Ironias do Destino
1 Apresentando
Notas iniciais
Aquele telefone tinha que tocar...
Confesso que isso não era algo ao qual eu estava acostumado. Geralmente as pessoas respeitavam meus horários e eu conseguia dormir toda a noite e ainda estar de pé logo após o amanhecer. Agora... por que eu estava sendo acordado àquela hora da madrugada de forma tão insistente, não fazia ideia. No entanto, dando de ombros à irritação que sentia e esperando que fosse uma emergência, estendi minha mão e alcancei o telefone contra vontade:
― Darcy! Darcy! ― Uma voz animada demais respondeu do outro lado, o que me levou a descartar qualquer acidente envolvendo algum membro da família. ― Ela aceitou! Jane finalmente aceitou se casar comigo! ― Revirei os olhos. Não acredito que fui acordado para escutar uma notícia como essa. Não me leve a mal, eu fico realmente feliz ao presenciar a felicidade dos meus amigos – principalmente a de Bingley, que era meu melhor amigo –, mas isso não poderia ser feito em horário comercial? Eu tinha uma vida, um trabalho e uma casa para administrar, será que ele havia esquecido disso?
― Bingley, você sabe que hora é? ― Indaguei enquanto me sentava, passando a minha mão esquerda pelo rosto; eu ainda não estava acreditando naquilo.
― Quem se importa com horas quando sou o homem mais feliz do mundo! ― exclamou, e consegui imaginar através da sua voz com que alegria ele deveria estar. Bingley era alguém quase sempre extrovertido, o oposto de mim – talvez seja até por isso que nos damos tão bem. E, ao que tudo indica, havia encontrado a tal escolhida que tanto procurava. Não que eu acredite 100% nisso, Charles Bingley tinha uma vasta agenda com nomes e endereços da maior parte das mulheres solteiras de Londres.
― Eu, meu amigo, eu me importo com horas! ― repliquei desanimado, já havia decidido que não conseguiria mais dormir: ― Mas já que estou acordado, que tal passar aqui para me contar direito como aconteceu? Tenho certeza que será um ótimo sonífero para mim. ― Era rude, eu sei, mas a risada que veio como resposta me mostrou que nada, como sempre, seria capaz de alterar o humor do meu ouvinte.
― Você precisa dormir menos e viver mais! Mas essa é uma ótima ideia, passarei em casa e logo depois estarei aí para tomar o café da manhã. ― E depois de uma breve pausa: ― Não demoro muito, chegarei aí no máximo às 6h30. ―
― Não se atrase. ― E desliguei. Olhei finalmente para o relógio e faltavam poucos minutos para as 5h00. De que lugar Bingley estava voltando mesmo? Por fim levantei e depois de uma hora malhando, tomei um banho e me vesti. Logo o meu amigo estaria chegando e eu tinha certeza que se não o arrastasse para o trabalho, ele continuaria com suas histórias por tempo indeterminado.
~.~
Algumas horas depois em um apartamento mais humilde, e muito distante...
― Não! Eu não posso fazer isso, você ficou louca? Como vou arrumar um namorado falso e levar para um jantar de família? ― Respondi assustada, meus olhos arregalados de surpresa diante da ideia mirabolante da minha melhor amiga.
Eu sabia que não poderia aparecer na minha casa sem alguém, seria impossível suportar toda aquela conversa da minha mãe sobre eu ser a única filha que tinha idade para casar, mas que permanecia solteira. Segundo ela, Lydia tinha sido a mais esperta e atacou logo o primeiro cara que encontrou e estava para se casar àquela altura ― e não importava que esse tal cara fosse meu namorado na época, o importante é que ela tinha uma filha a menos para casar.
Continuando... Kitty estava namorando um carinha que estudava com ela, ambos estavam no quinto período da faculdade (ela de moda e ele de analista de sistemas), então tinham um ótimo futuro pela frente. Mary também era outra, namorava o que eu poderia chamar de um esquisito que cursa psicologia ― alguém, por favor, me explica o que leva alguém a deixar o cabelo crescer de forma desordenada e não se dar ao trabalho nem de lavar? Por último tinha a minha adorada Jane, a única da minha família que merecia toda a felicidade do mundo. E, ao que tudo indicava, estava caminhando para essa felicidade. Charles, seu namorado, andava a pedindo em casamento por meses e, segundo minha doce irmã havia me relatado pela manhã, ela finalmente aceitou. Ou seja, minha mãe me considerava, com quase 24 anos, encalhada e com uma péssima habilidade para conseguir e manter homens. E até que concordava com ela. Tinha até uma teoria... ‘se você não abre as pernas, eles correm’. O negócio era que eu não achava isso ruim, ao contrário.
― Mas você precisa! ― tornou Charlotte, e eu continuava me perguntando por que estava tendo aquela conversa com ela. ― Você falou para todos que estava namorando. Todos na sua família estão esperando que você apareça com um moreno alto e muito boa pinta. ―
Eu tinha que dá crédito a ela. Toda aquela minha estória de que estava namorando nos últimos meses acabou me prejudicando. Agora estava eu ali, sem saída. Ou levava esse “tal” namorado, ou passaria todo o fim de semana tendo que aturar as gracinhas que estavam por vir. E o pior, faltar seria ainda mais humilhante. Não que eu ainda me importasse com George, isso estava longe, mas a humilhação ainda pesava muito. Não é todo mundo que tem o seu namorado roubado pela sua irmã metida a ninfeta de 18 anos. Eu era o assunto entre os conhecidos.
― Eu não posso, Char. ― E eu realmente não podia. ― Mesmo que seja humilhante presenciar o casamento da minha irmã com o meu ex sozinha, será ainda mais chegar lá acompanhada de um namorado falso. Imagine só... Não! Sem chance. Quem seria louco de aceitar uma proposta dessa? ― Perguntei, incrédula... ainda não acreditava que estava tendo aquele tipo de conversa. Tudo bem que Charlote Lucas era sem noção, mas estava se superando... Eu não iria, de forma alguma, ceder às investidas dela. Permaneceria em Chicago por tempo indeterminado, e meu emprego de Assistente de Coordenador de Engenharia até que estava indo bem. Eu sei, ainda não era o meu sonho, mas não tinha do que reclamar. Mesmo em tão pouco tempo, havia chegado mais longe do que eu planejava. Acho que ter me dedicado feito louca depois de ter me livrado do traste do George serviu para alguma coisa. Meu trabalho era quase perfeito!
Dando de ombros à presença de Charlote que parecia conformada por eu ter desistido de ir ao desastroso casamento, caminhei até o meu quarto e me concentrei em alguns e-mails que deveria enviar ao meu chefe, sr. Collins ― eu tento acreditar que ele não tinha segundas intenções ao ter me escolhido para ser sua assistente.
Anexando os documentos necessários e fazendo as devidas anotações, enviei os e-mails profissionais e alterando para o meu e-mail pessoal, passei a responder os que havia recebido desde o dia anterior, até que...
Para: EB.002
De: WDarcy
10 de Fevereiro de 2014 22:35
Assunto: ...
Creio que sua certeza chega a soar arrogante.
Mantenha-se menos confiante. E pare de me enviar e-mails, pois não serão mais respondidos!
...
Oh! O que era aquilo?
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