Iron Woman - Natasha Stark
6 O preço da liberdade
Base dos dez anéis – Afeganistão
Natasha optou por um coque baixo quando o rabo de cavalo começou a irritá-la. Camiseta preta, casaco e calças militares também. Yinsen alargou a gravata no pescoço e as mangas da camisa branca viviam arregaçadas nos braços. Os dias corriam da mesma forma que eles construíam peça por peça daquela armadura, mas antes disso Yinsen depositou o dispositivo luminoso no peito de Stark, ambos torcendo para que não houvesse rejeição.
Nascia ali o início de tudo, uma mulher com um dispositivo poderoso pronta para dar vida a sua mais nova invenção, que só precisava ser construída. A luz azul clara intensa do mini reator não passou despercebida pelos monitores daqueles que os observavam. A imagem do objeto luminoso chamou a atenção de Wong Chu e acendeu um alerta.
Um dos poucos tempos livres que tinham, eles tinham um jogo de tabuleiro com dados e porcas de parafusos. Natasha jogou um dado e moveu algumas peças, impressionando Yinsen. O som dos dados batendo no tabuleiro de madeira e da movimentação das pecinhas era quase um bálsamo, em meio aquela rotina de forjas e mecânica.
— Haha, boa jogada. — Comenta Yinsen.
— Obrigada. — Sorriu um pouco convencida.
— Eu costumava jogar esse jogo com meus filhos na minha cidade natal.
— Gulmira, não é?
— Sim. É um lugar muito bonito. Pelo menos antes da chegada dos Dez Anéis. Um dos primeiros lugares no oriente médio que eles tentaram saquear.
— Sente falta da sua família?
— Sim, mas eu os verei quando sair daqui. Tenho certeza. — Faz uma breve pausa olhando para o tabuleiro e depois de volta para a morena. — E você, Stark?
A pergunta atingiu a mulher com a intensidade de mil socos. Talvez ela só tenha se dado conta de sua solidão quando se trata de família naquele momento. Por breves segundos sua mente vagava sem querer, como um fantasma por memórias de infância e adolescência com os pais ainda vivos. Após o acidente passou a depender de si mesma, obviamente tutelada por Obadiah Stane até os 21 anos, mas depois suas únicas companhias além dele foram seus funcionários.
— Não…
A resposta seca de Natasha deixou Yinsen pensativo. Uma mulher que tinha tudo o que o dinheiro podia comprar, porém sem o que mantém um ser humano cheio de vida. Na visão dele.
O local virou um amontoado de objetos, sucata e materiais. Natasha fazendo o que fazia de melhor: Soldar, criar, recriar e moldar. A armadura estava quase pronta, várias peças foram criadas dentro de poucos dias. Peças de metal retorcido se amontoavam no canto esquerdo, restos de mísseis desmontados, cascos de ogivas, placas de alumínio arrancadas de geradores e veículos abandonados. Fios elétricos de diferentes bitolas se espalhavam pela bancada como veias expostas, alguns ainda grudados a conectores enferrujados que Natasha não tivera tempo de remover. O chão de terra batida estava coberto por fragmentos de metal, parafusos, anilhas, e marcas de solda. No canto direito, uma pilha de sucata mais organizada: placas de aço, algumas curvas, outras retas
O maçarico de butano estava apoiado na borda da mesa, a chama ainda acesa, o som constante do gás queimando preenchendo o espaço. Ao lado, o multímetro trincado, a agulha ainda dançando entre medições. A fita isolante, agora quase toda gasta, enrolada em um pedaço de metal que servia de suporte.
No centro de tudo, Natasha. Ela estava de pé diante da bancada, debruçada sobre as peças que se espalhavam à sua frente. O macacão de trabalho cinza estava manchado de graxa, suor e fuligem. O cabelo castanho continuava bem preso e seus olhos devidamente protegidos por um óculos de proteção. Yinsen auxiliava perfeitamente nas partes mais pesadas de todo aquele trabalho. Natasha odiava ver aquele homem magrinho de meia idade tendo que empregar tanta força nos músculos e também ajudava martelando algumas peças.
Natasha estava terminando de soldar a penúltima peça quando ouviu um dos homens de Wong Chu gritar algo através de uma pequena abertura na porta. Ela desligou a solda ao ouvir e em seguida a tranca da porta virou se e a porta pesada de metal foi aberta com um rangido característico. Natasha e Yinsen olharam apreensivos na direção da porta. Natasha levantou-se da cadeira e Yinsen queria muito ir para o lado dela assim que Wong Chu e seus homens armados entraram no local, mas acabou ficando do lado oposto ao dela.
