Irmandade e Morte
3 Capítulo 2 - Reino em Chamas
Notas iniciais

Reino da Inglaterra, 1003 A.D.
Wiltuna
Os dois cavaleiros guiaram suas montarias para além das linhas do exército saxão, descendo a parte sul do monte onde ficava a fortificação de Wiltuna para observarem bem o inimigo, que estava no lado oposto do rio Nædre. Na outra margem do rio, milhares de dinamarqueses se amontoavam perto das águas, olhando para os números do exército saxão e gritando insultos provocativos.
Pouco mais de seis mil homens haviam se reunido em Wiltuna para lutar pela Inglaterra naquele dia. Homens de Hamtunscir e Wiltunscir, membros das guarnições de todas as fortificações daqueles dois territórios, saxões que deveriam lutar contra os cinco mil dinamarqueses que estavam do outro lado do rio e encerrar de uma vez por todas a devastação que o rei nórdico estava causando no país. E o número de saxões no monte de Wiltuna poderia ser impressionante, não fosse o fato de mais da metade daqueles sujeitos serem trabalhadores rurais, homens que eram obrigados por lei a lutarem pelo rei da Inglaterra em tempos de necessidade.
Os dinamarqueses, por outro lado, tinham um exército constituído por milhares de guerreiros, feras em corpos humanos, domadores do mar, nórdicos educados para se tornarem assassinos no campo de batalha, homens que não respeitavam outra lei além da lei da espada. Isso significava que apesar do número superior, a vitória não era uma certeza para o exército saxão.
— Estão todos aqui — resmungou Ulfkell, o mais velho dos dois cavaleiros. Ele era um homem alto, com quarenta e poucos anos de idade, e com uma postura imponente, digna de um comandante de tropas. Seus cabelos loiros estavam começando a ficar esbranquiçados, e ele sempre os deixava voltados para trás. Seu nariz era reto e sua boca era pequena, de lábios retraídos, com uma barba curta preenchendo seu rosto sério. Um cenho franzido acompanhava seus olhos esverdeados, olhos que ele usava para encarar os nórdicos do outro lado do rio, com uma expressão que misturava raiva e austeridade. — Todas as tripulações dinamarquesas de Svend se reuniram aqui.
— Diferente de nossas próprias tropas — observou o outro cavaleiro, um sujeito mais jovem, de cabelos dourados, rosto oval, e olhos tão verdes quanto os do outro homem. Seu rosto, que costumava sempre apresentar uma alegria divertida, estava sisudo, preocupado e ao mesmo tempo ansioso por conta da batalha que aconteceria em breve, a primeira batalha de sua vida. — Pai, por que eles não desembarcaram do nosso lado do rio?
— Svend sabe que temos um exército maior que o dele, e sabe que teria desvantagem ao lutar conosco em uma colina. Lembre-se disso, Eadgar, o rei dos dinamarqueses não é estúpido, diferente de nosso rei. — Ulfkell suspirou ao perceber o olhar surpreso de seu filho ao vê-lo insultando o soberano do país. — Rei Æthelred deveria ter enviado todas as suas tropas domésticas até aqui, se ele tivesse feito isso, teríamos oito mil homens. E se ele mesmo estivesse entre suas tropas, os camponeses teriam mais coragem de lutar contra os dinamarqueses, e nossa vitória seria certa. Mas ao invés disso, ele decidiu nos mandar quinhentos homens, e nem mesmo teve o bom-senso de enviar Ælfwine para comandá-los.
— Senhor Ælfwine não vai se juntar a nós? — perguntou Eadgar.
— O rei o enviou para Mércia, para buscar o apoio dos senhores de lá. — Ulfkell fez um barulho de desdém com a boca. — Somente um rei tolo poderia pensar que os ealdormans daquela parte do país o apoiariam sem que ele ao menos se apresentasse no campo de batalha. E é isso que Æthelred é, um rei tolo. Um rei inútil que pensa que todo o país tem obrigação de fazer sua vontade enquanto ele passa seus dias se deitando com amantes e sendo envenenado por conselheiros ainda mais inúteis.
— Pai... — Eadgar hesitou, estranhando a severidade das palavras de Ulfkell. — É prudente falar isso aqui?
— Não, mas é uma estupidez necessária — disse Ulfkell, com um tom paciente e com um sorriso no canto da boca. — Você deseja ser Ealdorman de Ânglia Oriental após minha morte, não deseja?
