Irmandade de Mutantes: Supremacia Marvel 717 3
19 De Volta ao Começo
Um dos motivos pelos quais Cassian preferia dirigir motos era porque elas lhe permitiam ser um completo vândalo no trânsito, algo bem mais difícil de fazer com a minivan que a equipe tinha alugado para aquele trabalho. Ele resmungou, apertando o volante com as mãos e desejando que pudesse dar a posição para outra pessoa dirigir.
Mas na parte de trás da minivan, Reese e Miguel estavam praticamente desacordados, ele apagado por completo e ela semiconsciente, e Moonstar era o único deles com um mínimo de conhecimento médico para ao menos apontar se Marlene precisava ir ao médico ou não, e era o que ele estava fazendo agora.
— Cassandra, checa as coisas lá atrás — Cassian ordenou, ainda vigiando o trânsito.
Sua sombra, que ele tinha nomeado recentemente por achar que facilitava a comunicação se tivesse um nome para usar, se afastou dele, usando as sombras internas da vã para se esticar até o fundo do veículo. Cassian esperou, pegando as ruas mais vazias e procurando aberturas no trânsito, nem que tivesse de dar algumas voltas para isso. Dirigir em Nova York era sempre um pesadelo usando qualquer coisa com quatro rodas, e a coisa toda era ainda pior quando havia certa urgência graças à situação de seu time no banco de trás.
Isso contribuía em muito para a raiva atual do garoto. Três minutos. A janela de tempo a qual eles tinham para estar na sala do delegado era de três minutos, um tempo o qual Reese poderia aguentar sem problemas. E sim, tinham imaginado que atrasos poderiam ocorrer, mas de três para dez era um salto enorme, o bastante para ele ter muita certeza de não ter sido acidental. Algo tinha saído do planejado, e precisaria discutir isso, extensamente. Mas, primeiro, precisavam chegar em um local seguro.
Ele pegou mais alguns atalhos, passando a vã em uma ou outra rua um pouco mais vazia, até chegar em Chinatown e acelerar em direção ao restaurante. Não podia parar a van muito perto, e não sabia o quanto Marlene tinha condições de andar agora, mas a essa altura era problema dela, também. Ninguém tinha mandado ela sair da linha esperada para o plano deles.
Cassandra voltou do fundo, parando na frente de Cassian e fazendo uma mímica de desmaio bastante convincente. O garoto soltou um palavrão. Ele e Moonstar não conseguiriam carregar os três, mal conseguiriam carregar uma pessoa cada. Frustrado, Cassian deu meia-volta na van. Ia ter de pará-la em um parque ou algum outro lugar onde pudessem ficar até no mínimo Miguel e Reese poderem andar por conta própria.
Acabou encontrando um canto em uma praça de segurança duvidosa, mas a essa altura, se alguém tentasse roubar o grupo, Cassian quase tinha dó do que sobraria da pessoa, pois ia soltar Moonstar em cima sem pensar duas vezes. Ele estacionou a van e saiu do banco, correndo até a parte de trás do veículo.
Marlene estava escorada contra a parede, um pouco pálida, segurando um pano embolado contra o tornozelo. Reese estava sentada com a cabeça baixa entre os joelhos, mas no mínimo parecia consciente. Miguel, por outro lado…
— Cassandra, acorda o Miguel.
Cassandra respondeu com uma posição de sentido, então deslizou pelas sombras do chão até Miguel e começou a balançá-lo pelos ombros. Cassian deixou ela cuidar disso e se aproximou de Reese, se abaixando em frente a ela.
— Ei, Reese. Reese, me responde.
— Hm… Oi…
Água. Um pouco de água faria bem, não é? Cassian abriu a mala de emergência que tinham deixado ali dentro, onde havia um pouco de água, alguns biscoitos e um kit de primeiros socorros, que Moonstar tinha aberto mais cedo para olhar o tornozelo de Marlene.