Os reféns se levantaram com as mãos pra cima enquanto os terroristas se espalhavam pelo local. Wong Chu surgiu entre eles, mostrando porque era o líder. Olhando a sala inteira, Yinsen e depois foi até Stark, que estava com as mãos juntas no alto da cabeça. Yinsen travou o maxilar, os músculos de Natasha ficavam retesados, o coração disparava, mas o olhar dela era de puro desprezo.
Wong Chu apenas olhava para a fonte luminosa no peito de Stark, mas apenas o fato dele se aproximar lentamente deixava Natasha em profundo pânico, cada vez mais difícil de esconder, mas precisava ser uma rocha naquele momento.
— Relaxe, senhorita Stark. Somos terroristas, mas não iguais aos homens do seu país. — Dizia Wong Chu olhando para ela, depois para o reator arc, fascinado. — O arco e flecha outrora foi o auge da tecnologia do armamento. Permitiu ao grande Gengis Khan dominar do pacífico à Ucrânia.
Wong se afasta e analisa as carcaças de mísseis em cima da mesa.
— Um império, que era o dobro do de Alexandre, o Grande. E quatro vezes o Império Romano.
O terrorista anda agora até a mesa onde estava um monte de papéis com esquemas e os toma para analisar.
— Mas nos tempos atuais, o poder estará nas mãos de quem possuir as mais modernas armas Stark. O topo do lobby armamentista. E agora será a minha vez e de meus homens conquistarem todos os territórios possíveis.
Wong Chu encarou Natasha novamente. A mulher sempre com o mesmo olhar de raiva e desprezo. A vontade de explodir ele e seus comparsas apenas crescia dentro dela, mas como queria ter poder pra isso. O líder terrorista falava com Yinsen em uma língua diferente. Parecia desapontado com ele. E por mais que Yinsen se explicasse não era o suficiente para evitar que Wong Chu ordenasse seus homens a botá-lo de joelhos. Para Stark aquilo não precisava de tradução.
A respiração de Natasha se tornava mais ofegante e seus olhos assustados ao ver eles deitando a cabeça de Yinsen numa base e Wong Chu pegar uma brasa ardente, soltando vapor, com o alicate e aproximar do homem.
— Abra a boca.
— Para… — Natasha quase entra em desespero. Os olhos úmidos. — O que ele quer?
Os terroristas forçavam Yinsen a falar.
— O que estão tramando? — Wong Chu pergunta segurando o alicate com a brasa.
— Ele está construindo o Jericho. — Yinsen dizia tenso.
Os ânimos aumentavam, o homem gritava e Natasha não se segurou.
— O que quer? é uma data de entrega?
Os terroristas a impedia, levantando as armas e a palma da mão. Todos congelaram.
— Deixem ele aqui comigo. É um ótimo ajudante.
Wong Chu recolheu-se e soltaram Yinsen. Quando a bola incandescente caiu sobre a superfície fria de ferro, Yinsen e Natasha sentiram um imenso alívio.
— Vocês têm até amanhã para montar o meu míssil.
Wong chu jogou o alicate no chão e saiu com seus homens. Natasha os seguiu com os olhos raivosos, depois foi até Yinsen.
— Professor, como está? — Ela chega perto e toca seu ombro.
— Tudo bem, Stark. O pior já passou.
— Falta só uma peça para a armadura ficar pronta. E ainda hoje vamos forjá-la.
…
Pepper e Lars caminhavam pelo corredor que levava ao laboratório privado de Natasha, um túnel de vidro e aço suspenso sobre o vazio do átrio central da Torre Stark. O piso de vidro temperado deixava ver os andares inferiores, as pessoas minúsculas circulando como formigas em um formigueiro de mármore e tecnologia.
Pepper vinha à frente, os passos firmes no vidro transparente. O terno azul-marinho estava impecável, mas os olhos estavam cansados. A mão direita, apertando o BlackBerry com força, traía o que o resto do corpo se recusava a mostrar.
Lars Von Kaiser caminhava ao seu lado, um passo atrás. Respeitava o território, mas não se curvava. A luz da manhã entrava pelas paredes de vidro, criando padrões geométricos no chão. O som criado pelos saltos de Pepper e os sapatos de Lars ecoando no silêncio do corredor vazio, exceto por eles dois.
— Você não vai encontrar o que procura. — A fala firme da ruiva, sem olhar para ele.
— Você nem sabe o que eu procuro.
— Sei que não é o que você diz que é.
Lars não respondeu imediatamente. Apenas continuou caminhando. As mãos nos bolsos do terno preto, os olhos claros percorrendo o corredor com calma e avaliando, discretamente.
Pepper parou diante de uma porta de aço escovado. Uma placa discreta ao lado: Laboratório – Acesso Restrito.
Ela colocou a mão sobre o leitor biométrico. A luz verde piscou. A porta deslizou para o lado com um chiado hidráulico.
