Int da Caverna – Base dos dez anéis – Afeganistão


A escuridão e o vazio haviam engolido Natasha Stark por inteiro depois daquele instante caótico. Um alívio momentâneo que ela nem conseguia mensurar a duração, e nem precisava. Nem queria. Quando aquele intervalo escuro aconchegante deu lugar à voz de um dos terroristas falando, o saco na sua cabeça e a luz forte incidindo em seu rosto, ela teve a terrível certeza de que aquilo não era um pesadelo.

Sentia muito peso, especialmente no peito. O peso de um objeto duro, metálico cravado no peito e um peso maior na mente que não parava um segundo. Como pôde ter caído numa armadilha daquelas? Aquelas bombas, as táticas daqueles caras. Começou a pensar que eles estavam muito preparados, que tinham armas demais.

Os pensamentos corriam tão rápidos e violentos quanto as palavras do homem, que provavelmente estava pedindo um preço pela liberdade da mulher. Mas de repente o mundo começou a girar, Natasha estava fraca. Nem se lembrava da última vez que comeu alguma coisa e também perdeu muito sangue. Recém operada, acabou se entregando novamente à escuridão.



…



A segunda escuridão acabou quando abriu os olhos devagar e viu dessa vez um teto. Lugar diferente, mesmo cativeiro na caverna. Paredes de rocha A mente ainda zunindo, lutando para se situar e voltar a funcionar. Usava um casaco confortável de lã, sua calça militar e uma blusa branca por baixo. Natasha se lembrava de usar uma roupa um pouco diferente, ensanguentada. A frequência cardíaca disparava só de imaginar que seu corpo foi tocado de alguma forma naquele processo, principalmente na cirurgia. Ela leva uma mão até o nariz, de onde puxa um fio, que provavelmente a mantinha respirando. Estava com sede, quis alcançar o criado mudo para pegar água e acabou derrubando algum objeto. O barulho da queda a irritou.

Seu movimento não passou despercebido pelos olhos frios de Wong Chu, observando-a através de câmeras de segurança. Ela acordou. Wong Chu estava parado em pé, com os braços cruzados em frente a um painel com telas que mostravam tudo o que acontecia dentro daquele espaço.

— A Ianque não vai durar muito tempo, mestre Wong Chu. Seu peito foi atingido em cheio pelos estilhaços daquela bomba. — Comentou um de seus capangas ao se aproximar dele.

— Está provando do próprio veneno. Eu consegui a façanha de fazer um Stark literalmente sentir na pele o que suas invenções bélicas causaram no nosso povo. — Responde o líder. — Embora todos os estilhaços no corpo dela não sejam suficientes para representar cada vida ceifada em guerras.

— É só por isso que a trouxe aqui?

— Não. Vamos aproveitar esse pouco tempo que resta a ela a nosso favor.

Natasha tentou virar o corpo para o lado esquerdo, tentando alcançar aquela garrafa, mas algo a segurou. Pelo peito. Um fio grosso conectava seu peito a um motor. Foi o que ela percebeu, assustada, ao olhar para a direita. Mal teve tempo de processar o que seus olhos viram e sequer analisar melhor o tipo de motor e a provável função que ele tinha quando um repentino estrondo interrompeu seus pensamentos.

Ela virou o rosto rapidamente na direção da porta aberta, recém colidida com a parede de rocha. Quando o homem entrou, Stark o reconheceu na hora e o calafrio subiu. Ele não precisava ser alto para a presença preencher o ambiente, pele marcada pelo sol, cicatriz grossa no lado direito no pescoço e vestindo uma jaqueta verde-oliva desbotada.

Wong Chu.

