Irmão de Sangue

1 Duas cabeças


Notas iniciais
Boa leitura!!

As presas de Alekai eram afiadas como navalhas.

Compridas e curvadas, eram tão grandes que não cabiam em sua boca. Sangue pingava no chão, gota e gota e gota e gota, e ele sorria como se nada estivesse errado, lábios inchados e vermelhos contornando um retrato sangrento de dentes. O sorriso dele era tão largo que só fazia aumentar os cortes. Com braços abertos e olhos brilhantes, tão vermelhos quanto o próprio sangue, ele estava ali. Bem ali. Esperando.

Nikolai nunca havia visto alguém tão belo. Ele estava parado. Só parado. Olhando. Olhando e se perguntando como era possível. Porque Alekai não deveria estar ali. Alekai não deveria expor suas presas daquela forma. Não deveria esconder-se sob aquela fantasia do humano que ambos não eram.

E, mesmo assim, lá estava. Lá estava ele, lindo, tão lindo, e real como não podia. Nikolai o encarava em choque. Trêmulo, a respiração errática, sentia-se perdidamente aterrorizado pela mera possibilidade de mover-se e fazer a visão desaparecer. Porque Alekai estava lá, ele estava lá, esperando por ele, sorrindo para ele, e Nikolai não poderia arriscar destruir tudo. Fazer com que o mundo voltasse a girar. Não, não, não podia, não podia.

Mas ficar ali, parado, era talvez tortura ainda maior. Suas mãos queimavam com a vontade de tocá-lo, o coração doía com a necessidade de tê-lo outra vez em seus braços. Não conseguia acreditar no que via: ter Alekai bem ali, mais belo do que na memória e mais real do que nas histórias. Inúmeras lembranças inundavam sua mente, recordando-o do tempo em que eram inseparáveis: o toque de suas mãos umas nas outras e a maciez de seus beijos, o contraste da pele lisa com as escamas ásperas, o subir e descer de seu peito com a respiração poderosa. Alekai era magnífico como Nikolai jamais seria, mas ele não ligava. Nikolai aceitava ficar à sua sombra, desde que pudesse manter-se próximo dele.

Isso era tudo o que queria: estar próximo. Nikolai só queria estar perto de Alekai novamente. Durante toda a vida, os dois eram como um, tão fortemente unidos que pareciam uma única alma partida em duas. Até o dia em que não eram mais. E Nikolai ficou sozinho. Incompleto.

Quebrado.

Alekai o via. Via o conflito em que Nikolai se inseria, e inclinou a cabeça, sangue escorrendo por seu queixo e pingando, pingando, pingando no chão. E ele riu, tão suavemente que parecia o reverberar de um sonho. Ainda com os olhos cravados em Nikolai, esperando-o, seus lábios moveram-se pelas presas e dentes, sem emitir nenhum som:

Venha cá.

Então Nikolai estendeu uma mão e tocou o rosto rasgado de sorrisos falsos. Sua pele era mais fria que a própria morte, lisa como ele se recordava.

Alekai não desapareceu.

E Nikolai atirou-se nos braços de seu irmão.

Permitiu-se ser dominado pelo choro. Abraçava-o com tamanha força que, para qualquer outra pessoa, seria doloroso. Mas não para Alekai. Não, Alekai era forte e abraçava Nikolai com igual intensidade. Suas mãos subiam e desciam pelas costas de seu irmão mais novo, garras deslizando sobre a finura das roupas, e os lábios franziram-se para beijar-lhe a cabeça, presas arranhando a pele sob os cabelos.

Nikolai chorava alto, soluçando gritos e mágoas que por tanto tempo se fizera esconder. Logo ele, logo ele que de tudo fazia para esconder o que sentia e pensava, tentando cada vez mais fazer-se um monstro à visão dos outros. Um monstro, sim. Frio e cínico, arrogante, egoísta, até mesmo cruel. Não o garoto frágil que todos pensavam que ele era, ou a criança boba, ingênua, de sorrisos tímidos e olhos brilhantes que ele fora um dia. Nikolai chorava pela atrocidade que as circunstâncias o forçaram a se tornar. Chorava pela saudade que se fazia tão excruciante dentro do peito. Buscava no aperto de seu irmão o conforto em saber que não estava mais sozinho, que haveria alguém para apoiá-lo. Mas não só por isso.