— Três minutos. — Advertiu Pepper.
— É o que você pode me dar? — Questiona Lars.
— É o que eu posso dar a você.
Potts entra primeiro no laboratório amplo, de pé direito duplo, iluminado por painéis de luz fria no teto. As paredes eram de vidro e aço transparentes. No centro, a bancada principal, coberta por ferramentas, componentes eletrônicos e um protótipo de reator arc em estágio inicial.
Obadiah Stane, com seu típico terno cinza e sorriso largo, estava sentado em uma das cadeiras giratórias, os braços cruzados, observando a entrada deles com uma expressão de quem já sabia que estavam chegando.
Pepper parou assim que o viu. Franzindo o cenho.
— Obadiah? O que está fazendo aqui?
— Esperando você. — O sorrisinho que Potts estava farto de ver. — E o nosso amigo alemão. — Estende o braço na direção do loiro rapidamente.
Lars entrou atrás de Pepper. Seus olhos percorreram o laboratório não com admiração, mas com avaliação.
— Sr. Stane. — Ele o cumprimenta.
— Lars. Que bom que veio.
Pepper olhou de um para o outro de braços cruzados. O estômago se contraiu.
— Vocês dois estão trabalhando juntos.
— Estamos. — Obadiah levanta-se — Natasha não está aqui. Alguém precisa tomar as rédeas.
— Alguém? Ou você? — Questiona Pepper.
O sorriso de Obadiah não vacilou. Mas os olhos endureceram.
— Pepper Potts… — O mais velho fez uma pausa, andando um pouco para frente. — Natasha realmente sabe escolher bem seus funcionários. A senhorita Potts é incrivelmente competente e dedicada. Mas às vezes exagera um pouco no zelo.
— Sim, eu percebi e confesso que dei motivos para isso. Mas acredite, eu estou mesmo preocupado com a sua chefe. Por isso estou disposto a usar meus recursos para encontrarmos ela. — Lars tenta convencer Pepper. Dava um passo à frente. — Srta. Potts, sei que não confia em mim. Mas confio que você quer encontrá-la. E eu tenho informações que podem ajudar."
— Que informações?
— Sua localização e quem a capturou.
O silêncio se alongou, a ruiva entreabriu um pouco a boca. Pepper sentiu o peso das palavras dele; uma oferta que parecia genuína, mas que carregava um preço que ela ainda não conseguia ver.
— E você espera que eu confie em você?
— Não. Espero que você use o que sei para encontrá-la. Depois, você decide se confia em mim.
— Bem, vamos trabalhar juntos, Potts. — Obadiah tentava não demonstrar ansiedade. Estava de braços cruzados e um fraco sorriso. — Pelo bem da empresa e pelo bem dela.
Pepper olhou para Obadiah, depois para Lars. O silêncio no laboratório era mais ensurdecedor que o barulho que fazia quando Natasha trabalhava pesado lá.
Heliponto da Mansão Stark.
O helicóptero militar pousou no heliporto da Mansão Stark com um estrondo que fez as janelas dos andares superiores tremerem. O rotor ainda girava quando James Rhodes pulou da cabine, o uniforme azul da Força Aérea ainda manchado de poeira do deserto. Ele não esperou o piloto desligar o motor. Apenas saiu andando rápido, o rosto tenso, os olhos fixos na porta de acesso ao edifício. Happy Hogan estava esperando na entrada com os braços cruzados.
— Rhodes. — Happy cumprimenta.
— Happy. — O militar responde.
Começaram a caminhar lado a lado em direção ao elevador calados até Happy quebrar o silêncio.
— Pepper está no laboratório. Com Obadiah. E Lars Von Kaiser."
— Lars Von Kaiser? O alemão? — Rhodes parou.
— O mesmo. — Responde Happy
Rhodes não disse nada. Mas o maxilar se contraiu.
— Ela sabe que ele estava no evento. Com Natasha.
— Ela sabe.
— E ainda assim deixou ele entrar? — Rhodes olha para Happy.
— Ela não deixou. Ele entrou. Com Obadiah.
— Vamos até lá. — Disse Rhodes após respirar fundo e apertar o queixo.
Int. Corredor do Laboratório – Mansão Stark.
Rhodes entrou no corredor de vidro e aço com passos largos. Happy estava atrás, mantendo a distância, mas pronto para intervir. Quando Rhodes chegou à porta do laboratório, encontrou Pepper no corredor, os braços cruzados e o rosto pálido.
— Pepper. — Rhodes chamou por ela.
Ela levantou os olhos e sentiu um alívio imenso pela primeira vez em dias.
— Rhodes. Você veio. — Desceu os ombros.
— Eu disse que viria.