Ele entregou uma garrafa para Reese, e a garota a pegou, um pouco lerda, abrindo e começando a beber. Do outro lado, Cassandra tinha conseguido, aos poucos, fazer Miguel se sentar. Marlene tinha aberto os olhos, embora ainda parecesse um pouco lenta, mas estava responsiva.
— Vocês conseguiram? — Cassian perguntou, deixando Reese com a água e um pacote de biscoitos e direcionando sua atenção a Marlene.
— Claro — Moonstar respondeu, abrindo um sorriso de canto e tirando um pendrive do bolso. — Não tinham nada sobre Jason, mas tiramos tudo de William que deu pra pegar.
— Maravilha — o líder respondeu, suspirando. — Então já que estamos com o pendrive, e todo mundo parece no mínimo consciente… O QUE CACETES VOCÊS ESTAVAM FAZENDO QUE LEVOU MAIS QUE O DOBRO DO TEMPO ESPERADO?
— Não grita comigo que não sou tuas puta — Moonstar retrucou, dado que pela situação dos outros três, ele era o único que parecia em condições de responder. — A gente tava dentro da delegacia. No olho do furacão. Oportunidade única. Só quisemos aproveitar um pouco.
Cassian conteve um grunhido de raiva, batendo com a mão na própria testa. É claro que quiseram aproveitar, tinha imaginado uma coisa dessas, mas tinha esperado um pingo de bom senso de não estenderem tanto assim o tempo além da conta.
— Um pouco quase custou a coisa toda! Sinceramente, Marlene, eu espero que esteja doendo, é bem feito pra vocês. A gente deu foi muita sorte, se tivessem mandado gente competente atrás da gente em vez dos pirralhos do Bobby poderia ter dado tudo errado. E aí vai saber quando a gente ia poder tentar de novo.
— Ia, poderia, se tivessem… — Moonstar comentou. — Relaxa, já passou, deu certo.
— Quase — Cassian comentou, indicando Marlene. — Acho que uma noite de sono vai fazer bem pra Reese e Miguel, mas Marlene precisa de um hospital.
— Não! — A garota exclamou, de repente, levantando a cabeça. — É um ferimento de bala… Vão chamar a polícia… Não podem me ver…
— Pensasse nisso antes de resolver cagar o planejamento do negócio — Cassian retrucou. — Arrisque ir presa ou apodreça o pé, tanto me faz. Às vezes isso lembra vocês de seguirem o plano direito da próxima vez.
Ele suspirou, apertando a ponte do nariz. Não desejava mal pra equipe de fato, mas tinha sido em parte por falta de planejamento que Charlotte tinha…
— Ok, chega de papo — ele anunciou, batendo as mãos em uma palma alta para atrair a atenção do grupo. — Marlene você vai pro hospital sim, Moonstar leva ela, pode pegar dinheiro do estoque pra pagar. Digam que a arma é sua e foi um acidente, não vai ser tão difícil assim de acreditar. Com sorte eles te costuram rápido o suficiente pra vocês poderem vazar antes de polícia se envolver. Me liguem se precisarem de uma saída estratégica. Eu vou ficar aqui com Miguel e Reese, com sorte eles melhoram o suficiente pra voltarmos a pé pro restaurante. Alguma pergunta?
— Não. Vou levar ela então, mas não posso ficar muito lá, o Instituto tem toque de recolher e eu… Oh.
— O que foi?
— Os Novos Mutantes.
— O que… Eles te viram?
Moonstar deu de ombros, e Cassian conteve a vontade de soltar um palavrão alto, trocando a expressão por um grunhido irritado. Isso não era nada bom.
— Eu não sei — Moonstar completou. — Mas eu usei meus poderes e se eles tiverem acesso aos arquivos que eu roubei, é uma conclusão provável.
— Eu tenho até medo de perguntar, mas o que, além da ficha de William, vocês puxaram daquele servidor?
