Irmandade da Adaga Negra: Amor e Drama
3 Série Pais e Filhos 2 Rhage, Mary, Vishous , Jane
Notas iniciais
Capítulo 1
Nas sombras de Caldweell, a Irmandade agia, implacável. Tinham conseguido baixas significativas na Sociedade Lessening. A presença de Butch era de fundamental importância para aquela guerra. Os lessers fugiam apavorados com a menção do Exterminador... Mas havia baixas do lado dos vampiros também, embora muitos civis houvessem abandonado a cidade. Alguns ainda persistiam, e eram vítimas dos lessers.
Rhage saiu do quarto de banho completamente vestido para lutar. Mary estava sentada na cama, e não precisou olhar para ele para saber que ele estava excepcionalmente lindo como sempre. Entretanto, ela estava ocupada com o bebê de John e Xhex, e não poderia admirar a perfeição do homem à sua frente.
Rhage a olhou por alguns instantes. Ela estava linda, de cabeça baixa, com aquele bebê no colo.
— Oi — ele chamou suave.
— Oi! — ela respondeu com um sorriso. — Vou ficar com ele essa noite. A Xhex e o John já saíram — ela contou enquanto ele a olhava fixamente.
Mary o conhecia bem e percebeu uma sombra em seu olhar.
— O que foi?
— Nada. Você gosta de ficar com ele, não é mesmo?
Ela levantou as sobrancelhas e o encarou.
— Gosto. E a Xhex se recusa a deixá-lo com outra pessoa. Mas o John não quer que eu fique com esse encargo todas as noites. Eles estão arrumando uma doggen. Mas eu não me importo de ficar com ele — explicou ela.
Ele queria dizer mil coisas, queria dizer que não queria que ela se cansasse cuidando de um bebê que não era dela. Queria dizer que ela estava amando muito o filho de outra pessoa, e isso não era saudável. Queria poder dizer o quanto gostaria que ela cuidasse de uma criança que fosse deles, gerada por eles. Mas era impossível. Ele era consciente disso. Pedira à Virgem Escriba uma solução para aquela angústia. Amava demais aquela mulher, e não queria que ela sofresse, queria dar a ela um filho. Pensara em fecundar outra fêmea, mas a ideia de deitar-se com outra fêmea era inadmissível.
— Rhage? Você está bem, meu amor? — ela perguntou preocupada.
— Sim, estou. Vou indo, se cuida! — ele disse dando um beijo rápido em seus lábios.
Quando ele estava na porta, ela o chamou e ele se virou.
— Amor, aqui — ela disse mostrando um pirulito de maçã com a mão livre.
Ele sorriu, seus dentes brancos e perfeitos aparecendo, seus olhos incrivelmente azuis, brilhando.
— Eu te amo, Mary.
***
A luta estava acirrada. Os lessers haviam invadido um conjunto de casa de civis. Acontecera muitas perdas, mas a Irmandade estava toda lá, enfrentando os assassinos mortos-vivos sem sombras de medo.
Vishous entrou sorrateiramente numa das casas, uma de suas adagas na mão, preparado para qualquer coisa. Pelo vão de uma porta aberta, vislumbrou um corpo estraçalhado do que, provavelmente, era uma fêmea. O cheiro adocicado do lesser se espalhava pelo ambiente, mas outro cheiro se misturava no ar. O cheiro de medo... Analisou pelo vão em busca de uma oportunidade de ataque, e descobriu de onde vinha o medo.
Uma pequena criança estava agora nas mãos do lesser, que a apanhara encolhida num canto. Percebeu que era uma menina pelo tom rosa das roupas. Seu primeiro impulso foi o de atirar no bastardo, mas correria o risco de atingir a pequena. Teve de ponderar.
O Lesser ria enquanto a criança esperneava em suas mãos. Da posição em que estava, V não pôde identificar as ações do filho da puta, porém viu o brilho da lâmina que ele certamente baixaria sobre o pescoço da pequena fêmea. Em questão de segundos, atirou sua adaga negra pelo ar, sua lâmina cortando o ar com facilidade e precisão. Atingiu o ombro do lesser, e a faca dele não atingiu a garganta da pequena, que soltou um grito muito alto.
V não era de se abalar por pouca coisa, mas o grito daquela garota o abalou. Sem dar tempo para o lesser agir, pulou sobre ele, mas, antes, teve tempo de olhar na direção da menina. Sentiu o cheiro de sangue e pôde ver o vermelho escarlate tomando conta da face da garota.
A luta foi acirrada. O bastardo era forte, e, além de se preocupar consigo mesmo, ele se preocupava com a garota que o lesser tentava atingir a todo custo. O bastardo sabia que ia morrer de qualquer maneira, e sabia que perder um civil era o pior que poderia acontecer aos Irmãos, ainda mais se tratando de uma criança.
O lesser pulou para longe de V, tinha consciência de que não conseguiria se livrar se o Irmão o agarrasse. Com gestos ágeis, tirou uma faca de dentro de suas vestes e lançou em direção à menina, que ainda estava no canto da parede com as mãos no rosto. V deslocou seu grande corpo, se interpondo entre o fio da faca e a criança, seu ombro sendo atingido, fazendo-o gemer.