Ele olhou para a porta do laboratório, onde Obadiah e Lars ainda estavam lá, de pé conversando.
— O que eles estão fazendo aqui?
— Obadiah está... tomando as rédeas. Lars diz que tem informações sobre o sequestro. — Pepper relata tudo a Rhodes.
— E você acredita?
— Não. Mas não posso ignorar.
— Você está bem? — Pergunta Rhodes depois de olhar para ela por um longo momento.
— Eu estou funcionando. É diferente.
Rhodes assentiu. Um gesto pequeno, de quem entendia.
— Confie em mim, Pepper.
— O que vai fazer?
— Não se preocupe.
Rhodes se virou para a porta. Pepper não o seguiu.
…
Natasha era movida à ódio e vingança batendo forte aquele martelo contra a peça de metal que moldava. Os treinos de musculação valeram à pena. Cada martelada sonora imaginava cada um daqueles terroristas trucidados. Naquela hora agradecia por ter equipamentos de musculação em casa, que vinham preparando seu corpo para um destino que nem imaginava chegar.
Yinsen estava fazendo alguns cálculos e mexendo com alguns fios, sentado e debruçado sobre a mesa de rocha quando o som do impacto do objeto metálico que Stark depositou na mesa, bem na sua frente, chamou sua atenção. O objeto metálico tinha duas aberturas largas para os olhos e três buracos na altura da boca e nariz.
Inicialmente Natasha enrolou faixas brancas em suas mãos, preparando-se para vestir aquele traje. Yinsen a vestiu com um casaco de manga comprida e depois ela pôs luvas grossas de borracha. Mesmo após tudo o que fez em laboratórios do MIT e no próprio em casa, nunca imaginou viver algo assim. Fazer algo assim.
Yinsen colocou uma proteção para seu pescoço, depois ajustou o peitoral e tronco da armadura. O buraco no meio do peito iluminando se com o reator arc.
— Consegue se mover? — Yinsen era cuidadoso.
— Aham…
Agora faltavam outros ajustes.
— 41 passos à frente. 16 passos à partir da porta, à direita. 33 passos vire à direita. — Ela dava algumas instruções a Yinsen.
Wong Chu olhava os monitores de segurança e imediatamente soou o alerta na cabeça dele.
— Onde está a Stark?
— Estava aqui agora a pouco. — Respondia um de seus capangas.
— Vá procurá-lo. — Ordena Wong Chu.
Os soldados imediatamente correm enquanto o chefe observa ferozmente Ho Yinsen pela tela. Eles passam pelo corredor, um deles abre a janelinha e grita por Yinsen e Stark.
— Responde algo pra ele. — Disse Natasha.
— Ele tá falando em húngaro, eu não sei húngaro.
— Tenta outra língua.
— Ah, tá bom… — Yinsen esquentava a cabeça pensando em como responder. Por fim respondeu em outra língua que Natasha não entendia.
Os dois terroristas por fim tentaram arrombar a porta, mas uma explosão, causada por uma bomba colada na porta os arremessou longe, tirando-os da jogada. Na mesma hora o monitor correspondente ao local da explosão mudou a imagem para o cinza granulado e com chiado. Wong Chu se enfureceu de vez e ordenou seus homens a massacrarem os prisioneiros.
— Funcionou, Yinsen? — Natasha pergunta aflita. Não só pelo plano, mas também temia por ele.
— Meu Deus… — Yinsen — Deu resultado sim. Agora deixe-me terminar isso…
— Não, não, melhor iniciar a sequência de energização.
— Tá bom.
Yinsen corre para o computador.
— Me diz. — Yinsen pede instruções.
— Aperta F1. Me avise quando ver uma barra de progresso. — Natasha dá o comando.
— Sim acabei de ver — A barra surgiu no monitor, iniciando o processo assim que teclou.
— Boa, agora pressiona Control I e depois Enter.
Yinsen acatava aos comandos, apertando os botões e o coração quase saindo pela boca.
— Feito.
— Agora coloca a armadura em mim.
Os homens de Wong Chu corriam contra o tempo por aquelas passagens naquela caverna, armados até os dentes. Yinsen e Stark conseguiam os ouvir cada vez mais à medida que se aproximavam. Os corações deles disparavam.
— Aperte os parafusos.
— Estão vindo… — Yinsen alternativa entre olhar para a porta dilacerada pela bomba, por onde aqueles homens vão entrar atacando com tudo e no trabalho de montar a armadura em Natasha.
— É só apertar. Estamos quase lá. — Natasha estava tão nervosa quanto Yinsen, mas tentava não demonstrar muito.
Os barulhos deles se aproximando aumentavam. Yinsen analisava a situação e pensou rápido. Pensou com peso.
