Notas iniciais
Esperamos que gostem :D

As mãos de Eric se juntaram sob a torneira, deixando uma quantidade generosa de água se acumular entre seus dedos. E após usar o líquido para molhar seu rosto suado, o garoto lançou um olhar vago para seu próprio reflexo no espelho, como se já estivesse acostumado com aquele tipo de marca em seu rosto.

Ele tinha dezesseis anos, pele alva, queixo forte e quadrado, boca larga com lábios retraídos, nariz reto, e olhos caídos de cor âmbar. Seu cabelo era liso, relativamente curto, e castanho como os de sua irmã mais nova. Esses eram traços que o tornariam um rapaz bonito para as garotas de seu colégio, não fosse a constante expressão de indiferença pouco convidativa em sua face e o hematoma que decorava a parte inferior de seu olho direito. Não que ele se importasse com isso, afinal, machucados sempre somem com o tempo, diferente da raiva. Sim, a raiva, sua única companheira para todos os momentos, uma companheira que ele tinha problemas para controlar.

Depois de enxugar seu rosto molhado na própria camisa, Eric soltou um suspiro de exaustão, e levantou o olhar enquanto ajeitava a posição da mochila em suas costas. Pois o dia de aula finalmente havia acabado, e chegara a hora de voltar para sua casa. O trajeto entre os dois lugares era sempre o mesmo, e o garoto já o havia decorado com precisão, pois embora ainda fosse um estudante do primeiro ano, aquele era o segundo ano de Eric no ensino médio. O que não passava de uma simples consequência de suas péssimas notas, e das duas expulsões que havia sofrido no ano anterior, um reflexo das brigas que sempre o encontravam, por mais que ele não as procurasse. Elas aconteciam em todo lugar, em sua vizinhança, nas escolas em que estudava, e até mesmo em lugares públicos que visitava. Era como se a raiva fosse sua única amiga, e as lutas a forma que ela encontrava de conversar com ele.

E foi assim, cansado daquela rotina, que o garoto caminhou escola afora. Ninguém lhe cumprimentou durante sua saída, pois os estudantes novos mal haviam notado sua presença durante o primeiro dia daquele ano letivo, e os que já conheciam, se sentiam desconfortáveis quando ele se aproximava. Ao mesmo tempo em que pensava em todas essas coisas, ele dava passos desatentos por uma rua aparentemente deserta, sob um céu carregado de nuvens escuras que escondiam o sol do meio-dia, ameaçando trazer uma chuva pesada em breve. E Eric continuaria assim, não fosse o estranho assovio que escutou vindo da esquerda, de um beco que ladeava a rua.

— Ei! Você! — gritou um jovem que Eric reconheceu como um de seus novos colegas de classe. Ele estava com suas costas apoiadas em uma das paredes que formavam a viela, acompanhado por três sujeitos que tinham seus rostos ocultos pelas sombras. — Você é da minha sala, não é? Eu te vi na educação física.

Displicente, Eric caminhou aos poucos para dentro do beco, para escutar melhor o garoto, que havia abaixado seu tom de voz propositalmente.

— Sou Eric — ele respondeu, enquanto olhava para as três pessoas que estavam ao lado do outro rapaz. — E qual é o seu nome? Não me lembro.

— Bem, se você quer saber qual é o meu nome, pode descobrir isso na próxima chamada. — O garoto sorriu, caminhando para trás e se escondendo na viela escura. — Ele é todo seu, Marcos.

Eric podia não conhecer o nome de seu novo colega de classe, mas ele conhecia muito bem Marcos, e por isso, assim que ouviu aquele nome que tanto detestava, tentou se virar e correr. Mas para a surpresa do jovem de cabelos castanhos, a saída já havia sido fechada por dois garotos. E ao entender o que estava acontecendo, Eric fechou seus punhos e voltou a encarar seus inimigos.

— Senti sua falta, Eric — disse Marcos, finalmente exibindo seu rosto de falcão e seu olhar zombeteiro. — Estranhei não ter te visto na nossa sala hoje, mas não dá para evitar isso, já que você é um repetente agora.

— O que você quer? — Eric franziu o cenho, enquanto um relâmpago descia no horizonte distante, trazendo seu som imponente até o lugar onde os garotos estavam. — Não tenho dinheiro.

