Notas iniciais
Olá saqueadores de mosteiros lindos e cheirosos (sim, podemos sentir o cheiro de vocês, nós podemos tudo E.E) o/ Como foi a semana de vocês? Pois agora o capítulo novo de IeM vai torná-la ainda melhor (ou pior -q)! O capítulo de hoje pode estar longo, mesmo que não seja tanto assim comparado aos outros, porém, se o outro já foi agitado, cuidado, este daqui pode superar haushaushaushaushuasha - A única coisa que tem que ser avisada antes da leitura é que vocês podem estranhar o temo Wintanceaster, até por não estar no nosso mapa (isso vai ser corrigido em breve), mas é a mesma coisa que Winchester :3 Beijos e boa leitura!

Não sabia quanto tempo havia se passado desde o início do ataque, mas era horrível. Os gritos, a carne humana sendo cortada, os ossos sendo esmagados, as portas sendo arrebentadas, as crianças chorando, esses sons entranhavam-se na cabeça de Matilda. Apenas o medo e a sensação de que a morte era inevitável a acompanhavam. Era como se estivesse no próprio inferno.

— Fæder ure þu þe eart on heofonum; Si þin nama gehalgod... — A mãe das duas crianças, sussurrando, iniciava o Pai Nosso, já pela quinta vez desde que Matilda havia se escondido naquela casa. Também queria juntar-se a ela na oração, porém parecia que naquele momento não conseguia organizar as palavras de forma coerente, em qualquer idioma que fosse.

Escutou algumas vozes, mais para resmungos, distantes, e com isto saiu de um estado de torpor. Embora não estivessem muito próximas e o barulho tornasse difícil compreender, elas inconfundivelmente pertenciam a Arthur e Eric. Um arrepio de preocupação percorreu seu corpo. Precisava saber o que estava acontecendo, e talvez, pensou esperançosamente, até conseguiria ajudá-los.

Mesmo estando meio trêmula e com uma desesperadora sensação de que não tinha a capacidade de respirar tanto ar quanto devia, reuniu todas as forças que podia e engatinhou até a janela que estava na direção das vozes dos irmãos. Por uma conveniente fresta, conseguiu espiar o que ocorria.

Por muito pouco não gritou: tanto Arthur quanto Eric eram empurrados por dois homens, um loiro e outro ruivo, que usavam armadura completa e possuíam o porte confiante e intimidador de verdadeiros guerreiros. Não precisava que ninguém lhe dissesse para saber que aqueles eram os infames dinamarqueses, que agora tinham em mãos os únicos membros de sua família que estavam com ela naquela realidade estranha e violenta.

O irmão mais novo estava ainda pior do que antes, com marcas visíveis de ter sido espancado recentemente, e ela imaginou que provavelmente ele havia reagido de forma inconveniente, mas Arthur parecia relativamente inteiro, mesmo que nervoso e confuso. Por um breve instante, teve absoluta certeza de que seus olhares se encontraram, pois o semblante do irmão mais velho tornou-se uma mistura de alívio, por ela estar viva, e derrota, por não poder protegê-la mais. Matilda não se mexeu, mas sentiu as lágrimas escorrerem livremente pelo seu rosto. Mesmo que sobrevivessem, era certo de que não se veriam por um longo tempo, talvez nunca mais.

Teve o impulso de escapar pela janela e alcançar os irmãos, mas foi impedida quando escutou o barulho da porta da casa sendo forçada. Num segundo, quase atirou-se de volta para o canto, ficando tonta pelo movimento rápido. Sentiu-se mais trêmula e gelada do que já estava. Era como se voltasse a infância, quando ficava com medo de haver algum monstro atrás da porta, mas desta vez o monstro era horrivelmente real. A outra mulher abraçou as crianças com força, num instinto de proteção. O garotinho começou a choramingar, como se pressentisse o que estava do outro lado. Embora houvesse uma tranca de metal na porta numa tentativa de dar alguma segurança, o que era aquilo comparada à força de um guerreiro dinamarquês?