Stark o esquadrinhou com os olhos, lembrando-se de cada detalhe visto no pentágono. Era a primeira vez que ficava cara a cara com uma ameaça real. Um inimigo real. Stark podia sentir os pequenos estilhaços mexendo se dentro do peito conforme a frequência cardíaca aumentava, um choque agudo e metálico que subiu pelo peito e alojou-se na garganta. Os dedos, sob o casaco de lã, cerraram-se em punhos involuntários, as unhas cavando as palmas numa tentativa de ancorar a mente que ameaçava se perder entre a dor e o medo. A mandíbula travou; a respiração ficou curta, superficial, como se cada molécula de ar tivesse de ser disputada com a presença dele. E, por um instante, a única coisa que a manteve firme foi a certeza de que, se seus olhos mostrassem fraqueza, ele a devoraria.

Ele parou a dois metros da cama. A distância exata para não ser atacado, mas perto o suficiente para ser visto. Para ser sentido. As orbes escuras e sombrias a examinavam apenas com avaliação. Para alguém que sofreu uma explosão daquelas, a mulher estava reagindo bem.

— De volta à vida, Stark. — A voz soou baixa e o sotaque pesado. Natasha não respondeu, continuou encarando-o.

Wong Chu deu um passo à frente. Ela não se moveu. Não recuou. Não desviou o olhar.

— Sabe onde está?

— Estou no meio de uma caverna no meio do nada. Com um motor preso ao meu peito. Você quer me vender ou me torturar? — A voz um pouco rouca e seca.

— Quero os dois. A ordem depende de você. — O homem disse quase sorrindo.

Ele se virou e caminhou até uma mesa ao lado, onde estavam os equipamentos médicos improvisados, uma bandeja com instrumentos cirúrgicos, gaze e soro.

— Você está viva porque eu quero. Os estilhaços no seu coração não vão se mover enquanto o eletroímã estiver ligado.

Natasha olhou para o motor. Para os fios. Para o metal cravado em seu peito. Deslizou suavemente os dedos no objeto circular enterrado em seu peito sob as bandagens. Sua vida dependia inteiramente daquela maldita bateria. Desligar não era uma opção.

— Tenho em mãos a maior assassina em massa da história da américa. Parte de meu povo foi seu alvo. Mercadora da Morte.

Um silêncio pesado dominou. Como um soco no estômago.

— Como seu pai sempre dizia há muito tempo atrás: Para se alcançar a paz é necessário ter armas mais poderosas que o seu inimigo.

Wong apanhou um caderno de capa preta e logotipo da Stark Industries da mesa, o abriu e mostrou a ela.

— E agora eu tenho essa possibilidade.

A página mostrava um esquema do míssil Jericho e escrito: “O míssil Jericho. Propulsão por pulso magnético. Capacidade de destruir um vale inteiro com uma única ogiva.”

— Você construirá o Jericho para mim. — Disse Wong Chu fechando o caderno.

Natasha o encarou. A dor no peito não era nada perto de como se sentia intimidada naquela situação. Inúmeros homens armados ao seu lado e ela recém operada, porém ainda com estilhaços presentes. Por mais que rejeitasse essa ideia, Stark não era louca de provocá-lo estando em clara desvantagem. Não tinha noção exata de onde estava, mas sabia que o exército americano provavelmente estava procurando bem longe dalí.

— Terminando o trabalho, minha equipe irá realizar uma nova operação para retirar os outros estilhaços e assim poderá voltar para casa.

— Fechado.

Natasha assentiu com a cabeça e apertou com certo nojo a mão dele, fechando o acordo. Sabia que ele não cumpriria a palavra. Mas o que mais consumia a mente da morena era o conhecimento básico que eles tinham de um projeto que ela tinha apresentado apenas para os militares, e para Obadiah.



…



Nova York, 10:30 am

Int. Stark Industries – Escritório de Pepper Potts


O gerenciamento de crises de Pepper Potts era impecável e de certa forma Natasha invejava um pouco essa habilidade dela. O escritório de Potts ficava no 42º andar de um dos prédios mais luxuosos da cidade, comprado por Stark para projetos futuros. Uma bela vista para o East River.