No mesmo instante, Rhage entrou escancarando a porta e viu que seu Irmão estava protegendo alguém. Viu a lâmina cortar a jaqueta de couro e cravar nas costas de V. Rhage sentiu seus músculos tensos e remexeu seu esqueleto, sentindo os ossos estalarem. Sua pele formigou... Odiava ver um dos seus machucado. Sentiu o cheiro do medo da garota e o cheiro da coragem de V, o cheiro adocicado do Lesser e o sangue dos de sua raça, os vivos e os mortos naquela sala.... Seus olhos se voltaram brancos... Sua fera estava a solta.
***
Capítulo 2
— Inferno! — V praguejou segurando a menina e a puxando de encontro a si. Precisava sair dali o mais rápido possível.
A criança se agarrou ao seu pescoço e gritou apavorada ao ver o mostro à sua frente.
Vishous deu duas passadas rápidas em direção à janela, já que o dragão estava entre eles e a porta. Ouviu o grito do lesser ao ser partido em dois, segurou firme a cabeça da criança, forçando-a entre seus ombros, e pulou contra a vidraça. Com sorte, o mostro interno de Rhage não os seguiria. Temia machucar a criança, mas só tinham aquela alternativa. Seu traseiro bateu duro no chão, conseguiu evitar que a criança sofresse com o impacto da queda. Rolaram alguns metros pelo gramado, Vishous a segurando firme, cumprindo a sua missão de protegê-la.
Blaylock e Qhuinn se aproximaram rápido.
— Você está bem, companheiro? — Blay perguntou ao ver Vishous tentando se levantar desajeitadamente.
— Sim — ele respondeu sem tirar os olhos da menina que, agora, estava sentada na grama úmida.
— Parece que a fera de Hollywood está a solta novamente — Blay comentou.
A criança olhou para cima, para os três de pé ao lado dela. Por um momento, V pôde sentir a angústia dela por ser tão pequena e frágil, perto deles. E se lembrou de quando era apenas um pré-trans no acampamento de Bloodletter. Sacudiu a cabeça tentando se livrar dos pensamentos.
A fera de Rhage emitiu um barulho tão alto que todos olharam para a casa. Podiam ver pela janela a sombra das escamas, da face pontuda e dos dentes afiados. A pobre menina começou a chorar e a tremer. Levantou-se rapidamente assustada e segurou nas pernas de Vishous procurando proteção, seu rostinho ensanguentado, alisando o couro negro colado à coxa dele.
— Eu estou com medo... Eu estou com medo — ela dizia com a sua voz infantil.
Vishous olhou para a garotinha, seus olhos de diamantes brilhando intensamente. Num ato impulsivo, levou a mão enluvada para a cabeça da garota. Por algum motivo, sabia que ela precisava de um toque.
Seus olhos encontraram os olhos díspares de Qhuinn e os azuis de Blay, que demonstravam interrogações sem parar.
— Não digam nada — ele rosnou entre dentes e se abaixou, pegando a menina no colo, que se agarrou ao pescoço dele tão forte que ele se sentiu sufocado. — Calma. Ele não vai vir aqui — V disse baixo próximo ao ouvido da menina. Queria dizer que cuidaria dela, que a protegeria, mas sua voz falhou... Em nome de Deus, o que estava havendo com ele?
— Ele comeu.... Ele comeu... Ele comeu...
— Sim, ele comeu. Ele come os sujeitos malvados. Mas você é uma garotinha boazinha, não é? — V tentou dizer doce, com a voz mais afável. Mas falhou, sua voz irrompendo como um trovão, fazendo a garotinha voltar a chorar.
— Ele comeu o Mitry, comeu o Mitry...
— Comeu quem?
— O bebê da tia Clary, ele comeu o bebê — a menina disse de forma embolada.
— Escuta, eu não estou entendendo nada. Qual é o seu nome?
— Ele comeu o Mitry... — a menina chorou ainda mais.
— Qual é o seu nome? — Vishous perguntou mais uma vez, passando as pontas dos dedos sobre a testa suja, tentando tirar a franja do corte que ainda jorrava sangue.
— Mahg — ela disse com um soluço.
— Então, Mahg, sei que está com medo, mas eu estou aqui — V engoliu em seco, como se as palavras custassem a sair. — Vou cuidar de você.
A menina fungou um pouco, apertou os olhinhos verdes como esmeraldas e o olhou nos olhos. Como se criasse coragem para falar.
— O Mitry estava lá. No cantinho da sala, quando o moço branquelo conseguiu entrar e... — ela fez uma pausa fungando. — Eu não sei onde está a mahmen.
Blay e Qhuinn se olharam... Haviam ajudado os civis adultos vivos a saírem das casas do conjunto. E eles não deixavam suas crianças para trás. Se aquela garotinha ainda estava ali, certamente a sua mahmen havia sido enviada ao Fade. V olhou para eles, não precisava de muito para entender que aquela criança provavelmente estava órfã. Restava saber quem era Mitry.
— Quem é Mitry? — V perguntou, tentando reunir paciência para aquele ‘’interrogatório’’. Gostava de exigir as respostas de outra maneira, mas ter uma garotinha chorosa e ensanguentada agarrada a seu pescoço o fazia pensar diferente.
— Ele é o bebê da tia Clary, o único macho da nossa casa... Ele está lá dentro com o monstro... — ela disse chorando de novo e escondendo o rosto na curva do pescoço de Vishous.