O garoto suspirou, e ficou claro na expressão dele que não queria responder. Moonstar tinha pegado o que queria pegar, tinha feito o que queria fazer, e não se arrependia de nada. Se Cassian entendesse ou não, o problema era dele, era ele quem o tinha chamado pro time pra começo de conversa, então…
— A ficha de Marlene, alguma coisa que o Miguel queria, e a investigação do atentado que matou meus amigos e me colocou internado no Instituto.
Sainte merde. Então dos três arquivos, pelo menos dois poderiam ser rastreados diretamente para os donos, com nome e sobrenome. Será possível que não tinham pensado nisso? E Miguel já não era lá muito discreto.
No pior dos casos, era preciso assumir que os Novos Mutantes e talvez também a polícia estaria em cima dos três. Isso não era problema pra Marlene, que já era foragida, nem para Miguel, que não tinha muito pra onde ir. Mas para Moonstar…
Cassian suspirou. Não era como se desse para parar pra pensar muito no assunto, só existia uma solução possível para isso.
— Parabéns, Moonstar — ele respondeu, dando dois tapinhas nas costas do colega. — Você agora é foragido da polícia. Igual a Marlene.
— O quê? Mas… — O garoto ia reclamar, mas parou no meio do caminho, abaixando a cabeça e encarando o assoalho da van por um tempo. — Merda. Bom, não é como se eu já não quisesse fugir do Instituto de qualquer forma.
— Vai acabar fugindo de muito mais que isso — Cassian suspirou, tentando conter a frustração. — É possível que você e Marlene não possam ficar no restaurante por agora, são os dois procurados e se forem encontrados junto com a Reese e o Miguel vão acabar levando o resto do time junto.
— Você só pode tá de brincadeira…
— É? — Cassian perguntou, rangendo os dentes e se virando para Moonstar, irritado, o dedo cutucando o peito do garoto com uma petulância notável. Cassandra se levantou e fez a mesma pose, apontando o dedo na cara de Moonstar, e o garoto se sentiu duplamente desconfortável. — Pensasse nisso antes de deixar uma trilha de migalhas pra polícia e os Novos Mutantes seguirem até você.
— E eu vou pra onde?
— Sei lá. Pros esgotos, talvez.
— Eca! Eu não vou…
— Pro restaurante vocês não vão, ao menos até a poeira baixar. E quanto ao ferimento de Marlene… Vocês podem arriscar um hospital ou torcer pra não ser tão grave assim.
Cassian e Moonstar abaixaram o olhar pro pé da garota. Não havia tanto sangue escorrendo, e o local onde a bala tinha passado, dava pra ver, tinha atravessado de um lado a outro, o que era bem melhor do que se a bala tivesse alojado. Talvez com primeiros socorros básicos desse para contornar o problema. Talvez.
— Com sorte não quebrou o osso — Cassian comentou. — Mas fora isso, não tem nada que eu possa fazer.
— Podemos ao menos ficar na van? — Moonstar perguntou, uma risada sarcástica e desagradável escapando de seus lábios.
Cassian deu de ombros. Tanto lhe fazia, ia descartar a van em algum terreno baldio de qualquer forma.
— Sua escolha, podem ter visto a van saindo da delegacia, ou não. Pensem nisso na próxima vez que quiserem “aproveitar” algo e sair do plano — completou, ainda soando bastante irritado. Cassandra tinha fechado as mãos em punhos e batia o pé no chão com muita energia. — Eu vou levar Reese e Miguel pro restaurante, por enquanto fiquem aqui. Nos falamos em breve.
Cassandra ajudou Reese a se levantar, e Cassian passou um braço de Miguel pelas costas. Cassian caminhou para a saída do veículo e, em um estalo repentino, se lembrou de que Miguel tinha se exposto algum tempo atrás ao perseguir os mafiosos da lavanderia. Haviam descrições físicas dele naquele evento, e não seria difícil, depois de ele ter roubado informações sobre a mesma máfia dos dados da delegacia, assumirem que se tratava da mesma pessoa. Xingando um palavrão baixo, Cassian colocou Miguel no chão. Não podia levá-lo também.