Segundos depois, a porta foi brutalmente escancarada com um chute, e o coração de Matilda pareceu parar por um instante, para voltar a bater num ritmo mais do que acelerado. Não conseguia mover nada além dos olhos e o suor frio umedecia seus cabelos. Um homem deu apenas um passo para dentro da casa. Ela não conseguia vê-lo por causa da pilha de madeira, mas ouviu a passada forte e o tilintar da armadura que usava.

— Eu lhe imploro, nos deixe. Não temos nada a oferecer! — A mulher suplicou, em lágrimas, segurando os filhos com todas as forças.

O dinamarquês apenas riu, e com uma facilidade assustadora, arrancou o menino dos braços da mulher, que gritou, mas era tarde demais. Numa fração de segundo depois, pôde ser ouvido o estralo do pescoço sendo quebrado, e seu corpinho foi atirado no chão, com os olhinhos azuis ainda abertos, que pareciam olhar diretamente para Matilda, que se sentiu ainda mais tonta. A menina foi a próxima vítima, que embora ela não tenha visto o que exatamente ocorreu, percebeu uma poça de sangue que crescia perto de onde a garotinha deveria ter sido deixada. Achou que poderia vomitar naquele momento, com o mundo começando a ficar borrado, apenas uma mistura horrível de sons assustadores e imagens sem forma definida. Mal notou quando a mulher fora arrastada para fora, em meio gritos e lágrimas.

Sentia como se o dinamarquês ainda estivesse lá, aguardando por qualquer movimento mínimo dela. O que fariam com ela caso fosse encontrada? Teve a impressão de ouvir o som de roupas sendo rasgadas do lado de fora. Seria violentada, então? Ou seria assassinada como aquelas pobres crianças, cujas vidas foram tão brutalmente abreviadas quando mal havia começado? Não importava qual fosse o resultado, sabia que uma hora a achariam. O caos ainda ecoava em seus ouvidos, juntamente com o martelar frenético das batidas de seu coração. As raízes do medo pareciam esmagá-la por dentro. Não soube como conseguiu ficar quieta.

Somente após um tempo longo e indeterminado, provavelmente horas, lentamente começou a sair da névoa de temor que havia embaçado a visão dela do mundo. Então só havia o uivo do vento, os corpos perto dela, e o cheiro forte de fumaça. Fogo. Cambaleando, levantou-se. O menino, mesmo com os olhos abertos de forma assustadora e o pescoço virado num ângulo impossível, ainda era uma visão melhor do que a menina, que havia sido estripada como um animal, com os órgãos internos saindo para fora do corpo em meio ao monte de sangue. Matilda, não resistindo mais, vomitou todo o conteúdo de seu estômago no chão. Queria poder dar um lugar de descanso digno para os corpos que jaziam no chão da casa, mas a fumaça já começava a entrar pelas frestas da madeira das paredes e não aguentava mais ficar nem um segundo ali.

Do lado de fora, a devastação era digna de uma história de horror. Corpos espalhados, de pessoas mortas das mais diversas e brutais formas, poças de sangue, locais revirados pela busca de espólios, e o fogo se espalhava rapidamente entre as casas.

Caiu de joelhos no chão, finalmente permitindo-se soluçar. Não sabia em que lugar estava, muito menos para onde ir, e nem ao menos possuía alguma companhia. O destino havia sido cruel e impiedoso com ela e seus irmãos, os jogando no meio do caos e do horror, para depois espalha-los naquele mundo desconhecido como cinzas ao vento.

Permaneceu ajoelhada por alguns minutos, com o vento fazendo os cabelos chicotearem sua face, porém, o aumento da fumaça fazia com que ficar ali sem ter algum problema por aspirar aquele ar contaminado fosse cada vez mais impossível. Por mais que a única coisa que queria fazer naquele momento fosse ficar parada até perecer, obrigou-se a ficar em pé e sair dali, mesmo que ainda não tivesse um rumo para seguir.