— Pela Virgem Escriba! — Blay sussurrou correndo para dentro da casa, sendo seguido por Qhuinn.
V ficou parado ali, sentindo o corpinho tremer ao encontro do seu e ofegar com os soluços por chorar demais.
***
A fera estava a solta, estava mais arisca do que de costume, bufando, suas escamas subindo e descendo rapidamente, suas narinas bem abertas sentindo o cheiro do sangue negro espalhado pela grande sala. Um barulho num dos cantos chamou a atenção da fera... que se virou rapidamente para o embrulho de panos num dos cantos. O choro estridente e infantil ecoou alto.
Blay e Qhuinn congelaram quando viram a fera rosnando para o pequeno embrulho em panos azulados no chão.
***
Rhage sabia que algo estava errado, precisava retomar o controle de seu corpo, o choro chegava aos seus ouvidos. Não podia ser... Sabia que seu mostro interior atacava a tudo e a todos que não fossem a sua shellan. Precisava tomar o controle o mais rápido possível, se quisesse salvar a vida daquele que chorava de forma tão sentida. Gritou a plenos pulmões, e sentiu um estalo dentro de si, como se algo se partisse ao meio.
O grande corpo de Rhage praticamente caiu úmido e trêmulo ao lado da criança, que ainda chorava. O corpo inteiro de Rhage doía, mas, pela primeira vez, ele viu aquela criança, sua visão, que estivera embaçada, voltando aos poucos. Pôde notar o rubor nas faces do pequeno rosto molhado pelas lágrimas. Arrastou-se o máximo que pôde, se aproximando do pequenino.
As pequenas mãos brancas e rechonchudas se estenderam e o tocaram no rosto. Rhage tremeu ainda mais com o contato quente do pequeno. Tentou sorrir, as mãozinhas escorregaram na umidade de seu rosto. O calor das mãos pequenas se espalhou pelo seu rosto, dominando todo o seu corpo. A criança parou de chorar.
— Oi! — Rhage disse.
— Mahmen! — o bebê disse, e sorriu entre as lágrimas.
— Ei, não sou sua Mahmen, posso estar melecado, mas isso não é gel de cabelo.
— Nanão, Mahmen nanãoo.
— Isso mesmo, pequeno, não sou sua Mahmen.
O pequeno começou a fazer beicinho e a chorar e estendeu os bracinhos chorando. Rhage estava trêmulo, sempre ficava mal depois das transformações, mas não podia negar aquele pedido.
O menino era muito branco. Tinha grandes olhos azuis, não devia ter muito mais que um ano de vida. E seus cabelos eram muito cacheados e loiros, ele parecia um anjo.
— Vem cá — Rhage disse puxando o bebê com suas mãos trêmulas, que, para ele, pareceram grandes demais, mas o bebê se abandonou nelas com total entrega e se encostou ao seu rosto.
Blay e Qhuinn entraram na casa no exato momento em que Rhage, completamente nu, trêmulo e coberto de algo gosmento, enrolado no chão, arrastava a criança ao encontro de seu peito e se aninhava a ela. Eles se olharam completamente atônitos.
Foi John quem chegou rapidamente e fez sinal, perguntando o que estava acontecendo. Eles apenas apontaram para a cena à frente. John analisou a situação e assoviou, chamando Xhex, que estava ali perto.
Logo que ela chegou, John lhe explicou a situação, e ela se aproximou.
— E então, Hollywood? Tudo bem? — ela se aproximou, sentindo a confusão e o carinho na mente de Rhage. Pôde captar o medo e a insegurança do pequeno, que tinha quase o mesmo tamanho de seu filho.
E, embora ele tivesse medo, ela viu que confiava no homem ao qual estava abraçado.
— Quero ir para casa — Rhage suspirou.
— Cubram-no e o levem para o carro — Xhex ordenou pegando a criança, que hesitou em ir para seu colo.
John tirou sua jaqueta e cobriu o máximo que pôde de Hollywood, o que não foi muito, tendo visto o grande tamanho do macho. Blaylock e Qhuinn carregaram Hollywood enquanto o pequeno esperneava no colo de Xhex que, embora falasse palavras suaves em seu ouvido, não obtinha resultados. Tão logo saíram, encontraram V com a menina ainda agarrada ao seu pescoço.
Xhex o olhou curiosa, e um sorriso travesso atravessou seus lábios. V mostrou suas presas.
— Não se atreva a rir. Você também não está se dando bem com esse pequeno.
— Só tenho paciência com a minha própria prole — foi a vez dela rosnar.
— Ele não comeu o Mitry, não comeu — a menina segurou o rosto de V, obrigando-o a olhar para ela, as mãos suaves e infantis.
— Não, ele não comeu o Mitry — ele queria responder algo carinhoso, mas, simplesmente, não sabia. — Tudo vai ficar bem — ele disse pesaroso. Sabia que, para ela, não ficaria bem, não depois de perder toda a família num ataque daqueles.
Você viu o Tira? Ele vai precisar de você, ele inalou alguns filhos da puta. John disse a V, enquanto os outros colocavam Rhage dentro do Escalade, e Xhex tentava entrar com a criança que esperneava.
