Irreversível
11 Capítulo 11: Sua voz é o eco da montanha
Notas iniciais
Irreversível
Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 11: Sua voz é o eco da montanha
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Dias leves como aquele eram difíceis de acontecer, mas sempre que acontecia, ele desejava mais. No entanto, naquela outra manhã, enquanto se arrumava para ir trabalhar, seu celular tocou anunciando um mal presságio.
— Sim? — atendeu, sem reconhecer o número de chamada.
— Sasuke? Sou eu. — disse a outra voz, do outro lado da linha — Estou ligando para avisar que planejo passar uns dias na sua cidade. Você tem algum espacinho para o seu velho aí?
Seu estômago, de repente, virou do avesso. E ele tinha certeza que teria caído se não encostado na parede.
— Estou dividindo meu apartamento com minha namorada.
— Aceito o sofá, sem problema nenhum. — insistiu.
Ele não respondeu.
— Sasuke? Está aí?
— Ok. — por fim, respondeu.
— Ótimo. Combinei com seu irmão de almoçarmos no primeiro dia. Ele me disse que vocês não se veem há tempos.
— Uhum.
— Está tudo bem?
— Uhum.
— Então tá. Até amanhã.
— Amanhã?
— Algum problema?
— Não… Problema nenhum.
E encerrou a ligação.
Ele ficou encarando a parede branca oposta, enquanto sua mente esvaziava. Seu coração pulava à mil, mas as mãos e pernas pareciam prestes a se derreter. De repente, seu peito apertou e respirar ficou difícil. Queria se enfiar num buraco e desaparecer daquela cidade, daquele mundo, se pudesse, até do universo.
Mas, ao invés disso, o peso da responsabilidade era maior, e se forçou a ir trabalhar.
Só que no serviço ele não conseguiu se concentrar. Errava tudo o que tinha que fazer porque sua mente estava em outro lugar. Nem conseguiu comer nada durante o almoço, e o restante do dia era traduzido por um desastre atrás do outro.
Chegou em casa ao final do dia exausto. A cabeça parecia que ia explodir em mil pedaços, e o peito cair no chão feito chumbo. Se perguntou para onde tinha ido parar a tranquilidade do dia anterior, porque agora tudo aquilo parecia um mero borrão de uma memória antiga.
Para o seu alívio, ele pensou, Ino estava chegando. Então, encomendou um jantar para os dois, para que pudessem relaxar e, quem sabe, aliviar seus estresse entre conversas soltas e leves.
Mas não foi bem isso o que aconteceu.
—… E minha chefe dá mais atenção à outra, do que ao trabalho que eu executo, que é infinitamente melhor do que o dela! Falando nisso, meu pai me ligou dizendo que quer de volta o aparelho de som. Parece que foi presente do pai dele, meu avô. — ela, desde que chegara, não parava de falar sobre si mesma.
— Não tem problema, não o usei nenhuma vez mesmo.
— Ah, que bom, porque ele estava preocupado se não tinha estragado.
— Ele tinha dito que nos dava o aparelho!
— Não disse não.
Ele revirou os olhos.
— Que seja… Não vai fazer falta mesmo.
— Por que está tão ranzinza, Sasuke? É só um aparelho de som.
— Só estou cansado… Meu pai me ligou dizendo que está vindo ficar alguns dias conosco.
— Por que ele não fica com o seu irmão?
— Eu já te falei! Meu irmão ainda mora com a mãe dele, e meu pai não se dá bem com ela.
Ela se levanta da mesa, levando os pratos e talheres para a pia, e olha para ele.
— Não é por nada não, mas isso é meio que um saco, né? Por que você não negou? Não disse a ele que está dividindo o apartamento comigo?
— Eu disse. Mas ele não se importa em ficar no sofá.
— Bom, eu me importo em não poder sair do banho nua, ou não poder fazer barulho na cozinha de manhã cedo por ter que cuidar do sono dos outros! Meu pai nunca deixou ninguém ficar na sala por isso.
— Bom, eu não sou o seu pai, Ino!
— Óbvio que não! Se fosse, teria culhões para dizer não para o seu pai.
— Assim como você tem coragem pra negar alguma coisa pra ele?
— O que quer dizer com isso?
— Que talvez você devesse olhar para o próprio umbigo antes de sair criticando os outros.
— Bom, pelo menos, não me borro nas calças por falar com meu pai. — ela resmunga.
De repente, sem que percebesse, ele inspirou fundo, deixando o oxigênio percorrer em seu sangue, enquanto ele esquentava pela tomada de fúria repentina que ia lhe subindo pela garganta..
— Por que você não cala essa sua boca podre, uma vez na vida, e me escuta? Você não sabe de nada sobre o meu pai e eu! Você não faz a MENOR ideia do que nós dois passamos, então, cale a merda da sua boca, e suma da minha frente!
Ela mudou de postura, de repente, mais cautelosa. Estava surpresa com ele. Nunca tinha o visto agir daquela forma. Então, sem dizer mais nada, ela baixou a cabeça e foi para o quarto.
