Ironia do Destino
1 A dor que fortalece
Notas iniciais
Monteriggioni, Itália, 12 de fevereiro de 1998.
Bella se encontrava sentada no alta de uma colina, com o olhar perdido no horizonte, que irônico dar inicio a uma nova vida no mesmo dia em que para ela tudo acabou, pensava com rancor. Sentada ali com seus longos cabelos ao vento, cabelos cor de fogo, outra ironia, porque era exatamente assim que se sentia, queimando por dentro. Onze anos haviam se passado, dia no qual mudou o rumo da sua vida e traçou seu destino.
Inicio flash back...
Monteriggioni, Itália, 12 de Fevereiro de 1987.
Aos seis anos de idade, Bella brincava com sua boneca em cima da cama de seus pais quando ouviu gritos e um bater de portas. Correu para a porta, esta se abriu e sua mãe a agarrou pelos bracinhos, a puxou para um canto, colocando as mãos trêmulas em seu rosto e olhando-a nos olhos.
– Izabella meu bebê! A mamãe quer jogar com você, lembra que te ensinei a contar até mil? Pois então, vá para debaixo da cama, conte bem devagar e em silêncio e não saia de lá, nem faça barulho até terminar. – A mãe disse em lágrimas.
– Mas e quando eu terminar? – Bella desconfiava. – Por que está chorando mamãe?
– Vá! Não temos mais tempo! — Empurra-a para debaixo da cama e quando estava pronta para sair a porta foi escancarada pelo o que parecía ser homens muito grandes e vestidos com armaduras escuras. Bella tapava sua própria boca para não fazer nenhum barulho. Anos mais tarde ela descobriria que eram espectros. Escutando os gritos de sua mãe, queria ajudar mas ao mesmo tempo sentia muito medo, escutou um barulho de ossos rompendo-se e o corpo inerte de sua mãe foi jogado no chão. Escutou a voz do seu pai mas já era tarde estava perdida no olhar do corpo sem vida da mãe, que mesmo morta sorriam para ela, protegendo-a, Bella esticou o bracinho e puxou a mão de sua amada mãe, a apertou e chorou o que pareceu uma eternidade até sentir os dedos frios.
Bella foi encontrada pela polícia e levada para um orfanato onde passou seus próximo onze anos, ali conheceu Dona, Mia e Tenma, todos com a mesma idade.
Em classe quando perguntavam o que todos queriam ser quando crescessem Bella não pensava duas vezes.
– Serei uma guerreira e irei combater as forças do mal. – Alguns riam outros tinham medo devido a seriedade com que afirmava isso.
– Eu também serei um guerreiro e lutarei ao seu lado, eu prometo. — Tenma sempre a apoiava e estava ao seu lado.
– Então nós também seremos. – Diz Mia por ela e Dona que sorri em solidariedade.
Quando completou oito anos conheceu o Mestre Acchille, um Ex Cavaleiro que para criar sua família trabalhava no orfanato. Nas horas vagas, Acchille ensinava um grupo de meninos golpes de artes marciais, lutas corporais, etc. Bella juntos com seus amigos adoravam passar fim de tardes na companhia de dele. Todas aquelas histórias de batalhas sem fim, poderes que rasgavam o céus e chutes que abriam fendas na terra simplesmente os fascinavam. Acchille vendo o interesse deles se comprometeu a ensinar defesa pessoal e artes marciais para as quatro crianças, com o tempo eles se tornaram seus discípulos.
Um dos maiores centros de treinamento para Cavaleiros e Amazonas na Itália se localizava em um arquipélago de Ilhas na Sicília chamada Eólia. Bella estava determinada a ir para lá, era como se faltasse alguma coisa, não lhe bastava aprender os golpes, queria ser uma Amazona de verdade.
Quando completou 11 anos, sempre com a ambição de ser uma grande Amazona, Bella bolou um plano. Durante a missa de domingo, enquanto todos prestavam atenção nas palavras do Bispo, com a desculpa de ir ao banheiro saiu da Igreja e sem que ninguém a visse entrou na sacristia, roubou todo o dinheiro que estava em uma cestinha e fugiu para a cidade. Pediu carona no meio da rua até chegar a rodoviária, foi até a bilheteria e comprou uma passagem para o Sul da Itália e logo partiu de barco para Ilha de Eólia.