Eadgar acenou com a cabeça, concordando.
— Então deve entender quem é seu rei, e quem são os homens que o cercam. — Ele voltou a olhar para o exército dinamarquês. — Só assim você pode tomar as decisões certas para preservar suas terras, e para ajudar a defender seu reino, mesmo quando seu soberano for um tolo como Æthelred.
Pai e filho olharam para trás assim que ambos perceberam a aproximação repentina de um terceiro cavaleiro, um homem vestido em roupas de padre, com expressão nervosa, nariz torto, e cavalo apressado.
— Aquele não é o padre de senhor Ælfric? — sugeriu Eadgar.
— O rei dos demônios! — exclamou o sacerdote cristão, fazendo o sinal da cruz enquanto se aproximava de Ulfkell e via a grandiosidade do exército nórdico. — O rei dos demônios trouxe todos os seus seguidores!
— Os dinamarqueses não são demônios, padre. — Ulfkell lançou um olhar carregado de desdém ao recém-chegado. — Eles são uma praga, uma infestação que assola o nosso país, e é nosso dever exterminá-los aqui. Onde está o Ealdorman Ælfric?
— Sobre isso... — O padre pigarreou. — Ealdorman Ælfric me enviou para dizer ao senhor que ele está indisposto.
— “Indisposto”? — rugiu Ulfkell. — Temos uma batalha a travar contra as forças de Svend, e Ælfric manda você até aqui para dizer que está “indisposto”?
— Bem... — começou o padre. — Senhor Ælfric está tendo uma crise de vômitos, não está em condições de participar de uma batalha agora. A doença do exército o afetou com mais intensidade do que em qualquer outro homem. — Ele fez o sinal da cruz. — Que Deus tenha misericórdia de senhor Ælfric.
— O rei ordenou Ælfric a liderar seu exército hoje, padre! — protestou Ulfkell. — Está me dizendo que ele vai se negar a lutar pelo próprio país outra vez?
— Ele está indisposto! — insistiu o sacerdote, dessa vez com um tom ofendido.
— Que seja. — Ulfkell respirou fundo, tentando recuperar sua calma. — Vou me reunir com os demais líderes das tropas, se Ælfric não deseja liderar nossas forças hoje, outro homem deverá fazer isso.
— Isso também não será possível, senhor.
Ulfkell abriu a boca para lançar outra pergunta carregada de raiva, mas o som de uma corneta tomou sua atenção, surgindo no topo da colina de Wiltuna, no meio do exército saxão. Assim que o chifre terminou de ser soprado, as tropas do Ealdorman Ælfric, que formavam a maioria do exército, começaram a se dispersar, indo para a direção oposta do rio Nædre, para a direção oposta do exército dinamarquês. E Ulfkell, perplexo, soltou um olhar furioso para o padre.
— O que ele fez? — gritou Ulfkell. — O que Ælfric fez? Diga!
— Senhor Ælfric e seus comandantes estão indispostos — repetiu o sacerdote, em tom indiferente. — E quando os líderes estão incapacitados, o exército inteiro está incapacitado.
Depois disso, o padre virou seu cavalo para acompanhar o exército em retirada, mas Ulfkell apressou sua própria montaria até ficar de frente para o sacerdote, e então desembainhou sua espada, apontando a lâmina para o peito do arauto de Ælfric, para impedi-lo de escapar.
— Você vai levar uma mensagem minha para “senhor” Ælfric, padre. — Ulfkell tinha o rosto enrubescido de raiva. — Diga ao seu senhor que essa é a nossa melhor chance de eliminar a ameaça dinamarquesa, e que se ele se recusar a lutar agora, ele será responsável por todas as vidas que forem tiradas pelos dinamarqueses, todos os campos que eles queimarem, e por todas as cidades que forem destruídas! E diga a ele que não é a ira do rei ou a ira de Deus que ele deve temer caso fuja dessa luta como o cachorro covarde que é, diga a ele que Ulfkell, Ealdorman de Ânglia Oriental, irá cortar a cabeça traidora dele caso ele se recuse a cumprir seu dever! — Ele levantou sua arma, liberando o caminho para o padre assustado. — Agora vá! Volte para o seu mestre!
E assim que o sacerdote obedeceu, cavalgando até o topo do monte de Wiltuna, Eadgar levou seu cavalo até o pai.