Ele, no entanto, se sentindo péssimo pela descarga de energia, resolveu pegar seus cigarros e sair porta afora.
Mas a cada passo que dava pelas ruas noturnas, mais tinha consciência de que o tempo estava passando. Tinha a sensação de que havia um enorme relógio atrás dele, fazendo tic-tac, marcando o tempo, como se estivesse próximo da hora mais importante de sua vida. E o coração acelerava junto com aquele ruido, vibrando em cada célula do seu corpo. Um calafrio correu pela espinha e se arrepiou todo. estava com frio, mesmo não estando frio.
E quando percebeu, estava lá. Na frente da casa dela.
Apertou a campainha duas vezes. Ela levou três minutos para atender. Estava enrolada num lençol, de cabelos bagunçados, vestida num pijama cor de rosa, com bolinhas brancas.
Ela não disse nada, não fez pergunta alguma. Apenas o deixou entrar.
Sentaram-se no sofá. Na TV, passava um filme que ele já vira. Havia um pote de pipocas quentes sobre a mesa de centro. Mas o silencio entre eles era mais ruidoso, mais chamativo. De uma forma não incomoda, estar em silêncio com ela não o fazia querer se contorcer em apreensão. Era uma sensação boa. Era tranquilidade.
— Quer algo para beber? — ela perguntou de repente, os olhos fixos na TV.
— Poderia pedir uma dose de injeção de álcool nas veias, mas sei que você não bebe.
— É melhor desabafar sóbrio, consciente das palavras que diz.
— Há controvérsias.
— Tente.
— E quem disse que tenho algo para desabafar?
— E porque mais você viria a minha casa sem ser convidado a essa hora da noite?
Ele não disse nada. Estava pensativo, reflexivo. Realmente desejava aquela dose de álcool nas veias. Seria muito mais fácil de deixar as palavras presas na garganta sair. E ele não queria estar sóbrio para o inevitável que viria no dia seguinte. Na verdade, se pudesse, nunca mais na vida ficaria sóbrio.
— Posso perguntar algo? — ele indaga, se lembrando de algo que ouvira — Algo pessoal.
— Claro. — ela responde, desligando a tv.
Mas continuaram encarando a tela, porque se sentiam como dois estranhos se conhecendo pela primeira vez. Por que aquela situação parecia estranha demais para se olharem diretamente um para o outro.
— Por que o seu ex disse que você é uma puta como a sua mãe?
— Ah… Bom…Na verdade, minha mãe veio de uma família mesquinha, que basicamente a abandonou quando mais precisava. Ela estava na época da faculdade, quando meu avô faleceu. Ela contava com a herança que iria receber para pagar os estudos, mas as irmãs dela deram um jeito de ficar com tudo. Então, para sustentar os estudos, a solução mais rápida e fácil que ela encontrou foi se prostituir. Por isso minha avó paterna não gosta dela.
— Você conheceu seu pai?
— Sim, sim… Ele não foi um dos clientes dela.
— E onde ele está?
— Embaixo da terra. Ele faleceu quando eu tinha 16 anos, num acidente.
— Sente falta dele?
— Às vezes.
— Ele foi um bom pai?
— Às vezes.
— Quais foram as coisas ruins que ele fez?
— Negligência. Como a maioria dos pais…
— Hum. Posso te fazer um pedido estranho? Você pode dizer não. Aliás, me sentiria melhor se me dissesse não…
— Diga.
— Posso dormir hoje aqui? No sofá, é claro.
— Posso perguntar o motivo?
Ele suspirou, ainda encarando a tela da televisão. Se olhavam através da tela escura do aparelho.
— Alguma vez você já sentiu que estivesse de saco cheio de tudo, até mesmo do lugar em que você mora, das pessoas a sua volta, mesmo das mais queridas por você?
— Eu sou a rainha em fugir disso, lembra?
— Pois é… Posso me refugiar aqui?
— Sempre.
Ela se levantou, para pegar algumas roupas de cama que tinha guardado no armário do seu quarto. De repente, ele aparece ali, na porta. Não tinha visto o quarto dela ainda. Uma das paredes era pintada de lilás, outra, exibia um enorme tapete em tom de vinho, com desenhos trançados. Havia uma enorme mandala colorida em cima da cama, junto com um apanhador de sonhos. Sobre uma pequena cômoda de madeira polida, várias velas coloridas, entre pedras e cristais. Sobre a cama, almofadas igualmente coloridas. O próprio ambiente em si era perfumado com um aroma que ele conhecia, mas não sabia identificar.
Ela ainda pegou uma almofada colorida e voltou para a sala, com ele em seu encalço.
— Se precisar de mais alguma coisa, estarei aqui do lado.
— Obrigado.
— Boa noite.
— Boa noite.
Ela se colocou nas pontas dos dedos para lhe dar um beijo no rosto, como faria com qualquer outro amigo seu, mas ele acabou se atrapalhando. Ele não esperava aquele gesto, aquele toque tão íntimo, e acabou virando o rosto para o lado errado, deixando seus lábios tocarem.
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