Irreversível
3 Capítulo 3: O universo dentro de você
Notas iniciais
Irreversível
Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 3: O universo dentro de você
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No primeiro horário da manhã seguinte, Sakura bateu na porta da casa do seu amigo. Ela entrou, como de costume, e tomou o café da manhã com ele enquanto conversavam sobre o final da tarde anterior.
— … Então ele simplesmente levantou e foi embora. Assim, sem mais nem menos! Quando eu sai do banheiro, descobri que ele tinha até pago a minha conta, também.
— Nunca ouvi a Hina falar alguma coisa assim sobre ele. Vou ver com ela, se ela sabe algo à respeito…
— Veja mesmo, porque fiquei apavorada! Não sabia o que fazer!
— O importante é que você não o deixou sozinho… eu acho.
Enquanto isso, em algum outro lugar da cidade, Sasuke dirigia apressado para o trabalho com o seu aparelho celular colado na orelha. O trânsito caótico não ajudava o fato de ele estar atrasado, e precisava atender uma reunião que já deveria ter começado.
—… Liguei umas quinhentas vezes para você ontem a noite! Onde diabos estava? — a voz da sua namorada não parecia nenhum pouco amigável. Parecia azeda, como se recém tivesse acordado. Rapidamente, pegou um fone sem fio e colocou no ouvido, conectando ao bluetooth, para poder segurar o volante com as duas mãos.
— Desculpe, tive dor de cabeça, e acabei tomando alguns comprimidos. Logo caí no sono…
— Mas você saiu, que eu sei, Sasuke! Porque liguei mais cedo também, e você nem pra se dar ao trabalho de olhar o celular? Aonde foi? Com quem estava? Porque não me contou? Porque está escondendo isso de mim? Você está me traindo?
Eram tantas perguntas, tanta cobrança naquela hora da manhã, mais o azedume daquela voz irritadiça, meio esganiçada, que o deixava transtornado, meio desnorteado. Ele precisou se “desconectar” para prestar mais atenção ao trânsito, porque aquele mau humor o desconcentrava.
— Ino, ligo para você mais tarde.
— Não ouse desligar na mi… — tuuu… tuuuu.. tuuuu.
Ele desligou mesmo.
Não era uma atitude que ele costumava tomar, mas, naquela manhã, alguma coisa, minima que fosse, parecia diferente para ele.
Ele estava preocupado. Tão preocupado que não conseguia se concentrar em nada durante a reunião com seus superiores. Desta vez, ele se sentia mais tranquilo, apesar dos pensamentos não pararem de correr por sua mente. Coisas sobre a tarde anterior. Ele tentava se lembrar de alguma coisa, mas só se lembrava do momento em que Sakura sentou na frente dele. Depois, quando se deu conta, já estava de volta em sua casa, em seu casulo. Mas sabia que algo tinha acontecido, porque, mais tarde, sua amiga ligou.
— Você está bem? — ela parecia preocupada.
— Estou.
— Tem certeza?
— Estou ótimo, Hinata. Por que pergunta?
Então, ela narrou tudo o que o seu namorado havia contado a ela, narrado anteriormente pela própria Sakura.
E ele ouviu a tudo calmamente, sem se deixar abalar.
— Não sei o que houve. Deve ter sido estresse com o trabalho, mas te garanto, estou ótimo.
— Tem certeza de que não está trabalhando de mais, querido?
— Não se preocupe.
— Vai se encontrar com ela de novo?
— Se isso te faz tranquila.
— Por favor.
E encerraram a ligação.
...
Como um sopro de vento, ele estava de volta àquela cafeteria, no final do expediente. Ele não sabia dizer como, nem por quê. Nada mais fazia sentido dentro de sua cabeça. Mas lá estava ele, arrastando seus pés, no mesmo horário de sempre, embora quisesse estar em qualquer outro lugar que não fosse ali, para encarar ela. Afinal, não fazia ideia do que poderia dizer sobre o ocorrido.
E ela não cumpriu a promessa de trabalhar em seu defeitinho com pontualidade.
A cretina chegou meia hora depois, como sempre. E como sempre, sorridente, trazendo o cheiro de folhas secas da rua, o cheio de frescor e vida.
— Já pensou no que mais pode ser irreversível? — foi o que ela questionou primeiro, para a surpresa dele.
Meio sem jeito, ele desviou o olhar para pensar.
— Conhecimento é irreversível. — disse a ela — Uma vez adquirido, ninguém pode tomá-lo mais.*
Ela sorria daquele jeito, mascando um chiclete.
— O nascimento, a morte, o passado, o conhecimento… Falta uma coisa. — ela observou.
— Não consigo pensar em mais nada.
— Vamos então falar sobre sua volta. Como se sente?
— Estranho.