Por que era tão difícil seguir uma instrução simples? Dados de William Stryker, apenas. O tamanho do problema no qual estavam metidos agora era inteiramente culpa dos três e da atitude engraçadinha deles de achar que podiam se virar. Cassian não atestaria pela lealdade de Marlene e nem Moonstar, e portanto, não podia arriscar eles serem encontrados. Conseguia sentir que Miguel e Reese eram muito mais gratos a ele que os outros eram, e se isso não garantia a lealdade dos ex-Morlocks, imagine o que a pouca gratidão dos outros dois fazia por ele. No fim das contas, não ter um lugar para eles se esconderem poderia, sim, ser seu problema.
— Ok — ele comentou, cansado, se sentando no chão da van. — É melhor começarmos a pensar em algo.
[...]
— Eu odeio esse plano — Moonstar resmungou, passando a mão nas calças para limpar a poeira muito suspeita na qual tinha acabado de tocar ao apoiar a mão na parede.
O cheiro dos esgotos não tinha melhorado nada desde quando Miguel e Reese tinham morado ali, e o garoto, caminhando ainda um pouco devagar e sentindo uma leveza estranha na cabeça, não estava nada feliz de ter precisado voltar.
Mas, no fim das contas, essa tinha sido a melhor ideia a qual tinham conseguido ter. Ele, Marlene e Moonstar iam se refugiar ali enquanto fosse necessário, e Cassian e Reese voltariam ao restaurante para terem algum contato com o mundo exterior. Moonstar vinha reclamando de todas as coisas dele que tinham ficado no Instituto e que não poderia buscar, e Marlene ainda caminhava com um braço passado pelos ombros dele, mancando, mas ao menos estavam conseguindo se mover.
— Não estamos muito longe — Miguel comentou. — Nós tínhamos um acampamento principal, mas de vez em quando alguns Morlocks iam se acomodar sozinhos em um canto ou outro. Talvez ainda tenha algumas tendas por ali.
— Hm. E o que fazemos sobre ela? — Moonstar questionou, indicando Marlene com a cabeça.
— Eu consigo ouvir vocês. E estou bem, não é como se eu tivesse levado um tiro no peito.
O gemido de dor que ela soltou em seguida era um forte indicativo do contrário.
— Eu sei alguns primeiros socorros básicos. Mas básicos, o tipo de coisa que a gente fazia aqui nos esgotos quando alguém cortava um dedo ou algo parecido. Não sei dar ponto nas coisas, e isso aí parece um tanto mais complexo…
— Vai ter que servir, não posso ir prum hospital — Marlene resmungou, mancando para acompanhar os passos de Moonstar.
Miguel tentou não pensar na pressão que isso significava. Marlene estava escolhendo não ir para um hospital, se a escolha dela acabasse com o pé dela necrosando e caindo não era sua culpa.
O trio acabou se acomodando em uma das plataformas menores dos esgotos, onde algumas cordas e um ou outro cobertor muito velho e desgastado indicavam que o lugar já tinha sido morada de algumas pessoas antes. Ainda cansado, Miguel se apoiou na parede e fez uma certa força para conseguir trazer algumas vinhas para o chão do local, nem que para não acabarem deitando direto no chão sujo do esgoto. Quando tinha morado ali, fizera sua própria barraca com uma boa quantidade de vinhas e várias vezes tinha cedido algumas melhorias aos seus colegas, mas para criar qualquer coisa mais elaborada que um tapete de folhas ia precisar de uma noite de sono e um banho de sol, ambas as coisas só podendo ser alcançadas no dia seguinte.
— Ao menos isso — Moonstar comentou, olhando em volta para a mistura de galhos e mato onde poderia se sentar. — Alguma ideia de quanto tempo vamos ter que ficar aqui?
Miguel negou. Nem imaginava.
— Vamos focar em deixar a estadia segura e confortável, não dá pra saber quanto tempo vai durar — Miguel respondeu, ajudando Marlene a se sentar em um amontoado de folhas mais confortável.
