Irreversível
14 Capítulo 14: Fragmentos do que dissemos
Notas iniciais
Irreversível
Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 14: Fragmentos do que dissemos
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O dia ensolarado não combinava muito com aquele dia esquisito. Os nós de seus dedos latejavam, inchados, com cortes sobre eles. Mas diferente da dor, ele sentia uma satisfação, por menor que fosse, tomar conta dele, cada vez que lembrava do que causou aquilo. Aqueles pequenos cortes eram quase como troféus. E por isso mesmo, quase como se estivesse orgulhoso do seu feito, chegou à delegacia de polícia, narrando o que tinha acabado de fazer com o próprio pai.
Itachi e o senhor Fugaku estavam com ele, para prestar queixa e comprovar o episódio. Seu irmão, ainda mais consternado, sem entender o que o tinha levado a tal barbaridade, aleio às desavenças entre seu pai e seu irmão
Mas Sasuke não contou toda a história. E foi levado preso com algemas para dentro de uma cela, onde ficou por tempo o suficiente para pensar mais.
E percebeu que, apesar daquilo tudo, do sentimento de deleite, ainda havia uma voz em seu ouvido, sussurrando que de nada adiantou aquela cena, porque nada iria mudar o que já havia acontecido. O passado era irreversível. Assim como a vida, a morte, o conhecimento e essa outra coisa da qual não conseguia pensar de jeito nenhum.
Ele ficou ali, confinado naquele espaço quadrado, fedido à mofo e umidade, por mais algumas boas horas. Não se preocupava em passar o resto dos dias ali, porque o que ocupava sua mente, naquele momento, eram as últimas palavras do seu pai. E quanto mais pensava nisso, mais a consciência do que se tornava pesava sobre seus ombros.
De repente, um policial aparece na sua frente, enfiando a chave no trinco da cela.
— Você está livre.
Sasuke revirou os olhos.
— Quem pagou?
— Estão te esperando no saguão. — foi tudo o que o policial respondeu.
Então, calmamente, ele foi arrastando seus pés para fora da cela. Naruto e Hinata o esperavam em frente a porta de saída, de braços cruzados e cara de poucos amigos.
Hinata ainda o cumprimentou com um tapa na cara dele, daqueles que ardiam até nos ossos. E, assim, sem dizer mais nada, deu as costas sem se explicar. Naruto também não se pronunciou, e ele achou que teria sido melhor ter ficado preso.
Mas entraram no carro deles. E foram dirigindo em silêncio, até chegarem em frente ao apartamento dele.
Ele não queria agradecer, mas sabia que precisava dizer algo.
— Obrigado por tudo…
— Não ouse sair deste carro sem nos dar uma boa explicação para tudo isso, Sasuke. — sua amiga resmungou. Talvez você não nos considere como amigos, mas nós nos preocupamos com você, sim, Sasuke. Quer você queira ou não.
Isso o deixou meio sem ação. Para ele, os dois eram seus amigos, sim. Mas havia coisas que ele não comentava muito mais pela vergonha, pelo constrangimento, do que por qualquer outro motivo.
— Sei que não tenho sido o amigo que vocês precisam, mas esse realmente não tem sido um bom momento para mim. Mas prometo que quando a poeira abaixar, prometo ainda contar tudo para vocês. Só peço para que me deem um pouco mais de tempo. — disse.
No dia seguinte, assim que acordou, a primeira coisa que fez foi bater na porta da casa dela.
Desconfiada, nem o deixou entrar. Apareceu na janela da sua casa, descabelada, enrolada nas cobertas, demonstrando que ainda estava dormindo.
— O que quer? — perguntou.
— Conversar.
Ela suspirou.
— Espere aqui.
Alguns minutos depois, ela surgiu coberta numa blusa branca, saia comprida amarela, com sandálias rasteiras nos pés, cheia de colares e pulseiras nos pulsos. Seu cabelo rebelde estava agora preso no alto da cabeça num coque e empurrava para cima do ombro sua bolsa de pano.
— Vamos tomar um café naquele lugar… — ela disse.
Então, caminharam lado a lado, sem dizer nada, até a cafeteria de sempre. Sentaram-se na mesa de sempre, e pediram o de sempre. Um café preto para ele, e um chocolate quente para ela. Dividiram uma torta doce de chocolate com morangos.