Chorava, principalmente, pelas lembranças. Pela lembrança do dia em que foram traídos, Alekai arrancado pelas mãos abomináveis de alguém que um dia chamaram de amigo. Nikolai se lembrava do sol que brilhava tão escuro quanto a própria treva, do sangue assombroso que manchava o chão.

Da mesma forma que manchava-o agora. Ainda tremulante, frágil como o que amaldiçoava-se por ser, Nikolai afastou-se de Alekai apenas o suficiente para que pudesse olhá-lo. Em momento algum Alekai deixara de sorrir, suas presas abrindo rasgos em seu rosto, sangue pingando nas roupas, nos sapatos, no chão. Nikolai não se importava. Levou as mãos pequenas ao rosto frio de Alekai e sentiu a face úmida. Deslizou os polegares pela secura das bochechas e lhe devolveu a cor à face. E Alekai era lindo, tão lindo...

— Eu senti tanto a sua falta — murmurou o mais novo, não mais que um suspiro cálido contra lábios gélidos. Segurava o rosto do irmão como se ele mesmo fosse se perder do mundo caso o soltasse; as unhas deslizavam levemente sobre a pele como que para a todo momento ter a certeza de que ele ainda estava lá.

— E eu senti a sua. — Alekai continuava sorrindo, os olhos fixos nos de Nikolai. Inclinou-se para a frente para depositar um pequeno beijo cheio de ternura sobre o nariz fino de seu irmão; as pontas das presas arranharam sua boca e Nikolai estremeceu. — Você cresceu.

— Você diminuiu. — Os lábios de Nikolai se contorceram em algo que era um misto de riso e choro, e ele continuou a deixar que as lágrimas escorressem de seus olhos.

Permaneceram ali, parados e em silêncio, encarando-se, por mais vários segundos. Se continuassem assim por toda a eternidade, Nikolai estaria feliz. Mas as garras de Alekai continuavam subindo e descendo, subindo e descendo, cortando os trajes e arranhando as costas, subindo e descendo, subindo e descendo...

Tomado pela emoção novamente, Nikolai se jogou outra vez contra o corpo do irmão, escondendo o rosto em seu ombro e repetindo Alekai, Alekai, Alekai, Alekai como se assim fosse firmá-lo na realidade, convencer o mundo de que ele estava realmente lá; um mantra. E o próprio Alekai, de olhos fechados e cabeça torcida para o lado, ouvia em êxtase o contínuo sussurrar de seu nome.

Mas suas unhas eram também afiadas como facas, e seu vai e vem ininterrupto arrancavam aos poucos a pele que cobria as costas de Nikolai em cortes finos, cortes longos, cortes que marcavam, doíam, queimavam. E quando o outro tentou afastar-se, quando de leve empurrou-se para longe do irmão, as garras de Alekai cravaram-se em suas costas para mantê-lo lá.

— Você está me machucando... — Nikolai sussurrou, vacilante, sentindo o próprio sangue traçar as linhas de sua coluna, vértebra por vértebra, enquanto Alekai descia as mãos para baixo de suas escápulas, costela por costela.

— Estou, Nikolai? — Sua voz era doce, silenciosa, algo destinado a apenas um par de ouvidos. Inclinou a cabeça para que pudesse sibilar para Nikolai, e as presas contorcidas arranhavam sua nuca: — Estou tornando-o de volta no que jamais deveria ter deixado de ser.

Nikolai hesitou. Queria dizer que não, que Alekai estava errado. Nikolai continuava o mesmo de antes. Jamais deixara de ser o que deveria ter sido. Mas algo dentro dele lhe tirava as forças. Nikolai nunca contrariava Alekai. Alekai estava sempre certo. E suas unhas rasgavam suas costas, rasgavam sua carne, pintando no lugar um par de asas carmesim.

O menor silvou e arqueou as costas, ele mesmo cravando as unhas compridas nos ombros do irmão. Seus peitos se tocavam, e ambos conseguiam sentir a respiração um do outro. Não o bater dos corações, contudo. Não havia nada sob a pele fria de Alekai.

Nikolai olhou ao redor, ainda nos braços do irmão, procurando uma saída. Uma rota de fuga, uma sombra, alguma coisa que pudesse tirá-lo dali. Não entendia o que estava acontecendo; tinha de ir embora. Alekai nunca o machucaria. Alekai não o poderia estar fazendo agora. Nikolai tinha de ir embora e encontrar o verdadeiro Alekai.

Mas não havia nada, nada, nada ao seu redor. Subitamente percebeu que não havia nada no mundo — não havia sombra, não havia luz. O mundo era nada, não havia nada no mundo, porque Alekai era seu mundo todo.