— Eles vão mesmo fugir? — perguntou o jovem.
— Sim, Ælfric não terá coragem de lutar contra os dinamarqueses. — Ulfkell fechou os olhos, pesaroso. — Um preço alto será cobrado por essa covardia, Eadgar. Um preço que todos nós teremos que pagar, por culpa de Ælfric.
— E o que nós vamos fazer? — Eadgar parecia nervoso. — Vamos voltar para Ânglia Oriental?
— Não, alguém precisa continuar vigiando Svend e seus bárbaros — respondeu Ulfkell, com uma certeza inabalável em sua voz. — Vá reunir os homens, diga a eles que temos muito trabalho a fazer.
E enquanto seu filho se apressava para reunir seus cem homens, Ulfkell olhou para o céu, onde nuvens negras ameaçavam se aproximar, surgindo no horizonte distante.
Pois a tempestade do norte continuaria a castigar a Inglaterra.
***
A primeira coisa que viu foi o céu, cinzento, porém calmo.
Embora a cabeça de Matilda latejasse e ela tivesse a sensação de ter alguns pequenos machucados na pele, lentamente ficou em pé. Não sabia em que lugar estava, embora provavelmente fosse em algum campo próximo da estrada. Estava tonta e confusa.
A única coisa que lembrava era do caos. O trovão ensurdecedor, janelas quebrando, o carro capotando, o mundo girando ao seu redor, seus gritos de desespero. Só de lembrar daquele momento já sentia uma aflição terrível. Só um milagre a teria feito sobreviver àquele acidente, ainda mais sem aparentar ter nenhum osso quebrado ou qualquer outro tipo de dano grave.
Próxima a si, estavam Eric e Arthur. Felizmente pareciam apenas inconscientes, como a respiração constante deles mostrava. Mas, mesmo que seus olhos tenham procurado por todas as direções, não viu sinal algum dos pais. Se sentiu menos tonta e mais nervosa. Nunca teriam os abandonado naquela situação. O que teria acontecido? Onde estariam?
Tentou manter a calma e respirar fundo, mas era difícil naquela situação e depois de tudo o que podia dar errado numa viagem ter ocorrido. Ajoelhou-se ao lado do irmão mais velho e, sem se preocupar-se em ser cuidadosa naquele momento, sacudiu-o até que acordasse, ainda mais confuso que ela.
— Matilda? Onde é que estamos? — Ele perguntou enquanto se sentava na grama e piscava repetidamente os olhos.
— Como eu vou saber? Fora da estrada, com certeza, mas é só isto que sei.
Arthur suspirou pesadamente.
— Eu ainda tinha esperanças que fosse tudo um pesadelo desagradável.
— Infelizmente não é. E não há sinal algum de nossos pais. — Quando falou essas palavras, sentiu as lágrimas ameaçando escorrer de seus olhos, pois havia ainda a grande possibilidade de eles não terem possuído a mesma sorte que os filhos.
— Não tome conclusões precipitadamente, Matilda. Vamos acordar nosso irmão e achar algum lugar para pedir ajuda. Seu celular está com sinal?
Não havia lembrado que ainda estava com o celular. Tirou-o do bolso da calça. A confusão toda tinha causado uma rachadura feia na tela do aparelho, mas não havia tempo para lamentar isso agora. Embora estivesse ligando normalmente, não havia sinal algum, nem mesmo para chamadas de emergência. Sentiu vontade de soltar um grito de frustração, mas conteve-se apenas a praguejar.
Enquanto isso, Arthur havia acordado Eric, que resmungou até compreender a situação em que estavam.
— Nenhum sinal de celular. — A jovem declarou.
— Então, o que vamos fazer? Sinal de fumaça? — Eric falou.
— Ali — Arthur apontou para um local próximo que, embora Matilda já tivesse visto, havia ignorado totalmente. — Nunca vi aquilo antes, mas provavelmente deve ter gente lá dentro.
Era uma visão inesperada: um fosso e uma paliçada de madeira de mais ou menos três metros de altura, com algumas torres de vigia. Uma espécie de forte medieval, mas até onde se sabia aquilo era algo totalmente inexistente no lugar em que deveriam estar.
— De onde saiu essa construção? — Eric perguntou.
— Não sei, mas é a melhor opção, para não dizer a única, que temos para ir por agora.