— Me dê ele — Rhage pediu fraco, e Xhex não hesitou em entregar o bebê, afinal, estava maluca para se livrar daquela criança. O menino logo se aninhou a Hollywood, choramingando, e se aquietou, fechando os olhinhos, e, antes que o carro pudesse se mover, os dois estavam dormindo.
Xhex acenou para o carro e voltou para junto de seu hellren e para perto de V e da garotinha.
— V.
V se virou instantaneamente e viu Butch se aproximar aos tropeços.
— V? — ele repetiu ao ver Vishous com uma menina no colo. Ergueu a sobrancelha surpreso, nunca poderia imaginar que veria algo assim.
— Meu Amigo! — V disse visivelmente preocupado. — Mahg, fique aqui, está bem? Eu já volto — ele disse colocando a menina no chão. E caminhou depressa para Butch.
— V, nunca imaginei que viveria para isso. Para ver você com uma criança nos braços. Eu pensei que gostasse de algo mais duro em seus braços — Butch disse enquanto V o erguia, abraçando-o.
— Não pense mal de mim, meu caro, ainda sou um cara durão — V respondeu no ouvido dele, e retirou a sua luva com um único puxão. Seu corpo se iluminou ao encontro do corpo do Tira, livrando-o de toda a escuridão da sua pele e da sua alma.
Mahg olhou com os olhos atentos, a angústia crescendo em seu peito infantil.
— PARA, V! PARA, ELE ESTÁ DOENTE, E VOCÊ ESTÁ MACHUCANDO ELE! PARA, V! PARAAAAAAAAAAAA! — a pequena gritou desesperada.
John antecipadamente a segurou pelos ombros, quando ela fez menção de se aproximar. Ela se debateu e mordeu a mão de John, que gritou sem soltar som algum e a soltou.
V e Butch puderam vislumbrar a pequena correndo e se jogando contra eles. Sabiam que seria fatal. V pulou para longe de Butch ao mesmo tempo em que Butch o empurrava. A menina caiu entre eles, mais precisamente em cima de Butch. V os olhava atônito. Fora por questão de segundos.
Capítulo 3
V não sabia por que, mas seu peito ardia, imaginando se não tivesse dado tempo. As consequências seriam terríveis...
Butch segurava a menina que chorava ao encontro de seu peito, dizendo palavras desconexas. Seus olhos se encontraram com os de V.
— Pensei que ela fosse minha admiradora! — Butch sorriu, ainda estava assustado com tudo aquilo. — Ei, pequena eu estou bem... O V não me machucou. Não mesmo.
A menina ofegou olhando para o rosto duro do policial. V recolocou a sua luva e se aproximou.
— Está tudo bem, Mahg. Eu não o machuquei — V disse baixo, porém sua voz saíra muito dura mais uma vez, e a menina se aninhou nos braços de Butch.
— V? Olha seu tom... — Butch ia dizendo quando a menina o soltou e pulou nos braços de V, soluçando.
— Eu pensei que você ia machucar ele. Eu pensei...
— Pensou errado pequena...
— Podem brincar de papais no pit. É mais seguro — Xhex disse, séria, e saiu, sendo seguida por John.
Minutos depois, um carro estacionou, e agilmente V e Butch entraram, levando Mahg consigo.
No carro, Mahg se deitou nos braços de V, suas pernas no colo de Butch.
— V, minha Mahmen está bem?
V olhou para Butch, como um pedido de ajuda, ele era um lutador, um guerreiro, não sabia lidar com merdas como aquela. Mas Butch ficou em silêncio.
— Ela foi ao Fade. Mas tenho certeza de que esta bem lá.
A menina apertou os braços ao redor do corpo de V e chorou.
— Ei. Mas você não está sozinha, ok? Está com a Irmandade. Está com o V e o Butch — Butch disse tocando o rosto da menina, que o encarou.
— Vocês prometem que não vão me deixar sozinha? Prometem?
Ambos engoliram em seco.
— Você não ficará sozinha, Mahg, tem a minha palavra — V disse, e foi o momento em que sua voz soou mais doce.
— E a minha também, Mahg — disse Butch, mas ela já não ouvia, pois seus pequenos olhinhos estavam fechados, e ela foi dominada pelo sono.
***
Mary estava apreensiva naquela noite... Darius havia mamado e dormido, mas algo não estava certo. Aquela agonia que ela sentia... Sabia que seu hellren seria trazido de volta, mas não sabia em quais condições. Sentia que a besta que vivia dentro dele estivera fora, e sabia também que ele sofria com isso, seu corpo padecia.
Esperou do lado de fora da mansão, seu rosto demonstrando a sua angústia, principalmente quando viu o Escalade estacionar no pátio interno, muito próximo à entrada.
— Meu Deus! — ela exclamou ao ver os cabelos de Rhage quando Blay abriu a porta traseira do carro. Queria caminhar rápido, mas quando percebeu, corria até o carro. Seu coração queria saltar pela boca. Antes de chegar ao carro, foi parada por Qhuinn, que a segurou.
— Calma, Mary, seu meninão está bem.
— Ele está morto, não está? Meu hellren está morto! — ela disse neurótica lutando contra Qhuinn, tentando passar, contrariando o seu normal, que era tão calma.
— Não, calma, ele está vivo, só soltou as suas feras essa noite. Mas ele não está sozinho.
