Iron Woman - Natasha Stark
2 Império Stark
Prêmio Apogeu, Hotel Waldorf Astoria – Manhattan, 2008
“De tempos em tempos, em um mundo como o nosso, surge uma nova Marie Curie. E a dessa geração atual é conhecida pelo nome de Natasha Stark. Amante da ciência, gênio, visionária e uma inventora notória, Natasha é mais que um exemplo para meninas e mulheres do século XXI é uma inspiração.” — A voz da narradora do evento ecoava por todo aquele salão, enquanto contava um breve resumo sobre a trajetória da CEO das Indústrias Stark, a homenageada daquela noite presente, sentada em uma das mesas principais, próximas do palco ao lado de Pepper Potts, à direita. Happy Hogan, motorista e segurança, mas com um instinto nato de segurança, está na mesa ao lado – não por falta de importância, mas porque prefere ficar perto da saída. Stark estranhou um pouco a ausência de Obadiah.
“Apesar de nascida em berço de ouro, sendo filha do famoso fabricante de armas, Howard Stark, ninguém esperava que aquela menininha fosse tão interessada por tecnologia e tivesse a mesma genialidade que seu pai. Durante a infância aprendeu rápido a consertar um velho rádio, construiu circuitos simples, linguagem de programação e robótica.” — Natasha abriu um sorrisinho lembrando de quando aprendeu sozinha a modificar códigos de jogos de computador para melhorar sua experiência.
“Quando terminou o ensino médio em uma renomada instituição interna, Natasha foi direto para o MIT, tendo completado sua formação com louvor. Mas a perda de Howard Stark representou um forte abalo e um vazio que Obadiah Stane prontamente ocupou pelo bem da herdeira, tutelando-a e preparando-a para assumir o comando do império aos vinte e um anos. Desde então, Natasha continuou um legado de eficiência e avanços tecnológicos, dando seu toque especial na modernização de armas cada vez mais eficientes e sua genialidade contribuindo no avanço de diversas outras áreas, médicas, automotivas, entretenimento, energia limpa e aeroespacial. Ajudando também a desenvolver mais outros talentos, Natasha Stark está mudando o perfil americano e levando a nação para uma nova era dourada.”
O vídeo, mais carregado de velhas recordações de tempos passados do que de registros mais recentes, recebeu uma intensa salva de palmas e a tocou, mais do que ela esperava. Mas seu rosto ainda manteve se neutro, com certo esforço e um fraco sorriso
James Rhodes, coronel da força aérea americana e melhor amigo de Natasha surge em seguida. Alto, porte atlético, pele negra, trajando um uniforme militar apropriado para eventos como aquele, Rhodes vai até o palanque, pausando as mãos sobre a superfície de madeira, onde costuma se colocar documentos e papéis. Ele começa a falar.
— Boa noite senhoras e senhores. É uma honra entregar este prêmio a alguém como ela, uma verdadeira patriota, disposta a oferecer seus conhecimentos e habilidades para fortalecer as forças de defesa dessa nação, a qual também defendo com muito orgulho. E é com muita honra que tenho o prazer de entregar o prêmio Apogeu deste ano para a minha amiga Natasha Stark. — Rhodes ergue levemente o troféu com um sorriso enorme e aguarda a mulher levantar-se para pegar seu prêmio.
Os holofotes foram jogados em cima da figura feminina, a estrela da noite, que imediatamente se ergueu da mesa e começou a caminhar a passos suaves, mas pisada firme em direção ao palco. Os saltos pretos pisam no macio carpete vermelho que se estendia de um determinado ponto até os degraus de mármore branco. Morena, cabelos castanho-escuros soltos, lisos na raiz e ondulados do meio para as pontas, caindo para os ombros até o meio do peito. Vestido longo preto de seda fosca, alças finas de veludo nos ombros, decote reto mostrando o colo o suficiente para o pingente azul brilhar sobre a pele, combinando com os brincos pequenos e as pulseiras finas prateadas. O verde dos olhos dela ganhou um certo destaque pela luz dos holofotes, semicerrados pela claridade em excesso.
Pepper Potts, cabelos ruivos presos em um coque e vestido azul marinho, batia palma e sorria junto com os demais na plateia. Natasha sobe os três degraus de mármore branco forrados com carpete vermelho até o topo, aproximando-se do palanque. Um sorridente Rhodes estendia o prêmio, um troféu de Cristal lapidado, transparente com uma asa estilizada curva fluída que logo repousou nas mãos finas e macias da morena. O frio do cristal nas palmas das mãos.
