Irmandade e Morte
1 Prólogo
Notas iniciais
Thor batia seu martelo.
E o som dos trovões criava um ritmo violento no mar do norte, aonde a única iluminação vinha dos relâmpagos que desciam implacáveis das nuvens até atingirem o litoral negro, como faíscas gigantescas. E bem ali, em meio à chuva e ao vento gelado, um exército de bestas de madeira saltava as ondas com precisão, carregando uma horda de guerreiros inquietos em suas costas. Embarcações de guerra com cabeças de águias, corvos, dragões, e serpentes, lotavam aquele trecho do mar. E enquanto o deus do trovão continuava sua canção de batalha, os homens do norte que navegavam nas bestas de madeira gritavam em júbilo e desafio.
Hakon era um deles, um dinamarquês que havia sido criado entre combatentes, um verdadeiro senhor da guerra. Ele era alto, e seu torso estava coberto por uma cota de malha pesada de elos firmes. Seus antebraços eram adornados com vários braceletes de prata e ouro, denunciando sua importância. Seu elmo metálico refletia a luz dos lampejos, enquanto seus cabelos pretos desciam bagunçados pelos lados de sua cabeça. Sua barba escura abrigava uma bocarra sorridente, pois ele era um homem que havia lutado em incontáveis batalhas ao lado de seu rei e senhor, Svend Tveskæg, o comandante de toda aquela grande investida contra o país saxão. E naquela noite, ele seguia seu rei até uma fonte de riquezas sem fim, através de um mar assassino que todos ali conheciam bem.
— Por que está sorrindo, senhor? — gritou um rapaz franzino que se encolhia ao lado de Hakon, tentando fazer com que sua voz ultrapassasse a força dos trovões de Thor, enquanto se escondia em suas vestes escuras de sacerdote cristão. — Por que todos estão sorrindo? — Ele olhou para os lados, onde a tripulação inteira do belo barco de guerra do rei, o Havuhyre, sorria. — Não faz sentido!
— É a loucura, padre! — respondeu Hakon, virando seu sorriso alvo para o padre Godric, que parecia estar sendo castigado pelas gotas frias que eram atiradas em seu rosto pelo vento, apesar de estar usando um capuz. — É a loucura do mar! Um saxão frouxo como você não poderia entender! — Hakon arriscou largar seu ponto de apoio e caminhar sem cautela para a direita, e Godric, tremendo de frio, o seguiu. — Veja padre! — O velho guerreiro apontou para o barco que navegava à direita do Havuhyre. — Veja aquele bastardo!
Ao lado da embarcação real, um segundo navio abria caminho entre as ondas tempestuosas, com uma cabeça de dragão negro guiando o barco, e um sujeito corpulento de cabelos ruivos se erguendo perto da proa, com os braços abertos e espada desembainhada. Aquele homem rugia desafios para o mar, como se fosse capaz de combater até mesmo a ira dos deuses.
— Torvaldr, seu bastardo! — urrou Hakon, chamando a atenção do dinamarquês de cabelos rubros. — Desça daí seu imbecil! Ou vai acabar no fundo do mar!
— Os deuses não vão me levar, Hakon! Eu ainda tenho muitas almas saxãs para enviar ao paraíso cristão antes de morrer! — Torvaldr apontou a ponta de sua espada para o padre Godric. — O padre está aí com você? Ótimo! — O guerreiro ruivo olhou para sua tripulação. — Digam ao padre saxão o que faremos com os homens da ilha dele!
E os dinamarqueses de Torvaldr imitaram seu capitão, sacando suas espadas e machados, e erguendo as armas para o céu escuro enquanto rugiam como bestas. Pois eles eram os dragões do Svartrforað, o monstro negro, e levavam morte aos inimigos de seu rei.
— Viu isso, padre? — Hakon riu para Godric, que tremia ao seu lado. — Isso é a loucura do mar. Os homens sabem que podem morrer e não há certeza de que vamos sobreviver a essa maldita tempestade. Então não nos resta nada a fazer além de abraçar a loucura como se fosse uma velha amante, e gritar para os deuses!
— Senhor Úlfr não parece ter abraçado essa loucura — observou o padre, com sua língua afiada, se referindo ao capitão do navio que corria pelas águas noturnas do lado esquerdo do Havuhyre.
Úlfr de fato era o mais quieto entre os senhores de guerra e os capitães da grande frota do rei Svend, mas quem olhasse para seu rosto sombrio não encontraria medo da morte, e sim a quietude do caçador que aguarda pacientemente o momento de atacar sua presa, uma presa que residia do outro lado do mar. Diferente de Hakon, Úlfr tinha cabelos dourados e barba clara, mas o metal que cobria seu corpo, as espadas que carregava em seu cinto, e as joias que levava em seus antebraços, deixavam claro que aquele era um homem igualmente poderoso, o capitão do Silfrdraugr, o fantasma prateado. E assim, lado a lado, os três capitães, Hakon, Torvaldr, e Úlfr, lideravam a frota do rei dos dinamarqueses naquela tempestade aterrorizante.