Até então, não tinham trocado muitas palavras significativas, enquanto saboreavam a torta dividida pelo mesmo garfo.
— E então? — ela iniciou — Está tomando café outra vez.
Ele ficou encarando ela, enquanto o café descia por sua garganta. Estava se sentindo meio sem jeito para começar a falar tudo o que queria dizer a ela. Então, começou do jeito mais estúpido que poderia começar. Mas, antes, para encarar a coisa, ele pegou da sua carteira um cigarro, e o acendeu na boca. Aí, olhou para ela.
— Como é que diabos você se atrai por um cara daqueles?
A dúvida a pegou de surpresa, com o garfo no meio do caminho à sua boca. Ela ficou ali, parada, olhando para ele, como se esforçasse para acreditar que ele estivesse mesmo querendo seguir aquela conversa por aquele caminho, falando sobre seus relacionamentos.
— O que está querendo insinuar?
— Nada, é só que eu estava me perguntando sobre isso. Como diabos uma garota como você pode se interessar por um cara como aquele.
— O que quer dizer com uma garota como eu? — agora, ela parecia se divertir com aquilo.
— Você sabe…
— Acho que não sei.
— Aliás, falando nisso, você já morou com algum dos seus namorados?
— Meus namorados? Agora tenho vários namorados?
— Bom, você sabe.
— Acho que não sei.
— Você estava debochando da Ino, quando ela anunciou que moraríamos juntos. Não tente negar isso, que eu vi.
Ela suspirou. Sabia bem que tudo aquilo era bobagem, perda de tempo. Havia assuntos mais importantes para falar com ele.
— Sasuke, querido, o meu passado não é o que deveria estar em discussão aqui.
— E por que não? Achei que gostasse de conversar.
— Gosto. Mas quando há algum assunto para se conversar, de fato. Não essa perda de tempo aqui. Nada disso faz sentido.
— Então, você só gosta de falar sobre o quanto os outros fogem dos seus problemas, mas enfrentar os seus próprios problemas, você não gosta?
— Mas de que problemas você está falando, Sasuke? Eu não nenhum problema a resolver aqui! Diferente de você! — de repente, ela estava irritada — Por que é que você está falando de mim? Quando foi que eu procurei você para resolver alguma coisa? — e então, ela se levantou.
Não iria ficar esperando para ele deixá-la para trás mais uma vez, como todas as outras. Desta vez, a iniciativa de fugir dele partiria dela.
No entanto, ele pegou em seu pulso. Exatamente como ela fizera no primeiro encontro deles.
— Ok, me desculpe. — ele resmungou. Estava tão sem jeito, acanhado e constrangido, que ela mal ouviu sua voz — Me desculpe por ser um imbecil. É só que, há coisas que simplesmente não consigo colocar para fora. Coisas difíceis de falar, coisas complicadas.
— Eu entendo. Isso eu consigo entender, Sasuke. Mas o que não dá pra aceitar é a sua maneira de ver a solução para os seus problemas. Guardar tudo para si, não vai desfazer nada. Negar a si mesmo que não há o que se discutir, também não vai resolver nada. Pior ainda, essas coisas só vão te trazer mais problemas. Problemas afetivos, problemas de relacionamento, problemas de saúde. — e tomou da boca dele o resto de cigarro que ainda queimava, apagando-o sobre o tampo da mesa sem se importar com a marca que poderia deixar. Afinal, a saúde dele era mais importante do que a estética de uma madeira.
— Eu sei que você está certa. Nunca disse que não estava…
Ele desviou o olhar. Já se sentia tão esmagado por aquele sentimento de culpa, que não sabia mais onde se enfiar. Então, restou a ela, mais uma vez, a tomar outra atitude.
Pegou na mão dele, e o foi guiando porta afora. Caminharam até a praça do bairro, e sentaram-se nos balanços, observando algumas crianças brincar nos outros brinquedos.
— Por que me trouxe aqui? — ele perguntou.
— Às vezes, gosto de vir aqui, e ficar me colocando no lugar de algumas dessas crianças. Minha versão de nove, dez anos. E finjo que essa versão mais nova consegue ver essa versão mais velha aqui, sentada, observando-a. Às vezes, elas conversam entre si sobre coisas que eu gostaria de ter feito quando tinha a idade dela, e sobre coisas que eu gostaria de já ter feito quando alcançasse a minha idade.