— Se esconde e só me segue se estiver seguro ok? — Natasha aconselha Yinsen com um aperto no peito crescente, vendo o desespero dele.
— Precisamos de mais tempo. — Yinsen disse estático, pensativo. A voz dele assustou Natasha.
— Stark… — O homem virou-se para a mulher, dentro da armadura. — Eu vou ganhar mais tempo.
— O que? não, pera… — Natasha aumenta o tom de voz tendo a certeza do que não gostaria de ver. — continue com o plano… o plano, Professor…
Yinsen dava uma última olhada para Stark, através de seus óculos de armação redonda antes de correr para a porta e pegar o rifle de um dos soldados mortos e disparar a esmo para fora. O desespero de alguém disposto a arriscar tudo por segundos preciosos.
— YINSEEEEEN… — Natasha grita desesperada. — NÃAAAOOOO… — Os olhos dela já sentindo a ardência inicial antes de começarem a marejar. Ela olhava para o monitor do computador tensa, vendo a barrinha chegar a metade.
Yinsen corria como louco disparando o rifle contra os dois terroristas que iam entrar até chegar ao fatídico ponto onde vários dos homens de Wong Chu, incluindo o próprio, o aguardavam próximos da entrada da caverna empunhando suas armas. Enquanto isso a barra de progresso chegava ao fim, assim como as luzes do laboratório improvisado. Mas algo novo surge, e seu ruído tecnológico e passos indicam força absoluta.
…
Rhodes entrou no laboratório como quem entra em uma sala de guerra. Os olhos percorreram o espaço com a precisão de quem já aprendeu a identificar ameaças antes que elas se revelassem. Obadiah Stane estava sentado à bancada, com os dedos tamborilando sobre o metal. Lars Von Kaiser estava perto da janela. Os olhos verdes fixos no horizonte. O silêncio entre eles era denso, cortado apenas pelo zumbido baixo dos equipamentos.
— Rhodes. Que surpresa. Não esperava você tão cedo. — Levantou-se com um sorriso amarelo.
— Obadiah e Lars. — Rhodes estava sério, porém cordial ao máximo que podia.
Ele parou no centro da sala de braços cruzados e a postura de quem não está ali para negociar.
— Ouvi dizer que vocês estão planejando uma operação de resgate. É verdade?
— Vim oferecer recursos. — O alemão virou se lentamente.
— E para isso presumo que necessite do acesso ao laboratório, não?
— Sim. É muito importante para o meu trabalho, Coronel. — Lars manteve a altivez.
— Então me diz uma coisa, Von Kaiser. Que recursos exatamente você tem que o governo dos Estados Unidos não tem?
Quando ele mencionou o governo, Lars sentiu um imenso frio na espinha e seu maxilar travou, mas após alguns segundos respondeu.
— Contatos. Rotas. Informações que não estão em nenhum banco de dados oficial.
— E você está disposto a compartilhar isso conosco?
— Estou.
— Sem querer nada em troca?
Lars precisou de apenas alguns segundos para elaborar uma resposta.
— Natasha Stark sã e salva. — Fez uma pausa. — E presumo eu que é o mesmo que o senhor queira, não é coronel? — Pôs as mãos para trás e balançou a cabeça pra baixo e pra cima lentamente, olhando nos olhos de Rhodes.
Foi a vez de Rhodes o encarar em silêncio. Não queria admitir, mas ficou impressionado com a desenvoltura de Lars em lidar com aquela pressão.
— Sim, tem razão senhor Kaiser. Todos nós aqui queremos Stark de volta, mas… — Fez uma breve pausa, comprimindo os lábios e olhando pra baixo rapidamente e depois para o alemão. — Creio que com a minha ajuda esse trabalho poderá ser feito com mais precisão e dentro da lei.
— Coronel, com todo o respeito, mas Natasha está naquele fim de mundo a mais tempo do que deveria e até o momento as forças armadas americanas não obtiveram êxito. Quando o governo não é suficiente a iniciativa privada deve entrar em ação e provar o quanto é mais eficiente.
— Ele tem razão, Rhodes. Deixe Kaiser fazer o trabalho dele de nos ajudar a achar Natasha. — Obadiah interviu. — Rhodes, eu entendo sua desconfiança. Mas estamos todos do mesmo lado. Queremos encontrá-la.
Rhodes observava os dois. Eram dois lobos perigosos, famintos por poder, prestígio e sem se importar em passar por cima de quem quer que fosse.
— Senhores, devo lembrá-los de que o governo americano já sabe de tudo. Vocês acham que eu sou o único olho do Pentágono sobre a Stark Industries? — Ele deu um passo à frente. — A Stark Industries é uma empresa de defesa. Contratos militares. Informações classificadas. Acesso a tecnologia que o governo considera estratégica.