— Como assim, não está sozinho? Me solta, grandalhão — ela fez força e Qhuinn teve que soltá-la, ele era forte e não queria problemas por machucar a shellan de um Irmão.
Mary não podia crer no que seus olhos viam. Rhage estava completamente úmido e adormecido, com uma jaqueta que não era dele, mas o que chamou mais atenção foi um volume que estava sob sua jaqueta e que ele envolvia com cuidado.
— Santa Mãe de Deus! — ela disse ao ver os cachos loiros da criança.
— Mary! — Rhage disse fracamente, despertando de seu sono. — Minha Mary — como sempre, a voz dela fazia maravilhas a ele.
— Estou aqui, meu hellren, estou aqui — ela disse, segurando a mão livre dele.
— A fera... a besta, quase matou ele... mas eu consegui... e o trouxe comigo — ele disse com dificuldades.
— Pela Virgem, Rhage? Como é? — ela quase gritou, e o menino acordou, recomeçando a chorar.
— Cuida dele, Mary, cuida dele para mim — Rhage disse muito cansado.
Mary o olhou com lágrimas nos olhos e pegou a criança, tirando-o de cima dele. O menino a abraçou instintivamente, ainda chorando.
— Shi, calma... Calma... — ela o ninou.
Blay apareceu com um lençol e ajudou Rhage a sair do carro.
***
Não demorou muito para que Jane estivesse no quarto de Rhage e Mary cuidando dele, já que o bebê estava bem, e adormecera no colo de Mary.
O rei e a rainha foram ao quarto ver a criança, e encontraram Mary com o menino adormecido nos braços.
— O que aconteceu?
— Meu senhor, parece que essa criança ficou órfã no campo de batalha, meu hellren ainda não pôde me dizer o que aconteceu com detalhes.
Beth se aproximou e tocou carinhosamente o menino, e sorriu.
— Meu hellren, ele é um lindo menino.
— Onde está o Hollywood? — Wrath perguntou.
— Jane está dando uma olhada nele.
— Vou deixá-lo descansar, depois falo com ele.
O silêncio reinou no ambiente enquanto as duas shellans se olhavam sorrindo.
— O menino está bem? — o rei perguntou num tom baixo, e Beth sorriu.
— Sim, Wrath, ele está bem agora, e está seguro — ela disse doce, vendo os olhos de Mary brilhando enquanto ela ninava o menino.
A porta do quarto foi aberta de supetão, e Fritz entrou depressa. Todos o olharam assustados, afinal, o doggen era sempre tão solícito, nunca agia daquela maneira.
— Perdão, senhor. Mas é que estou à procura da ama Jane, o amo Vishous acabou de chegar, e precisa dela com urgência — o velho doggen disse, afoito.
— Ele está ferido?
— Não, meu senhor, ele não. Mas eles trouxeram uma criança que está sangrando.
***
Wrath e Beth chegaram primeiro que Jane na sala de fisioterapia. Butch estava sentado jogado numa cadeira, enquanto V estava de pé ao lado da maca, segurando as mãos de uma criança.
— Meu Senhor. Sinto muito pelas baixas civis.
— Sei que sente, V. Mas o que está acontecendo?
— Foi um massacre, meu rei, conseguimos a retirada da maioria de civis, mas não podemos, por exemplo, impedir o assassinato da família dessas duas crianças — V disse, sua mão enluvada acariciando os cabelos loiros da menina.
Mahg arregalou os olhos ao ver o grande macho que entrou em seu campo de visão. Sua expressão severa, sua voz dura, fizeram a pequena tremer e recomeçar a chorar.
— Estou aqui, leelan, e não vou te deixar. Esse é nosso rei... — ele disse, sua voz soando suave no ambiente, surpreendendo a todos, principalmente pela maneira carinhosa com que ele se dirigiu à garotinha.
— Não chore, você está segura. Está na minha casa — Wrath disse, mas não houve tempo de a menina responder, Jane entrou na sala.
— Jane, ela foi ferida. E está sangrando ainda — V disse rapidamente, e sentiu o aperto das mãos de Mahg na sua.
Jane se aproximou da maca e parou no momento em que seu olhar cruzou com o de Mahg.
Capítulo 4
— Jane, o que foi? — V perguntou alcançando o braço dela, que tomou forma diante os olhos de todos.
— Nada — ela balançou a cabeça, tentando se livrar dos próprios pensamentos. — O que aconteceu com essa mocinha? — ela perguntou com um sorriso amarelo.
— O branquelo malvado me machucou, ele matou todo mundo. Ele ia me matar também, mas o tio V chegou — a menina disse rapidamente.
— Tio V? Essa é boa! — Wrath disse alto, e sua voz explodiu numa gargalhada, apesar de toda a tensão.
V rugiu, enquanto Butch acompanhava o rei na gargalhada.
— O Tio Butch também disse que vai cuidar de mim — a voz infantil soou, e todos ficaram em silêncio, e dessa vez V foi o primeiro a rir, enquanto Butch ficava sério.
A menina se levantou e se sentou na mesa.
— O senhor é o rei de nossa raça, não é? — ela disse, dirigindo-se a Wrath, que se virou na direção da voz dela.
— Sim, sou.