A morena posiciona o troféu na mesa do palanque e ajeita o microfone com um puxão rápido e prático antes de levá-lo perto dos lábios coloridos por um batom vermelho escuro.
— Obrigada — Suspirou e fez uma breve pausa, fitando a platéia. A voz tranquila. — Não sou Marie Curie. Marie Curie descobriu o Rádio. Eu apenas melhorei um míssil.
A plateia começa a rir, divertindo-se com a fala da morena.
— Bem, receber um prêmio como este é sempre um pouco constrangedor. Porque, vamos combinar, ninguém faz ciência pensando em troféus. A gente faz ciência porque é obcecado. Porque não consegue dormir enquanto aquele maldito circuito não funciona. Porque tem uma ideia na cabeça às três da manhã e precisa testar antes do café. E, sim, porque é divertido. Não contaram essa parte na escola? Ciência é divertida. Explodir coisas é divertido. Consertar o que explodiu é mais divertido ainda.
Natasha sorriu satisfeita com a reação da plateia e continuou.
— Eu herdei uma empresa. Isso é fato. Mas ninguém herda conhecimento. Ninguém acorda um dia e descobre que sabe soldar. Isso se aprende. Geralmente queimando os dedos. — Ergueu a mão esquerda rapidamente. O polegar é marcado por uma leve cicatriz. — Acidentes acontecem.
— Dito isso, não estou aqui por acidente. Estou aqui porque trabalho duro. Porque tenho uma equipe que trabalha mais duro ainda. Porque, quando os outros estão dormindo, eu estou no laboratório. E quando eu estou dormindo, o que é raro, meus sonhos têm fórmulas matemáticas. Então, sim, aceito este prêmio com orgulho. Obrigada e boa noite. — Suas duas mãos abraçaram o troféu e depois o erguiam quando ela acabou de falar.
Ela se afastou do microfone ao som dos aplausos que explodiram mais alto. Risadas e assobios se juntavam aos aplausos. Natasha desce os degraus com a mesma elegância com que subiu e ainda com um lindo sorriso no rosto. O balançar do vestido de seda a deixa com um ar quase divino enquanto anda. O evento continuou por mais algum tempo, mas Natasha e sua comitiva saíram bem antes do encerramento oficial.
Do lado de fora, antes de chegarem ao carro, onde um rabugento Happy Hogan os esperava de braços cruzados, repórteres os cercaram. Virou sua cabeça ao ouvir uma voz feminina a chamar em meio àquele mar de repórteres. Ela se destacou por aproveitar uma brechinha, com seu gravador, beleza e um pouco de cara de pau. Alta, loira, carinha de Barbie — como Natasha costumava dizer brincando pra Pepper — e um pouco chatinha. Porém esforçada e elegante. Essa era Christine Everhart, blazer preto sobre vestido longo cinza, cabelo liso e loiro, que se aproximou da morena com um gravador na mão.
— Srta Stark, com licença. — A mulher chamou sua atenção gentilmente. — Christine Everhart da revista Vanity Fair. Fui enviada para cá para te fazer algumas perguntas.
— Tudo bem, desde que não seja muito invasivo. — Respondeu com tranquilidade e sinceridade.
— Tem sido chamada de “Mercadora da Morte” por vários críticos, o que tem a dizer sobre isso? — Perguntou a loira após apertar um botão do gravador.
— Estou ciente que incomodo muitas pessoas, senhorita Everhart. Nunca esperei ser chamada de “Da Vinci” moderna. Nem se eu pintasse. — A morena toma um gole pequeno de champanhe. Ajusta uma alça fina no ombro – não por nervosismo, apenas porque o veludo escorregou um milímetro.
— Então a senhora não se importa com o rótulo?
— Eu me importo. Mas não o suficiente para perder o sono. — Natasha dava um meio sorriso balançando a cabeça negativamente de modo suave.
— Olha, Christine... posso chamar de Christine?" — Stark continua.
— Claro, claro. — A repórter afirma balançando a cabeça. Os olhos um pouco mais arregalados pela surpresa.
