Notas iniciais
Olá shieldmaidens e shieldbrothers o/ Dessa vez não é a Vic (Mas esperem! Não saiam ainda!) que está aqui :v Então pessoal, estou passando aqui pra fazer um pedido bem rápido antes do capítulo. Precisamos da ajuda de vocês pra continuar divulgando a história e atrair cada vez mais membros pra nossa tripulação de vikings divônicos e destruidores. Mas calma, não estamos pedindo pra vocês saírem por aí divulgando IeM por toda parte hiauahiauhaiuahaiuahiau. Tudo o que pedimos é que, caso gostem da história, deixem a categoria em que IeM está nos seus acompanhamentos visível. Pode não parecer, mas isso já é uma ajuda muito grande quando estamos divulgando a fic. E claro, queremos agradecer a todos que já comentaram/favoritaram/acompanharam a história até aqui. Vocês todos tem um espaço guardado nos nossos corações :) Agora sim, fiquem com o capítulo 4 o/

No início, tudo o que havia era o silêncio.

Ealdorman Ulfkell e sua tropa doméstica, formada por cem dos melhores guerreiros de Ânglia Oriental, aguardavam pacientemente o aviso dos batedores, que deveriam anunciar o momento ideal para realizar o ataque. Os homens do ealdorman estavam escondidos entre as árvores da floresta, suficientemente longe do litoral para que os dinamarqueses não notassem suas presenças, mas perto o suficiente para atacá-los antes que partissem em seus barcos de guerra. E não seria exagero dizer que os seguidores de Ulfkell estavam ansiosos para um combate, pois eles eram homens experientes no campo de batalha, homens que vestiam cotas de malha pesadas e que portavam espadas sedentas por sangue nórdico, homens que montavam cavalos corpulentos e rápidos, os guardiões de Ânglia Oriental. Em Wiltuna, esses cem guerreiros haviam tido sua chance de matar dinamarqueses frustrada pela retirada do exército saxão, mas agora, sob o comando direto de seu ealdorman, aqueles homens não tinham mais motivos para conterem sua fúria.

O único que parecia nervoso era Eadgar, o mais jovem entre os cavaleiros, e o único filho de ealdorman Ulfkell. Mas o nervosismo do jovem vinha de seu anseio por descobrir como se sairia em uma batalha, e não do receio da luta ser perdida. Afinal, todos ali confiavam cegamente na capacidade do ealdorman, que na ocasião estava vestido como um verdadeiro senhor da guerra, com cota de malha feita de elos grossos e banhada em ouro, com braceletes largos reforçados por placas metálicas que protegiam praticamente todo o antebraço, uma calça preta de tecido grosso, botas negras de cano alto, uma capa feita com pele escura descendo de seus ombros largos, e portando um elmo de aço que protegia todo o topo de sua cabeça, os lados da face, e a nuca, com uma guarda nasal em formato de cruz e com detalhes dourados. Todos esses equipamentos eram acompanhados pela postura imponente do ealdorman, que já havia liderado seus homens durante inúmeras situações semelhantes, desde que as incursões dinamarquesas haviam começado a castigar a Inglaterra novamente.

— Você está inquieto — observou Ulfkell, olhando para seu filho.

— Vou superar isso — respondeu Eadgar, em voz baixa. — Não se preocupe.

— Não quero você na linha de frente caso tenhamos que fazer uma parede de escudos. — O ealdorman sorriu ao ver o olhar indignado do filho. — Eu confio em você, Eadgar, mas não quero você se jogando para a própria morte logo na sua primeira batalha. Por isso você vai ficar na segunda fileira, e aprender. Além do mais, se depender de nosso rei, nós ainda teremos muitas batalhas para lutar.

— Sim, senhor — disse Eadgar, desfazendo seu cenho franzido.

E em algum lugar da floresta, um par de pássaros cantou, um cavalo bateu uma de suas patas no chão coberto de folhas, um homem pigarreou, e as árvores se moveram com o ritmo do vento.

— Você sabe por que estamos lutando, Eadgar? — perguntou Ulfkell, surpreendendo o filho com a pergunta repentina.

— Para puni-los pelos ataques dos últimos dois anos? — arriscou o jovem.

