Ironia do Destino

7 Capítulo 6- Um Sábado Inesperado


Notas iniciais
Boa leitura!

Sábado se iniciava; um dos poucos dias em que consigo passar mais tempo com minha mãe. Geralmente fico de pijama em casa, mas pretendia passar na casa de Bia. Então coloquei meu short jeans com a meia-calça rasgada, um coturno e minha blusa do Nightwish. Assim que fui para a cozinha tomar café da manhã, vi um homem que apareceu em casa no início da semana. Como era mesmo seu nome? Jhonas, talvez. Da última vez que o vi, estava saindo às pressas de casa. Agora consigo identificar melhor sua aparência; ele tem olhos verdes, os cabelos são de um tom castanho claro e eu diria que tem pouco mais de um e setenta de altura. Ele estava ao lado de minha mãe, sentado em frente à mesa da cozinha comendo pão com café. Parece que dessa vez ele não se deu ao trabalho de “fugir”.

_Bom dia filha, já acordou?

Era uma pergunta óbvia. É claro que eu já havia acordado. Então apenas assenti.

_Bom dia... Emma. É esse mesmo o seu nome?

_Sim.

_Prazer, sou John.

Ele me estendeu o braço e me senti obrigada a lhe dar um aperto de mão. Estava um clima tenso no ar. Ninguém sabia ao certo o que dizer.

_Mas então... Quantos anos você tem, Emma?

_17.

_Ah, sim. Então você está estudando na Santa Helena de Cupuaçu?

_Sim.

Outro silêncio constrangedor.

_Sabe, eu tenho um sobrinho que estuda lá. O nome dele é Henry.

Percebi meus olhos se arregalando, então contive a reação e perguntei:

_Por acaso ele é loiro dos olhos azuis?

_Exatamente. Um garoto muito dedicado aos estudos.

_Eu o conheço. É da minha sala.

Minha mãe estava tão concentrada comendo que nem se deu ao trabalho de participar da conversa.

_Então vocês são amigos?

Amigos... devido as circunstâncias, acho que poderia considera-lo isso.

_Sim, somos.

_Ah, mas isso é ótimo! O garoto tem um pouco de dificuldade em fazer amigos. É tão focado nos estudos e um tanto quanto tímido, sabe? Estou surpreso que tenha feito amizade com você.

Bom, até eu estava surpresa. Levando em consideração que eu sou uma rockeira e ele é geek (Acho que o termo nerd me parece ultrapassado agora), é uma amizade bem improvável se for parar para pensar. Mesmo assim, aqui estamos nós. Até segunda eu o estava odiando e agora o considero amigo. A vida tem dessas. Acho que parte do meu “ódio” por ele era por não o conhecer direito. Foi errado de minha parte julgá-lo antes de termos ao menos uma conversa decente. Percebo agora que ele é cauteloso, tem dote culinário, bom gosto musical, e o melhor, ele beija bem. Senti minhas bochechas esquentarem.

_Filha, você está bem?

_Ãhn? Ah, sim. Claro.

_Certeza? Suas bochechas estão bem vermelhas. -Comentou John.

Eu só queria sair dali naquele momento. Rapidamente terminei de tomar o leite e disse saindo às pressas da cozinha.

_Tenho que devolver uma roupa que peguei emprestada ontem.

E era verdade. Eu seria uma ladra se não devolvesse as roupas de Duncan. Peguei a camiseta e calça no meu quarto e coloquei-as em minha mochila. Fui de skate, demorei apenas quinze minutos para chegar. A casa dele ainda estava com bagunças da noite anterior. Havia confetes, copos, comida e até roupas espalhadas na área. Andei até a porta de entrada e apertei a campainha. Esperei um pouco para eu ser atendida.

_Hm... Oi, Emma?

Ele estava com o cabelo bagunçado, com cara de sono e sem camisa. Eu deveria sentir atração pelo fato dele estar sem camisa, porém eu simplesmente senti... nada.

_Duncan, eu vim devolver as roupas que peguei emprestadas ontem.

_Você pegou roupa emprestada?

_Ãhn, sim. Eu caí na piscina, minhas roupas estavam molhadas e me vi obrigada a pegar essa blusa e essa calça. -Estendi as roupas para ele pegar.

_Entendi. -Murmurou ele.

_Então, até.

Assim que me virei para ir embora, senti ele pegar em meu pulso.

_Espera.

_O que é?

Ele me puxou para mais perto dele. Antes que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo, senti seus lábios se pressionarem contra os meus.

_O que pensa que está fazendo? -Eu empurrei seus ombros de modo que ele se afastasse.

_Te beijando, oras.

Eu o encarei, incrédula.

_Depois do jogo “verdade ou desafio” de ontem, fiquei curioso em saber como seria te beijar.

_Então você achou que poderia simplesmente me beijar agora?

_Sim. Não só acho, eu tenho certeza que posso.

Ele me pegou pela cintura. Eu automaticamente virei o rosto e me vi empurrando seu peitoral. Duncan é forte (e com certeza inconveniente), e tentava a todo custo me beijar. Quando achei que teria que partir para a agressividade, ouvi uma voz familiar.

_Hey! Solta ela!

Me virei abruptamente. Era Henry! Ele correu em nossas direções e me tirou das garras de Duncan.

_O que pensa que está fazendo? -Perguntou Henry.