Obadiah e Lars voltaram-se para Rhodes arrepiados da cabeça aos pés. Sorrisos desapareceram, a pose de Lars foi murchando aos poucos.
— Quando a CEO de uma empresa desse porte está indisponível, os protocolos de segurança se intensificam. — Rhodes continua. — Auditores, investigações, relatórios. Tudo é registrado.
Obadiah ficou mudo. Lars estreitou um pouco os olhos, odiando ser confrontado.
— Se você tentar tomar o controle da empresa enquanto Natasha está fora, isso levanta bandeiras vermelhas. Não porque alguém esteja te acusando de algo, mas porque é o que a lei exige.
Obadiah manteve o rosto neutro.
— Por acaso Natasha tem tanto poder político assim para isso? — Questionou Lars, incomodado
— Alianças estratégicas, herança e posição corporativa, Lars. — Responde Rhodes — Continuando… se o governo começar a investigar cada transação, cada reunião, cada plano que você está fazendo... você está pronto para isso? Tem bons advogados?
Rhodes conseguiu fazer um imponente, e insuportável, Obadiah perder a compostura em uma fração de segundos. O sorriso se dissolveu.
— Rhodes, isso é...
— É a lei, Obadiah. Não é pessoal. — Rhodes meneia a cabeça positivamente de forma lenta. Um movimento só.
Rhodes virou-se para Lars.
E você, Lars. — Rhodes se virou para Lars com gosto, contendo um sorriso de canto, pois precisava ser firme. — Cidadão alemão. Empresário. Quer acesso a tecnologia de defesa americana.
Lars não desviou o olhar. Mas o engolir de saliva, micro gesto captado por Rhodes, não passou despercebido.
— Você sabe o que acontece quando um cidadão estrangeiro tenta acessar informações classificadas sem autorização? — Pausa — O governo americano pode prender. Confiscar. Pedir extradição. Não porque alguém esteja te acusando de espionagem, mas porque as leis de segurança nacional não diferenciam entre 'curiosidade' e 'ameaça'. O senhor está disposto a correr esse risco?
Lars não respondeu. O homem congelou.
— Se você não está fazendo nada de errado, não tem nada a temer. Mas se está… — Ele não terminou a frase, não precisava.
Rhodes caminhou até a bancada, deixando aqueles homens engolindo em seco. Pegou o caderno de capa preta com os esboços de Natasha, deixados ali antes do sequestro. Não ousou folheá-lo.
— Vou encontrar Natasha com os meios legais. Vou trazê-la de volta. E quando ela voltar, vocês vão responder a ela.
Ele colocou o caderno sobre a mesa. Sabia que havia câmeras de segurança no local e que caso um deles ousasse tocar o caderno seria o fim deles.
— Até lá... tomem cuidado com as decisões de vocês. A lei não dorme.
Ele se virou e caminhou em direção à porta, mas parou antes de sair.
— E, Lars?
Lars olhou. O alemão estava furioso por dentro, mas controlado.
— Se eu descobrir que você está tentando acessar o laboratório dela, ou qualquer informação confidencial, não vou te acusar de espionagem. Vou simplesmente deixar o governo fazer o trabalho deles.
Rhodes ia deixar o local, mas a voz de Kaiser rompeu o silêncio e invadiu seus ouvidos como um exército em uma cidade.
— É uma pena que o governo americano não confie em alguém como eu para ajudar a resgatar Natasha Stark. — Faz uma pausa e em seguida continua com a voz um pouco mais baixa e soturna. — Vocês todos podem sair perdendo.
Aquilo arrepiou Rhodes até a alma, mas não abandonou a postura militar altiva ao andar. Lars deu um sorriso de canto. Diabólico. Rhodes Deixou o local sabendo que não havia mais nada que aqueles dois poderiam fazer. O laboratório ficou em silêncio. Obadiah olhou para Lars.
— Quero morrer seu amigo.
— É melhor mesmo. — A voz quase inaudível. O sotaque alemão marcado.
Int. Corredor – Stark Industries
Pepper aguardava de braços cruzados enquanto estava no corredor quando Rhodes saiu. O olhou aflita, torcendo por soluções.
— Eles não vão conseguir o que querem. — Afirmou.
— Eles não vão desistir. — Pepper alertou.
— Nós também não. Agora precisamos encontrá-la e eu vou trazê-la de volta. E quando ela voltar muita coisa vai mudar por aqui. Pepper assentiu esperançosa. Rhodes estava em estado de alerta, mas não deixou transparecer a preocupação para a ruiva.