— Não, não se trata apenas dos ataques dos últimos dois anos, Eadgar — continuou o ealdorman, paciente. — Se trata dos ataques desses anos e dos anos anteriores, dos ataques que sofremos desde antes da época de rei Ælfred, e antes mesmo da Inglaterra se tornar um único reino sob o estandarte de rei Æthelstan. — Um fervor súbito surgiu na voz de Ulfkell, apesar dele continuar usando o mesmo tom de voz baixo. — E é por isso que nós lutamos Eadgar. Nós lutamos para preservar esse reino, para preservar o pouco de ordem que ainda nos resta nessa terra que nossos antepassados lutaram para manter.

Eadgar abriu a boca para falar alguma coisa, mas a atenção de seu pai e dos outros guerreiros foi tomada por alguns cavaleiros que surgiram apressados, aparecendo da direção do litoral. E compreendendo o significado do retorno dos batedores, os homens de Ulfkell sorriram.

Pois enfim havia chegado a hora de contra-atacar.

***

— Você é vergonhoso — resmungou Torvaldr, falando com o jovem de cabelos negros que continuava a chorar no chão arenoso, ao lado dos demais escravos. — Já está quase anoitecendo, garoto. E você continua aí, chorando feito um padre que acabou de ter o tesouro roubado. É vergonhoso. — Ele suspirou ao notar que o jovem não havia entendido sequer uma palavra de suas ofensas, diferente de seu suposto irmão, que Úlfr havia levado para longe. — Se eu não precisasse tanto assim de moedas, eu te daria para meus homens agora, eles poderiam brincar de arremessar machados em você para praticar a mira, seria divertido.

Torvaldr olhou para o ambiente que o cercava, se arrependendo de ter decidido ficar para trás enquanto seu amigo Úlfr já deveria ter alcançado a frota do rei dinamarquês. Mas não havia muito que fazer quanto a isso, pois Torvaldr de fato desejava reunir mais tesouros, e usaria aquela chance para saquear vilarejos litorâneos enquanto os demais capitães dinamarqueses levavam seus barcos para a Ilha de Wit, deixando o ruivo sem muitos adversários.

Os membros de sua própria tripulação pareciam entretidos naquela noite que ele mesmo julgava tediosa, eles bebiam cerveja e cantavam uma das várias canções que os nórdicos usavam para aumentar o ritmo das remadas durante as jornadas marítimas. Mais adiante, perto do mar, um dos três barcos que haviam ficado para trás estava sendo preparado para seguir viagem, pois o capitão daquele bando decidira abandonar os dois companheiros e se aventurar pelas águas noturnas até encontrar a frota do rei. Os outros dois barcos, o Svartrforað de Torvaldr, e outro barco feito com madeira clara, estavam repousando sobre a areia da pequena praia, perto de onde o grupo de escravos estava ajoelhado. E os nórdicos das duas tripulações, que deviam ser pouco mais do que cento e quarenta homens, se espalhavam em pequenos grupos em volta de algumas fogueiras, conversando e compartilhando histórias, se forçando em cima de escravas saxãs, e se embebedando. Para Torvaldr, parecia mais um dia como qualquer outro no território inimigo.

Mas foi então que as cornetas cantaram.

E a fúria da Inglaterra caiu sobre os nórdicos.

Pois da floresta que antecedia o terreno da praia, surgiram dezenas de cavaleiros, saxões cobertos de metal, homens ferozes que montavam verdadeiras bestas de guerra, cavalos velozes que não hesitaram em obedecer ao comando de seus donos e partir para a batalha. Eles montaram três fileiras com formação firme e apertada, com uma linha atrás da outra, e com cada linha composta por guerreiros que seguravam lanças, espadas, e machados, guerreiros que cavalgavam com ódio e vontade de matar, guerreiros que gritavam em frenesi enquanto guiavam sua carga assassina para cima dos nórdicos.

Confusos, os dinamarqueses rapidamente se levantaram e correram para lugar algum, criando um pequeno tumulto que apenas serviu para dar mais confiança para a carga saxã. E percebendo que estava sendo atacado, Torvaldr não demorou a dar uma ordem para orientar sua tripulação.

— Homens do Svartrforað! — gritou o ruivo. — Para o mar! Para o mar!

E enquanto o som do galopar dos cavalos aumentava cada vez mais, os homens de Torvaldr o obedeceram sem hesitar, se apressando a se afastar dos demais dinamarqueses. Os nórdicos mais espertos correram para subir nos barcos, buscando algum abrigo que apresentasse um obstáculo para os cavalos, outro punhado de homens seguiu Torvaldr, mas a maioria simplesmente ficou paralisada pela surpresa, perto das fogueiras, enquanto o resto dos dinamarqueses correu em desespero para a parte oeste da praia.

