Bobby puxou o manche, fazendo uma manobra no ar e virando o avião de lado para facilitar o pouso no campo aberto. Algumas crianças gritaram, se agitando lá atrás, e ele espiou pelo espelho, mas tudo parecia bem. Só estavam assustados demais, e depois de tudo, era de se esperar.

— Tudo bem crianças, chegamos, não precisam se preocupar. Vai ficar tudo bem aqui — ele informou, pousando o veículo e vendo as crianças se abraçando nos bancos de trás.

O avião balançou um pouco ao tocar o chão, e Bobby desligou o motor, se levantando do banco às pressas. Haviam algumas boas dezenas de crianças ali, variando de tão pequenas quanto cinco anos, até algumas mais velhas de dezesseis, que pareciam ter pegado para si a tarefa de cuidar das menores. Ele tentou não se ressentir da situação. Lhe entristecia ver crianças tendo de ser adultos daquela forma, mas a essa altura, ao se lembrar de seu time que deixara em Nova York, ele tinha entendido que sua espécie não tinha escolha. No mundo atual, jamais teriam.

— Vamos descer em fila — ele chamou, abrindo a porta. — As crianças com menos de oito anos por favor dêem as mãos a alguém mais velho.

Bobby saiu primeiro, se afastando da escada e observando as outras crianças saírem, levando apenas alguns poucos pertences pessoais consigo. Tinham pousado em um aeroporto muito vazio, mas Bobby já esperava isso: Genosha não estava aceitando visitantes no momento.

— São eles? — Uma voz grave e forte perguntou, e Bobby ergueu o rosto, vendo duas pessoas caminhando em sua direção.

O primeiro era um homem bastante alto, de cabelos brancos, usando um terno vinho com abotoaduras de ouro. Ao seu lado, uma mulher azul de cabelos ruivos, vestindo um vestido branco.

— Erik. Raven — Bobby cumprimentou, apertando as mãos dos recém-chegados. — Obrigado por isso.

— Quando eu comprei Genosha foi sobre o pretexto de transformá-la num santuário para qualquer mutante necessitado — Erik respondeu, com um sorriso que poderia ser considerado malicioso em qualquer um, mas acostumado com os trejeitos dele, Bobby reconheceu a simpatia por baixo dos traços. — Especialmente crianças.

Uma garotinha avançou um pouco, a mão agarrando nos shorts de Bobby.

— Senhor Bobby… A gente vai ficar aqui com eles?

— Vão — ele explicou, se abaixando para ficar na altura da garota. — É o lugar mais seguro para vocês, eu prometo. Erik não vai deixar ninguém que poderia fazer mal a vocês entrar aqui.

Ela olhou para os dois um pouco desconfiada, mas Bobby ficou feliz em constatar que os dois tinham se preparado para isso. Raven se transformou, ficando com a aparência de Bobby, e em seguida transformou apenas o nariz, colocando um nariz de porco no rosto dele.

A garotinha riu, o que para ele valia à pena qualquer piada.

— Raven, porque não leva as crianças pra casa delas? Eu quero dar uma palavrinha com o Drake.

A mulher assentiu, voltando para sua forma azul normal, e estendendo a mão para a garotinha. Ela correu, pegando a mão de Raven, e logo a mutante guiava todas as crianças para fora.

Bobby tinha uma boa noção do que Erik queria abordar, mas saber de antemão não o deixou menos ansioso. Quando a pista de pouso se esvaziou, o homem se aproximou um pouco, com um olhar inquisitivo no rosto.

— Eu sei — Bobby comentou, apenas.

— Eu entendo a conexão que você tem com o Instituto do Charles, Drake, mas na atual circunstância…

Eu sei. Não pretendo abrir o Instituto de novo. Nova York não é segura.

— Genosha está sempre de portas abertas para qualquer um que fosse procurar vocês.

— Eu entendo, mas me desculpe se eu tenho ressalvas quanto a colocar crianças mutantes em suas mãos.

— O que quer dizer?

Bobby soltou uma risada sarcástica, curta, e cruzou os braços. Erik parecia muito disposto a se fazer de desentendido, o que não deveria ser surpresa para Bobby, mas ainda assim, o irritou.

— Sério, Erik? Irmandade, patrocínio, Clube do Inferno… Não te é familiar?

Ele colocou a mão no peito, teatralmente, a expressão se mudado para uma muito caricata de ofensa.

— Você acha que eu financiei a Irmandade? Mas que absurdo Drake, por que é que eu faria uma coisa dessas?

Bobby levantou uma sobrancelha, e isso pareceu bastar para Erik desistir e relaxar a postura.

— Ok, talvez eu tenha, mas nem todos os mutantes talentosos querem ir pro seu time, Bobby.

— Foi irresponsável. Eles não tinham nenhum apoio. Uma garota morreu.

— Por que você acha que eu encerrei as coisas?

— Eles não parecem encerrados.

— Já não tenho nada a ver com isso, estão agindo por conta agora.

Bobby suspirou, relaxando a postura. Já devia saber que discutir com ele seria perda de tempo, mas não tinha conseguido segurar a língua na boca. Era melhor ir logo embora. Seus alunos poderiam estar precisando de reforços.

— Mantenha eles à salvo — Bobby pediu, caminhando de volta para o avião.

— Como se fossem meus.

A dupla se dispersou, Bobby caminhando de volta para o avião, mas quando já estava na metade do processo ele se virou de volta, encontrando Erik flutuando pelo caminho para fora do aeroporto.

— Erik!

Conseguiu ver o homem suspirar de cansaço dali, mas mesmo assim, ele se virou.

— Que é agora?

— Charles. Eu sei que você sabe onde ele está. Poderíamos usar a ajuda dele.

— Charles está ocupado.

— Bem, não consigo pensar como ele pode estar fazendo algo mais importante do que resolvendo a crise atual.

A expressão de Erik não mudou. Havia uma seriedade no rosto dele, um ar quase austero, que fez Bobby sentir um arrepio correr pela coluna. Erik não era de fazer alarde à toa, se ele dizia que havia algo mais importante que um ataque tão direcionado à espécie que ele tanto defendia… Uma coisa era Erik usar de sua posição no Clube do Inferno para manter a própria ilha à salvo, e de seu título como Magneto para afugentar inimigos. Mas assumir que Charles não poderia ajudar…

Bobby não disse mais nada. Ele engoliu em seco, despediu de Erik com um aceno e voltou para o avião. Nova York precisava de toda ajuda que pudesse dar.

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