Ele se abaixou para dar uma olhada no pé da garota. Não podia fazer muito além de limpar, enfaixar e rezar, e foi o que decidiu, puxando para perto uma mochila com suprimentos que tinham preparado e começando o trabalho. Marlene não reclamou em momento algum, e isso era dizer alguma coisa considerando que estava jogando antiséptico direto na ferida aberta sem anestesia. Depois de tudo feito, deu um remédio para dor para ela, e agora, até ele precisava muito descansar.
Com mais um pouquinho de esforço conseguiu alguns montinhos de folhas para se deitarem, e isso era tudo o que poderiam fazer por agora. Teriam de esperar por novidades de Cassian para poderem sair dali, e nenhum sabia quanto tempo isso ia demorar. Por agora, era melhor irem se acomodando.
[...]
Cassian entrou em seu quarto pela janela, depois de subir a escada de incêndio. Já era madrugada avançada, estava exausto depois de ajudar Reese a voltar ao restaurante e não havia nada que quisesse mais do que uma boa e longa noite de sono. Ele entrou, fechou a janela e se espreguiçou, já arrancando a camisa para se deitar, quando a luz do quarto se acendeu de repente.
— Putain…
— “Putain” vírgula, Cassian, você acha que tá falando com quem?
Ele bem tinha temido o dia no qual sua mãe ia descobrir o que vinha fazendo, mas mesmo assim, não esperava que isso acontecesse logo quando tinha cometido uma sequência particularmente séria de crimes.
O garoto ficou parado no meio do quarto, se perguntando se ela ia dizer algo ou se esperava que ele dissesse. Se ela quisesse uma confissão completa, ia ficar esperando, pois Cassian tinha convicção de que quanto menos ela soubesse, melhor. Enquanto isso, no chão, Cassandra se ocupou de mimicar os comportamentos de uma sombra normal o máximo possível, como costumava fazer quando estavam em casa.
— Eu vou perguntar uma vez só — a mulher disse, enfim, a voz séria e firme. — É você nessa roupa de cachorro invadindo bases de Purificadores, e agora uma delegacia?
Ela podia estar perguntando por educação, até porque, existiam muitas pessoas com poderes no mundo e umbracinese com certeza não era exclusividade dele, mas sendo pego entrando em casa tarde daquele forma, e do jeito que sua mãe olhava pra ele deixava claro que a pergunta era quase retórica, apesar dela querer, sim, uma resposta.
— Hm… surpresa?
A mulher soltou um xingo baixo, e Cassian se virou, começando a tirar as roupas para se deitar. Estava cansado, não queria ter esse tipo de conversa agora, sabia que não ia acabar bem. Mas também sabia que ela não iria se deitar sem uma resposta e provavelmente um castigo elaborado — o qual ele prontamente ignoraria — então teve de aceitar que a conversa ia acontecer, quer gostasse disso, quer não.
— Você perdeu o juízo, Cassian? Depois do que aconteceu com seu pai…
— É exatamente pelo que aconteceu com papai! Meteram bala nele, e pronto, ele morreu, e adivinhe, ainda estão matando! As pessoas ainda estão morrendo! Alguém tem que fazer alguma coisa sobre isso!
— E não vai ser você! Pelo amor de Deus, Cassian, não te é o bastante que eu tenha perdido ele, você quer que eu perca você também, é isso?
— Não — ele respondeu, rangendo os dentes.
Não adiantava ficar irritado com sua mãe. Ela era mãe, ele tinha dezessete anos, obviamente ia vê-lo como uma criança que tinha de colocar debaixo da asa. Não haveria argumento, discussão, ou insistência que a faria entender, e Cassian não iria parar por causa disso.