— Eu costumo ter pesadelos em que você volta. — Suas palavras eram baixas, muito baixas. Não mais que tristes, trêmulas respirações murmúrias.

Alekai não entendeu. Ergueu uma sobrancelha.

— Por que pesadelos?

— Porque quando acordo, vejo que tudo não passava de mentiras.

Com isso, sorriu. A face frágil e tão vulnerável de Nikolai, que encarava-o com olhos desolados, acalentaram-lhe o coração de maneira inimaginável. Alekai deslizou as mãos pelo corpo menor novamente, subindo a esquerda, a dominante, à sua nuca. Puxou-lhe os cabelos para que Nikolai não tivesse escolha senão encará-lo. Nikolai rangeu os dentes, insistentemente resistindo à dor e negando-se maior submissão. Era exatamente o que Alekai queria. O irreverente, atrevido, desdenhoso. O monstro.

— Então me traga de volta, Nikolai.

Eu quero te trazer de volta, Alekai.

— Éramos o dragão de duas cabeças.

O dragão de duas cabeças.

— E Roma me tirou de você.

Roma te tirou de mim.

— O seu irmão de sangue.

O meu irmão de sangue.

— E nunca mais seremos um.

Nunca mais seremos um.

— E é tudo culpa dele.

É tudo culpa dele.

Era Roma, era Roma, tudo era culpa de Roma. O amigo, o traidor, o inimigo. Aquele que bebera com eles, comera com eles, aquele com quem Nikolai e Alekai dividiram a vida. E aquele que tirara-lhes a vida, de Alekai, de Nikolai, de ambos, de si mesmo, era Roma, era Roma, era Roma, e Nikolai odiava-o tanto, Nikolai queria-o morto, eu quero-o morto, quero que grite e que chore e que peça perdão de joelhos enquanto arranco-lhe os dedos, tiro-lhe os olhos, queimo-lhe a língua. Quero-o morto—

Garras retorcidas contra o rosto de Alekai.

Quero-o vivo—

Traga-me de volta.

Quero-lhe o corpo—

A carne das bochechas não passava de cordas tentando esconder os dentes.

Quero de novo—

Traga-me de volta.

Quero que a morte—

Unhas rúbeas desenhando lábios róseos.

Devolva-lhe a vida—

Traga-me de volta.

Alekai—

Traga-me de volta.

Alekai—

Traga-me de volta.

Alekai—!

Traga-me de volta.

— Alekai!

Subitamente estavam ambos gritando, rosnando e rugindo como as duas feras que eram. Suas unhas torcidas arranhavam e cortavam tudo o que encontravam, destruindo roupa, pele, músculo. As presas longas, tão enormes e tortas, mastigavam ossos e permitiam às línguas que saboreassem o gosto férrico do sangue que compartilhavam. Os dois atacavam-se com a fúria das criaturas reprimidas que por tanto tempo foram forçados a esconder, mas que agora emergiam e traziam consigo a destruição deles próprios. As escápulas de Nikolai deturpavam-se ao dar lugar a ossos pontiagudos que perfuravam o corpo e cujas cartilagens não passavam de tecidos disformes. Os dedos alongavam-se para adequarem-se às garras, os dentes afiados cortavam a pele do queixo.

Alekai, da mesma forma, parecia a todo momento cada vez mais desfigurado. A metade esquerda do rosto não era nada além de caos vermelho, os fios brancos que restavam da tez decorando o brilho de seu sorriso úmido. As presas tortas procuravam o corpo de Nikolai ao mesmo tempo que riam, riam, riam como no dia mais feliz de sua vida. As pontas de suas unhas multiplicavam-se com o quebrar das garras contra ossos.

Eram tão lindos. Porque eram o dragão de duas cabeças e, para tal, deveriam livrar-se dos corpos que os impediam de tornar-se o que jamais deveriam ter deixado de ser. Porque Alekai era Nikolai, mas Nikolai não era Alekai, e em suas distinções eles eram um só.

Assim atiçavam e mordiam um ao outro, sangue cobrindo-os e dando cor à pele branca, aos cabelos brancos. Devoravam-se. Como predadores destinados à disputa pela soberania, arrancavam do corpo alheio as partes que queriam, tragavam o cheiro que já lhes era tão familiar, lambiam os lábios, engoliam carne. As vísceras de Nikolai vazavam do corpo, sangue pingando insistentemente de suas entranhas enquanto Alekai contornava sua forma com dedos firmes e o rasgava ao meio com garras aberrantes. Os olhos de Alekai eram um negrume na face, chorando lágrimas escuras de puro deleite enquanto Nikolai deslizava os lábios por suas costelas expostas e arrancava do peito o coração morto.

