma.

O problema com a minha família é que muitas vezes eles me fazem sentir sem utilidade alguma. Eu era simplesmente jogada de lado como se não ligassem com o que pudesse me acontecer. Como se eu fosse insignificante.

Às vezes eu me escuto dizendo coisas que soam exageradas até para os meus ouvidos, mas acredite, elas não são. Acho que pra quem olha por fora pode parecer que somos uma daquelas famílias típicas americanas, sempre felizes. Sei que os amigos dos meus pais, e todos aqueles que nos vêem na rua, imediatamente me taxam como a ovelha negra. Toda família tem uma, não é mesmo?

Por isso eu nunca digo nada. Não faria diferença, já que ninguém realmente acreditaria em mim. Se tentasse, eles sem dúvida alguma apenas virariam a cara e fingiriam que está tudo bem. Diriam que estou passando por uma fase, que um dia me arrependeria por agir de forma tão infantil. As pessoas não ligam de verdade para os problemas dos outros.

Sinceramente às vezes eu até penso que eles podem ter razão. Seria muito mais simples e tudo acabaria bem. Quem sabe daqui uns poucos anos quando eu estiver mais madura, eu olhe para trás e perceba que tudo o que senti e vivi até hoje não foi tão ruim quanto parecia na hora. Todo esse desespero, essa solidão, não foi mais do que o resultado de meus hormônios de adolescente.

Toda essa raiva direcionada a eles não deve ser nada bom. Eu queria poder ser mais grata, só que é muito difícil.

Atravessei a rua deserta em direção ao meu refúgio. Era um prédio que fora abandonado no meio da construção e nunca mais voltaram para terminar. A maioria dos andares não tinha paredes completas e estavam cobertos por lonas de plástico que balançavam com o vento.

Do lado de dentro, paredes foram construídas pela metade e havia andaimes por todo o lado para que fosse possível chegar aos níveis superiores. Não parecia muito seguro ou sensato para uma garota de dezesseis anos andar por um lugar como aquele sozinha, mas eu não me importava nem um pouco. Optei por subir um dos andaimes que ficava no meio do piso, o que eu sabia, era o mais estável de todos.

Apesar de ser uma subida difícil e eu ter ficado um pouco suada quando cheguei ao sétimo andar, não estava cansada. O ar aqui em cima era mais fresco e tive que tirar a jaqueta que vestia para senti-lo na pele. As lonas pareciam fantasmas com o último raio de luz do dia as atravessando, o que deixava tudo um pouco mais etéreo. Me aproximei da beirada no lado sul do edifício onde não havia uma parede e me sentei, com os pés balançando ao vento.

De onde estava eu tinha uma visão privilegiada do final da cidade. Os poucos prédios mais próximos davam espaço mais à frente há algumas casinhas pequenas e mal cuidadas. Dali em diante havia só o campo, nada além de grama por alguns quilômetros até chegar à autoestrada. Olhar para aquela vastidão de nada me acalmava.

Eu espero que quando for mais velha tenha o meu próprio lugar para morar, bem distante daqui e sem precisar dividi-lo com ninguém. Gostava de ficar sozinha, porque era só assim que eu me sentia livre para ser eu mesma, sem aquela constante sombra sobre a minha cabeça.

Meu maior problema na verdade era a minha irmã. Eu odiava o fato de que éramos gêmeas, sempre houve muita comparação entre nós por causa disso. As pessoas pensam que ter um irmão idêntico a você é a coisa mais legal do mundo, mas nunca foi assim com a gente. Nunca trocamos de lugar pra enganar os professores no dia de prova, nem fizemos qualquer outro tipo de pegadinha com alguém.

Ela estava sempre ocupada sendo a filha perfeita e impressionando os nossos pais. Tinha tudo aos seus pés, todo o amor e carinho que eu deveria ter recebido na mesma medida, mas que sempre parecia pouco.

Eu acho que não a odeio apesar de tudo, mas dói saber que a nossa mãe da tanta atenção a ela e, em compensação, me ignora como se eu fosse uma praga. Apesar de sermos parecidas fisicamente, nunca fomos parecidas de verdade. Não no que importava.

Minha irmã e a nossa mãe tem uma ligação especial. Elas estão sempre trancadas no quarto de estudos de casa e eu estou proibida de entrar naquele lugar. Até hoje não faço ideia do que tem ali dentro nem o que elas fazem lá todas as tardes.

Algumas vezes quando passava em frente da porta trancada tinha uma sensação ruim, os fios de cabelo da minha nuca se arrepiavam em alerta e eu saia correndo. Outras vezes eu sentia um cheiro de terra remexida junto com algo adocicado, enquanto alguns sussurros incoerentes eram ouvidos.

Para alguém que não convive na mesma casa que eu, isso pode parecer algo inofensivo. Acontece que sempre que eu chegava perto demais daquela porta meus instintos gritavam para que eu fugisse. Então, como sempre, eu obedeci meus instintos e nunca mais passei perto daquele lugar.