Mas já era tarde demais.

E a carga saxã atingiu seus alvos sem piedade.

Tudo o que aqueles que conseguiram fugir ouviram foram os gritos de dor, os gritos de desespero que eram lançados no ar enquanto os saxões destruíam seus inimigos. Lanças foram apontadas para frente, perfurando crânios e estocando as costas daqueles que tentaram escapar no último instante. Espadas giraram de um lado a outro, fatiando sem misericórdia os corpos dos nórdicos. Machados desceram com força, partindo cabeças ao meio e fazendo sangue jorrar. E enquanto a primeira linha da cavalaria continuava avançando, as linhas de trás pisoteavam os dinamarqueses caídos, terminando o serviço de seus companheiros e enviando as almas dos invasores para o paraíso pagão que eles tanto almejavam.

Era confusão, um mar de horrores e pesadelos.

Era a retribuição.

Aproveitando-se do momento de distração de seus inimigos, que agora se preocupavam em abater o resto dos dinamarqueses que haviam permanecido perto dos barcos, Torvaldr reuniu os nórdicos que conseguiram escapar da carga, pouco mais de sessenta homens, a maioria membros de sua própria tripulação. E quando todos os dinamarqueses sobreviventes conseguiram se aproximar uns dos outros, entre o mar e a matança, o capitão ruivo gritou sua ordem o mais alto que pôde.

— Skjaldborg!

E os nórdicos obedeceram, formando uma parede de escudos.

Os sessenta dinamarqueses se dividiram em três fileiras de vinte pessoas, uma atrás da outra, erguendo seus escudos redondos com rapidez e firmeza. Em uma parede de escudos, os homens ficavam lado a lado, cada um usando seu escudo para proteger o homem da esquerda, e por sua vez, sendo protegido pelo escudo do homem da direita. As fileiras de trás também erguiam seus escudos, protegendo as cabeças de quem estava na fileira da frente, e compactando a formação de forma que pouquíssimas aberturas sobrassem. E quando o choque entre paredes inimigas ocorresse, os soldados da segunda linha empurrariam as fileiras da frente, e tomariam o lugar daqueles que caíssem na vanguarda, quando necessário. Enquanto isso, os homens das fileiras da frente tentariam usar as poucas brechas que conseguissem para estocar suas espadas e tentar perfurar seus inimigos.

E uma disputa entre paredes de escudos continuaria assim, entre empurrões de escudos e estocadas de espadas, até que uma brecha fosse aberta em uma das primeiras fileiras, e o grupo adversário se aproveitasse dessa abertura para entrar nas linhas inimigas, quebrando a parede de escudos oposta. Numa situação real, isso significaria a vitória, e também, o massacre do exército oponente. E embora os números dos dinamarqueses e dos saxões na ocasião não fossem grandes como nas batalhas mais famosas, uma parede de escudos serviria muito bem para proteger os nórdicos naquele momento, pois seria impossível para os saxões realizarem uma segunda carga de cavalaria daquela distância.

— Se preparem! — gritou Torvaldr. — Se preparem para matar esses ratos saxões!

— Blóð! — urraram os nórdicos, chamando pelo sangue de seus inimigos.

—Lembrem-se homens, apenas os guerreiros mais corajosos recebem a honra de entrar no salão de Odin! — continuou o capitão. — Então se um de vocês bastardos morrer como um covarde e sem uma espada na mão, vou usar seus malditos cadáveres para alimentar meus cachorros em Jutland!

— Blóð! — gritaram os dinamarqueses, dessa vez para afastar de uma vez por todas a hesitação.

— Mas vocês não vão me envergonhar, porque vocês são os dragões do Svartrforað!

— Blóð!

— E o que os dragões do Svartrforað desejam? — urrou Torvaldr.

— Saksere blóð!

— Então vamos matar esses ratos! — rugiu Torvaldr. — E pintar essa praia com sangue saxão!

E os nórdicos gritaram como as bestas do inferno, convidando seus inimigos para o combate.

***

— Desmontem! — gritou ealdorman Ulfkell, uma vez que seus guerreiros terminaram a matança. — Desmontem!