Tentou não olhar para os lados quando atravessava aquela cidade destruída em direção ao que havia sobrado dos portões. Tantas crianças, tantos homens, tantas mulheres, quase que todos indefesos. Que tipo de besta teria coragem de matar e capturar inocentes, que incluíam até mesmo a família de Matilda, apenas por ambição? Odiava os dinamarqueses como nunca havia odiado algo antes. Se o inferno realmente existisse e fosse pior do que aquele lugar, sombriamente pensou, aqueles homens deveriam queimar eternamente lá.

***

Os danos haviam sido consideráveis. Pelo menos era isto que a fumaça saída de Searobyrg, podendo ser vista mesmo há quilômetros de distância, denunciava. E este não havia sido o único lugar saqueado e devastado.

Ælfwine já havia escutado alguns relatos de como foi que tal coisa havia sido possível. Com a suposta alegação indisposição do ealdorman Ælfric e seus comandantes, quase todo o exército, que estava em maior número que os dinamarqueses, foi embora para seus lares. Porém, algo lhe dizia que Ulfkell deveria ter permanecido, mesmo assim. Aquele homem, seja por orgulho ou bravura, nunca recuaria pouco antes de uma batalha começar. E era uma pena que tivesse estado na Mércia, numa tentativa de pouco sucesso para convencer os nobres de lá a defender a Inglaterra contra os ataques dos homens do norte, em vez de ter conseguido derrotar alguns dinamarqueses ao lado dele.

O caminho que ele e seu grupo de homens seguia agora era apenas para avaliar as perdas, descobrir mais informações do que aconteceu e talvez até mesmo encontrar um sobrevivente dos locais assolados, embora não houvesse uma grande motivação para isto. Depois, teria que relatar tudo ao rei Æthelred, que provavelmente colocaria a culpa daquela desgraça nos ombros de quem não estivesse nas boas graças dele no momento, ao invés de culpar a própria incompetência. Era triste ver que o trono da Inglaterra era ocupado por um rei desconfiado e tolo, quando se era necessário um líder inteligente e corajoso para aqueles tempos sombrios. Às vezes duvidava se o reino conseguiria realmente resistir às invasões.

Passaram por Stonehenge. O gigantesco círculo de pedras havia sido construído pelos originais habitantes daquela região, numa época anterior até mesmo à chegada dos primeiros saxões. Muitos diziam que aquele local ainda estava impregnado com magia antiga, talvez demoníaca, embora não existisse prova alguma. Mesmo assim, poucas pessoas arriscavam ir até lá.

E surpreendeu-se quando viu uma figura humana dentro daquele lugar. Por um impulso quase inconsciente, e mesmo não tendo idéia alguma sobre quem era aquela pessoa, a curiosidade o fez galopar naquela direção; também pediu para que seus companheiros, um pouco atordoados, o seguissem.

Era uma garota. Por mais que já pudesse ser considerada uma mulher, deveria ter algo entre quinze e dezesseis anos de idade. O cabelo castanho estava meio bagunçado e vestia roupas estranhas, uma estranha mistura de uma túnica extremamente curta e calças de um tecido desconhecido. Os olhos verdes dela se arregalaram de medo quando viu o grupo de cavaleiros em sua direção.

Ælfwine desmontou para tentar chegar mais perto da jovem. Ela estava com olhos vermelhos, roupas ligeiramente sujas com poeira e tão trêmula como se fosse feita de galhos, me parte talvez pelo frio que deveria sentir com aquelas vestes naquele vento forte. Havia pouca diferença entre ela e um animal assustado.

— Não precisa me temer, não tenho a intenção machucá-la — falou, com a voz baixa.

A garota o avaliou por alguns segundos, até ficar um pouco mais relaxada, mesmo que ainda continuasse desconfiada.

— Qual é o seu nome, senhorita?

— Matilda — rapidamente respondeu, com um sotaque forte que ele não conseguiu reconhecer.

Não era um nome muito usado na Inglaterra, embora fosse bem comum em regiões mais distantes, como na Frância. Isto, somado ao sotaque, mostrava que ela deveria ser uma estrangeira. Porém, aquilo não era o assunto mais importante naquele momento, pois a jovem claramente precisava de ajuda.

— Eu, senhorita Matilda, me chamo Ælfwine. Poderia me dizer o que aconteceu com você?