Meus pais nunca demonstraram seu desprezo por mim em voz alta. Isso não cabia em uma família de aparência perfeita para os olhos alheios. Mas eu conseguia sentir o desprezo em suas ações, no jeito que falavam comigo de forma mais seca, enquanto com minha irmã eram sempre gentis. Como se eu tivesse feito algo muito errado e estivessem desapontados comigo o tempo todo.

Eu nunca descobri o que tinha feito de errado.

O pior de tudo era meu pai. Sempre que eu era tratada de tal forma pela minha mãe, ele simplesmente me dava um daqueles olhares como se sentisse pena de mim e nunca fazia nada a respeito. Apenas ficava ali do lado dela, observando a situação se desenrolar como um espectador distante sem poder fazer nada para ajudar.

Eu fico imaginando se ele sente o mínimo de culpa por eu ser tratada dessa forma dentro da minha própria família. Se ele imagina o quanto me machuca ainda mais perceber que eu não valho o tempo dele para que ele interfira.

Eu sinto tanto ódio e ressentimento. Eu nunca fui boa em me expressar e definitivamente nunca tive uma conversa com ninguém sobre meus sentimentos. Não consigo fazer isso. A única coisa que sei fazer é guardar tudo dentro de mim, socando cada vez mais fundo para não ter que lidar até que eu não aguente mais e tudo aquilo exploda sem aviso prévio.

Esses dias são geralmente os piores. Eu me sinto tão ruim que preciso ficar sozinha, me afastar de todos para que não me vejam chorar. Eu me sinto muito vulnerável quando isso acontece e odeio essa sensação.

Hoje é um dia desses. Por isso todo o trabalho de vir para o bairro mais afastado e perigoso da cidade. Por isso escalei um prédio que fora construído pela metade e estava caindo aos pedaços. Tudo pela vista que tinha nesse momento, sentada na beira do sexto andar.

Dias como esses estavam acontecendo cada vez com mais frequência. Eu sinto que estou perto de explodir e que não vai ter como consertar dessa vez. Cada coisa mínima que vem acontecendo simplesmente vai se adicionando para a montanha de sentimentos e pensamentos dentro de mim que eu estou desesperada para colocar para fora.

Meus pais esperam que eu tenha tudo resolvido. É como se eles tivessem algum propósito maior, algo que eu não faço ideia do que seja, mas minha irmã sim.

Acho que ela sempre foi parte do plano deles, seja lá qual for.

Eu só queria que alguém me ajudasse. Alguém que me dissesse se esse sentimento de vazio dentro de mim é normal. Se estou certa em relação aos meus pais...

Não é possível que só eu consigo ver o que está acontecendo.

Felizmente o sol já havia sumido e o céu agora estava num tom azulado, se preparando para escurecer. Algumas estrelas já aparecaim e a lua estava mais visível.

A noite combina muito bem com esse lugar.

Enquanto antes as coisas pareciam tão alegres por causa do sol, agora faziam você sentir um arrepio na espinha só de olhar. Os prédios e casas ao redor pareciam muito mais sombrios, sombras essas que se esgueiravam pelos becos escondendo os piores tipos. E mesmo assim, apesar de tudo, eu me sentia completamente à vontade e segura.

A cidade lá embaixo parecia deserta. Ainda era apenas o começo da noite, por isso sabia que os criminosos só sairiam de seus esconderijos daqui algumas horas. Fechei os olhos contente e infinitamente mais calma, o vento soprando meu cabelo para longe do meu pescoço suado. Tudo estava em completo silêncio, a não ser pelo farfalhar das lonas. Aproveitei cada segundo daquela quietude sinistra antes de ter que voltar para casa, onde tudo era mais barulhento e caloroso.

Por um segundo pensei ter escutado sons de passos ecoando no piso, atravessando as lonas de plástico até meus ouvidos. Prendi a respiração para tentar escutar melhor, mas não ouvi mais nada além do vento. Minha postura logo relaxou.

Estava me preparando para me levantar, quando o tilintar inconfundível de algo de metal atingindo o chão se fez ouvir não muito longe dali. Meu coração disparou como uma bala, se alojando na garganta.

Fiquei em pé o mais rápido que consegui e me virei na direção do som, mas não pude distinguir a silhueta pequena que me observava no escuro.

Pisquei os olhos rapidamente tentando enxergar em meio às sombras, mas a figura já havia sumido. Foi difícil ignorar os pensamentos paranóicos que preenchiam minha mente assustada naquele momento, então achei melhor sair dali correndo o mais rápido possível.

Era estranho ficar com tanto medo num lugar onde antes eu só me sentira a salvo.

Não sou ingênua. Sei que esse lugar não é nem um pouco seguro, mas sempre tomei cuidado para que ninguém me visse por ali. Eu era boa em me esconder e em ser invisível.

Talvez eu não tenha sido tão cuidadosa quanto pensei.

Agora, seja quem for que me viu por ali, estava atrás de mim. Em um lugar como esse, eu me destacava demais. Era um alvo muito tentador para que ignorassem. Quem estivesse atrás de mim poderia querer qualquer coisa.