— Não quero dinheiro — resmungou Marcos. — Pensa que sou pobre como você, seu repetente bosta? Só pensei em te dar uma surra, igual às surras que eu te dava no ano passado, lembra?

— Não estamos na escola — disse Eric, em tom sombrio.

— E daí?

— Não te bato na escola porque seria expulso se fizesse isso. — Eric deu um passo para frente, enquanto o som do segundo trovão ecoava pelo beco. — Se tentar me bater aqui, ninguém vai te proteger, e eu vou quebrar essa sua cara feia.

Os garotos riram.

— Ouviram essa merda? — Marcos desfez seu sorriso, adotando um semblante mais ameaçador. — Vou te colocar no seu lugar! Seu repetente de...

Eric não esperou seu inimigo terminar a frase, acertando de baixo para cima o queixo de Marcos com um soco súbito, rápido, e implacável, que fez o garoto ser jogado para trás no mesmo instante, confuso. Em seguida, ele saltou para seu alvo caído e começou a golpeá-lo sem piedade usando os dois punhos, enquanto os demais jovens estavam paralisados, não por medo de Eric, mas por conta dos trovões que soavam por perto cada vez que o garoto dava um novo soco. Mas logo que eles perceberam que Marcos já estava inconsciente, os estudantes enfim correram para impedir Eric de continuar o golpeando.

E Eric gritou.

Pois a raiva, sua eterna companheira, desejava ter uma conversa.

E ele nunca negava esse pedido para a velha amiga.

***

Chegando até a sua casa, Matilda jogou para o lado, de qualquer jeito, a mochila, em seguida atirando-se na cama, finalmente encontrando um descanso. Embora houvesse muitas vezes em que a aula era algo interessante e até mesmo agradável, em vários dias, como aquele, era apenas algo tedioso e cansativo, cheio de professores chatos e matérias complicadas para se aprender.

E, ainda por cima, aquele dia ainda possuía o bônus de ter sido irritante. Como era de se esperar do ensino médio, uma boa parte dos alunos estava namorando, ficando ou em busca de uma namorada ou ficante, algo que não causava grandes incômodos, a não ser quando ela era o alvo de alguns.

Um rapaz do segundo ano a alguns dias atrás resolvera interessar-se por ela. Daniel, o nome dele. Era um tanto quanto bonito e com jeito amigável, e continuaria sendo assim se felizmente tivesse permanecido sem fazer nada além de ser um amigo. Se já ficava um tanto quanto irritada ao ver rapazes ousando tentarem tratar suas amigas apenas como um objeto descartável, foi mil vezes pior quando ela foi o alvo de uma tentativa assim.

Uma tentativa desajeitada e rápida demais de pedido de namoro, seguida de um beijo inesperado, quase forçado e que nem conseguia lembrar sem sentir a vontade de tomar detergente puro para limpar a boca, que a deixaram vermelha de raiva, erroneamente interpretado pelo jovem como vergonha. Pelo menos até o momento em que ela estapeou sua face, causando um som alto e seco.

Como era de se esperar muita gente viu o acontecimento, e o fora, humilhantemente recheado de xingamentos, que o rapaz levou logo em seguida, provocando muitos risos, mas também vários comentários que insinuavam que Matilda na verdade fosse interessada por garotas.

Então era isso? Se não quisesse se envolver com um garoto, automaticamente ela era homossexual? Aquilo só fez a irritação continuar, mas conseguiu manter-se um tanto calma por fora. Estava ainda apenas no primeiro ano do ensino médio, não poderia terminar de estragar o que sobraria de bom na sua reputação depois daquilo.

“— Ora, Matilda, claro que foi algo surpreendente, mas a sua reação foi muito exagerada, também. E você deveria arranjar mesmo um namorado para você, lhe faria bem” Uma amiga havia falado aquilo, alguns momentos depois.

“— E talvez você devesse arrancar sua língua fora, faria um bem maior ainda para os meus ouvidos”.

Talvez possa ter sido um pouco pesado, mas depois aquilo seria resolvido. Por que ela devia ter um namorado? Não era a prioridade dela no momento, que queria, antes de tudo, tirar notas boas, divertir-se com amigos e encontrar a felicidade sozinha. Os homens agora eram alguma espécie de fonte de felicidade? Apenas na cabeça das pessoas que Matilda considerava idiotas e tentava, na medida do possível, manter distância.

