Irrevogável

1 Capítulo Único


Eram quase seis da tarde quando ele a viu. Batom cor de sangue fresco e jeans claro de cintura alta. Estava na sacada de um apartamento no quarto andar, os cabelos aparentemente compridos, do mesmo tom puro de negro do sutiã dela, presos de qualquer jeito no alto da cabeça. Não usava blusa e tinha nas mãos o que, àquela distância, parecia ser um lápis.

A moça desenhava alguma coisa, as sobrancelhas quase se unindo de concentração. As linhas faciais eram todas muito harmoniosas, mas ele duvidava que fosse modelo. Arthur trabalhava com dimensão e proporções todos os dias, aquela ali tinha cara de ser baixinha. Era magra, no entanto; a única curva notável sendo a da cintura, e os seios, leve insinuação. Não era caucasiana e tampouco estava bronzeada, não parecia ser do tipo que gostava de Sol.

Ergueu a câmera para tirar uma foto e a vertigem o fez fechar os olhos. As têmporas de imediato latejaram e ele sentiu o cheiro de suor adocicado e ervas.

O odor não tinha relação alguma com aquela cidade ou mesmo com aquele instante, parecia algo impregnado na memória. Sentiu-se sentar, sonolento, ainda que continuasse ali, de pé em frente ao prédio dela. De olhos ainda fechados, viu um lugar diferente.

— Onde estamos? — murmurou baixinho, mas o som ecoou em pensamento — Ah, sim, lembro-me, na caverna — e, ainda que soubesse que seria noite quando abrisse os olhos, foi levado a acrescentar: — Ora, já está amanhecendo.

E então sorrira e estendera a mão para a moça da sacada. Ela, porém, estava agora deitada ao seu lado, entre lençóis de peles de animais; talvez de cervos ou de gamos. Puxou-a para si e a beijou, abraçando-a.

— A noite passada você era a Deusa, mas acordo e vejo que é uma mulher — lhe disse.

Ela riu suavemente:

— E você não é o Deus, mas um homem?

— Acho que já chega de ser Deus, e, além disso, parece-me um tanto presunçoso isso, para um homem de carne e osso — disse, apertando-a contra o corpo. Era macia e quentinha, deliciosa de um modo que ele só compreendia agora, tendo-a no colo. — Estou satisfeito por não ser mais do que um homem.

— Talvez haja um momento para ser Deusa e Deus, e um momento para ser apenas carne e osso — ela murmurou.

— Eu tive medo de você, a noite passada — confessou. — Pensei que fosse a Deusa, tão majestosa estava... e você é tão pequena! — obrigou-se a parar, notando algo — Ora, você fala a minha língua, eu nem havia percebido isso... Então, não é desta tribo?

— Sou uma sacerdotisa da Ilha Sagrada.

— E a sacerdotisa é uma mulher — acariciou-lhe os seios e os mamilos se eriçaram imediatamente. — Você acha que a Deusa ficará zangada se eu preferir a mulher?

Ela riu, e respondeu:

— A Deusa conhece o comportamento dos homens.

— E sua sacerdotisa?

Ela se encolheu minimamente, tímida.

— Não... Eu não havia conhecido homem, antes. E não fui eu, e sim a Deusa...

— Como o Deus e a Deusa conheceram o prazer — propôs, puxando-a ainda mais para si, cheio de vontade —, não deveriam o homem e a mulher experimentá-lo também? — desceu as mãos pelo corpo dela, os dedos cheios de urgência ao tatear pela pele morna.

Ela o puxou para cima de seu corpo pequeno e respondeu:

— Acho que sim.

A beijou, a mordeu e sugou sua carne rosada sem dó, ainda que com carinho, muito carinho, e um pouco de devoção, talvez muita. Estava à deriva sobre aquela linha tênue entre o cuidado e a pressa. Sentiu as unhas dela cravarem em suas costas e não pôde mais ficar calado, o urro que escapou de seus lábios quando passou a chupar-lhe o pescoço com mais vontade parecia vir de um lugar muito mais profundo que sua garganta. Era um som animalesco, cheio de verdade, incapaz de ser detido e sem qualquer pudor. Estava tão feliz e aquilo era tão bom que sentiu inveja do Deus e da Deusa, amantes em toda e cada uma das fogueiras de Beltane.

Abriu os olhos, o vento sussurrando um único nome enquanto saia do transe e finalmente tirava a fotografia: Morgana.

Notas finais
*O diálogo entre eles dois, grafado em itálico, é um trecho do primeiro livro. Aqui o reproduzi do ponto de vista do Arthur, enquanto que lá quem o conta é Morgana.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!