— Muito bem, Christine. Eu herdei uma empresa que fabricava armas e outros tipos de tecnologia desde antes da Segunda Guerra Mundial. E foi graças a elas que estamos vivendo em uma realidade em que os nazistas perderam. — Ela olha para a taça de champanhe quase cheia, agora com uma marca de batom vinho na borda. — Isso não apaga os males do passado, mas também não é algo que eu possa resolver com uma entrevista.
— Muitos ainda criticam os lucros exorbitantes da Stark Industries com as guerras durante esses anos todos. — Aponta Christine.
— A matéria de vocês também vai apontar a economia de milhões com os avanços tecnológicos na medicina e no combate à fome com cultivos inteligentes, flor? Esses avanços vêm dos recursos militares.
O som do silêncio entre elas foi mais perturbador que o ambiente ao redor.
— Você quer uma manchete, Christine? Escreva isso: “Stark não se desculpa pelo passado. Stark constrói o futuro.”
— Obrigada, Srta. Stark. Pelo tempo e pela honestidade. — Christine finalmente desliga o gravador e por fim se afasta. A voz quase sussurrada.
Sorrindo, Natasha dá mais algumas respostas aos jornalistas com uma simpatia um pouco irônica e ao se cansar entra no enorme carro preto, junto com os demais. O prêmio Apogeu foi só o começo daquela noite, Stark queria mais.
— Ainda quer ir pra lá? — Pergunta Pepper.
— Claro, por que não? A noite tá só começando, Pepper. E o Obadiah vai estar nos esperando.
— Achei que estivesse cansada.
— É agora que a melhor parte da noite vem. — Natasha dá um sorriso de canto que Pepper temia já saber o motivo.
— É a noite ou quem vai estar lá? — Pepper perguntou desconfiada.
— Eu só queria saber o que aconteceu com o Obadiah. Por que ele não compareceu ao prêmio Apogeu, Pep? — Natasha corta seco, fugindo pela tangente. — Ficou preso em alguma reunião com acionistas de novo?
— Eu ia te perguntar justamente isso. Ando notando-o mais ausente que o normal. Fazendo mais viagens, mais reuniões. — A ruiva faz uma breve pausa reflexiva, franzindo o cenho, olhando para frente e depois novamente para a morena.
— Bom, espero que ele esteja trabalhando numa coisa importante. — Natasha sorriu, relaxada.
A música alta tocando no evento, Don´t Stop The Music da Rihanna, ia ficando mais baixa à medida que o carro ia se afastando. Natasha só não lamentava ficar mais um pouquinho para ouvir porque tinha um interesse especial no próximo evento.
…
A Dinastia — Upper East Side, Manhattan NY
O carro com as duas mulheres chega ao próximo destino: A Dinastia, mega evento de gala em Upper East Side, Manhattan, reservado apenas para menos de 1% da população mundial; verdadeiros magnatas, chamou a atenção de Natasha Stark de forma positiva por um detalhe: uma coordenada que não foi difícil para ela descobrir, percebendo alguns padrões numéricos. Ela apreciava criatividade e inteligência daqueles que faziam questão da presença dela em seus eventos. Não saía de casa sem um bom motivo, pois Potts foi contratada para isso: colocar na agenda só o que interessava à patroa.
O evento daquele ano foi mais voltado para ciência e tecnologia, portanto os convidados eram herdeiros de empresas que obtiveram sucesso nos lucros, negociações, lançamentos de projetos e na mídia. As mais “queridinhas” do momento eram as Indústrias Stark e a Prometheus, empresa alemã aeroespacial.
— Pepper, gostou do vestido azul marinho que eu ajudei você a escolher?
— Sim, está ótimo. Mas por favor, seja mais delicada nas entrevistas. — Murmura a ruiva.
Obadiah Stane ficou para trás, dando aos repórteres mais um pouco do que queriam e os repórteres uma das coisas que o homem mais gostava: atenção, visibilidade e holofotes.
— Bem, como vocês viram, a nossa menina Stark parece que tem muito do pai dela. Às vezes parece que tô vendo ele. Saudades.
— Então o senhor concorda com o posicionamento dela sobre a fabricação de armas?
— Veja bem, a indústria armamentista ainda é algo muito lucrativo nos dias de hoje. E apesar de ser triste o fato de ainda precisarmos delas, o trabalho de Natasha Stark ainda resulta em vários outros avanços científicos e tecnológicos; como ela mesmo disse.
Obadiah ia continuar o raciocínio, mas uma voz masculina mais jovem, porém conhecida, o interrompeu mais para o complementar do que competir pela atenção da mídia.