Por um instante achou que fosse chorar, mas ela respirou fundo e começou a falar da forma mais clara que parecia conseguir.

— Dinamarqueses. Eles invadiram a cidade — apontou para Searobyrg, de onde continuava a sair fumaça das construções queimadas — enquanto metade das pessoas ainda não haviam conseguido ir embora.

Parou, e ele imaginou que fosse por não conseguir mais falar o que aconteceu sem que as emoções atrapalhassem. Porém, a conclusão do relato dela era óbvia. A consciência de Ælfwine pareceu lhe dizer que o mais certo naquele momento era cancelar o que faria em seguida e ajudar aquela jovem que dizia se chamar Matilda, que provavelmente nem deveria ter mais família ou lar naquele momento. Tirou o manto que usava e colocou nos ombros dela, que o olhou sem entender o porquê daquela atitude.

— Está ficando frio, não é mesmo? E não se preocupe, esta túnica de lã que uso já me aquece mais do que o suficiente. — Tentou sorrir da forma mais amigável que conseguia.

— Obrigada.

— Você tem a sua residência ou a de algum familiar próximo daqui?

Matilda apenas limitou-se a balançar a cabeça negativamente. Ele já esperava uma resposta assim.

— Pode vir conosco. Estamos voltando para Wintanceaster, e com certeza lhe acharemos algum lugar para se acomodar.

— E pode montar em meu cavalo, por enquanto — Osbert, um membro da tropa e amigo de Ælfwine, desmontou do cavalo e entregou as rédeas a ela. — Ele pode parecer ser um corcel meio enfezado, mas é tranquilo.

A jovem não precisou da ajuda do cavaleiro moreno e montou com facilidade, mesmo que tenha hesitado por alguns instantes.

— Vocês não têm medo de ajudarem essa moça aí? Ela pode ser uma bruxa, ainda mais no lugar onde foi encontrada! — Cyneweard comentou, rindo. O rapaz ruivo era conhecido por conseguir rir e fazer piadas de qualquer situação. Ælfwine quase pensou em repreendê-lo, mas percebeu que Matilda havia feito um som baixo, porém bem perto de uma risada.

— Não sabia que você era tão supersticioso assim, Cyneweard.

— Com mulheres, sempre fui. A maioria não é confiável. E se eu fosse vocês, meus caros amigos Ælfwine e Osbert, ficaria bem atento: essa daí pode seduzir um de vocês, para depois tentar roubar sua alma e arrancar seu coração do peito!

— Você é incorrigivelmente idiota, realmente — disse Ælfwine, mesmo que não tivesse resistido de achar graça do “aviso” do amigo. — Agora vamos sair daqui. Precisamos achar uma estalagem ou pelo menos um bom lugar para um acampamento, pois agora nosso caminho é em direção de Wintanceaster.

***

Eric estava exausto.

Quatro dias haviam se passado desde o acidente de carro, e quatro dias haviam se passado desde que seu mundo havia sido engolido por uma onda de loucura e acontecimentos que ele mesmo julgava serem impossíveis de acontecer, apesar de estar presenciando cada momento daquela nova realidade que o agredia a cada instante. Correntes prendiam seus pulsos, que já estavam praticamente esfolados por conta de todo o atrito que sua pele sofria com aquele metal rude e áspero. Seus pés, que estavam descalços e quase tão machucados quanto seus pulsos, também estavam presos por correntes na ocasião. Pois após horas e horas de caminhada, o bando de dinamarqueses que havia capturado Eric e Arthur enfim havia alcançado o litoral.

Embora não soubesse como, Eric conseguia entender com clareza as palavras que os nórdicos usavam, então sabia que o líder de todos aqueles homens, seja lá quem fosse, havia ordenado que todas as tripulações dinamarquesas fossem para o litoral sul do país. Ele ficou confuso quando Arthur lhe disse que não compreendia a linguagem dos nórdicos, pois na estranha cidade em que ambos foram capturados, seu irmão mais velho pareceu entender bem o que os saxões moradores do lugar falavam. Mas mesmo que eles ainda tivessem muitas dúvidas sobre tudo o que estava acontecendo em suas vidas, uma única coisa agora era certeza na mente dos dois irmãos.

