O telefone tocou e Marta se levantou da mesa ainda mastigando um pedaço de pão francês no desjejum. Ela alcançou o telefone ainda terminando de engolir e atendeu.

“Alô? Sim, sou eu.” Disse de forma sonolenta. Enquanto ouvia, Marta trocou a expressão de sono por uma de total alerta, o que despertou a curiosidade de Lilian, que até então mexia no celular enquanto comia seu cereal, como todas as manhãs.

"Aham. Diga... Ai, meu Deus." Disse Marta vagarosamente enquanto processava o que havia acabado de ouvir. Ela ouvia as palavras da pessoa do outro lado da linha com incredulidade.

”Mas, vocês têm certeza disso?” Ela perguntou enquanto Lilian se intrigava com o que poderia estar causando tanta tensão à sua mãe logo no início do dia.

“Está bem. Eu aviso. Obrigada.”

Desligou o telefone vagarosamente antes de se virar para Lilian. Marta estava pálida e sua respiração era rápida.

"Quem era no telefone?" A filha perguntou, percebendo o quanto a mãe estava atordoada. "O que aconteceu?" A garota insistiu, prostrando-se ao lado dela. Percebeu o olhar perdido da mãe encontrar-se com o dela. Marta solta o ar pesarosamente antes de responder.

"Era uma funcionária da clínica da sua tia Alice. Ela atacou um enfermeiro e fugiu."

Lilian não soube como reagir à essa informação. Ela e a mãe nunca falavam sobre a tia ou o que havia acontecido anos antes. Um calafrio lhe percorreu a espinha, mas não deixou a mãe perceber. Distraiu-se lavando a cumbuca que usou. "A polícia já está atrás dela, não precisa se preocupar, querida, mas fique atenta ao longo do dia". Deu-lhe um beijo na testa, retirando o resto da louça da mesa do café.

"Está bem..." Ela sorriu para a mãe, secando as mãos na roupa antes de pegar a mochila e se despedir. Apesar do que disse, a notícia havia impressionado a menina.

Lilian chegou no ponto de ônibus sem nem ter percebido o caminho pelo qual ela havia passado. Estava tão imersa em seus pensamentos que entrou em um estado automático ao seguir o seu rumo para a escola. Fazia muito tempo que ela não pensava na tia. Era um assunto que causava desconforto dentro de casa e, por isso, era evitado ao máximo.

Lilian não tinha nenhuma memória de sua tia Alice. As únicas coisas que sabia eram aquelas que sua mãe havia lhe contado ao longo dos anos. Alice era a irmã de sua mãe que estava internada em um hospital psiquiátrico desde que Lilian tinha um ano de idade. Alice vivia muito próxima de Marta e ajudava muito nos cuidados com Lilian, até o dia em que teve um surto psicótico e sequestrou o bebê por algumas horas alegando que era a mãe legítima. A polícia havia conseguido encontrar e recuperar Lilian rápida e eficientemente. Alice foi internada no hospital onde esteve por treze anos, até a madrugada anterior.

Lilian chegou na escola e as suas atividades a fizeram esquecer o que estava acontecendo. O contato com os colegas e as aulas contribuíram para que ela tivesse um dia bom e agradável. Ela voltou para casa pensando em outros assuntos mais leves e descontraídos.

Quando chegou em casa, encontrou em cima da mesa da cozinha um pequeno pedaço de papel escrito “Espero que goste do almoço”. Estranhou que a mãe não havia colocado nenhum coração mal desenhado ou um rosto feliz no bilhete como sempre fazia, mas se lembrou do quanto ela estava tensa antes de sair para o trabalho. Lilian abriu a geladeira e sentiu o cheiro de carne de panela, a receita que a avó fazia. Desfrutou de um bom prato enquanto assistia à sua série favorita na televisão da sala. O sofá, o almoço, o programa, tudo começou a embalá-la em um sono calmante. Decidiu por ceder a ele, deixando o prato sujo de molho de carne em cima da mesa de centro. Não se importou em ligar o despertador — sabia que a mãe chegaria a qualquer momento e não deixaria que ela passasse da hora. Fechou os olhos e sonhou.

Sentiu os dedos da mãe passeando por entre seus cabelos e sorriu. Abriu os olhos e viu que ela já havia levado o prato sujo de comida para a cozinha e a TV havia sido desligada. Continuou deitada e fechou os olhos novamente.

“Alguma novidade da tia Alice?" Perguntou, sentindo o conforto do carinho.

"Ainda não."

A voz da mãe soou diferente do normal, como se estivesse preocupada, resfriada, ou mesmo tivesse acabado de chorar. Abriu os olhos e viu na TV desligada o reflexo de sua mãe atrás dela ainda acariciando sua cabeça. Enquanto a imagem ainda estava entrando em foco, percebeu que Marta estava um pouco mais magra, com olheiras profundas e os cabelos castanhos agora estavam desbotados. Quando finalmente sua visão estava nítida, viu a porta da casa se abrir e sua mãe chegar da rua com uma expressão de pavor em seu rosto.

Notas finais
curtiram?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!