— Alguém já pensou em uma solução melhor para defender a paz e combater nossos inimigos que não envolva alguma tecnologia para ao menos afastar as ameaças ao nosso mundo? Sempre fui do tipo que entende que, eventualmente, destruições e perdas são inevitáveis em uma guerra, mas esse medo não pode ser uma trava para o nosso direito de se defender e poder brigar.
O mais velho abriu um largo sorriso ao ver o dono da voz, era como ver um filho preferido.
— Lars Von Kaiser, senhoras e senhores. — Obadiah primeiro estendeu o braço direito na direção do rapaz como se o apresentasse. Lars era alto de olhos azuis e loiro de cabelos de comprimento médio, cujas pontas tocavam os ombros largos. Em seguida se cumprimentaram com um abraço. Os flashes das câmeras intensos.
— Stane, que prazer em vê-lo — Lars tinha um sorriso de canto.
— Igualmente, igualmente. Este é um menino de ouro, sempre afiado e com os melhores argumentos.
— Eu só disse a verdade. — Respondia o loiro.
— Haha, parece até a Natasha falando.
— Acho que ando assistindo muitas entrevistas com ela. Falando em Natasha, ela veio?
— Um pouco relutante dessa vez, mas veio.
— Por que relutante? — Franziu a sobrancelha, curioso.
— Ela tem passado mais tempo em seu laboratório. Algum projeto secreto. Ela não me conta tudo.
— Ah, entendo. Vai esperar ficar pronto pra revelar. Eu sou assim também com meus projetos. — Lars olhava para a entrada do evento e depois para Obadiah.
— Bom se não se importa eu vou entrar ok?
— Está bem, boa festa. — Obadiah abriu um sorriso compreensivo e tocou o ombro direito do mais jovem, que assentiu com a cabeça e seguiu.
Obadiah continuou a entrevista por mais um tempo até entrar no evento. Sabia que Kaiser era um gênio da tecnologia nuclear e desses que adora enigmas, mas naquele instante mal conseguia disfarçar seu maior interesse naquele evento na frente do mais velho.
Ao passar pelo saguão de entrada, uma catedral de mármore branco com veios cinza, Natasha e Pepper subiam devagar os degraus de mármore largos e baixos. Enquanto diluía-se naquele mar de gente da alta sociedade com Natasha, Pepper quebra o silêncio em dado momento.
— Ela parecia abalada. — Diz Pepper quebrando o silêncio.
— Christine? — Responde a morena.
— Sim. Aquela entrevista de ontem…
— Não, só impressionada com a minha resposta. — Natasha dá um meio sorriso.
— Acho que você foi dura. — Comentou Pepper.
— Eu fui sincera e honesta. É diferente.
Pepper a olha por um longo momento. Às vezes se assustava com a sinceridade e pensamento da patroa. Mas sobretudo tinha receio. Seu papel era zelar pela manutenção daquele império tecnológico, mas Natasha às vezes não ajudava muito.
— Nazistas? Tinha necessidade disso? — Questiona Pepper.
— Verdade histórica. Não gostar não muda o fato. — Responde e depois beberica mais um pouco de champanhe.
— Vão te crucificar por isso. — Pepper balança a cabeça negativamente.
— Já fui crucificada por menos. Pelo menos agora é por uma verdade. — Natasha dá de ombros.
Elas ficam em silêncio, observando a festa, os convidados. Grandes celebridades, profissionais da moda e multimilionários. Os olhos verdes de Natasha, durante aquela ronda motivada por um breve momento de tédio, encontraram Lars, um rapaz que, além de remeter ao baterista do Metallica, por motivos óbvios — Uma das suas bandas favoritas — roubava toda sua atenção pelo porte atlético, olhos azuis e cabelo loiro comprido, tamanho médio, presos em um rabo de cavalo baixo, mas com algumas mechas soltas, presas atrás da orelha.
— Quer mais champanhe? — Diz Pepper notando a taça quase vazia da chefe.
— Não. — A morena fitava Lars na escadaria de mármore, do outro lado do salão. — Acho que vou querer outra coisa.
Pepper olhava na direção que a chefe estava olhando até ver o alvo de Natasha e deu um suspiro de quem já imagina que vai testemunhar mais uma travessura Stark.
— Happy não vai muito com a cara dele. — Pepper é direta.