Assim que terminou de falar, o irmão mais velho se pôs a andar, e os outros o seguiram.
— Sabe, está tudo muito estranho muito estranho aqui. — Matilda falou, finalmente pensando com mais clareza, agora que mais lembranças do que aconteceu apareciam, e ligando os pontos. Se fosse aquilo que estava começando a supor, era pior que qualquer outra coisa que poderia ter acontecido.
— Só percebeu isso agora?
— Eric, me deixe terminar de falar! Estou me referindo a algo mais estranho do que nossa situação parece ser. Já notaram que não há sinal algum do carro? A vegetação diferente?
Os dois jovens assentiram.
— Você ainda está com o amuleto, Arthur?
— Não sei, mas não acho que guardei ele... — parou de falar assim que tirou o amuleto, intacto, de um dos bolsos.
— Lembram que quando tocamos nele, os raios começaram? Talvez essa coisa possa ter...
— Nos levado para um lugar totalmente diferente de onde estávamos? — Arthur completou. — Embora várias coisas deem sentido a o que você está pensando, não é loucura demais?
— Acho que não fomos só transportados para outro lugar... — Eric falou, olhando incredulamente para a frente.
Matilda e Arthur viraram-se para a mesma direção. Dos portões do provável forte, várias pessoas saíam, apressadas e nervosas, como se estivessem fugindo de algo. Carregavam o máximo de coisas que podiam levar, fossem roupas, comida e até mesmo alguns animais. Porém, o mais estranho era que todos vestiam-se de forma medieval, com as mulheres usando vestidos longos, de tecidos simples, e cabelos quase que totalmente cobertos por véus, enquanto os homens usavam túnicas simples e mantos presos por broches de metal comum. Não havia sinal algum, mesmo que mínimo, de algo que pertencesse ao século XXI.
— Meu Deus. — Foi a única coisa que a garota conseguiu falar. — É pior do que estava pensando.
— Mas isso não pode ser possível, de forma alguma! Só podemos estar sonhando! — O irmão mais velho exclamou. Para ele, ainda parecia impossível engolir aquela loucura.
— Será mesmo, Arthur? Será que é possível que, num sonho, nós três tenhamos consciência própria? É possível sentir nossa respiração, nossos batimentos cardíacos, todos os cinco sentidos, como se fosse a vida real?
A resposta da pergunta de Matilda era óbvia demais para que ela a dissesse em voz alta. Ele suspirou, derrotado.
— Tudo bem, não vou mais contestá-la por enquanto. E pelo menos lá dentro deve haver alguma ajuda para nós.
Pouco tempo depois, atravessaram os portões. Internamente, podia-se ver que era mais um vilarejo cercado por muros do que uma fortaleza, com casas. Era difícil não esbarrar com alguém naquele local, cheio de pessoas apressadas em recolher itens e se aglomerando na saída. Os irmãos, naquele momento, ainda conseguiam compreender o clima de preocupação e agitação que parecia dominar os habitantes dali.
Além disto, a língua que falavam era desconhecida por eles, algo que soava como uma estranha mistura de inglês com alemão. Pelo menos para Matilda, a entonação soava igualmente estranha.
Arthur subitamente parou, concentrado em alguma coisa que os outros não sabiam.
— Prestem atenção nas vozes — falou. — Não sei como, mas acho que consigo entender o que falam.
Matilda por alguns instantes fechou os olhos e tentou prestar atenção nas vozes mais próximas. Não possuía idéia de como aquilo era possível, mas conseguia entender palavras soltas do idioma, que não era parecido com nada que conhecia. Hæðene, foi a primeira coisa que conseguiu entender. Pagãos. A segunda foi deniscan. Dinamarqueses. As duas palavras repetiam-se muito em várias e preocupadas frases, que se tornavam quase impossíveis de se entender naquela cacofonia.
Porém, quando conseguiu compreender o que estava acontecendo, abriu rapidamente os olhos, sentindo o sangue gelar em suas veias e uma sensação de pânico apoderar-se dela novamente. Olhou para Arthur, e o mesmo não aparentava estar melhor que ela. Estava em choque. Apenas Eric ainda parecia alheio ao que estava acontecendo, além de confuso com a reação dos irmãos.
— Que merda está acontecendo? Vocês ouviram algo? — Ele perguntou.