— Estranho no bom sentido, ou no mau?
— Apenas estranho.
— Você sabe o porquê desta estranheza?
— Por que você se veste tão espalhafatosa?
Ela estava com uma calça colorida e uma manta de lã igualmente colorida cobrindo o corpo. Na cabeça, havia uma tiara de flores e um par de brincos enormes. As pulseiras coloridas e anéis chamativos continuavam todos ali.
E ela percebeu a mudança de assunto, mas não deixou-se abalar.
— Se sente incomodado pelas cores?
— Um pouco.
— As cores influenciam nosso humor. Quanto mais fortes e vibrantes, maior e melhor a energia que elas nos passam.
— Você é exotérica? — só agora ele percebeu que as pulseiras carregavam símbolos, como o olho de Deus, a estrela de Davi, uma suástica gamada em metal, um pequenino prisma de cristal, entre outros símbolos que desconhecia..
— Eu acredito em tudo o que foi feito e pensado para nos fazer bem, Sasuke.
— E você precisa da ciência para me analisar…?
— As pessoas tem a falsa ideia de que uma coisa anula a outra quando, na verdade, tudo anda de mãos dadas.
— Nunca ouvi isso.
— Pra tudo há uma primeira vez, não é mesmo?
— Uhum…
Ele pôs o cotovelo sobre a mesa, apoiando a cabeça na mão. Com a outra mão, foi mexendo despretensiosamente na alça da bolsa de tecido dela e deixou escapar um suspiro. Ficou naquela posição por uns bons minutos, com aqueles mesmos movimentos repetidos.
— Se sente entendiado, Sasuke?
— Está tãaaao óbvio assim? — perguntou, num tom sarcástico.
— O que você gostaria de estar fazendo nesse momento?
— Pulando de uma ponte. Hehe.
Aquela risadinha saiu mais forçada do que pretendia, e ela notou.
— Está mesmo falando sério?
— E porque não? Você já pensou em como somos escravizados pelo nosso cotidiano? Em como somos condicionados a passar o resto de nossas vidas como meros soldados do sistema? Nascemos, vamos para a escola, estudamos o que é de interesse da sociedade. E assim que nos tornamos capazes, devemos trabalhar produzindo algo de benefício para o outro. É tudo sempre pensando na sociedade, no grande grupo, enquanto nossas próprias vontades são suprimidas e oprimidas por outras. Por que se a gente tem vontade de andar pelado na rua, somos criticados. Se escolhemos um estilo de vida diferente, somos criticados. Se escolhemos nos vestir diferente, somos criticados. E já pensou como nós trabalhamos apenas para consumir! Nos transformamos em meras máquinas de produção e consumo. E é assim que morreremos. Se analisarmos mais, você vê que tudo conspira contra o indivíduo.
— Dostoiévski, Kafka, Rousseau, Marx e mais uma penca de gente já pensou nisso, Sasuke. Não sei se você está me dizendo isso para me testar, ou o quê… Mas te digo mais! Apesar de ser importante ter consciência sobre estas coisas, é igualmente importante saber que não há problema algum em trabalhar pensando no bem de um grupo, como alguns tentam fazer parecer. E sabe por quê? Por que ser humano algum vive sozinho. O ser humano precisa um do outro para sobreviver!
— Eu posso muito bem viver sozinho.
— Será que pode mesmo?
— Sim.
Ele soava como um adolescente rebelde, em crise existencial, por descobrir como o mundo funciona, e isso começava a irritá-la. Por isso, seu tom de voz foi perdendo a doçura para algo mais seco e áspero.
— Então por que está aqui? Por que pessoas solitárias são as mais depressivas?
— Eu não sou depressivo!
— Eu não sei se você é mesmo depressivo ou não. Mas sei que está triste. E sabe de uma coisa? Tristeza e melancolia andam juntas. E melancolia era como a depressão era chamada antigamente… Pense à respeito.
Ele recompôs a postura, encarando-a de frente com os braços cruzados sobre o peito, como se estivesse se fechando novamente em seu mundo, ou como se estivesse tentando se proteger de alguma coisa terrivelmente ameaçadora. Aí, ele mordeu o lábio inferior, estreitando os olhos, de repente se sentindo ainda mais incomodado.
— Deve ser muito fácil fazer um diagnóstico assim, né?
— O que quer dizer com isso?
— Nada.
— Diga! Me diga no que está pensando, Sasuke.
— Ela te contou tudo, não foi mesmo? A Hinata te contou absolutamente tudo, e por pena, você resolveu aceitar me atender.
Agora, foi a vez dela suspirar.
— É isso mesmo o que você acha?
Ele não respondeu. Apenas se levantou, e foi marchando em direção à porta.
Mais uma vez, a deixando sozinha.
...
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