Irony
1 "Together, we will be perfect!"
Notas iniciais
Shirou não conseguia suportar-se a si mesmo.
Cada palavra que dizia, cada convicção que tinha, era refutada e empurrada por uma outra, mais agressiva.
Todas as noites os seus olhos procuravam o brilho atento da lua e das estrelas, apenas para que, mesmo que durante meros minutos, pudesse estar em paz consigo mesmo.
A dor que lentamente congelava o seu coração era demais para ser explicada em palavras. Já tinha tentado, mas a conversa acabou tão depressa como veio a chuva que molhou as suas roupas.
Assim, conflito interno após conflito interno, encontrava-se novamente naquele quarto horrificamente branco, sentindo os seus dedos congelados e vendo-os roxos apesar do seu corpo estar o mais saudável que conseguia. Suspirando, balançou as pernas para fora da cama e enrolou o cachecol em volta das suas mãos doridas, dirigindo-se à casa de banho daquele local, sentando-se sobre o tapete e puxando os joelhos junto ao peito.
Não muito tempo passou até ouvir a voz idêntica à sua resmungar com ele, o seu olho esquerdo ardendo ligeiramente e os seus cabelos arrepiando-se, fazendo-o levar uma mão para coçar o couro cabeludo comichoso.
Uma discussão breve começou. O mais novo estava cansado e queria dormir, mas o mais velho negara-lhe e ao seu corpo veemente, não sendo sono algo com que estava preocupado, algo até que dizia não sentir no momento. Eventualmente a discussão acabou com a sua voz a reverberar contra os azulejos, uma única palavra que esperava ser capaz de recomeçar a conversa.
“Atsuya…?”
Minutos se passaram e o silêncio passou de aconchegante a mórbido, coisa à qual Shirou não tardou a reagir, levantando-se e voltando para a sua cama, a sensação congelante já não mais presente.
Atou o cachecol ao pescoço e cobriu-se com o lençol e cobertor, deitado no colchão fino do hospital, encolhendo-se contra si mesmo para conservar calor.
As palavras dos seus companheiros ecoavam na sua cabeça, as suas intenções claras e óbvias apesar dos seus próprios problemas. Ele gostava de chamá-los “amigos”, e não conseguia evitar a onda de calor que sentia quando o mesmo lhe era feito. No entanto, ele sabia que isso não iria durar muito. Ele estava estilhaçado, quebrado, perdido e espalhado dentro de si, e o nevoeiro pousado no seu caminho era denso demais para a sua esperança o conseguir perfurar.
Uma lágrima correu pelo seu olho seguida de muitas mais quando as memórias de batalhas passadas lhe invadiram a mente. Lembrava-se da angústia, da desilusão, do medo e da frustração que sentira com cada mísero erro e falha- começava a ficar sem ar – o que levou a soluços roucos serem debilmente pronunciados por si.
Isto repetia-se noite após noite, e não era nada de novo para o albino; a dor tinha-se tornado um comprovativo da sua presença na Terra.
No entanto, acima de tudo isto, havia algo que doía mais do que qualquer outra coisa.
“Juntos, vocês são perfeitos!”
Ele sabia perfeitamente que a solidão era mentirosa.
Mas era a única coisa que lhe restava.
Fale com o autor