— Quando eu crescer você me deixa lutar? Quero acabar com todos aqueles branquelos que machucaram a minha Mahmen.
Wrath riu pelo nariz.
— Vamos cuidar de você, pequena. Mas damas não lutam, ficam em casa cuidando de outros assuntos e esperando seus hellrens.
— Mas ela estava lá. A grandona, estava lá junto com o hellren dela.
— E quem te disse que ele é hellren dela? E, além do mais, essa ’’grandona’’ — todos sabiam que ela se referia a Xhex — é um caso a parte.
A menina ficou séria, e esticou a mão em direção ao rei. Beth mostrou a Wrath o caminho até ela. E ele esticou a mão, tocando a mão infantil.
— Bem vinda à Irmandade da Adaga Negra, pequena. Muito bem vinda!
***
Jane cuidava do corte na testa de Mahg, quando a garota disse:
— Você é a shellan do tio V, não é?
— Sou.
— Você não gostou de mim, não é?
— Gostei. É só que você me lembrou alguém que eu conheci há muito tempo.
— Quem?
— Uma menina linda e curiosa como você. Pronto. Já terminei de fechar seu ferimento.
— O tio Butch disse que o V também sabia costurar ferimentos. Porque ele não quis costurar o meu?
Jane olhou os olhos verdes, e sentiu seu peito apertar. V estava tremendo. Tocar a menina abalara os nervos do grandalhão que ela tanto amava.
— Porque ele gosta de você. Apenas isso, ele gosta de você.
— E de você também. Por que você parece um fantasma?
— Porque eu sou um fantasma — ela disse, e a menina arregalou os olhos. — Mas não precisa ter medo. Nem mesmo Hannah... — ela disse alisando a face da pequena.
— Quem é Hannah?
— Alguém, minha linda. Alguém que eu conheci.
— Você está triste porque eu cheguei? Minha Mahmen foi ao Fade, não tenho mais família.
— Tem, sim, minha pequena. Eu e o V vamos cuidar de você — Jane disse emocionada.
— E o tio Butch.
— Sim, ele também — Jane sorriu.
— E o Mitry?
— Ele também tem uma nova família...
****
Rhage se vestia no banheiro quando Mary entrou.
— Oi. como você está?
— Bem, meu anjo. Estou bem. E ele? Como está? — Rhage se referia ao menino.
— Ele está bem. Jane disse que está completamente saudável.
— Anjo, eu quase o matei... a besta quase o matou — ele contou, infeliz.
— Ei, calma. Não matou, não foi? Minha fera não o matou. É isso que importa — ela disse, abraçando-o e o consolando.
— A mahmen dele foi ao Fade, toda a família dele, exceto Mahg, foi. Não consegui evitar. O filho da puta do lesser atacou o V pelas costas. Pela Virgem Escriba, onde está o V? — ele disse empalidecendo.
— O V está bem, ele e a criança que ele protegeu.
— Graças aos céus! — ele gritou, e a criança no quarto chorou alto, provavelmente assustado.
Ambos correram para o quarto. Ao ver Mary entrar, ele estendeu os pequenos bracinhos.
— Mahmen! Mah! — ele disse, e se abraçou a Mary.
Os olhos de Rhage brilharam ao ver sua shellan segurando aquela criança com carinho. Seu coração se alegrou.
— Rhage, podemos ficar com ele? Quero cuidar dele. Não quero que ele fique sozinho — ela pediu meiga, e ele sorriu.
— Sim, minha shellan, minha doce Mary — ele sorriu, e a abraçou, e o menino quis ir ao colo dele, que o pegou sorrindo. — Ei, tenho uma coisa, você quer?
Rhage disse mostrando um pirulito de uva, e o garoto sorriu entre as lágrimas, tentando pegar.
— Por Deus... agora eu tenho! — Mary riu gostosamente, vendo Rhage tentar abrir a embalagem e o pequeno tentar tomar das mãos dele com pressa. — Me dê isso, meu hellren... — ela disse, ajudando-o com o pirulito, enquanto Rhage segurava firme a criança que se debatia em seus fortes braços.
***
Jane estava olhando pela janela, quando V saiu do banho, enrolado na toalha, suas tatuagens aparecendo sexy.
— Oi — ele disse, e a abraçou por trás.
— Oi. Onde ela está?
— A menina está dormindo, na biblioteca, arrumamos uma cama lá para ela.
— Foi por pouco não perdê-la — ele contou calmo, porém pensativo.
— Hum — ela respondeu aérea. — Você gostou dela?
— E você gostou? — ele devolveu a pergunta, a conhecia bem demais para saber que algo não estava bem. — O que está havendo, Jane?
Capítulo 5
Os olhos verdes dela encontraram os de V quando ela se virou e encarou-o. Queria poder dizer a ele o tipo de sentimento que a dominava, não era apenas o fato de aquela menina ser praticamente uma reprodução da irmã que havia tido havia tanto tempo atrás. Era um sentimento de perda.
— Não é nada, meu amor. E só que ela — Jane fez uma pausa. — Ela... V, ela é como a Hannah, tão doce... Me sinto como na obrigação de fazer algo por ela, algo para que ela tenha uma família feliz. Algo que não pude dar a Hannah.
V a abraçou e beijou-lhe a base do pescoço.