A luz da manhã, refletida nas paredes de vidro e aço, irritava um pouco Pepper. Aquela manhã parecia ter começado há três dias, quando os militares anunciaram a emboscada e o sequestro de Natasha Stark. A notícia correu pelos principais jornais e sites da internet, despertando várias reações. Uns preocupados e outros torcendo pelo fim da “vadia do lobby das armas” como era chamada.

O BlackBerry em cima da mesa vibrava sem parar, a voz calma enquanto o mundo ao redor pegava fogo. Pepper estava sentada, mas não relaxada. A coluna reta, o terno azul-marinho impecável, o coque baixo sem um fio fora do lugar. Mas os olhos estavam cansados, com olheiras que a maquiagem não escondia completamente. Segurava o BlackBerry na mão esquerda. A mão direita pressionava um ponto na têmpora, uma tentativa de conter a dor de cabeça que vinha se acumulando desde que a notícia chegou.

"Natasha Stark desaparecida. Comboio atacado no Afeganistão. Sete soldados mortos."

Pepper leu a notícia em três idiomas diferentes naquela manhã. Cada uma dizia a mesma coisa.

A porta se abriu de repente, dando passagem para um Happy Hogan soturno. O homem entrou sem bater, como fazia só em emergências. Terno preto amassado, gravata frouxa e rosto tenso.

— O Pentágono está ligando. Rhodes não atende.

— Rhodes está no Afeganistão. Ele não atende porque está no meio de uma zona de guerra. — Pepper respondia sem tirar os olhos do BlackBerry.

— Os acionistas já ligaram. Quatro chamados desde às 7 da manhã.

— O que você disse? — Pepper olha para ele, em choque com o estado de sua aparência e sentindo um peso no estômago, como se aquilo a trouxesse de novo para suas emoções.

— Que a Sra. Stark está em uma reunião privada. Agenda restrita.

— Bom. Mantenha assim. — Pepper olhou para ele por um segundo, apenas o suficiente para que Happy entendesse que ela estava no limite.

A ruiva levantou sem pressa, mas com precisão. Panhou a pasta, desligou o telefone e guardou o BlackBerry no bolso do blazer.

— O que mais?

— Obadiah Stane quer uma reunião.

— Obadiah? — Pepper congelou.

— Ele está na recepção. Desde as 9h.

Os olhos entregaram tudo, embora a ruiva não respondesse imediatamente.

— Ele está aqui?

— Sim, Pepper.

Pepper respirou fundo, ajeitou o blazer e pegou o BlackBerry.

— Leva ele para a sala de reuniões. E não serve café."

— Nem água? — Happy franze o cenho.

— Nem água. — Responde Pepper seca.

Happy assentiu e saiu.

O escritório mergulhou em um silêncio pesado com a saída de Happy, mais ainda que antes. O zumbido baixo do ar-condicionado, o som distante de carros na rua, o barulho da cidade que aguardava uma resposta sobre Natasha Stark. A ruiva olhou para o Horizonte. Para a cidade. Para o East River.

— Onde você está, Natasha?"

Depois, Pepper voltou a se mover. Porque o gerenciamento de crises era impecável, e o trabalho não podia esperar.

…



Int da Caverna – Base dos dez anéis – Afeganistão

Segundo dia


Debruçada sobre a mesa de metal, cheia de ferramentas e componentes, Natasha estava exausta. Não de um dia de trabalho comum, mas de um esforço múltiplo. Passou a manhã e a tarde no pátio, comandando aqueles homens na construção dos mísseis. Mesmo sob aquelas condições era muito fácil botar no papel o esquema, o problema era olhar nos olhos deles, sob a mira dos rifles dos terroristas que circundavam aquele lugar.

E pra piorar, dezenas de caixas de madeira com o logotipo da Stark Industries amontoadas em alguns cantos a lembravam de sua maior falha em todos esses anos desde que assumiu a empresa aos 21 anos: Descuido. Até os atuais 25 anos, Natasha ainda tentava se curar da perda dos pais, mas naquele momento não havia mais tempo para isso. Haviam muitas pessoas sofrendo nas mãos dos Dez anéis.