Eles eram escravos.

Havia mais de trinta acorrentados junto dos dois quando eles deixaram a cidade, desses trinta, cinco homens foram mortos enquanto tentavam escapar, dois morreram por ferimentos sofridos durante o saque, e os demais pareciam preferir a morte a serem forçados a servirem os dinamarqueses. E Eric não demorou a ver o motivo para isso, pois todas as mulheres que estavam em seu pequeno grupo eram violentadas sem piedade pelos guerreiros bárbaros que serviam o homem ruivo. Na verdade, para Eric, muitas daquelas mulheres não deveriam ser mais velhas do que ele mesmo, garotas que estariam começando o ensino médio, caso estivessem na realidade de onde os irmãos Adler haviam surgido. Por isso, até mesmo Arthur, que se mostrava contido durante os momentos mais ameaçadores, se sentiu tão revoltado com aquela cena que havia tentado se libertar de suas correntes nas noites anteriores, para ajudar de alguma forma as mulheres que gritavam e imploravam por socorro quando os nórdicos se forçavam sobre elas. O que se mostrou um gesto inútil, pois só serviu para render uma surra ao irmão mais velho de Eric, um espancamento realizado aos risos pelos dinamarqueses, que tinham uma força muito superior. Eric, por sua vez, sequer tinha energia para tentar ajudar seu irmão, pois ele mesmo havia sido vítima de uma agressão muito pior, no dia em que foram capturados. E os ferimentos daquele dia estavam lhe causando agonia até agora.

E assim foi a vida dos irmãos naqueles quatro dias. Eles caminhavam do nascer até o pôr do sol, sempre em filas, com colares de metal os amarrando aos demais escravos, para impedir que uma fuga acontecesse. Ninguém tinha permissão para falar sequer uma palavra durante as caminhadas, e quem o fizesse, era punido com golpes de porretes pelos vigias. As vestes de Eric e Arthur haviam sido descartadas, e agora ambos estavam usando trapos resgatados dos cadáveres da cidade saqueada, roupas de pano que estavam rasgadas em várias partes, além de estarem sujas com manchas de sangue e vômito. Os escravos não comiam nada além de pedaços ridiculamente pequenos de pão seco, e a pouca água que conseguiam beber vinha de poças que surgiam aleatoriamente no meio do caminho, e das chuvas que castigavam seus corpos durante as noites geladas.

Somente durante as noites os dois conseguiam conversar e pedir alguma informação útil de seus colegas de correntes, embora muitos ali sequer tivessem o ânimo para falar alguma coisa, por mais simples que fosse. E assim, os irmãos descobriram que estavam em algum lugar do Reino da Inglaterra, que estavam na companhia de saxões, o povo que habitava aquelas terras, e o mais perturbador, que estavam no milésimo terceiro ano após o nascimento de Cristo. Era loucura, algo impossível, algo inimaginável para os dois até então, um pesadelo saído de uma das piores brincadeiras que o destino poderia realizar com qualquer pessoa. Mas por mais insano que tudo aquilo parecesse ser, Eric sabia que devia ser verdade, pois embora toda aquela ideia fosse surreal, os gritos de socorro das mulheres, a dor em seus pulsos e pés, a fome, a sede, e o frio, eram muito mais do que verdadeiros. E ao receberem essas notícias, os dois irmãos se tornaram seres tão quietos quanto os demais escravos, tomados por desespero e pela falta de esperança, imaginando se estavam condenados a passarem o resto de suas vidas como animais acorrentados, subjugados por aqueles bárbaros dinamarqueses.

Mas o silêncio entre os dois foi quebrado no quarto dia, quando a marcha enfim os levou até o litoral e o sol do meio-dia pairava sobre suas cabeças. Eles haviam atravessado um imenso trecho coberto por árvores, e agora haviam alcançado um terreno predominantemente plano e coberto de grama, que não demorava a se transformar em um solo arenoso que ia de encontro ao mar. Eric percebeu que muitos barcos estavam deixando a terra quando ele e os demais escravos saíram da floresta, e no momento em que a tripulação do dinamarquês ruivo enfim conduziu o grupo de acorrentados até a praia, apenas quatro barcos ainda estavam sobre a areia.