…
Alguns terroristas correram até a entrada do laboratório/oficina improvisado, onde haviam dois dos seus caídos no chão e um rifle a menos. Aos poucos foram avançando mais, achando que não havia ninguém mais lá, os objetos todos no mesmo lugar. Mísseis na mesa e o computador em outra. De repente uma luz incidiu sobre um dos terroristas, que logo virou-se para trás, dando de cara com um gigante de ferro que com um simples movimento o empurrou para trás, ainda disparando o rifle.
Outros três terroristas dispararam com tudo à esmo contra o laboratório. Sem sucesso. A criatura pegou um por um, os jogando longe ou empurrando forte. As armas eram inúteis. Um deles tomou um soco que o derrubou. A criatura de ferro seguiu caminhando imponente, derrubando mais e mais soldados enquanto outros corriam e fugiam. Um clima de terror satisfatório se instaurou no local. Os olhos de Natasha, por dentro do capacete pareciam dar um ar maior de terror.
Um grupo correu até uma porta grossa de metal e parte deles conseguiu entrar menos um, que bateu desesperado e gritando para entrar enquanto via o monstro metálico se aproximar. O desespero daquele homem nem se comparava com o todo o desespero que Natasha sentiu desde o instante da primeira explosão no humvee militar no deserto até o presente momento.
Os homens do outro lado da porta apontavam seus rifles na direção da mesma ouvindo os gritos e batidas do homem até um impacto final forte que silenciou tudo. Terror total. De repente mais batidas fortes contra a porta, os rifles apontados desesperadamente contra, e por fim a tranca não foi o suficiente para conter e a mulher de ferro a abriu com as mãos violentamente, avançando em seguida.
Um deles tentou atirar contra o capacete, mas a bala ricocheteou de volta para a cabeça dele.
Wong Chu estava enfurecido, mas contido e isso se via no seu caminhar. A jaqueta verde-oliva manchada de poeira e sangue seco. As mãos estavam abertas, os dedos ainda quentes pela empunhadura da arma. Os planos deram incrivelmente errado, não esperava que uma mulher pudesse acabar com eles. O homem andava de um lado para o outro diante de um morimbundo Ho Yinsen caído no chão, perfurado por balas. Yinsen estava caído de lado, os braços estendidos, o peito perfurado. A camisa puída estava encharcada de sangue, um vermelho escuro que se espalhava lentamente, como uma mancha de tinta em um lençol branco. Os óculos haviam caído a alguns centímetros de sua mão, uma das lentes trincada.
Os capangas que foram ordenados a atirar no professor haviam sido mobilizados para entrar na caverna, mas todos foram mortos por Natasha.
Wong Chu parou e olhou para Yinsen.
— Você a ajudou. — Disse com a voz baixa, quase para si mesmo.
Ho Yinsen não respondeu.
Wong Chu deu um passo à frente. O coturno rangeu no chão de terra.
— Ela não vai durar. A armadura é feita de sucata. Os mísseis estão todos destruídos. Ela está sozinha no deserto.
— Natasha Stark nunca estará sozinha. — Ho Yinsen moveu a cabeça, um movimento lento, doloroso.
Wong Chu franziu a testa. O som de passos metálicos. Pesados. Rítmicos. O som de uma armadura se movendo. Quando o líder terrorista ergueu a cabeça avistou a mulher trajada com sua armadura de sucata reluzindo sob a luz fraca das lâmpadas, as peças rangendo, a visão ainda limitada pela fenda estreita no capacete. Assim que chegou deu de cara com a cena e congelou por instantes. Raiva e tristeza misturando-se.
— YINSEN! — Grita Natasha.
— Ele tá armado, cuidado. — Yinsen usou um pouco de suas últimas forças para alertá-la.
Natasha é recebida com um tiro mais potente do que os que havia recebido dos demais terroristas. Parecia uma bazuca. Conseguiu desviar o suficiente, pensando rápido, mas partes das rochas destruídas a atingiram e derrubaram a de barriga pra baixo no chão.
— Stark…— Yinsen murmura ao ver a cena e também de dor.
— Então foi isso o que andaram fazendo ao invés do meu míssil? — soltou um "Humpf" seco pelo nariz e seus lábios se curvaram num quase sorriso — Típico dos Ianques. Traidores e mentirosos.
Natasha se sentia um bebê aprendendo a andar tentando se levantar dentro daquela armadura, mas ao se erguer encarou Wong Chu através das aberturas dos olhos da máscara de ferro..
— O que foi? nunca tinha visto um “Homem de ferro”? ou melhor, mulher? Eu vou te fazer pagar por cada um de seus crimes de guerra. — Stark ralhou.
— Não me faça rir, olha só quem fala. Você foi a única que sobrou de uma família maldita de criminosos de guerra e mentirosos — Retruca o líder terrorista avançando na direção dela com um fuzil e atirou várias vezes tentando encontrar um ponto fraco.