— Happy só tem que se preocupar em fazer uma dieta. — Diz Natasha sem tirar os olhos da “presa”
Natasha se afasta carregando sua taça em direção à escadaria de mármore. O vestido de seda deslizando, as alças finas balançando. Pepper fica onde está, observando.
— Ai meu Deus… — A ruiva revira os olhos rapidamente.
Lars Von Kaiser é filho de um engenheiro alemão chamado Maximilian Von Kaiser, um dos parceiros de Howard Stark após a Segunda Guerra Mundial e fundador da Prometheus, empresa de tecnologia alemã aeroespacial herdada por Lars anos depois.
Natasha, com sua taça de champagne quase vazia na mão esquerda, andou em direção à escada, onde estava Lars. O rapaz carregava um copo de vidro na mão esquerda com uma pequena parte do Whisky. O porte atlético é evidente mesmo sob o terno preto de alfaiataria – ombros largos, cintura estreita, a postura de quem pratica esportes ao ar livre.
Ele estava no meio de um grupo de outros poderosos, celebridades, bilionários e até acionistas. Subindo as escadarias de mármore branco, Natasha infiltrou-se com destreza, aproximando-se do grupo, começando a conversar com um e outro até chegar ao seu alvo. Lars olhava para cima por uns instantes antes de olhar para baixo novamente e a Stark entrar em seu campo de visão. Ele não parece surpreso. Apenas... curioso.
— Stark — O sotaque alemão que arrepiava a alma. — Conseguiu chegar até mim com a mesma precisão de suas armas.
— Que perspicácia. Realmente é um Kaiser. — respondeu Natasha com a taça na mão
— E você é a cara do seu pai. Melhor dizendo, o cérebro dele. A mente genial com a aparência da bela Maria Stark.
— Hum, finalmente alguém disse algo sobre mim que realmente gostei.
— A mídia não é muito generosa contigo, não é? Eu sei. Mas se quiser eu posso te dar uma forcinha para colocá-los no seu devido lugar.
Stark inclina a cabeça, dando um pequeno sorriso.
— Obrigada, mas não precisa gastar sua energia com esses idiotas.
— Não sei se concordo, embora você saiba dar as melhores respostas. E eu admiro pessoas que, além de se defender, atacam com precisão cirúrgica. E sem piedade. — Kaiser disse com um tom sombrio, porém com doçura.
— Oh, alguém aqui andou assistindo entrevistas minhas? — virou levemente a cabeça para o lado sem tirar os olhos do homem.
— “Este mundo é falho, mas é o nosso. No dia em que ninguém precisar mais de armas para dormir em paz, eu mesma vou demolir tudo e construir maternidades.” — O loiro repete empolgado a fala da Stark em uma entrevista para uma revista famosa. — Duro, direto e franco.
— É, eu acordei inspirada nesse dia. — Natasha dá um sorrisinho orgulhoso.
— Já perdeu uma noite de sono na sua vida? Não que eu ache que vá se importar com as opiniões de hippies.
— Adoraria perder uma contigo. — Stark responde direta.
Lars franziu o cenho levemente e entreabriu a boca. Incrédulo com a ousadia. Apesar de saber dessa natureza proativa da morena, principalmente nos negócios, não imaginava ouvir algo assim. Nunca imaginou uma mulher falando assim.
…
Mansão Stark — Malibu, CA
— Bom dia. São 7h da manhã. A temperatura em Malibu é de 22 graus Celsius com algumas nuvens. As condições do mar são razoáveis, com ondas na altura da cintura até o ombro. A maré alta será às 10h52.
A voz de JARVIS reverbera por todo o quarto onde Lars dormia, invadindo seus ouvidos e o fazendo acordar, dando uma leve estremecida na cama. Ao esticar um dos braços para o lado tocou o vazio entre os lençois e o colchão, Natasha havia saído. Mas para onde? algum compromisso?
Um pouco descabelado, Lars se vestia com uma camisa branca de botões e calça que estavam espalhados pelo chão. Quando terminou sua higiene matinal, o rapaz andou pela mansão, até chegar a uma porta com um painel numérico na lateral. Lars não estava nem um pouco deslumbrado, vivia em uma mansão opulenta no Brasil e nem ergueu um braço para tocar os botões, apenas os fitou enquanto sua mente imaginava várias combinações de senhas.
— O carro está disponível para quando o senhor quiser ir embora.
