Irreversível
1 Capítulo 1: Deixe-me entrar
Notas iniciais
Irreversível
Escrito por Amanur e Noel Blue
…
Capítulo 1: Deixe-me entrar
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"Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar até desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo." — Meu pé de laranja lima
Há espaços vazios onde a vida deveria estar preenchendo.
Por que, na verdade, ele estava morto e não sabia disso.
E nem queria saber.
...
A xícara de café quente esfriava sobre a mesa enquanto esperava. Ele já tinha fumado dois cigarros e agora roía as unhas, sem saber ao certo o que aguardar. Ele olhava impaciente para todas as pessoas que entravam no recinto, com a perna esquerda sem parar de balançar, inquieta. Seu sobrenome já deveria ter sido trocado para Ansiedade.
Se passaram meia hora do horário marcado e chovia forte lá fora. As trovoadas até vibravam nos vidros da janela. Ele já estava achando que ela não apareceria quando, de repente, a moça que preenchia todas as descrições que ouvira atravessou a porta tocando o sino da entrada.
E ela era mesmo exótica.
Estranha.
Diferente.
Excêntrica.
Incomum.
Ela era tudo isso, e um pouco mais.
De cabelos cor de rosa, num um vestido longo e floral, exibia no pescoço um monte de colares e pulseiras coloridas nos pulsos. Seus dedos estavam carregados de anéis, e ela ainda tinha um piercing no nariz. Para ele, ela parecia um Carnaval ambulante. E ainda andava com o nariz empinado, mascando um chiclete, sorrindo sem motivo. Parecia uma daquelas pessoas iluminadas, de bem com a vida, que não se importam com a opinião alheia.
Uma daquelas pessoas irritantes!, pensou.
Ela fechou o guarda-chuva amarelo de gatinho que trouxe, e o colocou no local indicado da cafeteria para guarda-chuvas. Passou as mãos sobre o vestido meio molhado, e deu uma boa olhada em volta.
“O cara meio marrento, todo de preto, com barba por fazer, e jeito de mal-encarado”, como ouvira dizer, estava sentado aos fundos, na área para fumantes, onde também lhe disseram que ele provavelmente estaria.
Simpática, ela acenou de longe para ele, enquanto uma atendente se aproximou dela com um bloco. Mas ao invés de responder, ele se encolheu, deixando-se escorregar no seu banco de acento de couro. Como se pudesse se esconder por trás da sua pequena xícara.
Sakura fingiu não ter percebido nada, disse alguma coisa para a moça e foi se dirigindo em direção a mesa dele.
E logo de cara, a garota já o surpreendeu com a primeira coisa que disse.
— Sabe, há apenas cinco coisas na vida que são irreversíveis, Sasuke. Você sabe me dizer quais são elas? — de repente, ela perguntou.
Ele achou aquela indagação um tanto estranha, meio descontextualizada. “O que diabos aquilo tinha a ver com sua ida ali?”, se perguntou. Mas ela estava agora séria, olhando nos seus olhos, como se esperasse por uma resposta honesta.
Então, ele se pôs a pensar no que poderiam ser essas cinco coisas irreversíveis na vida.
— Ahm… O nascimento, a morte, o passado e…. — não conseguia pensar nas duas últimas coisas irreversíveis — Não sei.
— Pense a respeito. Na próxima vez, você me diz sua resposta… À propósito, você não vai comer nada? Eu acabei pedindo um sanduíche para mim! Espero que não se importe… Estou faminta! — disse, tirando seu casaco de tricô, colocando-o ao lado, junto com sua bolsa artesanal de pano .
— Não...fique à vontade...Talvez...eu nem devesse ter vindo. Acho que foi um engano… — e então, meio sem jeito, ele foi se levantando da mesa.
Mas ela segurou seu pulso antes que escapulisse dali como um gatinho amedrontado.
— Você vai mesmo me abandonar aqui? Vai mesmo me deixar aqui sozinha? — aquilo soou mais como um desafio do que ameaça.
Ele olhou para ela meio constrangido, sem saber o que dizer. E olhou para os lados. Só que ninguém parecia se importar com o que estava acontecendo naquela mesa. Então, suspirou, um pouquinho mais relaxado, e resolveu voltar para o seu lugar. Mas ficou ali, naquele silêncio ainda mais constrangedor, quase humilhante. Por que agora, sim! Se meteu numa situação complicada. O que mais poderia dizer a ela? Tudo o que sabia era que sua perna voltou a balançar, em ritmo com as pontas dos dedos que começaram a batucar sobre a mesa. Por que, sabe como é, aquele era o Sasuke Ansiedade.