Chegando na Ilha, sem dinheiro e algum conhecimento sobre o lugar se viu sozinha sem saber onde ir ou o que fazer. Para piorar estava por se formar uma tempestade. Se escondeu debaixo de uma marquise, mas o vento soprava muito forte, conclusão ficou toda molhada, com medo, fome e frio, “vou morrer, esse será o meu fim” pensa desconsolada. Começou a correr debaixo da chuva em busca de outro lugar para se abrigar quando avistou umas caixas de papelão com lixo, jogou tudo fora e se meteu ali dentro. Tremia de frio, “mamãe me desculpe, não vou conseguir cumprir a promessa que te fiz, sou uma fraca, covarde” soluçava esperando o temporal passar ou a morte chegar.
Cynthia tentava se proteger da chuva que já havia virado seu guarda-chuva duas vezes até quebrar de vez, ela desistiu e correu para jogá-lo no lixo mais próximo, quando escutou um choro, “será que estou ouvindo coisas?” Abre a caixa de papelão e vê a menina toda encolhida dentro.
– Pelo amor de Deus você está bem? Pode me escutar? – Cynthia estava preocupada com o estado de saúde da menina. – Vem, eu te ajudo a sair. – Diz puxando Bella para fora, a abraça e as duas correm juntas para casa de Cynthia.
Salvas da tempestade, tomaram um banho quente, Cynthia emprestou um agasalho para Bella e estavam na sala tomando um chá quente.
– Então, vai me dizer como se chama? – Tentou mais uma vez.
– Izabella mas pode me chamar de Bella. – Responde timidamente.
– Por que estava escondida naquele lugar, onde fica sua casa, onde estão os seus pais? — Cynthia queria ajudar.
– Eu não me lembro de nada. – Mentiu Bella pois temia ser mandada de volta para a Toscana, já se encontrava ali e não perderia a oportunidade de permanecer.
A gratidão por Cynthia era infinita que além de salvar sua vida, lhe dera de comer e roupas limpas para vestir. Cynthia resolve acolher a garota até que a mesma recobrasse a memoria.
Três dias haviam se passado e Bella escutou Cynthia dizer que passaria pela arena para assistir ao treino de seu namorado.
– Posso ir com você? Se não for incomodar claro. – Bella pede quase implorando.
– Mas é claro, que descuido o meu, me desculpe, não deve aguentar mais ficar o dia todo em casa. – Cynthia pega na mão de Bella e a leva consigo.
Chegando na arena os olhos de Bella brilharam ao ver um Cavaleiro em combate, não havia ninguém que chegasse ao seus pés, nem mesmo seu Mestre Acchille. Dominava todos os oponentes com maestria, Bella estava deslumbrada, não tinha olhos para mais nada.
Após derrotar todos, ele veio na sua direção mas olhava para Cynthia, ele era o namorado dela. O então Cavaleiro de Prata de Acubens, estrela Alfa de Câncer com somente dezessete anos.
Passou por Bella ignorando-a completamente e agarrou Cynthia pela cintura puxando-a contra seu corpo mas ela não o beija.
– Máscara pare, estou com uma convidada e você está todo suado. – Brincava Cynthia.
– Ora e desde quando você se importa com o meu suor Cyn? – Olha maliciosamente para ela.
Bella sentiu seu coração parar, era ele, a sua metade, o homem feito para ela.
Cynthia apresentou Bella à Máscara da Morte, este a ignorou outra vez.
– Você sempre fazendo caridade por onde passa, deveria ser mais prudente, não sabe nem quem é essa aí! E não tenho idade para ser pai portando não me interessa. – Ele era a grosseria em pessoa mas mesmo assim Bella sabia que não conseguiria esquecer aquele rosto nunca mais.
Passado um mês, Bella decidiu contar a verdade e Cynthia entrou em contato com o orfanato em Monteriggioni.
Acchille foi a Sicília buscá-la. Era muito grato a Cynthia pela hospitalidade.
– Não sei o que teria acontecido se a Senhorita não houvesse aparecido. – Lhe agradeceu mais uma vez Acchille.