Os números dançavam na mente do alemão quando Happy o abordou com seu jeito não muito sutil. Lars não se virou imediatamente. Permitiu que as palavras pairassem no ar. Uma pequena demonstração de que não se abalava com interrupções.
Os números continuaram dançando em sua mente por mais um segundo. Depois, ele se virou. Happy estava de braços cruzados, o mesmo semblante fechado da noite anterior. O mesmo de todas as noites.
— Happy Hogan, não é? — O loiro disse calmo.
— Sim. — Happy responde seco.
— Acho que não precisamos de apresentações, não é? Você sabe quem eu sou. Eu sei quem você é.
Happy não respondeu. Apenas manteve os braços cruzados.
— Laboratório? — Olhando para o painel numérico, ele perguntou só por perguntar.
— Não é da sua conta.
Lars deu uma risada debochada e pendeu a cabeça pra baixo, não aguentou.
— Na verdade, nem precisaria perguntar. É evidente. Se não, não precisaria de uma senha pra entrar. — Ele disse debochado, mas com a voz irritantemente sóbria. Levantou a cabeça ajeitando o cabelo que caiu no rosto.
Happy, sorrindo sarcasticamente, parecia um vulcão prestes a explodir. Ele desviou o olhar para o lado para não piorar as coisas. Lars era muito poderoso e protegido e Happy era o lado mais fraco da corda. Sentia que nunca havia travado tanto o maxilar quanto naquele momento. Fez um grande esforço para não tirar as mãos, cerradas em punho, dos bolsos do paletó e agarrar o pescoço musculoso e bronzeado de Lars.
— Certamente o senhor é tão inteligente quanto seu pai. Quis evitar ouvir novamente a voz do JARVIS dessa vez lhe dando uma bronca por se meter onde não foi chamado. — Happy destilava um pouco do seu veneno pra aliviar um pouco e mostrar a Lars que havia um homem naquela casa.
— Não tenho medo da voz de um robô criado para suprir a falta do velho mordomo humano. — O alemão provoca, após ter se sentido provocado pelo motorista por ter citado seu pai.
Happy deu uma risada baixa, alargando um pouco mais o sorriso e pendendo um pouco a cabeça pra baixo, pronto para transformar a arcada dentária daquele homem em um amontoado de carne inchada e dentes quebrados, mas no mesmo segundo a voz de Pepper interrompeu o que poderia significar a ruína do motorista.
— Bom dia, Sr Kaiser. Vi que já conheceu o JARVIS, ele cuida da casa de forma inteligente.
Pepper se aproxima calmamente, com um sorriso simpático. Happy admirava aquela calma e postura. Visual simples, mas harmonioso. Conjunto de blazer preto com uma saia da mesma cor e uma blusa azul clara por dentro do blazer. Scarpin preto salto médio e os cabelos ruivos presos num rabo de cavalo baixo. Franja lateral.
— Senhorita Potts? ouvi muito falar de você. É mais bonita pessoalmente. — Lars vira- se para a ruiva, abrindo um sorriso de canto. Mesmo simples ainda chamou a atenção do loiro.
— Eu imagino. Natasha gosta de me levar junto em certos eventos para eu me enturmar, mas eu confesso que me preparei mais para ser secretária do que celebridade. — Pepper responde com um pouco de sinceridade.
— Stark e seu RH realmente sabem como selecionar as pessoas mais elegantes para a empresa. Confesso que fiquei aliviado e surpreso em saber que a senhorita não se resume só a ser a faxineira dela.
Happy revira os olhos.
— A Senhorita Stark e eu dividimos algumas tarefas. Ela não me deixa com todo o trabalho de casa e sempre foi independente. Mas como essa mansão é muito grande e ela ainda tem que produzir tecnologia acaba delegando algumas funções para mim como cuidar dos negócios e… botar o lixo pra fora de vez enquanto.
Pepper responde com classe e firmeza, resultando em um silêncio constrangedor. Happy abriu um sorriso de canto que curou 20 anos de possíveis doenças psicossomáticas que viria a ter. O sorriso de canto no rosto de Lars foi desaparecendo aos poucos.
— Vejo que já vestiu a sua roupa. Então, Happy, leve o Sr. Kaiser para onde ele quiser. — Ordena Pepper, que depois vira se, deixando o cômodo.
— Com muito prazer, Senhorita. Potts. — Happy abriu um sorriso de orelha a orelha enquanto conduzia o homem para o carro.
...
