Irreversível

2 Capítulo 2: Afundando dentro de si mesmo


Notas iniciais
Boa leitura!

Irreversível

Escrito por Amanur e Noel Blue

Capítulo 2: Afundando dentro de si mesmo



Três dias depois, Sasuke estava na mesma cafeteria turbinando seu sangue com cafeína e os pulmões com tabaco. Ele folheava um jornal velho que encontrou sobre a mesa. E às cinco horas da tarde, em ponto, sua amiga desabou no acento em sua frente.

— Por quê? — ela apenas perguntou. Parecia brava.

— Ela é amadora, Hina...

— O que te faz pensar isso, Sasuke? Por favor, me diga!

— Ela apenas fez perguntas idiotas. — deu de ombros, despreocupado.

— Mas ela só disse meia dúzia de coisas pra você, Sasuke! Como diabos você tirou essa conclusão? — indagou, irritada. Tão irritada que ainda tomou o cigarro da boca dele e o apagou enfiando dentro do seu café preto, por que ela sempre detestara essa mania dele.

Ele suspirou, como se não se importasse, pegando outro cigarro de sua carteira.

— Essas coisas são fáceis de perceber. — acendeu o outro cigarro — Está na postura dela. Quero dizer, pelos céus, ela pinta o cabelo de cor de rosa! E o que é aquele monte de penduricalho no pescoço? E aqueles anéis gigantescos nos dedos? Aquilo são verdadeiras armas!

— Desde quando a cor de um cabelo, ou objetos tem influência sobre a capacidade intelectual de uma pessoa?

— Podem não ter, mas é difícil dar credibilidade para uma pessoa assim!

— Assim, como?

— Assim, que não se leva à sério.

— E o que te faz pensar que ela não se leva à sério?

— Hinata, você veio só para me perguntar o que me faz pensar nas coisas?

Ela lançou-lhe aquele olhar que conhecia muito bem. Aquele olhar que dizia o quanto ele era patético. E ainda olhou para ele como se estivesse prestes a mordê-lo.

— Você vai voltar lá, e falar direitinho com ela! — a moça ainda disse.

Suspirou.

— Tá, tá… — às vezes, ele odiava como ela tinha poder sobre ele. Mas acontece que desde crianças ela sempre fora assim, meio mandona. O que era muito estranho, porque na frente dos outros ela se mostrava sempre muito dócil e submissa. No entanto, às vezes, só às vezes, ele gostava de pensar que isso era um privilégio só dele, e por isso não se importava muito.

Enquanto isso, a duas quadras de distância, era a Sakura quem caminhava com o seu amigo de infância pelas calçadas, enquanto se lambuzavam com algodão-doce. Com bastante humor, ela contava a ele sobre sua pequena aventura na cafeteria com o conhecido dele.

—… E aí, do nada, ele se levanta e vai embora, me deixando a ver navios! O cara estava muito nervoso. Mas muito nervoso mesmo!

— Você não está chateada?

— Por que estaria? Que culpa o coitado tem, se sou areia demais pro caminhão dele?! — e piscou olho para ele, meio zombeteira.

— Ele não é um cara mau, sabe? Mas realmente sempre teve dificuldades para se relacionar com as pessoas.

— Eu conheço o tipo dele. Tranquilo, mas às vezes meio ranzinza, fechado. Se ele não desistir antes, não tem problema.

Continuaram a caminhar, enquanto o vento frio soprava em seus cabelos. Mudaram de assunto, assim como a direção do vento de repente mudou.

...

Então, uma semana depois, Sasuke estava de volta, naquela cafeteria, sentado no mesmo acento. Novamente, uma xícara de café preto esfriava, e dois cigarros já haviam sido acesos e apagados, quando ela entrou tocando o sino.

Agora, ela vestia uma saia preta comprida, com um enorme casacão peludo amarelo e uma faixa colorida na cabeça. E, assim, toda cheia de cores e sorrisos, ela sentou na frente dele.

— Bem vindo de volta! — ela diz, animada.

— Aham. — resmungou — Você tem problemas com pontualidade, né?

— E você com paciência! Então, estamos quites! Aliás, quem sabe, não trabalhamos nós dois nesse nosso probleminha da próxima vez, hum?

Ele queria esgoelar ela, mas se forçou a sorrir aquele sorriso amarelo, sem graça, sem vontade. Até porque, de acordo com a lógica dela, era ele quem sairia ganhando da próxima vez mesmo.

E como se nada tivesse acontecido, ela sorriu novamente.

— E agora, pronto para tentar outra vez, Sasuke?

— Aham…

Ela ficou mais um tempo apenas olhando para ele, sem dizer nada, apoiando a cabeça com a mão, como se esperasse que ele dissesse algo. Mas acontece que, por ele, ela morreria ali que de nada sairia de sua boca.