Os cem saxões de Ulfkell desceram de seus cavalos imediatamente, pisando nos cadáveres e nas poças de sangue fresco. A pequena multidão de escravos agora estava à esquerda dos guerreiros do ealdorman, tentando se arrastar pela areia. Os barcos encalhados estavam à direita, e pouco mais de duzentos passos à frente, os homens da parede de escudos dinamarquesa vociferavam palavras de desafio. Ulfkell foi o único que não apeou, e de cima de seu cavalo, resmungou um xingamento enquanto percebia o retorno da tripulação do terceiro barco nórdico, que estava sendo preparado para sair do litoral antes do anoitecer. Não demoraria muito para que aqueles homens se juntassem à parede de escudos inimiga, o que significava que o ataque surpresa do ealdorman não havia saído tão bem quanto ele esperava, pois agora seus oponentes estavam em maior número, e uma nova carga não teria efeito algum.

— Quantos homens? — perguntou Eadgar, se aproximando da montaria de seu pai com uma euforia evidente.

— Cento e vinte dinamarqueses — respondeu Ulfkell, com seu olhar furioso preso em seus inimigos. — Talvez cento e quarenta. — O ealdorman respirou fundo, removendo qualquer sinal de hesitação que pudesse estar surgindo em sua mente e em seu corpo. Depois disso, ele desceu de seu cavalo, e olhou para seus homens com ferocidade. — Preparem-se para batalha! — gritou Ulfkell, caminhando até a frente da multidão saxã. — Scildweall!

E os guerreiros de Ânglia Oriental se afastaram dos cadáveres mutilados, se apressando para formar sua própria parede de escudos, e urrando como feras enlouquecidas, mostrando que haviam aceitado o desafio dos nórdicos apesar de estarem em menor número. Liderando seus homens, Ulfkell continuou a gritar ordens aos seus homens, organizando as poucas linhas da parede de escudos saxã, que logo ficou com apenas duas fileiras de profundidade, e com cinquenta homens em cada linha, com os poucos homens restantes na retaguarda.

— Não fechem a formação! — ordenou o ealdorman, enquanto caminhava de um lado a outro da linha de frente. — Esperem o momento certo!

Eadgar, que estava na segunda fileira, sentiu seu coração bater cada vez mais rápido ao ver a terceira tripulação dos nórdicos enfim alcançar a parede de escudos inimiga. Os dinamarqueses recém-chegados rapidamente se juntaram ao flanco direito de seus aliados, fazendo uma formação praticamente idêntica e unindo as duas paredes em somente alguns instantes. Agora, a parede de escudos nórdica possuía sessenta homens em cada fileira, e três fileiras de profundidade. Os nórdicos estavam deixando claro para os saxões que eram maiores em número, que possuíam mais força, e que eram muito mais resistentes.

— Levantem as cabeças! — exclamou Ulfkell, assumindo seu lugar no centro da parede de escudos. — Vocês sabem o que fazer! Confiem em seus companheiros! Confiem em suas espadas! Confiem no sangue que corre em suas veias! E expulsem esses cães dinamarqueses de volta para o mar! — O ealdorman desembainhou sua espada e a apontou para seus inimigos. — Agora! Avancem!

E os homens gritaram, seguindo a ordem de seu ealdorman.

Para os dinamarqueses, o avanço da tropa doméstica de Ulfkell pareceu algo ridículo, pois os saxões simplesmente começaram a caminhar para frente com uma formação completamente aberta e aparentemente sem disciplina alguma, como se estivessem pedindo para serem mortos pelos homens do norte. Era como se aqueles cavaleiros ferozes tivessem se transformado em simples camponeses que não tinham conhecimento algum sobre a guerra. Isso foi incentivo mais do que suficiente para que os nórdicos rissem daquela postura patética de seus inimigos, e avançassem sua parede de escudos, mantendo sua própria formação compacta e ameaçadora.

— Continuem dispersados! — urrou Ulfkell, enquanto os dois grupos se aproximavam cada vez mais. — Continuem dispersados!

Eadgar suava frio, não porque duvidasse da força dos homens ao seu lado ou de sua própria força, afinal, o jovem filho do ealdorman sequer conseguia pensar durante aquela situação. Ele suava frio, pois a mera visão de um choque inevitável com uma parede de escudos inimiga era algo que despertava um medo incontrolável em qualquer homem, por mais corajoso que ele fosse.

— Continuem dispersados! — repetiu o ealdorman.