Bella a abraçou forte, haviam criado um grande vínculo apesar da diferença de idade.
– Promete vir me visitar? – Perguntou Cynthia.
– Está brincando? Mas é claro, você é a irmã que eu nunca tive. – As duas se despediram mais uma vez com lágrimas nos olhos.
– Bom se não se importam, vou passar antes de ir embora na arena para rever alguns amigos, se quiser ficar Bella posso passar mais tarde para te buscar. – Ofereceu Acchille.
– Eu vou com você! Já incomodei demais a Cyn. – Bella tentou disfarçar o entusiasmo.
Não perderia por nada nesse mundo a oportunidade de ver seu Cavaleiro pela ultima vez.
Enquanto Acchille conversava com seus amigos, Bella se aproximou de Máscara da Morte.
– Estou de partida. – Informa.
– Já era hora! – Ele disse sem se importar.
– Espere te ver em breve. – Bella acreditava naquilo.
– Hunf! Duvido muito! – E partiu sem olhar para trás.
Mesmo assim, Bella havia prometido a si mesma nunca mais esquecê-lo.
De volta a Monteriggioni, Acchille que apesar de desaprovar a atitude de Bella, admirava seu apetite pela luta, decidiu intensificar os treinos, junto com seus amigos.
– Levando em consideração sua vontade de aprender a arte de lutar ao ponto de cometer uma insanidade que quase te matou, tenho uma boa notícia. Fui autorizado a intensificar seus treinamentos com o objetivo de transformá-la em uma Amazona. – Dizia todo orgulhoso.
– Mas e nós? – Quis saber Dona.
– Mas é claro que isso vale para vocês também. E você menino, vou te treinar e mandá-lo para Atenas para lutar pela Armadura de Pégaso. – Tenma ficou sem fala, correu e pulou sobre as três que caíram no chão.
O Mestre sorria lembrando de quando era jovenzinho e cheio de sonhos.
– E a regra numero um começa agora. – Os três se viraram imediatamente. – Disciplina, disciplina e mais disciplina. Bella você está em punição pelo que fez, portanto está proibida de se afastar do vilarejo e será vigiada 24 horas por Tenma. Se ela tentar escapar mais uma vez devo ser comunicado imediatamente e medidas severas serão aplicadas. – Os dois olhavam assustados.
– Mas e Mia e Dona? Por que somente eu? – Tenma achou tudo aquilo injusto.
– Está questionando a minha decisão aspirante? – Ameaçou Acchille.
– Não, não, claro que não Mestre. Perdão! – Tenma só faltava chorar, Mia e Dona riram.
Mia havia notado algo de diferente em Bella.
– Então... vai abrir o jogo ou vou ter que arrancar a verdade a força?
Bella continuou com um sorriso no rosto. – Você não acreditaria.
Foi o que bastou para acender de vez a curiosidade de Mia.
– Você tem que aprender a respeitar a privacidade dos outros Mia. – Recriminava Dona.
– Não tudo bem. – Suspirou Bella. – Eu acho que preciso mesmo me abrir com alguém.
– Ora então o que está esperando, estou morrendo de curiosidade de saber o que aconteceu em Eólia. – Confessou Mia.
Bella abriu a boca mas parou pois Tenma havia acabado de chegar.
– Saia já daqui, isso é um assunto de mulher. – Mia tentou empurrá-lo de volta.
– E desde de quando mantemos segredos... e desde quando vocês são mulheres, ora não passam de crianças. Aiiiii! – Mia deu um puxão de cabelo em Tenma.
– Mais respeito comigo moleque.
– Baaaasta! Vocês querem ou não saber o que aconteceu? – Foi o suficiente para prender a atenção de Mia outra vez. – Bem… eu conheci uma pessoa. Um Cavaleiro de Prata, o nome dele é Máscara da Morte. – Suspira de olhos fechados.
– Aff, Deus me livre, não tinha um nome melhor? – Pregunta Mia.
– Nossa Bella, odeio admitir mas Mia tem razão. – Concorda Dona.
– Vocês não entendem, ele é o homem mais lindo que tive a oportunidade de conhecer. – Tenma não gosta nada do comentário.