Arthur, que rapidamente voltou ao normal após ouvir a pergunta, empurrou os outros dois jovens para longe da aglomeração dos portões, ignorando algum eventual resmungo.
— ‘Tá, agora vão me explicar qual é a razão disso? Parece até que viram um fantasma!
Matilda até responderia, mas o medo lhe causava um aperto tão grande que parecia difícil até mesmo respirar, muito menos falar algo coerente. Só poderia ser um pesadelo, tinha que ser um pesadelo.
— É muito pior que um fantasma. — Arthur falou. — É uma horda de guerreiros dinamarqueses, que vão atacar este local muito em breve.
— Como? — O rapaz arqueou as sobrancelhas.
— Um exército está vindo invadir e saquear esta merda de lugar, caramba! — Nunca antes havia visto o irmão mais velho falar daquele jeito, mas naquela situação era totalmente aceitável o nervosismo dele. — Por qual motivo você acha que todos querem tentar ir embora? Temos que sair daqui também.
Entretanto, logo após pronunciar aquelas palavras, um grito alto e claro ecoou.
— Os dinamarqueses estão vindo!
O caos tomou conta do local, pois embora muitos tivessem conseguido escapar a tempo, ainda se encontrava no povoado metade de seus habitantes, cuja maioria agora tentava desesperadamente achar algum lugar que julgassem seguro se esconder. Outros, porém, tentavam formar uma pequena força de defesa desesperada, em sua maioria usando ferramentas agrícolas como armas e pedaços de madeira como escudos. Embora fosse doloroso constatar isso, aquelas pessoas seriam uma presa mais do que vulnerável para o inimigo, mesmo estando numa cidade fortificada.
— Se esconda. — O irmão falou num tom baixo, embora Matilda, ainda mais assustada com a confusão, não tenha conseguido ouvir
— Por favor, Matilda, ache rápido qualquer esconderijo que seja!
Dessa vez gritou, e ela conseguiu ver o desespero e a preocupação nítidos em seus olhos. Arthur, como o irmão mais velho, sentia-se no dever de pensar na proteção dos mais novos primeiro. Talvez sempre houvesse sido assim, mas nunca havia sido tão claro como naquele momento.
Queria perguntar o que ele e Eric fariam, se também se esconderiam, mas não hesitou em obedecer ao irmão, não após seu pedido desesperado. Saiu correndo, em meio a gritos e toda uma confusão que nunca esperaria vivenciar, nem mesmo em seus mais loucos devaneios. Se sentia perdida, em pânico, sem saber exatamente o que e como fazer.
Entrou na primeira casa que conseguiu, fechando a porta com um baque assim que estava lá dentro. Então se deparou com três pares de olhos azuis mirando-a, com curiosidade e medo. Eram duas crianças, um menino e uma menina com, respectivamente, mais ou menos 2 e 4 anos, que estavam agarrados a uma jovem mulher, provavelmente a mãe deles.
Matilda e o trio apenas se olharam, não trocando palavra alguma. Não a impediram de entrar na casa, talvez porque, naquele momento, isto não tinha mínima importância. Estavam todos no mesmo barco, entre o medo, a ansiedade e a preocupação. A mulher tinha nas mãos um crucifixo de madeira, e os lábios moviam-se numa oração silenciosa.
Sentou-se num canto da casa, num local que não era possível de ser visto caso alguém olhasse da porta, por causa da pilha de madeira que obstruía a visão. Não sabia se queria chorar ou gritar, além de sumir dali. Longos minutos, que pareceram durar uma eternidade, se passaram no silêncio mais assustador da vida dela. Os únicos sons eram os das frenéticas batidas de seu coração. Nem as crianças pareciam ousar chorar.
E então, os primeiros gritos foram ouvidos. Os gritos agudos e dolorosos, cheios de pavor, de pessoas cujas vidas estavam sendo ceifadas, e os gritos que faziam a terra estremecer, até mesmo alegres, dos guerreiros que não sentiam medo nem culpa de matar. E Matilda sentiu o pânico tornar-se ainda mais sufocante. Novamente o verdadeiro caos estava começando naquele dia, só que desta vez as coisas eram piores ainda. O que seria dela e de seus irmãos?
***
Torvaldr gargalhava.