Agora os exércitos estavam a menos de cem passos de distância, e Eadgar conseguia escutar os gritos selvagens dos dinamarqueses, gritos que seriam capazes de partir o espírito dos inexperientes, gritos que faziam multidões correrem e cidades inteiras serem abandonadas.

— Atenção! — urrou Ulfkell.

— Blóð! — rugiam os nórdicos. — Blóð! Blóð! Blóð!

Eadgar respirou fundo.

O ealdorman tomou fôlego.

E então a batalha começou.

— Agora! — gritou Ulfkell, fazendo seus soldados levantarem os escudos. — Ponta de lança!

Ouvindo a ordem de seu senhor, os homens que formavam os flancos da parede de escudos continuaram no mesmo lugar em que estavam, enquanto os guerreiros do centro continuaram avançando até que a formação assumisse uma forma que lembrava uma ponta de lança. E então, quando a parede de escudos havia assumido o formato desejado, Ulfkell e seus homens aproximaram seus escudos, os guerreiros que estavam nas bordas mantiveram suas proteções lado a lado, e os soldados que estavam atrás desses homens levantaram seus escudos para proteger as cabeças de seus aliados, enquanto os demais saxões, que estavam aglomerados no centro da formação, usaram seus escudos para formar uma espécie de teto sobre a cabeça de todos os guerreiros. Normalmente, aquela seria uma formação que levaria muito tempo para ser realizada, mas os homens de Ulfkell a conheciam bem. E seguindo as ordens de seu comandante, os saxões formaram uma ponta de lança perfeita, em menos de cem passos. E agora, todos haviam unido seus escudos até que a formação estivesse com o menor número de aberturas possível, formando assim uma grande ponta de lança maciça feita de metal e madeira.

Confusos, os dinamarqueses que estavam de frente para a formação saxã hesitaram, mas não foram capazes de parar a própria parede de escudos, pois foram empurrados pelos homens das fileiras de trás.

— Agora! — rugiu o ealdorman, comandando sua tropa doméstica como um verdadeiro senhor da guerra, assumindo um lugar na ponta da formação, a posição mais perigosa em que alguém poderia ficar. — Agora!

E as paredes de escudos se encontraram.

O choque entre duas paredes de escudos é capaz de causar um som assombroso, um verdadeiro estrondo de proporções inimagináveis, como uma música de morte formada apenas por trovões ensurdecedores. É uma loucura indescritível. É o barulho de metal encontrando madeira, é o barulho de madeira lutando contra metal. E foi esse barulho que Ulfkell escutou enquanto a ponta de lança atingia a parede de escudos dinamarquesa de forma implacável.

Assim que o impacto aconteceu, o ealdorman foi jogado par atrás e pressionado contra seu escudo sem piedade, mas continuou a empurrar sua proteção, enquanto os homens que estavam atrás dele o empurravam e eram empurrados pelos homens anteriores. E Ulfkell sentiu seu braço arder e seu corpo ser esmagado no processo, mas continuou fazendo força para frente, enquanto tentava não escorregar e continuar usando os pés para conseguir um ponto de apoio, o que fez com que suas botas se afundassem no solo arenoso a cada passo que dava.

— Empurrem! — urrou o ealdorman. — Empurrem!

E os saxões empurraram.

Se os nórdicos tivessem reagido com a mesma rapidez que a ponta de lança foi formada, provavelmente teriam mantido sua parede de escudos e engrossado suas fileiras, empurrando a ponta de lança até que aquela formação fosse dispersa e quebrada. Mas a investida dos homens de Ulfkell aconteceu de forma tão repentina, que os dinamarqueses simplesmente não conseguiram sustentar suas defesas.

E graças a isso, os saxões quebraram as fileiras inimigas.

A ponta de lança avançou, fazendo os dinamarqueses que estavam de frente para a formação saxã caírem e tropeçarem. E enquanto Ulfkell continuava a fazer seus inimigos tombarem, Eadgar e os demais homens que estavam atrás dele pisotearam os oponentes caídos, ao mesmo tempo em que os soldados que formavam as bordas da seta começaram a estocar os nórdicos pelas poucas brechas que surgiam.

Foi um momento breve, e uma vez que a parede dos homens do norte havia se quebrado, a ponta de lança saxã não demorou a atingir o fim das linhas inimigas e atravessar a multidão de dinamarqueses confusos. Depois disso, os saxões continuaram andando até tomar uma distância maior do exército adversário, e então se viraram para trás.