— Leelan, já falamos sobre isso, você não teve culpa pela vida de sua irmã. Tenho certeza de que, se fosse você ao comando de sua família, as coisas teriam sido diferentes.
— V, você quer que ela fique, não quer? — ela perguntou.
— O meu desejo é o seu, leelan.
Jane sorriu terna.
— Eu quero que ela fique, V. Quero cuidar dela. Eu e você.
O sorriso de V foi espontâneo.
— E o tio Butch — ele completou rindo.
***
Jane estava ao lado da cama em que Mahg dormia profundamente, seus olhos fixos na menina, que ressonava calmamente.
— Ela chegou no tempo certo. Vejo que está cansada — a voz doce invadiu o ambiente ao mesmo tempo em que o perfume de rosas.
Mas Jane não se assustou, apenas suspirou profundamente, num hábito humano que ela devia ter abandonado havia tempos.
— Sim, estou cansada — ela concordou humildemente.
— É chegada a sua hora. Está preparada para deixá-lo? Já que agora a fêmea destinada a ele está no lugar certo?
— Sempre estive. Mas creio que ainda haja algum tempo.
— Sim, você precisa cuidar dela até que ela esteja pronta para assumi-lo — a Virgem Escriba parou ao lado de Jane e olhou para Mahg. — Está triste com isso? Você sempre soube que ele não era seu, e você não era dele. Eu disse a você que haveria um tempo em que eu me redimiria trazendo a ele um amor verdadeiro.
— E eu sei o quanto ele precisa disso. E quando precisarei ir?
— Você não aprende que não deve me fazer perguntas?
— Deve ser a convivência com o Vishous.
— Você sentirá. Mas ainda há tempo...
— Meu espírito agradece a você...
— Não vim em busca de agradecimentos.
— Veio me lembrar que terei que ir.
— Não, vim te acalmar. Por enquanto, ainda não é hora de seu descanso eterno... Sua missão junto à Irmandade começa agora... — ela disse caminhando para algum ponto do quarto.
Jane se virou rapidamente, e ela não estava mais lá. Jane sentiu vontade de gritar. Assim como no seriado de desenhos animados, A Caverna do Dragão, ela desaparecera como o Mestre dos Magos. O que não era tão diferente. A figura era enigmática e sua presença, mística. A mãe da raça aparecia e desaparecia sempre que bem entendia...
Devagar, Jane saiu do quarto. Ia jantar com o rei.
***
Os Irmãos estavam todos reunidos na mesa para o jantar. Todos ouviam atentos as palavras do rei.
— ... Consultei a Virgem escriba essa manhã. E ela está de acordo que acolhamos essas duas crianças junto a nós. Rhage, você e sua shellan estão disposto a adotarem o pequeno Dimitry como filhos de vocês?
— Sim, meu rei — ele respondeu sorrindo, segurando as mãos de Mary, que estavam geladas.
— Assim está feito. Vocês deverão honrá-lo e cuidar dele como se ele fosse gerado de suas entranhas.
— Assim será, meu rei.
Mary não se conteve e saltou direto da cadeira para o os braços de Rhage num abraço caloroso. Todos riram, pois sabiam que nada de sexual envolvia aquele abraço, apenas a alegria de enfim serem pais.
O rei pigarreou alto, soando mais altos que os risos.
— Perdão, meu senhor. É que... — Mary tentou se justificar.
— Tenho certeza de que todos nessa sala sentem o cheiro da felicidade de vocês dois — o rei disse sorrindo, mas sem perder a seriedade. — E quanto à menina... V, tem algo a dizer?
Wrath foi interrompido por um grito infantil e uma entrada repentina na sala de jantar.
Mahg irrompeu no ambiente, seus pés descalços, seus cabelos desalinhados, sua pele mais branca do que o normal. Ela chorava copiosamente, seus pequenos olhos azuis procurando por alguém, o cheiro de seu medo, seu desespero se fazendo presente.
Antes de saberem do que se tratava, todos os Irmãos e Xhex tinha, armas apontadas para a porta. Todas engatilhadas; caso houvesse algum bastardo atrás da menina ele seria feito uma peneira.
— V! — a voz inocente soou num choro comovente.
Com passos rápidos e decididos, V caminhou até ela enquanto todos os outros abaixavam as armas.
— O que foi, pequena? — ele perguntou, enquanto ela pulava em seu colo, suas pernas pequenas o envolvendo pela cintura, e ele a segurou firme ao encontro de si. Podia sentir o coraçãozinho acelerado.
— V... Eu ... Eles vieram, e mataram... a minha Mahmen... Eles iam me pagar e... V... — ela disse de forma entrecortada, chorando, agarrada ao pescoço dele.
— Você sonhou, pequena, foi um sonho, OK? Os ‘’branquelos’’ não entram aqui — ele disse calmamente com sua mão enluvada tirando os cabelos da testa dela.
— V, mas eles mataram a mahmen Jane também — ela contou em soluços, e V sentiu sua espinha enrijecer. — Ele deu um tiro. V, você não chegou a tempo. O tiro atravessou ela... V... Matou Mahmen Jane... V... — a voz infantil se sobressaiu chorando alto. Todos podiam sentir a angústia nela.