Respirou fundo e sentou-se na borda da cama, ficando em frente ao espelho situado na parede. O cabelo castanho, cortado pouca coisa abaixo dos ombros e meio desfiado, havia ficado ligeiramente bagunçado por ter se deitado. E mesmo usando uma maquiagem leve, logo abaixo dos grandes olhos castanho-esverdeados podiam ser vistas as olheiras escuras, resultado de ter ficado assistindo séries ao invés de descansar para a aula na madrugada anterior. Logo depois de almoçar, iria desabar de vez na cama e nada a acordaria por longas horas, nem mesmo seus irmãos, ou se sentiria um tanto inclinada a cometer um homicídio.

Mas conteve-se de fazer um lamento dramático ao lembrar que não seria possível dormir naquele dia. Como era muito frequente em sextas-feiras, a família iria passar o fim de semana no sítio de alguns parentes, ou seja, ela teria que passar dois dias inteiros no meio do nada, sem amigos, sem internet, sem sinal de celular e sem a aconchegante bagunça que era seu quarto. Apenas os episódios de séries previamente baixados no notebook para situações como aquela e Tormenta, sua égua e montaria favorita no sítio, lhe serviriam de algum consolo.

Quase que inconscientemente olhou as horas no celular. 12h45min. Provavelmente sua mãe a chamaria logo para o almoço, embora ela ainda não houvesse visto seus irmãos chegarem. Provavelmente Arthur teria ido diretamente ao trabalho no shopping e almoçado por lá mesmo, e Eric, só Deus poderia saber. Estava com fome demais para pensar em outras coisas, ainda mais se estas coisas fossem seus irmãos, e nada melhor do que um monte de comida, especialmente se for acompanhada de um copo de refrigerante, para esquecer qualquer incômodo do dia.

Ficou em pé e saiu do quarto, deixando a porta de madeira entreaberta. Porém, após somente dois passos, sentiu o ar gelar às suas costas, como se uma janela subitamente houvesse sido aberta atrás de si.

Virou-se para trás, e sentiu um arrepio percorrer a espinha. Embora fosse loucura, poderia ter jurado que vira, através do espaço deixado na porta, a figura pálida de uma mulher jovem, de cabelos loiros e olhos verde-acinzentados, com uma expressão infeliz, que não pareceu notá-la. Usava um véu de linho transparente na cabeça e trajava um vestido antiquadamente longo. Embora tivesse vontade de gritar ou correr, apressadamente Matilda voltou ao quarto e escancarou a porta, tarde demais. Não havia nada fora do comum: a bagunça do quarto estava intocada e as janelas tão bem-fechadas quanto antes.

Mal havia notado que estava suando frio. O que havia sido aquilo? Quem era aquela mulher e por que usava aquelas roupas estranhas? Seria uma loucura criada por sua mente ou uma visão real? Pelo menos a sensação de que o ambiente havia se tornado gelado e o arrepio haviam sido bem reais. O temor ainda estava muito presente, juntamente com a dúvida.

Uma leve dor no estômago a fez lembrar que seu corpo ainda precisava de comida. Lentamente, como se a estranha surpresa tivesse congelado seus músculos, andou novamente para fora do quarto, e dessa vez fechou totalmente a porta. Queria se prevenir de ter mais algum susto daquele tipo.

Então, por estar distraída, acabou por esbarrar em alguém, que deu um baixo gemido de dor. Eric.

Não o tinha visto na saída da escola, nem no caminho para casa, e com certeza algo estranho havia acontecido nesse tempo. Um pedaço da camiseta estava rasgado e havia um belo hematoma na parte inferior do olho direito. O olhar parecia sombrio, sério, algo estranho e até mesmo um pouco assustador. Porém, o conjunto das coisas era algo comum quando ele novamente havia se envolvido em problemas.

— Que merda aconteceu, Eric? — perguntou, mesmo que já tivesse uma ideia do que devia ter ocorrido.

— Não é da sua conta. — Ele falou, quase empurrando-a ao passar para o quarto dele.

— Claro que é! — exclamou, incomodada. — O que você acha que a nossa mãe vai pensar quando notar esse olho roxo? E essa camiseta rasgada? Não acredito que você vai repetir as mesmas merdas do ano passado!