Sem delicadeza ou cerimônia alguma, os golpes e os gritos raivosos dos nórdicos incentivaram os escravos pertencentes àquelas tripulações dinamarquesas a se ajoelharem no chão, formando uma pequena multidão. Pouco mais que vinte guerreiros ficaram ali para vigiar os acorrentados, enquanto os demais nórdicos foram até os barcos para prepará-los para a viagem, ou ao menos era o que Eric havia assumido naquele momento. E só quando a maior parte dos dinamarqueses se afastou, Arthur reuniu alguma força de vontade para falar com seu irmão sobre a situação em que estavam.

— Você está se sentindo melhor? — perguntou o irmão mais velho, usando a voz mais baixa que pôde ao falar com Eric, que o olhou com um cenho franzido em resposta, como se fosse óbvio que a vida deles piorava a cada instante. — Eu estava falando sobre seus machucados, e não sobre... — Arthur olhou para seus pulsos acorrentados. — Sobre isso...

— Estou vivo — resmungou Eric. — É mais do que muita gente que ficou para trás pode dizer.

— Eric, temos que sair daqui — sussurrou Arthur, com urgência em sua voz. — Temos que sair daqui e encontrar Matilda. Sabe-se lá o que aconteceu com ela naquela casa. Se foi capturada... — Ele fez uma pausa, provavelmente se lembrando dos gritos das garotas durante as noites. — Nem quero pensar no que pode ter acontecido com ela.

— Se vamos escapar, precisa ser agora. — Eric hesitou. — Porque se entrarmos naqueles barcos, não dá para dizer aonde eles vão nos levar.

— Você escutou algo a mais da boca desses dinamarqueses? — continuou o irmão mais velho. — Eu nunca pensei que seres humanos fossem capazes de fazer algo tão...

A frase de Arthur foi interrompida por um golpe de porrete que o acertou em cheio na nuca, fazendo com que ele se prostrasse no chão arenoso enquanto grunhia de dor. Por impulso, Eric tentou pular em cima do agressor de seu irmão, mas antes mesmo que a corrente que prendia seu pescoço fosse completamente esticada, o dinamarquês que atingiu Arthur girou sua arma de madeira até a cabeça de Eric, jogando-o para trás com força.

— Você! O garoto pequeno de cabelos castanhos! — urrou o nórdico responsável pelos ataques, apontando seu porrete para Eric, que agora tentava se levantar sem sucesso, ainda desnorteado. — Você é um maldito escravo, você não está vivo para conversar, está vivo para trabalhar! Então sente e fique quieto até arranjarmos algum trabalho para você!

E enquanto Arthur se arrastava até seu irmão para tentar socorrê-lo, os demais escravos se afastaram e abaixaram as cabeças em respeito aos dois homens que haviam se aproximado do grupo. O primeiro era o comandante da tripulação que capturou os irmãos Adler, Torvaldr, o ruivo, um nome que Eric escutava os dinamarqueses dizerem praticamente todos os dias. E o segundo, como Eric bem lembrava, era Úlfr, o sujeito de barba e cabelos dourados que havia lhe dado uma surra quatro dias antes, e colocado correntes em seus pulsos.

— Pensei que conseguiríamos mais escravos naquela merda de cidade — disse Torvaldr, bocejando enquanto dava passos lentos até os acorrentados. — Como eu vou conseguir enriquecer se grande parte dos saxões moles que capturamos simplesmente morre durante uma simples caminhada de quatro dias?

— Talvez eles parassem de morrer se você os alimentasse direito — respondeu Úlfr, com um tom indiferente. — Além disso, ninguém gostaria de comprar escravos que mais parecem cadáveres.

