Is this real?
2 Filha da Tormenta, você foi reclamada
Notas iniciais
9h20m da manhã. O sinal para o recreio tocara a pouco e eu descia as escadas cautelosamente. Alicia ia na frente, os cachos loiros balançando graciosamente.
A primeira aula fora de inglês, minha matéria favorita, mas eu não havia prestado atenção em uma palavra dita. Aquela frase matutava na minha cabeça, se espalhando por cada vala da mente, crescendo como um tumor. “Tudo vai mudar”. Havia algo de diferente hoje, sim. O tempo se alterou rapidamente, estava bizarramente nublado agora, e eu gostava daquilo. Tempestades sempre me fizeram sentir em paz, em casa; como se minha real natureza fosse aquilo tudo.
Esbarrei de leve em alguém ao entrar no refeitório que, por sorte, estava quase completamente vazio. Peguei o sanduíche que tinha trazido, mas não estava com fome. Minhas amigas conversavam animadamente e riam de qualquer história idiota. Fazia umas duas semanas que eu não me sentia mais parte do nosso grupo. Enquanto elas falavam, eu ficava concentrada em qualquer outro ponto fixo, visualizando coisas que me surgiam do nada, tentando organizar minha mente. Eu estava confusa, tudo estava mudando e eu não sabia porquê nem como. Achei melhor pensar que fosse o clima de último dia de aula; ano que vem iria para o ensino médio em um internato, sozinha. Dava graças a Deus por não ter que aguentar mais nenhuma dessas pessoas que via todo santo dia, por 8 anos.
Alicia me cutucou, dizendo que estava pronta e iríamos sair do refeitório. Ela se achava mesmo o centro do universo, com aquela boca carnuda, peitos avantajados e o cabelo loiro cacheado. Achava que tudo girava em torno dela. Eu não era o tipo de pessoa popular na escola, talvez tenha passado despercebida por muita gente. Contive minha raiva e me obriguei a sair com ela rebolando ao meu lado.
Já estávamos no meio do corredor tumultuado quando aconteceu.
A chuva começou e os raios e trovões ressoaram. Eu parei de um súbito, não conseguindo reagir a nada. Era como se meus pés tivessem colados ao chão e meu corpo, paralisado. Só conseguia ouvir o vento lá fora, o som da tempestade. Senti que todos olhavam para mim, prestando atenção atentamente. Porque eu havia parado? Engoli em seco e senti algo queimando dentro de mim, alguma coisa se espalhando pelo sangue, feito eletricidade, provocando choques por todos os lados. Os funcionários da escola já me sacudiam e perguntavam o que havia acontecido, mas eu continuei parada lá. Aquela sensação me penetrava, era maravilhoso, e eu nunca havia sentido aquilo antes.
Um circulo de pessoas havia se formado ao meu redor, e elas esperavam por alguma reação. Permiti-me fechar os olhos, para me concentrar no que estava acontecendo. Senti leveza, e os meus pés saíram do chão. Estava a meio metro suspensa no ar, no meio do corredor da escola. Eu não ligava para como aquilo estava acontecendo, só sentia que era bom; e aquela voz me veio de novo, porém desta vez alta e clara.
“Tudo vai mudar. Tudo está mudando, Valentina.”
Foi então que, caindo do céu, um raio me atingiu. Me senti possuída de uma força inimaginável e inigualável. Eu fazia parte daquela tempestade, eu era a tempestade. Tudo estava mudando.
Abri meus olhos e todos me encaravam assustados. Meu cabelo dourado balançava com o vento forte vindo do oeste, suspenso no ar. Me sentia completa. Um raio caiu novamente, e por impulso o segurei. Uma onda elétrica percorreu meu corpo, e a voz falou de novo, vindo das nuvens no céu cinza cobalto.
“Filha da Tormenta, você foi reclamada. Protejas teu mundo e honre o nome do teu Pai, o Senhor dos Deuses, o Senhor dos Céus, o Senhor de Tudo.”
Caí no chão e bati a cabeça. Depois tudo ficou escuro. Ao longe, ouvia vozes.
“O último deles foi reclamado. Valentina, Filha da Tormenta, você é a escolhida de Zeus.”
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