O irmão apenas resmungou alguma coisa inaudível e entrou no próprio quarto, fechando a porta sem delicadeza alguma.

Matilda suspirou. A manhã mal havia passado e já estava cercada de confusões e coisas estranhas. O que a tarde lhe reservaria?

***

Olhava para o relógio fixamente. A lentidão torturante em que os ponteiros, num tique-taque irritantemente constante, movimentavam-se agitava Arthur. Queria logo ir embora, aproveitar o descanso dos seus problemas que dois dias no campo lhe trariam.

Como o mais velho de três irmãos, as maiores expectativas dos pais eram direcionadas a ele, assim como, consequentemente, recebia as maiores responsabilidades e pressões para ser o “filho perfeito”, o “orgulho da família”. Tinha de estudar mais, se esforçar mais, trabalhar mais, ajudar mais, ser sempre o exemplo, nunca errar.

E tudo isso ainda somado à situação financeira da família. Desde muito tempo, talvez até mesmo antes de todos os filhos nascerem, seus pais viviam em dificuldades e dívidas inacabáveis, embora fizessem de tudo para que isso não afetasse de forma significativa a vida dos filhos, ou, pelo menos, não a vida dos mais novos. Assim que completara 16 anos, eles lhe obrigaram, mesmo que tenha sido disfarçado de uma mera sugestão, um incentivo, a arranjar um emprego para ajudá-los economicamente.

E agora lá estava Arthur, contando os minutos para poder sair do trabalho. O emprego de meio período na livraria do shopping não era tão horrível, até tendo um chefe e colegas de trabalho simpáticos e suportáveis, mas o cansaço que isto, a proximidade cada vez maior da faculdade e algumas eventuais e nada incomuns discussões em que tinha com os pais durante a semana acabavam por deixá-lo exausto, tanto fisicamente quanto mentalmente. Às vezes parecia um tanto difícil conseguir aguentar mais um dia sem enlouquecer.

Então, finalmente o relógio marcou 17h30min. Seu horário para o fim do expediente. Não escondeu nem conteve o suspiro de alívio que deu. Pegou a mochila que trouxera consigo, despediu-se dos conhecidos e foi embora, como se tivesse sido a última vez que trabalharia ali.

Rapidamente, atravessou o espaço cheio de lojas e que, com o entardecer, começava a se encher de gente cada vez mais, e logo estava na rua. Teria que atravessar dois quarteirões para chegar até sua casa e assim poder pegar as coisas que precisaria para o fim de semana, que provavelmente só seriam algumas roupas, objetos de higiene pessoal e um livro escolhido de forma quase aleatória.

O sol ainda não havia começado seu caminho para se pôr. O trânsito estava começando a ficar congestionado, consequentemente enchendo o ambiente dos caóticos e desordenados sons de diversas buzinas de carros. A vontade de Arthur era de ouvir alguma música no volume máximo para ter um pouco de tranquilidade em meio àquela bagunça, e lamentou o fato de ter esquecido os fones de ouvido em casa.

Olhou para um velho na rua. Um mendigo, ninguém com alguma importância. Tinha cabelos e barbas brancas, rosto enrugado e vestia algumas camadas de roupas encardidas pelo uso contínuo. Não sabia o porquê de seu olhar ter se voltado àquela criatura, e então percebeu que um item havia caído dos bolsos do senhor.

Como o velho não havia percebido a queda do objeto, Arthur apressou-se para juntá-lo antes que alguma pessoa roubasse. Era um amuleto redondo, pendurado no cordão como um pingente. A prata era fria em suas mãos. Em uma das faces do objeto, havia diversas inscrições estranhas, provavelmente utilizando um alfabeto rúnico. O outro lado era ainda mais interessante: um símbolo que era um tanto parecido com um triskellion, mas ao invés de ter as típicas três espirais simples, cada uma representava um animal. Um lobo, um cavalo e, por fim, um dragão.

Embora quisesse poder observar por mais tempo e cuidado o estranho amuleto, resolvera entregar logo ao seu dono, como era seu dever. Cuidadosamente, cutucou-lhe no braço direito, fazendo com que o velho se virasse, um pouco surpreso por alguém notá-lo.

— Senhor, acho que deixou cair este objeto aqui — falou, estendendo uma das mãos, com o amuleto em cima dela.

Os olhos do senhor, assustadoramente azuis, arregalaram-se de surpresa. Então olhou para Arthur.