E ela notou tudo aquilo. Não deixou passar um detalhesinho sequer e, por isso, sorriu.
— Às vezes, tenho vontade de esgoelar aqueles dois também, sabe? — ela começou a dizer — Uma vez, eles me arranjaram um encontro com um roqueiro. Não muito diferente de você. Se vestia todo de preto, tinha cabelo compridão, quase pela cintura. Só ouvia música barulhenta, e só pensava em sair para beber… Não sei o que há na cabeça das pessoas que acham que a única maneira de se divertir é sair para beber, ou sair para comer. Já reparou nisso? Mas como eu ia dizendo, né, o cara não tinha naaaaaaada a ver comigo! Tive vontade de esgoelar os dois.
— Mas não estamos aqui para um encontro! — retrucou, achando aquele papo estranho.
— Não, claro que não!
— Óbvio.
— Lógico!
Silêncio.
Ele olhou para um lado, e ela para o outro.
Aí, a garçonete apareceu ao lado dela.
— Seu sanduíche de pão integral, sem queijo, presunto e sem maionese.
— Com tomate, azeitonas e pimentão extra! — Sakura quis conferir, abrindo-o. Ao ver que estava tudo certo, como pedira, sorriu para a moça.
— E seu chocolate quente! — a garçonete colocou sobre a mesa.
— Perfeito, obrigada, querida!
Assim que a moça se afastou, Sakura foi abocanhando o seu sanduíche.
— Hummmm! Isso está tão bom! — disse de boca cheia — Prove um pedaço! — e ofereceu a ele.
Mas Sasuke recusou.
— Não, obrigado. — disse, pensando no quão hipócrita ela parecia comendo “mato”, após rejeitar carne de porco, maionese e o queijo, mas bebendo leite.
— Então, me diga, Sasuke, para quê você veio? — ela questiona, enquanto comia.
— Para satisfazer o ego de uma amiga. — respondeu, apático.
— É mesmo? E o seu ego, como fica?
— Continua onde está.
— E onde ele está, Sasuke?
— Por aí… — deu de ombros, meio sarcástico.
Ela suspirou, como se estivesse muito cansada de lidar com tipos como ele, mas mesmo assim ela resolveu sorrir para ele porque sabia que ele era um desafio, e desafio era uma das coisas que ela mais gostava de resolver. Eram como quebra-cabeças. Pecinha por pecinha ia descobrindo a figura que ali deveria montar. E foi assim que ela preferiu olhar para ele.
Por outro lado, Sasuke mal conseguia manter o olhar sobre ela por muito tempo. Era como se houvesse alguma coisa repelindo. O jeito dela, o sorriso dela, as cores que ela carregava… Talvez até mesmo o cabelo dela, todo esvoaçado, tão à vontade, tão livre.
Então, seus olhos se fixaram nos sapatos pretos e lustrados, contrastando com o chão brilhoso e claro da cafeteria, enquanto cruzava e descruzava as mãos, repetidas vezes. Ele tinha a testa levemente suada e suas narinas dilatadas, como se precisasse de uma grande quantia de oxigênio, e ainda trincava a mandibula. Seu coração batia acelerado e a perna não parava de balançar. No fundo, ele queria estar bem longe dali. Do outro lado do planeta.
Enquanto isso, ela o observava com cuidado, pois cada detalhe era importante para ela.
Ele se vestia bem, notou, basicamente de preto, com exceção da camisa branca, mas o paletó, a calça e os sapatos eram pretos, igual seu cabelo. Aparentemente, ele tinha problemas em contato visual com outras pessoas, e também não gostava de falar. E não era nada simpático — o que era um enorme problema a ser tratado!
Ela suspirou outra vez, pensando consigo “ele realmente era um dos difíceis”.
— Vamos fazer o seguinte, então. Eu faço perguntas e você me responde apenas com sim ou não. Não se preocupe, começarei com perguntas simples....
De repente, ele se levanta da cadeira, interrompendo-a.
— Quer saber? Deixe isso pra lá. Foi um erro mesmo ter vindo… — e então, ele dá a meia volta e sai porta afora. Assim, sem mais nem menos, deixando o sino tocar e a moça completamente sozinha.
...
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