Os nórdicos agora estavam em pânico, se dispersando em confusão. Os saxões não haviam diminuído muito os números de adversários, mas haviam quebrado a formação dos dinamarqueses, forçando-os a abandonarem a disciplina e a ordem da parede de escudos. Agora, os homens do norte que estava no lado direito da visão de Ulfkell haviam começado a se reagrupar, enquanto os homens que estavam na esquerda, mais dispersos, correram até os saxões, se entregando novamente para a selvageria.

— Parede de escudos! — rugiu Ulfkell. — Parede de escudos!

E os cem saxões se juntaram em pressa, formando uma parede improvisada que recebeu a carga de homens enlouquecidos. Ulfkell foi rápido o suficiente para se juntar à primeira fileira da nova formação. E mais uma vez, os escudos saxões foram erguidos enquanto os nórdicos da terceira tripulação tentavam atacar seus inimigos da maneira mais estúpida possível. Pois dezenas de dinamarqueses se jogaram para cima dos escudos saxões, fazendo os impactos acontecerem por toda a primeira fileira. Apenas um homem imbecil correria para uma parede daquelas, e os guerreiros de Ulfkell empurram os imbecis que fizeram isso, batendo as bossas metálicas de seus escudos em seus inimigos e fazendo com que eles caíssem de costas no chão. E sem hesitar, os saxões da primeira linha continuaram a se mover, passando por cima dos dinamarqueses caídos, enquanto os soldados das fileiras anteriores desciam sobre eles com espadas e machados, pisoteando seus corpos agonizantes.

— Matem! — urrou o ealdorman. — Matem todos!

Mas o avanço não continuou por muito tempo, pois os sessenta dinamarqueses de Torvaldr haviam formado uma parede de escudos, e rapidamente levaram sua formação até o encontro dos homens de Ânglia Oriental, tentando atingi-los antes que pudessem se defender.

— Flanco esquerdo, avance! Flanco direito! Permaneça onde está! — ordenou Ulfkell, para que sua parede de escudos ficasse de frente para a parede de escudos inimiga.

E seguindo as instruções de seu senhor, o exército saxão acabou por posicionar sua parede de escudos contra os dinamarqueses que se reagruparam. Agora, a formação saxã possuía três fileiras de trinta homens, enquanto a parede de escudos nórdica contava com três fileiras de vinte guerreiros. Mas isso não impediu as feras do norte de avançarem contra os saxões, que agora lutavam para manter a formação enquanto eram forçados a andar sobre os cadáveres que haviam acabado de fazer.

— Preparem-se para o impacto! — gritou Ulfkell.

E as paredes se encontraram, fazendo o som do trovão ecoar pela praia mais uma vez. Dessa vez os saxões foram atingidos com violência, e por um momento, o ealdorman foi arremessado para trás com tanta força que julgou que sua parede de escudos iria ceder ali mesmo, mas seu filho, que estava logo atrás, continuou a empurrá-lo junto dos demais homens, impedindo o avanço dinamarquês e mantendo as fileiras firmes.

Depois disso, Eadgar inclinou seu corpo para frente e empurrou seu pai, enquanto erguia o próprio escudo sobre a cabeça de Ulfkell, para protegê-lo de um golpe de machado nórdico. E enquanto a arma do oponente do ealdorman estava presa no escudo de Eadgar, Ulfkell estocou sua espada no pescoço do homem do norte, e torceu a lâmina, para que o sangramento aumentasse. Ao mesmo tempo, o filho do ealdorman continuava a pressionar seu corpo para frente, e uma espada dinamarquesa passou pelo escudo do homem que estava logo ao lado direito de Ulfkell, acertando o guerreiro saxão na virilha. Normalmente, o homem que estivesse atrás do saxão ferido deveria tomar seu lugar, mas Eadgar estava tomado pelo frenesi da batalha, sentindo a necessidade de enfrentar todos os seus instintos e correr para a boca do lobo, o que o motivou a desrespeitar a ordem de seu pai e levar seu escudo para o lado direito do ealdorman.

— Para trás, Eadgar! — exclamou Ulfkell, desesperado.