— Agradeço pela educação, meu jovem, mas permita-me que eu faça uma pergunta. Pode me descrever o que é isso em sua mão?

— Bem, acho que é isto é um amuleto. Não consigo reconhecer a origem, mas há inscrições rúnicas nele — respondeu, mesmo que a pergunta sem nenhum sentido aparente tenha lhe deixado confuso.

O velho então sorriu, divertido com algo que só ele sabia.

— Então agora é seu. Tenha uma boa viagem, meu caro. — E empurrou a mão estendida na direção de Arthur.

— Mas por quê? Não estou entendendo nada.

— Ah, muito em breve irá descobrir. O destino vai sempre como deve! — e logo em seguida começou a gargalhar.

O jovem afastou-se, a passos rápidos e um pouco assustado. Era um velho insano, que apenas lhe disse loucuras e coisas sem sentido. O tipo de gente que sua mãe diria parar nem olhar caso ainda fosse criança. Porém, ainda assim continuou com o amuleto. Nem ele mesmo sabia o porquê, mas parecia que uma estranha força prendia o objeto a si.

Após alguns poucos minutos de caminhada, chegou até sua casa. O carro já estava com a maior parte das bagagens que seriam levadas, quase certo que apenas faltando as coisas dele. Como possuía as chaves, abriu a porta e entrou em casa silenciosamente, sem aviso algum. Teve a impressão de ouvir algumas vozes agitadas nos fundos da casa, mas ignorou.

Quando estava atravessando o corredor, viu a porta do escritório entreaberta. O pai estava lá, terminando de olhar o que pareciam ser contas, com uma expressão ligeiramente carregada, até mesmo preocupada. Mais dívidas, certamente. Passou rapidamente dali: aquele não era um bom momento para que ele fosse notado. A chance de que alguma discussão começasse ou que mais pressões fossem colocadas nele era grande.

A porta do quarto de Matilda estava totalmente aberta. Ela estava deitada na cama, acessando alguma rede social pelo celular, e rapidamente notou a presença do irmão mais velho.

— Arthur! — ela exclamou, ficando em pé. — Finalmente você chegou! Estou doida para irmos viajar logo.

— Você, doida para viajar até aquele local “no meio do nada”, como você fala?

— Bem, é que talvez você ainda não tenha notado o que está acontecendo. — Os olhos dela, tão esverdeados quanto os dele, por um instante miraram o chão.

— O quê? Não vi nada de errado...

As palavras foram cortadas por um grito da mãe. Não um grito de horror ou medo, mas palavras raivosas com a intenção de repreender alguém. Ela sabia ser assustadora naqueles momentos.

— Eric. — Foi o primeiro pensamento de Arthur. — O que ele fez dessa vez?

— Não sei de muita coisa, mas ele chegou aqui em casa com um olho roxo e uma camiseta rasgada.

Arthur suspirou. O mesmo problema de sempre se repetindo.

— Eu ainda tinha esperança de que ele fosse melhorar esse ano.

— Acho que todos nós tínhamos.

— Vou lá tentar amenizar as coisas.

— Que bom. Nossa mãe já está falando com ele há mais de meia hora. Confesso que já estou começando a ficar com medo.

Então ele dirigiu-se aos fundos da casa. Só mais um problema a ser resolvido, e depois dois dias de paz. Estranhamente, as últimas palavras do velho ecoaram em sua mente, embora não houvesse nenhum motivo para isto.

“O destino vai sempre como deve!”

***

O silêncio já havia se apoderado da família há um bom tempo.

Quase uma hora havia se passado desde o inicio da viagem, e até aquele momento, nenhuma palavra foi dita, nenhuma troca de olhares aconteceu, e nem mesmo o som do carro foi ligado, já que o pai dos três irmãos estava com a mente ocupada demais para sequer pensar em escutar as músicas que tanto adorava ouvir durante aquele trajeto rotineiro. Eles iam para o sítio da família Adler, uma família grande que, apesar de simples, possuía algumas posses consideravelmente abastadas como aquela. Mas os pais de Matilda, Eric, e Arthur, não possuíam propriedades tão prósperas assim, muito pelo contrário, a única coisa que eles pareciam possuir era um talento para saltar entre dívidas, sempre pagando uma conta e arrumando outros dois débitos no processo. E era isso que ocupava a mente do pai dos três irmãos durante aquela jornada.