— Você vai me entregar? — Ele perguntou, pensando se sua mãe iria a esse extremo para impedi-lo de continuar. Teria de fugir pros esgotos caso isso acontecesse, algo que não tinha vontade nenhuma de fazer, mas se fosse necessário…
— É claro que não — ela respondeu, quase parecendo ofendida. — Sabe-se lá o que esses porcos do governo fariam com você.
— Eu não vou parar — Cassian insistiu. — Eu quero que seja seguro sair na rua de novo, e isso não vai acontecer enquanto essa palhaçada não for resolvida. Eu não me enfiei numa delegacia em um surto rebelde, mãe, estou fazendo uma investigação. E pretendo continuar com ela.
— Cassian, você está de castigo. Não é porque não vou te entregar que vou compactuar com isso.
Cassian, que não tinha pretensão nenhuma de ficar de castigo e ia continuar seguindo sua vida como se nada tivesse acontecendo pois tinha coisa melhor pra fazer, respondeu a mãe com um sorriso bem pequeno, um que deixava claro sua intenção de ignorar as últimas palavras da mulher.
Ela queria, mais que qualquer outra coisa, poder impedir o filho, nem se tivesse que prendê-lo em casa, mas se ele tinha conseguido invadir uma delegacia, como ela ia conseguir mantê-lo dentro do quarto? Não tinha a menor chance. Só se entregasse ele às autoridades, e isso não tinha coragem de fazer. Não podia perdê-lo. Não ia aguentar.
— Eu não posso perder você também. Isso não é justo — ela disse, deixando o quarto em seguida.
Cassian viu que ela estava à beira de lágrimas, e isso fez seu estômago afundar. Parte dele quis correr atrás da mãe para dar um abraço, dizer que ia ficar tudo bem, mas algum orgulho adolescente o manteve parado no mesmo lugar por tanto tempo que quando enfim se mexeu foi só para se jogar na cama e pegar o celular no bolso.
Ia conversar com ela no dia seguinte. Talvez. Provavelmente. Mas naquele momento, se sentiu estranhamente sozinho. Mesmo sua equipe tendo falhado e muito na delegacia ao sair da linha daquela forma, eram bons colegas de time, mas não era o que ele queria agora. De repente, sentiu falta de um amigo com quem conversar, e só havia uma pessoa com quem ele poderia falar esse tipo de coisa.
O problema era que, por mais que quisesse — e queria muito — também não sabia se podia confiar em Niko. Até entendia ela ter vindo a Nova York sem falar com ele. Se a estadia era curta, sequer poderiam se ver, conseguia lidar com isso. O que não conseguia entender era o que ela tinha ido fazer na Igreja de Stryker e porque não tinha mencionado nada do assunto para ele. Ela sabia que ele era Irmandade, sabia que ele tinha um interesse enorme em quaisquer novidades a respeito do terrígeno. Sabia como aquele gás o assustava. E ainda assim…
É claro, levava em conta, talvez ela quisesse o proteger, como sua mãe queria agora, mas isso não era trabalho dela. Entendia a ação vinda de sua mãe, mas Niko deveria ser sua aliada, e em vez disso a cada dia sentia que a conhecia menos, quase como se depois de terem se aberto sobre quem realmente eram, tivessem passado a saber ainda menos um sobre o outro.
Ele encarou o número da garota por um instante, mas não ligaria para ela de qualquer forma, eram três da manhã. Tudo bem que, com a S.H.I.E.L.D., ela poderia estar em qualquer lugar do mundo e, portanto, poderia ser qualquer horário para ela agora, mas mesmo assim…
Em vez disso, ele mandou uma mensagem, dizendo que estava querendo jogar conversa fora, e que ela o dissesse quando estaria disponível para isso. Então largou o telefone na mesa de cabeceira e decidiu que, depois de tudo o que tinha acontecido naquele dia, merecia uma boa noite de sono.
[...]
Alguns anos atrás
Jason carregava consigo apenas uma mochila pequena com alguns pertences e seu boneco do Coisa. Não tinha falado nada no caminho, abraçando o boneco em silêncio dentro do carro e escolhendo não encher seu pai de perguntas. Ele já parecia irritado o suficiente.