Pelo menos, ela foi perspicaz o suficiente para perceber isso antes.

— Podemos tentar o que eu estava querendo propor? Perguntas com respostas sim ou não?

— Pode ser…

Ela pegou um bloquinho e uma caneta de sua bolsa de pano, e se preparou para começar a escrever. Desconfiado, porque ele era sempre desconfiado, entortou a boca, desgostoso. Não queria se sentir um objeto de estudo. Afinal, fora por isso que havia aceitado aquela ideia maluca de se encontrar com ela numa cafeteria ao invés de um consultório. Então, coçou a nuca, meio sem jeito. Sasuke Ansiedade estava de volta, balançando a perna, roendo a unha, olhando para os lados.

E ela fingiu não notar nadinha em como ele também olhava no relógio a cada poucos segundos, como se tentasse fazer o tempo passar mais rápido. O que era um absurdo! Ela tinha recém chegado!

— Então, Sasuke, você voltou aqui por vontade própria?

— Não.

— Mas sabe por que veio?

Ele pensou a respeito. Respirou fundo e trincou a mandibula, como se o pensamento lhe trouxesse desconforto. Não queria admitir, era cabeça dura, mas tinha consciência do que pensava.

— Sim.

— Você quer que algo mude em sua vida?

Mais uma pausa para ele pensar. Aquela era uma dúvida difícil de responder. E mais difícil ainda de admitir. Então, ele foi pelo que lhe parecia mais conveniente.

— Não.

— Então por quê veio?

— Já disse que não foi por vontade própria.

— Você também disse que sabe por que veio.

— Como eu disse, vim por obrigação.

— Tem certeza disso? Porque todos temos a escolha de negar o que realmente não queremos.

Aquilo era irritante. Profundamente irritante. Tão irritante que chegava a sentir pressão no peito. Ele detestava se sentir contrariado, sem razão. E por isso mesmo se levantou, desistindo, mais uma vez, daquilo tudo.

— Obrigado pelo seu tempo.

— Não senhor! Sente-se aí agora, ou vou fazer um escândalo aqui dentro! — ela disse, calmamente, embora seu tom fosse terrivelmente ameaçador.

Discretamente, ele virou o rosto, resmungou alguma coisa sobre o toalete, e saiu às pressas em direção ao final do corredor.

Ela estranhou, mas achou que o cara quisesse apenas aliviar alguma necessidade. Enquanto o aguardava voltar, pediu uma xícara de chá quente para esquentar as mãos. Mas o tempo foi passando. Dez minutos, quinze minutos… Quarenta minutos. E ele não retornou.

— Só me faltava esse filho da mãe ter me abandonado de novo! — resmungou para si.

Então, se levantou, deixando a bolsa sobre a mesa. Foi até o banheiro masculino. Deu três batidinhas na porta e girou a maçaneta. O lugar era limpo, bem organizado, sem nenhum odor. Haviam três cabines e três mictórios, e ela abriu todas eles, mas não o encontrou. Quando estava prestes a virar as costas, ouviu o som de uma respiração ofegante e deu alguns passos, para olhar do lado das cabines. Para sua surpresa, ele estava sentado no chão, com as costas encostada na parede e os joelhos dobrados em frente do corpo. Tinha as mãos sobre os olhos e estava visivelmente abalado, tremendo. Parecia uma criança acuada, encolhida, abandonada. E ele sequer notou que ela estava ali, diante dele.

Aquilo foi tão estranho, que Sakura ficou totalmente sem reação. Jamais imaginaria encontrar um homem daquele tamanho numa cena daquelas. Mas logo um estalo veio em sua mente, movendo seu corpo em direção a ele. Se ajoelhou bem na sua frente e, cuidadosamente, afastou suas mãos do rosto, obrigando-o a vê-la.

— Seja lá o que aconteceu com você, acredite, é reversível!

Os olhos dele pareciam desfocados, como se tivesse emergindo num universo paralelo, e estivesse ali apenas de corpo. Sua alma e seu espirito estavam num lugar que ela não conseguia alcançar. Ele não reagia, não respondia. Não se movia e mal respirava.

De repente, ela começou a se preocupar de verdade. O cara parecia ter entrado em transe. Ela estalou os dedos, moveu a mão na frente dele, chamou seu nome, e nada. Não havia nada nos olhos dele. Então, meio em desespero, pegou o rosto dele com as duas mãos e o fez olhar em sua direção, em seus olhos.

— Por favor, Sasuke, me diz o que fazer, me dá um sinal, alguma coisa, qualquer coisa!

Mas ele apenas ficou lá, olhando para ela; ou melhor, olhando através dela, como uma estátua medieval.

...

Notas finais
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