_A gente ia se beijar, até você interromper o momento.

_Você queria isso Emma?

_Claro que não! -Respondi.

_Duncan, você precisa aprender a aceitar um “não”.

Duncan resmungou algo inaudível, então perguntou:

_O que vocês ainda estão fazendo em minha casa? Vão embora!

Henry atirou uma sacola nele e saiu. Eu fui junto. Caminhávamos lado a lado e eu não parava de pensar em como ele foi destemido em me ajudar.

_Obrigada. -Eu não sou muito de agradecer as pessoas, mas era o mínimo que eu poderia fazer por sua atitude.

_Tudo bem. Eu não poderia simplesmente ver ele fazendo aquilo e não fazer nada.

Na verdade, ele podia. Existem muitos covardes no mundo. Felizmente, Henry não era um deles.

_O que fazia antes de ir me ajudar?

_Na verdade, era minha intenção mesmo ir na casa dele. Tinha que devolver as roupas.

Me lembrei que ele jogara uma sacola em Duncan. Não consegui segurar a risada. É um tanto quanto cômico ver o geek da turma jogando algo no popular. Não é todo dia que se vê isso.

_Do que está rindo?

_Da sacola, você realmente jogou nele.

_Pois é, acho que foi automático. Quando vi, já tinha jogado.

Durante o caminho para nossas casas, acabamos conversando sobre coisas inesperadas que já fizemos. Descobri que Henry uma vez jogava bola com seus primos e quando foi chutá-la para o gol (que eram dois cones longes um do outro), acabou colocando força demais e a bola caiu na casa da vizinha, quebrando sua janela. E eu lhe contei da vez em que vendia perfumes com minha tia e assim que levava a maleta de amostras para o cliente, tropecei e derrubei todas as essências no chão. Demos risadas das histórias, uma melhor (ou seria pior?) que a outra! Fiquei grata por Henry estar comigo, me distraindo depois do desastre com Duncan. A última coisa que queria era pensar no beijo forçado. E lá estava ele, me divertindo, com histórias de sua vida e me fazendo compartilhar as minhas histórias também. Quando percebi, já estávamos na esquina de minha casa.

_Obrigada por me acompanhar até aqui.

_Disponha. Bom, já vou indo. Até segunda, Emma.

Ele chegou mais perto e me deu um abraço. Foi reconfortante. Eu não queria mais soltá-lo, porém sabia que abraços de cumprimento não devem ser tão prolongados e tive que me afastar depois de um breve momento. Não sabia explicar, mas algo no abraço dele faz com que eu me sinta melhor. É como se tudo ficasse bem quando estou em seus braços. Amigos se sentem assim, não é mesmo? Quando Bia me abraça para me consolar também sinto que vai ficar tudo bem. Deve ser isso. Será que Henry agora é meu amigo? Ou quase isso.

Chegando em casa percebi que John não estava mais lá. Finalmente poderia perguntar à minha mãe como estava andando as coisas entre eles. Encontrei Lucy sentada no sofá da sala, assistindo uma série de um médico sarcástico. Sentei-me ao seu lado.

_Mãe, sobre esse tal John, vocês estão juntos para valer?

Ela ficou um pouco pensativa.

_Sim, estamos juntos. Estou esperando ele me fazer uma proposta de namoro. Tornar isso oficial. Já faz um mês que isso está só entre a gente.

_Por que você não me disse nada antes?

_Eu não sabia se seria algo sério. Pretendia te contar quando eu tivesse uma aliança de prata em meu dedo.

Pensar na possibilidade de ter um padrasto era algo novo para mim. Eu nunca tive uma figura paterna em minha vida. Meu pai simplesmente sumiu quando minha mãe anunciou a gravidez. Foi um homem fraco, não conseguiu assumir a própria filha. Às vezes me pego pensando nisso. Todo dia dos pais na escola dos meus anos no ensino fundamental eram um tanto quanto tristes. Via as outras meninas levando seus cartões e desenhos aos pais e os abraçando, enquanto eu sempre entregava meus cartões e desenhos à minha mãe. Lembro de sempre escrever “Mãe, feliz dia dos pais”. Ela consegue ser uma mãe e pai ao mesmo tempo. Fico imaginando como foi difícil para ela me criar, sendo uma adolescente inexperiente. Ela me contara que chegou a onde está com muita dificuldade e força de vontade. Ela não é dona da empresa em que trabalha, mas tem um cargo importante na administração. Enquanto fazia mestrado, lembro de que minha querida avó Maria cuidava de mim. Mesmo não tendo um pai, sou feliz, porque Lucy consegue ser uma mãe incrível e determinada a me proporcionar essa felicidade. Por mais que não demonstre isso com tanta frequência, eu a amo. E não há nenhum pai no mundo que eu queira, eu já tenho ela e isso é tudo que eu preciso. Quando percebi, eu estava abraçando-a.

Passamos o final da tarde assistindo séries e paramos depois para fazer bolo de cenoura com cobertura de chocolate, o nosso favorito. Eu planejava ir na casa de Beatrice hoje perguntar quem jogara eu e Henry na piscina, porém posso descobrir isso segunda-feira. Vejo Bia com mais frequência do que vejo minha própria mãe. Então seria justo passar um tempo com Lucy esse final de semana. E assim foi.

Notas finais
O que acharam? Beijos ♥