O dinamarquês ruivo cavalgava com rapidez e júbilo ao lado de outro capitão, Úlfr, liderando mais de mil cavaleiros que formavam a vanguarda do exército nórdico naquele dia. O rei saxão, Æthelred, aparentemente havia tentado criar um ponto de resistência numa cidade mais ao norte, chamada Wiltuna, mas por algum motivo, que Torvaldr logo assumiu ser medo, os saxões que se reuniram naquele lugar desfizeram o exército e abandonaram a cidade, permitindo que os dinamarqueses realizassem um dos melhores saques daquela temporada. Em Wiltuna, eles conseguiram ouro, prata, joias, moedas, alimento, alguns equipamentos, e o melhor de tudo, uma base segura para roubar os cavalos daquela região, e aumentar o alcance do exército nórdico por terra.
Por conta disso, após poucos dias, os lobos dinamarqueses haviam voltado seus olhos para a próxima cidade, Searobyrg. Assim como Wiltuna, Searobyrg também era protegida por uma coleção de muralhas em formato de círculo, um fosso, e uma boa posição em terreno elevado. O que poderia ter transformado aquela cidade em uma fortificação difícil de ser quebrada, não fosse o fato de praticamente toda a sua guarnição ter viajado para Wiltuna e não ter retornado para defendê-la, após o vexame saxão.
E agora, Torvaldr gargalhava diante de mais um saque fácil.
— Cerquem esses ratos! — Torvaldr gritou para os homens que cavalgavam logo atrás dele, enquanto apontava para a multidão desesperada que tentava descer do monte de Searobyrg, saindo do portão em pânico. — Isso mesmo! Corram! Corram para longe, seus ratos saxões! Corram! — Ele olhou novamente para seus subordinados. — Vão, seus bastardos! Tomem tudo o que esses ratos possuem! Tomem tudo!
E os dragões do Svartrforað, a tripulação de Torvaldr, urraram enlouquecidos enquanto subiam o morro atrás de suas novas presas. O céu cinzento lançou alguns relâmpagos longe dali, enquanto as espadas e machados dos dinamarqueses espalhavam sangue saxão no monte de Searobyrg. Alguns saxões, tentando proteger suas famílias, se voltaram para os cavaleiros, mas foram abatidos sem piedade, e os que não foram fatiados pelas lâminas nórdicas, foram pisoteados pelos cavalos até terem seus ossos partidos e seus corpos desfigurados. Mulheres gritavam de desespero enquanto eram arrastadas por dinamarqueses e forçadas a subirem em suas montarias. Mães tombavam mortas, deixando seus bebês e crianças para trás, em um mar de confusão e violência. E quando a multidão do lado de fora da cidade pareceu ser cercada por completo, os cavaleiros nórdicos desmontaram para terminar a matança e capturar as mulheres e as crianças que poderiam ter alguma utilidade, como escravas.
Mas Torvaldr não se juntou aos seus homens naquela ocasião, ao invés disso continuou ao lado de Úlfr e da tripulação do Silfrdraugr, que foram os primeiros a entrar pelos portões da cidade desguarnecida. Tomados por pânico, os habitantes de Searobyrg que ainda estavam atrás das muralhas sequer fecharam os portões da fortificação, o que facilitou a entrada das feras dinamarquesas. E eles de fato pareciam feras, pois eram homens grandes de ombros largos, homens cobertos por cotas de malhas grossas feitas de elos de metal resistentes e imponentes, homens com as costas cobertas por capas de pele, homens com elmos metálicos que tinham aberturas sombrias e amedrontadoras para os olhos, homens que gritavam como os demônios da religião cristã, enquanto espalhavam terror e sangue pelas ruas da cidade.
Quando boa parte dos dinamarqueses já havia se espalhado pelas ruelas de Searobyrg, Torvaldr desmontou de seu cavalo, e limpou a lâmina sangrenta de sua espada na roupa de um cadáver que havia acabado de fazer. Úlfr continuava ao seu lado, sem elmo, e com espada limpa. Ele era um homem mais alto do que a maioria de seus companheiros, com barba e cabelos dourados, olhos escuros e severos, cenho constantemente franzido, boca caída, e expressão feroz. Agora os dois estavam perto da muralha que ficava do lado oposto da entrada da cidade, bem longe dos portões. A rua estava aparentemente vazia, algumas casas já queimavam nas primeiras áreas atingidas pelo ataque, e embora os dois ainda pudessem escutar os gritos de selvageria e os pedidos de ajuda das mulheres saxãs, o lugar onde eles estavam mais parecia com um céu sem nuvens, de tão calmo.