Ao menos até a mãe dos três romper o silêncio desconfortável com sua indignação.

— Isso é inaceitável, Eric! — protestou a mulher, virando seu rosto enrubescido para trás e fazendo sua franja castanha ficar bagunçada. — É ridículo!

— Eu já entendi — resmungou Eric, que estava sentado entre seus dois irmãos. — Já me falou isso hoje, não precisa repetir.

— É justamente por você não entender que eu preciso repetir isso tantas vezes! Duas expulsões, Eric! Duas! — A mãe dos jovens parecia estar prestes a ter um ataque de fúria incontrolável, e Matilda, que fingia escutar alguma música com seus fones de ouvido, não conseguiu deixar de pensar em como sua mãe e seu irmão eram parecidos nesse aspecto. Pois os dois pareciam mudar completamente em momentos de raiva. — Você não está satisfeito com duas expulsões? Quer sofrer uma terceira? Uma quarta? Quer ser expulso de todas as escolas da cidade?

— Eu já disse que não estávamos na escola quando aconteceu! — disse Eric, tentando repetir o mesmo argumento que havia usado mais cedo. Mas era inútil, uma vez que sua mãe se irritava com ele, Eric não tinha escolha a não ser escutar e escutar. O que, apesar de compreensível, parecia a maior das injustiças para o garoto. — E eles me cercaram em um beco! O que eu deveria fazer? Apanhar?

— Para começar, você nem mesmo me explicou o que foi fazer em um beco depois da aula! Você devia ter ido para casa, Eric, e não ter entrado na merda de um beco! — continuou a mãe. — Mas você não fica satisfeito com isso, não é mesmo? Sempre prefere ir atrás de uma briga! Sempre prefere ser o centro das atenções!

Eric se calou.

E Arthur olhou de relance para seu pai, que continuou quieto e aparentemente inexpressivo durante toda aquela discussão. Depois de soltar um suspiro inaudível, o irmão mais velho encostou sua cabeça no vidro molhado por alguns instantes, até que um clarão forte tomou sua atenção, no horizonte distante. Parecia que a chuva estava ficando cada vez mais forte, e raios começaram a cair perto da saída da cidade.

— Deveríamos colocá-lo em alguma academia — disse o pai, virando seus olhos verdes para sua esposa por um segundo, e depois retornando sua visão para o para-brisa, onde os limpadores lutavam contra as gotas grossas do temporal para continuarem mostrando o caminho ao motorista. — Ele devia pratica alguma arte-marcial.

Arthur franziu o cenho, pensando em quantas dívidas seriam colocadas nos ombros de seus pais caso isso acontecesse. Era o primeiro pensamento que passava por sua mente em momentos como aqueles, não por vontade própria, mas por costume, desde que passara a levar algum dinheiro para casa. E para tentar afastar esse pensamento de suas ideias, o jovem colocou sua mão direita no bolso da calça, puxando o estranho medalhão do mendigo que havia encontrado mais cedo.

— Você quer dar mais brigas para ele? — perguntou a mãe, com um tom de voz mais baixo, mais igualmente irritado. — Isso só vai deixar ele pior.

— Em uma academia ele poderia gastar toda essa energia e raiva — explicou o pai dos três irmãos, usando o retrovisor interno para encarar seu filho brigão com um olhar frio. — E quem sabe lá você possa aprender a ter algum controle.

— E o que você pensa que eu tento ensinar a ele? — resmungou a mulher, se segurando para não deixar seu tom de voz choroso evidente. — É só o que falo para ele, o tempo todo! Mas ele não escuta! — Ela deixou algumas lágrimas escaparem de seus olhos cor de âmbar, exausta por conta de todas as confusões que seu filho arrumava. — Ele não escuta...

Matilda fechou os olhos enquanto cerrava seu punho esquerdo discretamente. Pois detestava ver sua mãe chorar, era uma cena que lhe entristecia e revoltava no mesmo instante. Mas ela conteve sua opinião no momento, afinal, a situação já estava suficientemente ruim sem que ela iniciasse mais discussões.