Dinheiro.

Sangue.

Podiam até mesmo... Parei imediatamente onde estava e quase bati a cara em uma das vigas de sustentação do prédio.

Eu podia jurar que tinha escutado uma risada de criança.

Um calafrio passou por todo o meu corpo, me deixando gelada. Aquela não era uma dessas risadas de criança que te fazem querer rir junto. As circunstâncias não permitiam. Tudo o que meu cérebro conseguiu relacionar no momento era que eu me encontrava em meio à uma cena de filme de terror e que precisava sair dali.

Eu já estava a meio caminho da saída quando a responsável por me assustar apareceu bem na minha frente.

É claro que ela não apareceu simplesmente. Pelo menos não como um fantasma e isso já adiantou para que eu não entrasse em colapso ali mesmo.

A garotinha saiu de trás de um dos pilares onde estava se escondendo, parecia ter uns nove anos e estava usando uma tiara de princesa que brilhava à luz da lua.

Ela ficou parada bem ali entre a saída e eu, me encarando por um bom tempo, então deu meia volta e saiu do prédio sem olhar pra trás ou dizer uma palavra. O vestido que usava rodopiando e balançando enquanto corria.

Ok, eu estava completamente confusa agora. O que tinha acabado de acontecer? Por acaso ela queria que eu a seguisse?

— Olá Nina, querida. – uma voz de mulher disse atrás de mim. – Eu estava querendo conversar com você.

Os músculos do meu corpo se contraíram ao ouvir meu nome. Eu não fazia ideia de quem poderia ser. Imaginei que alguém de casa pudesse ter me seguido, mas logo desconsiderei, ja que sabia que ninguém havia notado quando sai hoje.

Sinceramente, levar um susto em um prédio abandonado digno de filme de terror, no meio do bairro mais perigoso da cidade e descer seis andares correndo tinha drenado minhas energias completamente. Por isso me obriguei a relaxar o máximo que conseguia e a pensar racionalmente.

Se tivesse prestado mais atenção, teria percebido que a menina que me assustara não pertencia àquele ambiente. Ela estava usando roupas que pareciam caras demais para qualquer um que morasse em um bairro como esse e, obviamente, ela não estava sozinha como eu pensei que estivesse.

— Me desculpe se Marie a assustou, ela é muito brincalhona. – A voz feminina às minhas costas parecia se sentir realmente culpada. Talvez ela fosse muito boa em mentir. – Ah vamos, não seja tímida! Vire-se e olhe pra mim, tenho uma proposta para lhe fazer.

Apesar do jeito calmo e controlado que falava, ela tinha um tom que indicava o quanto estava acostumada a mandar nos outros. Não soava como alguém que você iria querer contrariar. Decidi me virar.

— Como você me conhece? — consegui perguntar sem gaguejar.

A mulher era vários centímetros mais alta do que eu e se vestia de forma elegante, completamente de branco da cabeça aos pés. Ela deu um passo em minha direção e abriu um sorriso perfeito.

— Me deparei com você por acidente algum tempo atrás nesse mesmo lugar. Isso me chamou a atenção, porque você não se parece com alguém que viveria por aqui. – Ela me olhou de cima a baixo, me avaliando. Não gostei da sensação. – Claro que eu segui você depois disso e acabei conhecendo você melhor. Sua família não gosta muito de você, não é? Descobri muito sobre eles também.

O quê? Ela estava me perseguindo? Por quanto tempo? E por quê? Ela não se daria tanto trabalho com uma estranha se não quisesse alguma coisa de mim. Mas o que será que eu poderia oferecer? Ela não parecia perigosa apesar da tendência stalker e eu também não me sentia ameaçada em sua presença. Nenhum dos meus instintos apitaram.

Ela esperou pacientemente para que eu dissesse alguma coisa, mas não conseguia me decidir o que perguntar primeiro. Quando não a respondi, ela continuou.

— Eu gostaria de oferecer minha ajuda, sei que está precisando. Talvez queira me acompanhar no chá da tarde de amanhã para conversarmos melhor? Mandarei meu motorista te buscar as quatro, não se atrase!

Dito isso e sem esperar por uma resposta, ela passou por mim e saiu, atravessando a entrada do prédio e desaparecendo na noite. Eu fiquei ali mesmo onde estava, completamente chocada com o que tinha acabado de acontecer. Meu coração ainda batia acelerado por causa do susto e eu não sabia o que pensar em relação àquela mulher estranha.

Eu queria mesmo a ajuda de uma pessoa que eu não conhecia e que havia me perseguido e espionado sabe-se lá por quanto tempo?

Apesar do prazo que me dera para decidir, eu tenho a impressão de que não tenho escolha a não ser aceitar. Quem sabe o que poderia acontecer caso contrário? Afinal eu tinha pedido por ajuda, não tinha? Talvez alguém tenha me escutado.

Notas finais
Me digam o que acharam, se tem algum erro ou se preciso melhorar alguma coisa...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!