— Qual é o problema? — perguntou Torvaldr, ainda sorrindo por conta do prazer que sentia em fazer parte de todo aquele caos. — Não me diga que está ficando mole igual a um saxão.
— Não é isso — resmungou Úlfr. — Só é decepcionante. — Ele se virou para a fumaça que subia na direção do portão de Searobyrg. — Os soldados dessa cidade a abandonaram, nós conseguimos simplesmente entrar e tomar tudo, estamos escravizando as mulheres e as crianças dos saxões, e queimando esse reino cristão. E em algum lugar do céu, o deus deles está olhando para baixo e não está fazendo nada para ajudar. — Ele cuspiu. — Se o deus deles não tem a coragem de mexer um dedo para ajudá-los, então não deve existir sequer um único homem decente nesse reino de pessoas que seguem o exemplo dele.
— O que você esperava? — Torvaldr riu. — Ser um saxão é a mesma coisa que ser um porco esperando o abate. E nós somos a faca que irá tomar a vida deles, o instrumento de nossos deuses.
— Você não entendeu o que eu quis dizer. — Úlfr lançou um olhar carregado de seriedade para seu amigo. — Nosso rei também está adorando o deus cristão, Torvaldr, o mesmo deus fraco e impotente que esses saxões adoram. E isso, Torvaldr, é decepcionante.
— Contanto que ele continue nos liderando para mais saques assim, ele continuará sendo um instrumento de nossos deuses. — Torvaldr deu de ombros. — Então não vejo problema algum.
A conversa dos dois foi interrompida por um barulho estranho, vindo de um beco perto da rua onde eles estavam. Em resposta, Torvaldr segurou sua arma como se esperasse um combate, mas Úlfr manteve a calma, segurando o cabo de sua própria arma sem desembainha-la. Os dois não demoraram muito a chegar ao beco de onde surgiu o som, e assim que entraram na ruela, tiveram uma das visões mais estranhas que poderiam ter naquele dia. Dois garotos, que não deveriam ter mais do que dezoito anos, encaravam os dinamarqueses como se fossem dois cachorros acuados. Um deles, o maior, era magro e tinha cabelos escuros, com olhos esverdeados e postura nervosa. O outro, aparentemente mais forte, tinha cabelos castanhos e olhos âmbar que encaravam os nórdicos com certa ameaça, além de segurar um pedaço de madeira com as duas mãos trêmulas, como se fosse uma espada.
— Esses saxões ficam cada vez mais estranhos — zombou Torvaldr, olhando para os jovens que vestiam roupas incomuns. — Já viu túnicas tão curtas como essas? Eles devem ser os loucos da cidade ou qualquer bosta do gênero.
— Explicaria o fato de eles não terem corrido junto dos outros saxões — disse Úlfr, com desinteresse. — Se vai matá-los, faça logo.
— Não quero matar loucos — respondeu o ruivo. — Eles podem servir de diversão para meus homens, vou colocar algumas correntes neles.
Úlfr levantou as sobrancelhas, surpreso, pois o garoto de cabelos castanhos que segurava um pedaço de madeira pareceu ter compreendido sua conversa com Torvaldr. O outro jovem, no entanto, continuou com um rosto perplexo, confuso.
— Vão... — começou o garoto mais baixo, com um sotaque estranho. — Vão embora!
— Ele é dinamarquês? — sugeriu Torvaldr, aos risos. — Talvez por isso tenha coragem de levantar esse pedaço de merda contra nós.
— Vão embora! — repetiu o garoto, dessa vez com mais firmeza em sua voz.
— Eu cuido disso — disse Úlfr, ficando na frente de seu amigo. — Se esse garoto te acertar, você vai ficar com raiva e vai acabar matando ele.
— “Me acertar”? — Torvaldr franziu o cenho. — E se ele te acertar ao invés disso, seu pedaço de estrume?
— Ele não vai me acertar. — Úlfr sorriu, fazendo com que os dois jovens dessem um passo para trás. — Vamos, garoto, isso vai ser rápido. — Ele abriu os braços, com as mãos nuas. — Vamos!
E o garoto de cabelos castanhos gritou, girando sua arma improvisada para acertar o dinamarquês.
Fale com o autor