Os pés descalços no chão de terra batida. O casaco de lã grosso ainda a envolvia, mas estava aberto, revelando a blusa branca manchada de suor e a curva do eletroímã preso ao peito. Escrevia bastante, mas também pensava bastante. O cabelo preso num rabo de cavalo alto. Em uma das folhas estava o início do esquema do foguete Jericó, mas depois algo mais começou a brotar da mente da mulher. Pensou no eletroímã em seu peito e depois no Reator Arc.

De repente o silêncio daquela caverna foi interrompido com o abrir da porta, que novamente bateu nas rochas. Natasha quase conseguia prever em quanto tempo aquela porta precisaria de concerto. Alguns soldados entram trazendo pelos braços um homem mais velho para o cativeiro que Natasha logo identificou, abrindo um pouco a boca surpresa e levantando se da cadeira. Não se moveu um milímetro a mais após ficar de pé, pois logo alguns rifles foram apontados na sua direção.

Alto, magro, cabelo meio grisalho, curto, com marcas de sol e cansaço no rosto. Usava óculos de aro metálico, uma camisa puída e calças surradas. Aquelas roupas não eram as dele, tinham sido dadas a ele como se ele fosse um pacote. Ele parecia cansado, não assustado. Apenas cansado. Os capangas o empurraram para dentro da sala.

Ele não resistiu, apenas tropeçou, recuperou o equilíbrio, e levantou os olhos. Então ele viu Natasha Stark e seu rosto mudou, não para medo mas para reconhecimento e surpresa. Como eles a trouxeram para lá?

Aos seus olhos, não parecia ser a mesma jovem mulher que via em matérias na TV, entrevistas e capas de revista. Os cabelos estavam um pouco mais bagunçados, porém não desgrenhados. O rosto abatido. Natasha estreitou os olhos surpresa com o que viu. Mesmo ele abatido, Stark reconheceu seus traços, principalmente os óculos que tanto via em fotos.

— Ho Yinsen? — Natasha estreitou os olhos.

— Yinsen é cientista, um grande cérebro que a América teve o privilégio de ostentar até ele ser capturado por nós.

“Ho Yinsen” Para Natasha o nome veio de um lugar antigo: Da biblioteca do MIT, das prateleiras de livros técnicos, das horas passadas lendo mais do que os professores pediam. Físico, Engenheiro, autor de três livros sobre energia limpa e sistemas de propulsão. Sabia de cor o nome de cada capítulo. Tinha anotações na margem. Tinha argumentado com as teses dele em artigos de faculdade. Vê-lo assim na mesma caverna, nos mesmos pés de terra, com o mesmo olhar de cansaço a destruiu mais um pouco por dentro.

Logo o causador de tudo entrou. Wong Chu. Fechou a porta atrás de si com um clique seco. Os capangas se posicionaram ao lado da parede. Os braços cruzados, e olhares vazios. Wong Chu caminhou até o centro da sala. Parou entre Natasha e Ho Yinsen.

— Vocês dois se conhecem. Não finjam que não."

O silêncio durou um segundo. Stark cerrou um dos punhos morrendo de ódio por dentro e sem poder fazer nada. Pelo menos por enquanto.

— E… Eu não a conheço pessoalmente. Mas conheço o trabalho dela. — A voz do prisioneiro soou fraca e calma. Foi como uma facada no peito da mulher.

— Você vai ajudá-la. Ela pode ser inteligente, mas ainda é só uma mulher. Vocês têm pouco tempo, apressem-se.

Natasha nunca respirou tão fundo em toda sua vida enquanto eles viravam as costas e saíam da sala. Arrancaram um senhor de meia idade de algum lugar só para trancafiá-lo com ela naquele lugar horrível. Yinsen ainda estava cabisbaixo e fatigado, Natasha o olhava enquanto uma ira crescia dentro dela.

— Professor, Yinsen… Eu vou te tirar daqui. Nós vamos sair daqui.