Pentágono – Washington DC
Oriental, pele marcada pelo sol, cabelo preto cortado rente à nuca. Olhos escuros, fundos, vazios, como dois buracos no meio do rosto. Uma cicatriz grossa atravessava o lado direito do pescoço, sumindo no interior da gola camuflada. Ele usava uma jaqueta verde-oliva – desbotada, remendada no ombro. Ao fundo, uma floresta densa, montanhas cobertas de neblina.
— Este é Wong Chu, Ex-guerrilheiro. Um dos braços direitos do Mandarim nos Dez Aneis. — Explicava o experiente general Morrison durante a apresentação. Cabelo grisalho raspado na zero, e os olhos azuis de quem já testemunhou guerras.
Natasha inclinou a cabeça levemente, demonstrando interesse. O rabo de cavalo balança levemente. Estava sentada no centro em uma cadeira reservada. Terno preto de alfaiataria e camisa branca de botões denotando a seriedade da situação.
— Wong Chu nasceu em Sin-Cong, um país pequeno no sudeste asiático que sofreu um golpe de estado liderado por ele. — Era a vez do Coronel Davis. Quarenta e poucos, pele negra e bigode fino.
O telão mudou, mostrando imagens em preto e branco de homens armados na selva, bandeiras vermelhas, rostos jovens e cansados.
— Ele dizia acreditar na libertação. Na independência. Em um país livre do jugo dos senhores da guerra e dos interesses estrangeiros. — Continuou Davis. — Depois do fim dos conflitos, Sin-Cong se tornou o país que Wong Chu e seus camaradas queriam, mas não foi o suficiente.
Natasha permaneceu com o rosto imóvel, apenas os olhos demonstrando atenção máxima, estreitos.
— A luta não o preparou para a paz. Ele não sabia ser civil. Não sabia plantar. Não sabia governar. Sabia apenas... lutar. — A comandante Hayes prosseguiu. A única mulher militar na mesa, cabelo castanho preso em um coque militar, patente na gola, postura rígida.
O telão mostrou fotos mais recentes. Wong Chu em um mercado noturno, trocando dinheiro com homens de terno preto. Depois Wong Chu em uma base militar improvisada, inspecionando caixas de munição. Wong Chu ao lado de um homem mais velho, de barba comprida e anéis nos dedos, o temido Mandarim.
— E foi aí que o Mandarim apareceu. — Natasha observou atentamente a figura do homem mais velho, de barba comprida, os anéis nos dedos e a presença intimidadora que facilmente o denunciou para Stark assim que ela pôs os olhos.
— Exato. O Mandarim ofereceu a ele o que a paz não deu. Propósito. Hierarquia. Guerra.
— Hum, então ao lado do Mandarim e fazendo parte dos Dez anéis, Wong Chu se tornou uma grande ameaça ao mundo. Entendi. — Natasha organiza os pensamentos. — Bom, eu não sou uma heroína de guerra como o Capitão América, mas se me passarem as informações necessárias sobre os esconderijos deles acho que posso brincar com vocês de explodir cavernas.
O que Natasha costumava esperar era algumas risadas. Adorava quebrar, nem que fosse um pouquinho, a seriedade. Mas o silêncio que obteve como resposta a constrangeu e acendeu um alerta: Talvez o problema fosse mais grave do que imaginava. E isso ficava evidente a cada segundo.
— Antes de pensarmos em explosões... a senhora precisa saber de mais uma coisa. — Disse o general Morrison após olhar para o general Davis como se dissesse que estava farto daquele jeito Stark desde as reuniões com Howard.
Ele deslizou uma pasta sobre a mesa até a mulher. Natasha não tocou, apenas olhou. Na capa, seu nome. Abaixo, uma palavra: INTERCEPTAÇÕES.
— Inteligência de sinal. Interceptações de comunicações nos últimos três meses. O nome 'Stark' apareceu quatorze vezes. Seu nome especificamente... seis.
Até aquele momento tudo aquilo parecia ser somente sobre mais uma consultoria, um auxílio técnico e tecnológico para os militares cumprirem mais uma missão contra o grupo terrorista. Mas em questão de segundos toda a sua tranquilidade havia ruído. O coração passou a bater com mais força e seu peito parecia que ia afundar. O sorriso fraco se desmanchou por completo.
— Senhor, me passe todas as informações técnicas a respeito do covil desses desgraçados. Acho que tenho uma ideia de como ajudar a eliminá-los.
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