Mas nada podia ser feito, pois o escudo de Eadgar já havia se encaixado na primeira linha, e mantido a resistência da parede de escudos saxã. No entanto, esse movimento mal calculado bastou para criar uma abertura, deixando o ealdorman sem proteção por um breve instante. Um instante que um dinamarquês aproveitou para estocar uma espada no ombro esquerdo de Ulfkell. O ferimento perfurou a capa escura do ealdorman, mas a lâmina não teve força suficiente para atravessar a cota de malha. Aproveitando-se da proximidade de seu inimigo, o homem que estava atrás de Ulfkell puxou o braço do dinamarquês agressor, enquanto o próprio ealdorman usava sua espada para cortar o pulso de seu inimigo, que voltou gritando para sua parede de escudos.

— É só um arranhão! — rosnou Ulfkell, tentando tranquilizar seu filho. — Empurrem! Empurrem esses animais para longe! — O ealdorman voltou a estocar sua espada, dessa vez na canela de seu novo oponente. — Matem-nos!

E mais um dinamarquês caiu diante da primeira fileira.

Eadgar tropeçou no cadáver de um nórdico, um acidente que o fez ter a sorte de desviar de uma espada que visava acertar seu rosto desprotegido. Ao invés disso, a arma apenas cortou o vento, e seu dono logo foi atingido pela lâmina de Eadgar, que levantou sua espada pelo lado do próprio escudo, perfurando o pescoço de seu adversário.

— Eles estão morrendo! — gritou um saxão. — Estão morrendo!

Os homens de Ulfkell urraram, sentindo o júbilo da guerra.

— Para trás! — ordenou o ealdorman. — Deem dois passos para trás!

Os saxões obedeceram, recuando por um breve momento, algo que fez os dinamarqueses restantes esbarrarem nos corpos de seus companheiros caídos e abaixarem as próprias guardas.

— Agora! — rugiu Ulfkell.

E os homens de Ânglia Oriental avançaram uma última vez, quebrando de uma vez por todas a parede de escudos nórdica.

Aquele foi o inicio da canção do desespero, os dinamarqueses soltavam uivos de dor enquanto tinham seus membros decepados e seus corpos perfurados, e os saxões vociferavam palavras de triunfo enquanto partiam crânios e ceifavam a vida dos pagãos. E por todos os lados, os guerreiros de Ulfkell destruíam quaisquer esperanças que os nórdicos poderiam ter de saírem vivos daquela praia.

Mas houve um homem que se manteve firme.

Pois enquanto os homens do ealdorman avançavam, o próprio Ulfkell foi impedido de continuar se movendo para frente, tendo seu escudo contido pelo escudo do líder daquele bando dinamarquês.

Torvaldr, o ruivo, continuava de pé.

O capitão do Svartrforað, o líder dos dragões do norte, ainda se mantinha firme no campo de batalha, apesar da morte de seus próprios homens. A maioria dos saxões sequer prestou atenção no duelo particular de Ulfkell e Torvaldr, mas os homens da última fileira da parede de escudos saxã até mesmo formaram uma espécie de círculo em volta dos dois, quando a batalha enfim chegou ao fim. Até mesmo Eadgar, que era filho do ealdorman, conteve sua preocupação enquanto o pai aceitava o convite que o nórdico lhe lançou para uma última luta. Um convite feito sem qualquer palavra.

Ulfkell estava exausto por conta do esforço feito na ponta de lança e na parede de escudos, seus braços ardiam, suas pernas doíam, e sua respiração estava ofegante. Torvaldr, por sua vez, parecia estar em ótimo estado, segurando seu escudo com firmeza e sua espada com precisão, tendo como único ferimento um corte em sua cabeça descoberta. E assim os dois continuaram a se encarar, enquanto caminhavam lentamente em círculos, com as armas prontas para um combate.

— Seu nome? — perguntou Ulfkell, usando a linguagem dos dinamarqueses.

Torvaldr não respondeu de imediato, surpreso por ver que aquele saxão vestindo uma armadura digna de rei sabia falar sua língua.

— Você não tem um nome, dinamarquês? — insistiu o ealdorman, enquanto removia as amarras de couro que prendiam seu braço esquerdo ao escudo.

— Torvaldr Bjornsson, de Jutland — respondeu o ruivo, em tom orgulhoso. — O homem que vai cortar sua cabeça e oferecê-lo como sacrifício para Odin.

— Sou Ulfkell, ealdorman de Ânglia Oriental. — Ele removeu seu elmo, revelando seu rosto marcado por mais de quarenta anos vividos. — E eu gostaria de vê-lo tentar.