Tinha sido sem querer. Estava com muita dor de cabeça, e na inocente cabeça de um garotinho de sua idade, comer mais um pedaço de chocolate ia deixá-lo feliz. Então quando sua mãe disse “não”, e ele começou a chorar, não queria ter feito nada daquilo. Ainda nem entendia como tinha acontecido, só sabia que uma luz branca muito forte tinha aparecido na sala, e que depois sua mãe estava no chão, e então seu pai estava gritando enquanto ajudava a mulher a se levantar e ordenando que um criado o ajudasse a montar uma mochila.
Já estavam no carro há muito tempo. Jason não sabia para onde. A viagem durou algumas horas, e o garoto ficou calado o tempo todo, até o carro enfim parar na frente de um prédio branco muito grande num lugar meio vazio da cidade.
— Desça — William ordenou.
Jason não discutiu, descendo quietinho. Seu pai pegou sua mão e foi o guiando em direção ao prédio, e o garoto apertou o boneco, seu coração disparando. Não sabia o que ia acontecer agora, mas por algum motivo, não gostava muito.
— Pai… — ele murmurou, enfim. — Me desculpa…
— Olhe pra frente. Preste atenção.
Jason abaixou o rosto, acompanhando os passos e tentando não chorar. Ia ficar de castigo, tinha certeza, mas não sabia que tipo de castigo. Parecia muito grande, porém, para precisar de irem tão longe.
Eles passaram pela recepção e entraram num elevador, que começou a descer pro subsolo. Depois, saíram em um corredor muito branco e muito comprido, o tipo que deixou Jason assustado. Parecia um hospital. Não gostava de hospitais.
— Papai…
Uma porta se abriu no final do corredor, e um homem saiu, usando uma farda verde esquisita e um monóculo no olho direito. Ele caminhava muito sério, parecia bastante bravo, e foi o bastante para Jason começar a chorar mesmo. Não gostava nem um pouco de nada daquilo.
— Hm. Strucker. Não achei que fosse vir em pessoa.
— Eu gosto de supervisionar meus trabalhos em pessoa, Stryker. Esse é o garoto?
— Sim.
O tal Strucker o olhou de cima a baixo por um instante, e então se voltou para William.
— O dinheiro…
— Já foi arranjado. Só dê um jeito de acabar com essa maldição.
— Acabar, como eu disse, não é sempre possível. Mas pagando bem, fazemos o que der.
William assentiu, e pela primeira vez desde que tinham deixado a casa, se abaixou, de frente para Jason. O homem enxugou as lágrimas do filho, um sorriso muito relutante se abrindo em seu rosto.
— Jason, esse é um amigo do papai. Você pode chamar ele de Sagittarius.
Jason achou o nome engraçado. Parecia até de super-herói. Ele era um super-herói? Poderia ajudá-lo? Era por isso que estava ali?
— Ele pode te ajudar com suas dores de cabeça e as outras coisas — William continuou. — Mas você vai ter que ficar aqui um tempo.
— Você vai ficar aqui comigo? — Jason perguntou, um nó se agarrando na garganta. Já sabia a resposta, mas ainda assim, teve esperanças.
— Não posso. Eu tenho um trabalho importante pra fazer, lembra? Preciso cuidar das Igrejas. E aí, quem sabe, quando você sair, não pode cuidar delas comigo, hã?
Jason quis chorar de novo, mas apertou seu boneco (tá na hora do pau!) e assentiu com a cabeça, devagar. Se ficasse ali, se seguisse as instruções direitinho, talvez eles pudessem resolver seu problema, e então sua mãe não ia mais ficar tão brava com ele. Poderia até trabalhar com seu pai!
— Tudo bem. Eu vou ficar bom, papai, eu prometo!
— Esse é o espírito — William respondeu, bagunçando os cabelos do filho de leve e se levantando.
Então ele se foi, e deixou o filho ali, na base de operações da I.M.A..
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