– Diz isso porque você nunca conheceu um. – Resmunga Tenma.
– Ahhh cale a boca, você o beijou? – Mia foi direto ao ponto.
– Eu estou indo embora, tchau! – Tenma sai dali antes que seu estômago desse voltas.
– Tenmaaaa! – Tenta chamar Bella em vão.
– Esquece ele Bella e conta tudo. – Mia sempre muito prática.
– Não é nada disso meninas, lamento decepcioná-las. Ele mal me notou, mas eu estou completamente... fascinada. Ele é tudo o que sonhei, parece até que foi feito sob medida para mim. Apesar da grosseria, ahhh não me olhe assim, é normal que se comporte assim afinal ele é um Cavaleiro. – Sonha acordada.
– Você está maravilhada com a posição dele isso sim! – Dona julga.
– Nossa Dona, isso foi a coisa mais agressiva que disse desde que te conheci. O que foi? Nããããão me olhe assim, eu estava brincando, sabemos que você é incapaz de falar mal de alguém. – Mia abraça a amiga.
– E foi isso, me apaixonei pelo namorado da garota que salvou a minha vida. E não consigo me imaginar em um futuro distante com alguém que não seja ele ao meu lado.
– Trágico! – Mia conclui. – É pior do que pensava, mas quem sabe daqui uns anos quando você for uma Amazona ele não passe a olhar para você. – Mia tenta lhe dar uma esperança.
– Mas e se ele se casar com ela? – Teme Dona.
– Creeedo Dona sai para lá! Isso não vai acontecer, pelo o que a Bella contou eles são muito diferentes, em outras palavras o relacionamento deles não tem futuro. – Mia tirou sua conclusão.
Bella estava ficando com dor de cabeça depois de tantas alternativas. – Provavelmente nem nos veremos mais.
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Cinco anos depois…
Bella com então dezesseis anos, é levada para a Ilha Eólia para lutar pela Armadura de Prata de Altarf, estrela beta de câncer.
Ela não via a hora de reencontrar seu Cavaleiro. A batalha pela Armadura foi intensa, deixando-a muito machucada mas no final saiu vencedora. Não podia acreditar, finalmente era uma Amazona de verdade. Vestiu a Armadura que pertencia a sua Constelação protetora mas faltava algo, não conseguia localizar seu Cavaleiro, “onde ele pode ter se metido”. Sendo assim, depois de ser medicada, voltou para casa feliz pela vitória mas com um buraco no peito pela desilusão de não saber o paradeiro do Cavaleiro de Acubens .
Acchille entrou na arena, procurava por Tenma.
– Tenho notícias rapaz, parece que a sua vez chegou. Vai para o Santuário na Grécia lutar pela Armadura de Bronze de Pégaso. – Tenma engole seco, não poderia decepcionar o Mestre.
– Que cara é essa Tenma, você vai conseguir. – Dona tenta anima-lo.
– É isso ai, vou conseguir. – Ele tentando mostrar corangem.
Tenma vence e se torna o mais novo Cavaleiro de Pégaso. O Santuário havia sofrido muitas perdas nos últimos anos, principalmente após a ultima Guerra Santa contra Hades e por esse motivo, vendo as habilidades de Tenma o Grande Mestre Saga decide deixá-lo no Santuário.
Um ano depois...
Dona recebeu a Armadura de Bronze de Algedi a Estrela Alfa de Capricórnio e Mia recebe a Armadura de Bronze de Régulus a Estrela Alfa de Leão.
No mesmo ano Acchille deu a notícia a suas meninas.
– É meninas, chegou o momento de libertá-las, todas vocês foram convocadas à permanecer definitivamente no Santuário em Atenas na Grécia. – Elas não podiam conter os gritos de alegria, queriam muito aquilo, iriam reencontrar Tenma, começariam uma nova vida!
... Fim do flash back.
Bella se levantou da colina onde se encontrava perdida em suas lembranças, pegou sua mochila, olhou mais uma vez aquela que tinha sido a sua terra por dezessete anos. Respirou fundo e partiu deixando tudo para trás, virando uma nova página do livro da vida em branco, do qual esperava poder preencher com uma história melhor.
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