— Algum arrependimento?
— Poxa! São muitos… Acho que não há alma viva no planeta que não tenha arrependimentos. Tanto de coisas que deixou de fazer, como sobre escolhas que fez. Mas penso que são essas coisa que nos transforma na pessoa que somos, né?
— E o que acontece quando não gostamos da pessoa que nos tornamos?
— Uma das coisas que pode acontecer é o que aconteceu com você. A pessoa não consegue enxergar a força que tem dentro de si.
— Não sou uma pessoa forte. Sou uma pessoa assustada. Não sei o que te faz pensar ao contrário.
— Bem, você está vivo até hoje. Isso, por si só, já demonstra o quão forte você é. O quanto você quer continuar vivo.
E lá estava ela, mais uma vez, no seu papel. Às vezes, ele confundia aquela figura que, ora parecia materna, ora parecia amiga. Às vezes, até, parecia apenas uma psicóloga falando, mas fosse qual fosse o papel que assumisse, que se mostrasse a ele, sempre havia aquela coisa que não sabia definir e o incentivava a seguir a diante, com o apoio de suas palavras. E ela estava sempre ali, pronta para oferecer sua mão, não importa o que ele disse a ela. Não importa o quão estúpido pudessem ser suas atitudes para com ela.
De repente, ele sentiu vontade de se abrir, de contar tudo para ela, cada detalhe, cada vírgula e ponto. Cada pequena dor e cada pequena queda, absolutamente tudo. Mas as palavras simplesmente não saiam, estavam presas na ponta da língua, o sufocando na garganta. E, assim, pouco a pouco, ele estava morrendo sufocado por palavras que nunca disse.
Quis chorar, ali na frente dela, na frente de todos, mas se sentia tão fraco de tudo, tão derrotado e cansado, parecia que suas lágrimas haviam secado e só restava espaços vazios.
— Não precisa dizer nada agora. — de repente, ela diz, ao perceber a angústia que ele tentava desenrolar dentro de si — Dê tempo ao tempo. Tudo tem seu tempo.
Ficaram mais um tempo ali, observando as crianças pularem de um lado para o outro, rindo, gritando e correndo, como toda criança agitada faz. Ele tentou se colocar no lugar de alguma delas, e pensou no que eles poderiam conversar. Sobre quais dos arrependimentos sentiam mais pesar. Sobre quais deles fariam diferente, e sobre quais não fariam de jeito algum. E quanto mais pensava nisso, mais se dava conta de que tinha muito mais arrependimentos do que realizações das quais se orgulhar. Na verdade, quanto mais pensava nisso, mais se sentia constrangido em olhar para aquele seu eu do passado, e só ter coisas negativas a confessar para ele.
Então, a mão dela pousa sobre o ombro dele.
— Vamos?
Ele a acompanhou de volta até sua casa.
— Acho que deixei meu celular aqui.
— Ah, sim. Vou pegá-lo. — e então, ela desaparece dentro da casa.
Voltou alguns segundos depois com o aparelho dele em mãos e o entregou.
— Desculpe pela última vez também. Acho que fiz papel de imbecil quando você só estava me ajudando…
— Essas coisas acontecem. Não se preocupe.
— Ok. Até mais.
— Até.
Mas ele ficou ali parado, olhando para ela, pela primeira vez com seus olhos fixos nos verdes dela, como se estivesse hipnotizado. Ela notou seu olhar e sorriu.
— O quê? — perguntou encabulada, desviando o olhar para as flores nos vasos do lado da porta.
Ele não disse nada. Apenas sorriu, de lábios colados e se inclinou sobre ela para lhe dar um beijo de despedida no rosto. Mas estar ali, tão próximo a ela, sentindo seu doce perfume de flores o fez criar uma coragem que não sabia que tinha. Levantou as mãos e segurou o rosto dela. Primeiro beijou sua bochecha esquerda, e demorou com os lábios colados ali por mais tempo do que deveria. Depois, calmamente, sem a menor pressa, beijou a direita. Mais alguns longos segundos levou. E, então, olhou novamente para ela. Seu coração batia a toda velocidade, parecia prestes a rasgar o peito e pular fora. Tinha consciência de estar ali, diante daqueles olhos verdes que o observava meio desafiadores, meio convidativos. E, então, sem delongas, beijou os lábios dela.
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