As balas ricocheteiam no metal duro da armadura, mas em nenhum momento a perfuram. Tão resistente quanto Natasha, que quando se cansou de ficar parada para que ele visse suas balas a atingirem em vão, deu um, dois, três, vários passos na direção do terrorista, que antes de largar sua arma mirou perigosamente na cabeça dela, visando acertar uma das aberturas para os olhos.
— Stark, proteja seu rosto… — Yinsen disse morimbundo.
Stark ergueu um dos braços, protegendo a cabeça, tirou o rifle das mãos dele e depois agarrou o pescoço de Wong Chu com uma das mãos, erguendo seu corpo. O fitou com um ódio que nunca imaginou sentir por alguém na vida.
— Como é enfrentar alguém com o dobro do seu tamanho? Acho que as pessoas que você feriu devem saber melhor que o senhor.
— N… não é possível… — Wong Chu olhava impressionado e assombrado os olhos verdes da mulher atrás da máscara e se debatia sentindo a pressão da mão dela em seu pescoço. Tentava alguns golpes marciais, mas eram inúteis contra a casca de ferro.
— Como é enfrentar uma mulher vestindo uma armadura de ferro como essa? Dessa vez eu não estou tão indefesa como suas vítimas, como um cientista e professor debilitado que você arrastou até aqui por minha causa. — Natasha terminou a frase subindo uma oitava a mais na voz carregando toda sua raiva, jogando o terrorista para longe.
Com o sonoro impacto, o terrorista perdeu a consciência e seu corpo caiu de bruços no chão como um saco de batatas. Natasha olhou fria, mas depois esboçando um leve sorriso e um riso fraco pela forma como ele caiu. Pôs fim à liderança cruel daquele homem e tudo o que ele representava.
Mas após um breve instante de glória, os gemidos de dor de Yinsen a trouxeram de volta para o lado mais cruel da realidade. Entreabriu a boca, deixando escapar um suspiro de susto e preocupação e logo se virou depressa, andando o mais rápido que podia na direção do homem deitado, ensanguentado e respirando devagar. Ela se abaixa, ajoelha perto dele e levanta a máscara da armadura, revelando seu rosto cansado, assustado e a ponto de se entregar às lágrimas.
— P… professor Yinsen… — Natasha gaguejava, vendo o daquele jeito e sua voz quase falhava. — Vamos, onde fica o hospital mais próximo?
— Stark… — A voz já fraca. — Não adianta.
— Que não adianta o quê? temos que sair daqui. Eu prometi tirar a gente daqui. — A mulher em completa negação.
— Esse sempre foi o plano, Stark. — Os lábios do homem já estavam pálidos.
— Não, espera… — Ela balançou a cabeça negativamente. Os olhos ardendo novamente e enchendo se de água. — Você tem que ver a sua família. Tem que voltar pro mundo. — A voz embargava pesadamente. Impossível conter-se.
— Minha família está morta, Srta Stark. — Yinsen explicava usando suas últimas forças. — Eu vou vê-los agora. — Yinsen dizia com uma paz etérea.
Aquilo acertou Natasha como um soco. Fez uma careta, um esforço em vão para tentar esconder a dor que sentia, mas os olhos pesaram mais que ela. A ardência aumentou, assim como a vermelhidão e as lágrimas desciam pesadas. Fechou os olhos e comprimiu os lábios, virando-os para o lado, odiando ser vista assim por ele. “Como ele descansaria em paz me vendo naquele estado?” Pensava ela.
— Tudo bem… Eu… Eu quero isso.
Só restou a Stark aceitar. Filetes de lágrimas escorriam pelo rosto sujo de poeira e fuligem. Natasha balançou a cabeça positivamente, pendeu a cabeça para baixo entre soluços, tentando recuperar o fôlego.
— Obrigada, professor… — Stark o fita em seus últimos instantes com vida. — Obrigada por me salvar. — Outra vez fez uma careta de choro e a voz afinou- se aos poucos. — Mas eu gostaria mais de ter te salvado junto comigo.
— Não desperdice… — Yinsen usa seu último suspiro. — A sua vida.
Após ver os últimos resquícios de vida deixarem o corpo de Yinsen, Natasha fez um juramento mental enquanto fechava os olhos e deixava as lágrimas rolarem e os soluços a aliviarem. Se sentia quase como um cavaleiro medieval de alguma história fantástica enquanto secou suas lágrimas e lentamente se levantou após se acalmar. Respirou fundo, reuniu novamente toda a raiva que sentira na luta contra Wong Chu, abaixou a máscara de metal e seguiu na direção da abertura da caverna ao ouvir passos e sons de armas sendo preparadas se aproximando.
“Eu vou me tornar aquilo que você viu em mim”
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