O dragão de duas cabeças.

Dois monstros em um único corpo.

Nikolai avançou contra a garganta de Alekai, provando com a língua o gosto do sangue misturado ao suor antes de cravar as presas retorcidas nas artérias. Sua mão moveu-se para agarrar os cabelos da nuca, assim como Alekai antes fizera com ele. Abocanhou outra vez e outra vez, até a cabeça desprender-se do corpo com fios de músculos estourando e veias fazendo jorrar sangue gélido em seu rosto.

E de repente era tudo novamente como naquele dia. Sangue acumulava-se no chão de mármore adornado ao redor do corpo sem vida de Alekai, que o encarava com olhos mortos. Olhos mortos, mortos, tão mortos, tão mortos, e Nikolai ouvia a si mesmo gritar e gritar porque havia sangue em suas mãos, em seus joelhos, em seu irmão, em seus cabelos, e Alekai estava morrendo e o sangue estava em suas mãosnãonãonão, o sangue estava nas mãos daquele que ao longe o encarava com o olhar indecifrável—

Nikolai fora traído, e Alekai fora traído, e ambos não eram mais um, pois já não havia dois e nada mais estava certo. O sol brilhava tão forte, tão forte, e mesmo assim tudo era tão escuro, tão escuro, e o mundo estava quebrando, piscando, quebrando, acab

an

do

.

.

.

Nikolai acordou no escuro. Imaginou ter visto uma sombra silhuetada ao seu lado nos lençóis. Saiu da cama e caiu às trevas — aquelas que lhe traziam apenas conforto. Emergiu na mais completa escuridão e abraçou os ossos que um dia pertenceram a seu irmão.

Notas finais
... na minha cabeça isso tudo teria por volta de suas 6k palavras, mas estamos aqui, risos. (não que eu esteja reclamando, já está de bom tamanho) Espero que tenham gostado! ♡ Novamente, essa fic foi uma espécie de experimento meu com um estilo relativamente diferente do meu habitual e algumas técnicas novas. Ficaria imensamente agradecida se você pudesse me enviar um comentário com a sua opinião! Quero muito saber se isso tudo aqui está tão bom ou tão ruim quanto na minha cabeça. Algumas notinhas importantes: — Não adicionei a tag "incesto" nos avisos da história porque esse é um detalhe que varia com a interpretação de cada um (pelo menos eu espero, né) e talvez pudesse ser um spoiler indesejado. — Nikolai e Alekai são seres semi-humanos e semi-dragões, que podem manipular a escuridão e são capaz de criar formas, e até se transportar de um lugar para o outro, por meio de sombras. Não consegui encaixar esse detalhe na história, então peço desculpas se ficou um tanto confuso. — Falando em confusão, algumas passagens são, sim, ambíguas. Quis deixar o entendimento dessa história bastante maleável, dependendo da interpretação de cada leitor. Há frases em que parece que é o Nikolai quem está realizando a ação quando na verdade é o Alekai e vice-versa, ou em que não fica claro qual dos dois está agindo. Foi proposital - pelo menos a maioria. Como estou tentando algo novo, talvez nem tudo tenha dado muito certo, então é muito importante que você me diga se algo pareceu errado ou foi incômodo nesse sentido para você ♡ — nikolai is my precious sinnamon roll and i love him so much — alekai is just a douche Bem, acho que é isso! Espero de todo o coração que vocês tenham gostado, escrevi essa história com muito carinho e̶ ̶m̶u̶i̶t̶o̶ ̶s̶a̶n̶g̶u̶e̶ ̶s̶u̶o̶r̶ ̶e̶ ̶l̶á̶g̶r̶i̶m̶a̶s̶,̶ ̶c̶o̶m̶o̶ ̶d̶e̶u̶ ̶p̶r̶a̶ ̶v̶e̶r̶ Por favor comente com a sua opinião, nem que seja um gostei ou não gostei pra ficar gritando no caps comigo ASHGDVJBNCDS ♡ Até a próxima! ♡ (tavatentandoescreveressadesgraceiradesdeofinaldeagostonãoacreditoqueconseguiterminaristhisthereallife)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!