— Senhor! — Um dos guerreiros de Hakon abriu caminho entre seus companheiros, chegando a tropeçar duas vezes, por conta de sua pressa. — O rei deseja vê-lo, senhor!
— Muito bem, padre! — O velho guerreiro deu uma batida amigável no ombro direito de padre Godric, um gesto que quase fez o sacerdote ser atirado contra outro membro da tripulação. — Aguente firme, pois eu voltarei em pouco tempo, então não há perigo de você ser sacrificado por esses pagãos.
— Pagãos? — Godric franziu o cenho, perplexo. — Mas o rei me assegurou de que, com exceção do senhor Hakon, todos os membros da tripulação do Havuhyre foram batizados! Ele me assegurou!
— Não é um banho e um livro sagrado que farão esses homens trocarem nossos deuses pelo seu cristo, padre. — Hakon riu. — Ao menos não no mar. No mar, nossos deuses reinam!
Padre Godric fez o sinal da cruz, pois assim que o capitão terminou de falar, o som ensurdecedor de um trovão preencheu o ar em volta da frota dinamarquesa. De forma que até mesmo o sacerdote cristão teve medo de que Thor estivesse lhe mandando uma mensagem naquela noite escura.
E Hakon riu enquanto andava até o aposento do rei.
Pois o Havuhyre possuía um aposento, algo que só era permitido por conta de seu tamanho anormal. Ele era um barco largo, com casco veloz, mastro alto, um leviatã cinzento de olhos rubros decorando a proa, trinta e seis pares de remos, e com uma cobertura na popa que era fechada nas laterais por várias placas grossas de madeira. E era naquela cobertura que ficava o quarto improvisado de rei Svend, proporcionando alguma solidão para o homem que comandava diretamente aquela tripulação com mais de oitenta guerreiros, sem contar os outros dinamarqueses dos outros barcos.
Quando Hakon enfim passou pela entrada do aposento, que era selada por uma cortina pesada e escura, encontrou seu rei e senhor sentado em uma cadeira negra, com as costas arqueadas para frente, como se o peso de todos aqueles anos de espadas e escudos finalmente tivesse alcançado seus ombros. Rei Svend possuía quarenta e três anos, uma idade que poucos homens que o serviram haviam alcançado. Ele tinha um rosto marcado por décadas de conflitos, com um cenho constantemente franzido que passava a impressão de que ele estava sempre irritado com alguma coisa. Seus cabelos, uma vez dourados como o próprio sol, agora estavam cinzentos, voltados para trás. A mesma cor residia em sua barba grossa, que se bifurcava perto do fim de sua extensão. Ele tinha o lábio superior escondido pelo bigode, o que apenas adicionava um ar ainda mais furioso em sua face severa. Seus olhos azuis e cerrados costumavam viajar de um canto a outro dos ambientes que ele visitava, sempre vigilante. Mas naquela ocasião, rei Svend apenas observava com desinteresse a pequena cruz de ouro e prata que dançava pelos dedos de sua mão direita, como se o amuleto fosse apenas uma das várias moedas que ele mantinha em seu tesouro.
— Está rezando para o deus cristão? — perguntou Hakon, se aproximando de seu senhor com um tom displicente que só seria perdoado por conta da amizade dos dois.
— Você desaprova? — Svend encarou seu amigo com o cenho franzido, deixando sua voz naturalmente impostada tomar conta do aposento. — Não é diferente das preces que fazíamos para os deuses durante as tempestades no mar, tempestades iguais a essa.
— Não desaprovo. O senhor rei pode fazer o que quiser. — Hakon bocejou. — Mas eu estaria mentindo se dissesse que o deus cristão não me incomoda.
— Você sabia que o deus cristão também exige sacrifícios, Hakon? — O rei riu ao ver que sua pergunta tomou a atenção do velho guerreiro. — Ele sacrificou o próprio filho, por nada mais nada menos do que um reino nos céus, um reino para os homens justos e bondosos.
— É isso que o senhor rei deseja? Tomar o reino dos céus?
— Não, até mesmo a minha ambição possui limites. — Svend apertou a cruz metálica até que sua pele fosse machucada pelas pequenas pedras preciosas que decoravam a peça, deixando uma gota grossa de sangue escorrer por sua mão. — O que eu desejo é o reino do saxão covarde que matou Gunnhild.
— Também teremos que fazer um sacrifício por isso, senhor rei?
— Sim. — Svend soltou um sorriso macabro que seria capaz de assustar até mesmo Jörmungandr, a serpente do Ragnarok, de volta para as entranhas do mundo. — Eu farei sangue saxão chover no reino de Æthelred, e então o deus que compartilho com ele saberá que meu sacrifício foi feito, e saberá que eu espero minha recompensa.
E em algum lugar do reino de Æthelred, as pessoas rezavam ao seu deus por piedade e salvação. Pois graças ao rei dos saxões, a irmã do rei dinamarquês Svend estava morta. E a Inglaterra inteira, mais uma vez, veria os horrores do norte se espalharem por todo o país.
Notas finais
Próximo capítulo: Filhos da Tempestade
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