— Fala por experiência própria? — retrucou Torvaldr, lançando um olhar zombeteiro para o amigo, um olhar que Úlfr respondeu com um cenho franzido e carregado de hostilidade, que logo fez o ruivo sorrir e levantar as mãos, como se estivesse se rendendo para um inimigo que ele não poderia vencer. — Tudo bem, esqueça que eu disse qualquer coisa. — Torvaldr pigarreou. — Mas ao menos diga que vai comprar meus escravos, sim? Ajude seu velho amigo a sustentar os filhos que ele ainda não tem.

— Não uso escravos — resmungou Úlfr. — Mas vou mandar meus homens conversarem com você caso queiram comprar algum. — O dinamarquês de cabelos dourados levou seu olhar frio até o jovem de cabelos castanhos, que enfim parecia ter se recuperado do golpe que sofrera na cabeça. — Esse não é o garoto que tentou lutar contra nós em Searobyrg?

— Se você acredita que apanhar mais do que um rato sem patas é a mesma coisa que lutar, então sim, é ele mesmo — zombou o ruivo.

Úlfr deu alguns passos para frente, até que ficasse a menos de um metro de distância de Eric. Arthur, que estava agachado ao lado de seu irmão, lançou um olhar nervoso e receoso para o dinamarquês, cuja simples presença foi capaz de amedrontar todo o grupo de escravos.

— Se afaste — disse Úlfr, encarando Arthur com austeridade.

E embora o jovem não entendesse o idioma do capitão nórdico, o tom de voz de Úlfr o convenceu de que seria uma péssima ideia não dar dois passos para trás. Enquanto o fazia, Arthur tentou segurar o braço de Eric, e afastá-lo um pouco do dinamarquês ameaçador, no entanto, Eric permaneceu firme onde estava, e com o cenho franzido, levou seu olhar desafiador até Úlfr.

— Levante-se, garoto. — Úlfr esperou alguns instantes até que Eric enfim obedecesse a sua ordem. — Você entende o que falamos, não entende?

Eric acenou com a cabeça, confirmando.

— Você é dinamarquês? — perguntou Úlfr. — Ou talvez um norueguês, ou um svear?

— Não sou como vocês — resmungou Eric, como se a sugestão tivesse sido um insulto.

— Sim, você não é como nós. — Úlfr manteve a expressão séria. — Você é estúpido o bastante para rosnar para um urso, sendo que você não passa de um filhote de cachorro sem presas. Acredito que nenhum dinamarquês foi tão estúpido assim em toda a história de nosso povo.

Torvaldr riu.

— Qual é o seu nome, garoto? — continuou Úlfr. — E quem é essa moça assustada do seu lado?

— Eric — respondeu o jovem Adler, pois enfim entendeu que nada de bom viria em continuar provocando aqueles nórdicos. — E esse é meu irmão.

— Seu irmão? — Úlfr lançou um sorriso de escárnio para Arthur. — Deve ser uma zombaria dos deuses com você. — Ele se virou para o ruivo. — Vou levar o garoto, Torvaldr.

— Mas você não acabou de dizer que não usa escravos? — Torvaldr balançou a cabeça em negação. — Você é mais indeciso do que minha mulher.

— Você não tem mulher — brincou Úlfr, enquanto pegava uma pequena bolsa de moedas e a entregava para o amigo.

— E quando eu tiver uma, ela com certeza não será tão indecisa quanto você. — O capitão ruivo gesticulou para que um de seus homens se aproximasse e soltasse o colar de Eric, libertando o jovem do resto dos escravos. — É o seu dia de sorte, garoto.

— Espere... — Eric hesitou. — O que estão fazendo?

— Você vai me acompanhar a partir de hoje — disse Úlfr, como se Eric não tivesse escolha. — Então me siga, a não ser que prefira ficar aqui até que alguém se canse dos seus desafios e resolva te matar.

— O que eles estão dizendo, Eric? — perguntou Arthur, incapaz de compreender o idioma dos dinamarqueses.

Eric não respondeu, ao invés disso, olhou para seu irmão com nervosismo em seu rosto.

— E o meu irmão? — gritou Eric, pois Úlfr já havia dado alguns passos para se juntar à sua tripulação. — Não vou sair daqui sem ele!