Furioso pelo insulto, Torvaldr gritou, investindo em direção ao seu inimigo enquanto girava sua espada em um golpe diagonal, da direita para a esquerda. Em resposta, Ulfkell apenas saltou para trás, deixando seu oponente inclinar seu corpo para frente por conta da força do próprio golpe. E em um piscar de olhos, o ealdorman avançou, demonstrando uma habilidade surpreendente para sua idade ao mover sua espada da esquerda para a direita, golpeando o ombro direito de Torvaldr com tanta força que fez o dinamarquês cambalear. Mas Ulfkell não havia terminado, e antes que seu adversário recuperasse o equilíbrio, o senhor de Ânglia Oriental arremessou seu escudo nas costas do ruivo, fazendo Torvaldr tombar e ter seu rosto arrastado pelo solo arenoso.

Os saxões urraram.

Tomado por uma raiva indescritível, o capitão nórdico rapidamente tentou se levantar, iniciando um ataque que visava afastar uma aproximação que Ulfkell pudesse fazer naquele momento. O que se provou um gesto inútil, pois o ealdorman já havia se aproximado, e Ulfkell segurou sua espada com as duas mãos, para realizar um golpe certeiro no pulso direito de Torvaldr, partindo metal, tecido, carne, e osso. E Torvaldr gritou enquanto sua mão meio cortada pendia para o lado de seu antebraço, deixando sua espada cair e fazendo o sangue pintar a areia de vermelho.

Devastado pela agonia e pela dor, o ruivo esqueceu de que estava no meio de um duelo, e começou a se debater no chão enquanto segurava o braço mutilado, lançando uivos lancinantes que demonstravam todo o seu sofrimento.

— Seu saxão filho de uma puta! — vociferou Torvaldr. — Eu vou matá-lo por isso! Vou matá-lo! Vou estripá-lo como um porco! Vou matá-lo!

— Sem essa mão você não pode ir para o salão dos guerreiros, não é mesmo? — disse Ulfkell, arfando, mas ainda com um tom de voz firme. — Eu estou negando sua ida ao seu paraíso, seu pagão imundo. — Ele se aproximou, fazendo com que Torvaldr se arrastasse pela praia, tentando se afastar. — Por todas as famílias que seus homens destruíram, por todas as mulheres que estupraram, por todas as casas que queimaram, por todas as crianças que escravizaram, e pelo sangue que derramaram em meu reino, eu o proíbo de ir para o seu paraíso! Pois você não passa de um animal sujo. — O ealdorman levantou sua espada. — E terá a morte que um animal sujo merece!

— Não! — implorou Torvaldr. — Espere!

O ruivo ergueu seu escudo, tentando se defender do golpe, mas Ulfkell apenas estocou sua espada pelo lado direito da proteção do dinamarquês, atingindo o pescoço de Torvaldr, e cumprindo sua promessa de fechar os portões de Valhalla para o nórdico.

Depois disso, o ealdorman de Ânglia Oriental apenas removeu sua arma do corpo de seu inimigo, deixando Torvaldr agonizando na praia enquanto entregava sua arma para que um de seus homens a limpasse.

— Reúnam os espólios — arfou Ulfkell, com simplicidade. — Vamos voltar para casa.

Enquanto seus homens terminavam o trabalho, o ealdorman olhou para o céu, que parecia um misto de azul e escarlate. E exausto por conta de todo o esforço daquele dia, Ulfkell fechou os olhos por um breve momento, sentindo o vento marítimo passar por seu corpo castigado.

— Vamos voltar para casa — ele repetiu, dessa vez falando consigo mesmo.

Ao abrir os olhos novamente, o ealdorman enfim notou o grupo de escravos saxões que havia observado toda aquela cena grotesca, todos eles estavam apavorados, ajoelhados ou sentados na praia, sem reação. E entre eles, Arthur tinha seus olhos fixos no líder saxão, o homem que havia lhe devolvido sua liberdade através da força.

E embora Arthur não soubesse como aquele acontecimento mudaria sua vida, o jovem Adler não conseguia parar de observar aquela imagem. Um guerreiro velho, vestido como um rei, caminhando sobre um jardim feito com os cadáveres de seus inimigos, logo à frente do mar e de um horizonte vermelho.

Era como uma pintura épica que apenas a imaginação poderia criar.

E Arthur foi arrebatado por aquela visão.

Pois o destino, mais uma vez, havia imposto sua vontade sobre a vida do garoto.

Notas finais
Obrigado por ler, toda crítica será bem vinda o/ Próximo Capítulo: Trono de Cinzas
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.