Em resposta ao choro de sua esposa, o pai dos três jovens levou sua mão direita até a mão de sua mulher, fazendo um breve carinho que tentava indicar que tudo ficaria bem, apesar de todos os problemas. Depois disso, ela soltou um sorriso cansado, tentando convencer a si mesma de que seu marido estava certo, e que todos aqueles pesadelos acabariam logo.

— Vejam — sussurrou Arthur, usando sua mão esquerda para levar seu novo amuleto para frente de Eric, e tentando distrair seus dois irmãos até que sua mãe se recuperasse daquele desentendimento. — Encontrei isso depois do trabalho.

Eric olhou sem muito interesse para o pedaço de prata redondo, pois pouco se importava com qualquer coisa naquele momento, só estava irritado consigo e com todas as outras pessoas, ao mesmo tempo em que sentia a culpa por ter feito sua mãe chorar destruí-lo por dentro. Matilda, no entanto, teve sua atenção tomada pelo objeto estranho, chegando até mesmo a sorrir com o canto da boca enquanto tocava o amuleto com a ponta de seus dedos.

— Tenho a impressão de já ter visto esses símbolos — disse a garota.

— São letras de um alfabeto rúnico, talvez você já tenha visto algo parecido em algum filme ou série. Mas o melhor não é isso. Vejam. — Arthur mostrou a outra face do talismã, exibindo para seus irmãos o símbolo espiral formado por um lobo, um cavalo, e um dragão. As figuras pareciam ter sido feitas por algum artesão profissional, com detalhes muito bem evidentes, apesar do desgaste na prata. — Foi um achado e tanto, não?

Ao notar o lobo prateado que adornava a peça ao lado de outras duas bestas, Eric imitou o gesto de seus irmãos, e encostou a ponta dos dedos no talismã. E um clarão surgiu na linha do horizonte, de frente para o carro, o que fez com que os três soltassem o amuleto imediatamente.

— Raios — comentou o pai, em tom monótono. Soltando um longo e sonoro suspiro de decepção em seguida. — Vamos torcer para que esse temporal não vá até o sítio, senão teremos lama por toda parte.

— Ótimo — resmungou Matilda, pensando em como tudo parecia estar piorando, apesar de ela ter julgado que seria impossível piorar ainda mais, antes de sair de casa.

Eric olhou para frente, tentando enxergar de lado o rosto de sua mãe, mas o que viu foi três raios caindo na mesma direção que os relâmpagos anteriores, só que dessa vez, as luzes haviam atingido um local mais próximo, causando um som ensurdecedor, mesmo com o isolamento do carro.

— São Pedro está irritado hoje — brincou a mãe.

Outros três raios caíram, dessa vez ainda mais perto do carro, e com um barulho ainda mais forte, avassalador. Todos se calaram com o susto, e o pai dos irmãos Adler até mesmo hesitou no volante, enquanto as luzes ofuscantes dos raios sumiam e davam lugar aos faróis dos carros na mão oposta.

— Mas que merda foi essa? — resmungou Eric, tão baixo que quase ninguém o escutou.

E então um clarão intenso surgiu por um segundo.

E o mundo virou caos.

As janelas foram quebradas pelos três últimos raios que atingiram o veículo, e o trovão acertou os ouvidos de todos sem piedade, o que impediu que cada um deles escutasse os gritos dos demais membros da família, enquanto os pneus estourados derrapavam sem controle pela estrada molhada, liderando o carro pela contramão.

Assim que a luz diminuiu e o pai entendeu o que havia acontecido, se viu diante de uma fileira de carros que corriam em sua direção sem diminuir a velocidade, e em um momento de pânico e indecisão, o homem girou o volante, desesperado. E enquanto sua família inteira gritava, o carro girava descontrolado para a esquerda, pois havia sido atingido na traseira e agora capotava impiedosamente pela saída da cidade.

E a vida dos três jovens foi engolida pelo caos. Porque aqueles raios escolheram bem seus alvos naquela noite de chuva e trovões, afinal, uma tempestade ainda maior deveria ser presenciada pelos irmãos Adler, longe daquela realidade amena. E somente pela grande porta do caos o destino pode ser alcançado.

Pois o destino vai sempre como deve.

Notas finais
"O destino vai sempre como deve" é uma frase tirada diretamente de um trecho do poema épico anglo-saxão Beowulf, escrito por um autor anônimo. Obrigado por ler, toda crítica será bem vinda :) Próximo Capítulo: Reino em Chamas