Úlfr se virou para trás para encarar o jovem Adler, e sem hesitar, desembainhou sua espada e a jogou aos pés de Eric, com o cabo da arma voltado para o garoto. Confuso, Eric se levantou e recuou um pouco, um gesto que foi copiado por Arthur.

— Eu acabei de comprar sua vida, garoto — disse Úlfr, voltando a se aproximar do grupo de escravos, enquanto divertia seu amigo Torvaldr com a cena. — Então, como dono da sua vida, eu te darei duas opções. Ou você me acompanha em silêncio agora, ou pega essa espada e me mata para conseguir sua liberdade. — Úlfr sacou uma espada curta que também mantinha embainhada em seu cinto, e então apontou a ponta da lâmina para Eric. — A escolha é sua.

— Não posso deixar meu irmão para trás — insistiu Eric, tentando demonstrar firmeza diante da situação, quando na verdade sentia mais medo e impotência do que em qualquer outro momento de sua vida.

— Durante o saque de Searobyrg, o seu irmão se escondeu atrás de você como um covarde cristão. E agora ele continua se escondendo enquanto você tenta demonstrar um pouco de dignidade. — Úlfr abaixou sua pequena espada. — Se quiser jogar sua vida fora para proteger um covarde, o problema é seu. Mas se decidir fazer algo de útil e me seguir, então deve deixar esse peso morto que você chama de irmão para trás, pois no lugar para onde vamos os fracos serão jogados no mar.

— O que ele está dizendo, Eric? — perguntou Arthur, desesperado.

— Arthur... — Eric hesitou, e por um momento pensou que seus olhos se encheriam de lágrimas, mas após respirar fundo, foi capaz de conter seu choro e olhar para seu irmão. — Me desculpa.

— Te desculpar... — começou Arthur. — Mas por que eu teria que...

— Encontre Matilda — disse Eric, interrompendo o protesto de seu irmão.

E ignorando as perguntas de Arthur, Eric segurou a espada que Úlfr havia jogado em seus pés, e iniciou uma caminhada até o dinamarquês de cabelos dourados. Precipitado, Arthur tentou correr até seu irmão, mas foi contido pelo vigia dos escravos, que voltou a lhe espancar com um porrete.

— E então, fez sua escolha? — perguntou Úlfr.

Eric tremeu diante do olhar ameaçador do capitão nórdico, e após mais um momento de hesitação, devolveu a arma para Úlfr, enquanto pedia perdão em silêncio por ter cedido ao seu egoísmo e ao medo de morrer. Demonstrando sua satisfação, Úlfr deu um aceno de aprovação com a cabeça. E Arthur, percebendo que seu irmão estava seguindo o dinamarquês, começou a gritar em desespero, implorando para que Eric não se afastasse, e chorando por conta da surra que estava recebendo, mas principalmente por ser incapaz de proteger seu irmão, mais uma vez.

E ao entardecer, quando o barco de Úlfr, o Silfrdraugr, já estava longe do litoral, Arthur se entregou ao ódio e aos próprios lamentos, por conta de todas as tragédias que haviam acontecido em sua vida durante aqueles poucos dias. Torvaldr e os capitães dos outros dois barcos restantes haviam resolvido permanecer na praia naquela noite, portanto não havia nada que Arthur pudesse fazer além de observar enquanto seu irmão sumia no horizonte distante, e amaldiçoar o próprio destino.

Mas o destino, como Arthur havia se esquecido, vai sempre como deve.

E na floresta que antecedia a praia, os saxões aguardavam pacientemente nas sombras, prontos para levar retribuição para as bestas do norte.

Notas finais
O que acharam deste capítulo? Não deixem de comentar suas opiniões, sejam críticas, observações ou elogios *---* Os irmãos Adler já estavam numa situação meio complicada, mas a vida sempre mostra que pode ficar pior haushauhsaushauhs o nome do próximo capítulo será: Os Dragões do Norte Beijos e até o próximo capítulo (ou até os comentários, tanto faz ahsuhaushaus) o/