Jane sentiu seu peito arder, revivendo a sensação de sua própria morte. Para V, também foi como reviver aquele momento. Por alguns instantes, ninguém soube o que dizer. Todos sabiam que o que ela tivera não fora apenas um sonho, mas sim um vislumbre do passado de Jane e Vishous, um passado que não havia como a pequena Mahg saber, e o fato dela se referir a Jane como mahmen Jane foi algo realmente surpreendente.
Jane ficou de pé, em frente à menina. Todos ainda olhavam curiosos. O medo da menina era sentido por todos. Ainda chorando, a garota correu em direção a Jane, que a recebeu de braços abertos.
A interação de Jane com o mundo era algo meio diferenciado, e surpreendia a todos. Principalmente quando ela agia como se estivesse viva. A menina se abandonou totalmente em seus braços.
— Eu estou bem, pequena. Foi só um sonho mau, Lesser algum vai me atingir de novo.
— Promete que não vão deixar eles te machucarem?
— Prometo. E prometo também que vou cuidar de você.
Mahg sorriu enquanto V enxugava as lágrimas dela e beijou as faces de Jane. E todos puderam sentir a felicidade da menina.
— Bom, pelo menos já sabemos a provável resposta sobre o destino de Mahg.
A voz do rei fez todos sorrirem satisfeitos.
***
Capítulo 6
Rhage e Mary estavam radiantes de felicidade. Um dos quartos vizinhos foi transformado para receber o pequeno. Compraram a mobília em tons de azul e branco, e Rhage fizera questão de montá-la pessoalmente. Os irmãos fizeram questão de ajudar na montagem dos quartos, já que Jane e V também resolveram preparar um dos quartos para Mahg também.
***
Eram mais ou menos nove da noite quando Rhage saiu num carro esporte com sua família. Iam ao shopping comprar um enxoval para Dimitry, que estava risonho e brincalhão. O shopping estava cheio, e Mary estava empolgada, apesar de extremamente ciumenta. Rhage chamava muita atenção para si, primeiramente por ser enorme e lindo. Realmente a roupa preta caía bem sobre os músculos bem feitos. E o fato de ele praticamente se jogar ao chão enquanto brincava com Dimitry não ajudava muito a manter a discrição. Ele já estava sujo de sorvete, e, nesse momento, brincava no chão com o pequeno, que ria e gargalhava.
Mary os olhava fascinada, quando os olhos deles se cruzaram.
— Que foi, doçura? Por que não vem brincar com a gente?
— Rhage, vocês esvaziaram a piscina de bolinhas.
— Ei, que culpa eu tenho se fazem uma piscina tão pequena? — ele reclamou.
— Bem, certamente ela não foi projetada para um macho de quase dois metros de altura e cem quilos de peso — ela disse rindo, pegando Dimitry no colo, que logo se aconchegou ao seu ombro e cochilou. — E olha o que você fez ao menino! Ele já dormiu de cansaço.
— Sim — ele riu marotamente. — E, tão logo estejamos em casa, quem vai dormir de cansaço é você! — ele disse beijando os lábios dela.
— Ai, para, amor, tem mil pessoas olhando — ela fingiu reclamar, e ele sorriu, apertando a cintura dela.
Subitamente, um cheiro adocicado fez Rhage sentir um frio na espinha. Virou-se instantaneamente e pôde visualizar cabelos muito pálidos se aproximando por entre a multidão. Sua mente ferveu, ele sabia que era um lesser. Tinha que tirar sua família dali. Por entre as pessoas, viu o brilho da pistola que o assassino empunhava destemido na frente dos humanos. Caminhou para longe de Mary, talvez assim levasse o bastardo consigo. Tinha que agir com cautela, havia muitos humanos.
— Amor, onde você vai? — Mary perguntou sem entender o afastamento súbito. Os olhos dele brilharam intensamente, e ele saltou pelo vão da escada sem pestanejar.
— Rhage? — Mary gritou se aproximando para ver e pôde vê-lo cair de pé. E outro homem fazia o mesmo. Ambos se enfrentaram no meio do pátio cheio. Um som seco de tiro disparou em seus ouvidos. Sem piscar, ela viu Rhage desviar do disparo, que acertou uma vidraça.
— Mary, saia daqui — ele gritou. Aquele lesser era um idiota por enfrentá-lo tão abertamente frente aos humanos, quando a discrição era normal a ser seguida tanto pela Irmandade quanto pela Sociedade Lessening.
Mary segurou Dimitry firmemente entre os seios e se virou. Precisava sair dali o mais rápido possível.
O lesser sorriu maldosamente e sumiu entra a multidão que corria frenética.
— Inferno!
Capítulo 7
Mary correu desorientada, sentindo um aperto no peito. Não queria deixar Rhage para trás, mas ele sabia se cuidar, e ela precisava tirar Dimitry de perto daquele monstro. Correu por alguns corredores, desceu algumas escadas, correndo.
De repente, deparou-se com o homem de olhos e cabelos brancos. Com o susto, ela caiu sentada. E se arrastou no chão, enquanto ele empunhava sua arma. Segurou firme o menino e se virou, não conseguiria correr, apenas apertou Dimitry contra seu peito, protegendo-o o máximo que podia. Ele era seu filho, e o protegeria até a morte.
O lesser se divertia com o sofrimento daquela fêmea e seu bebê. Para ele, aquela fêmea não tinha a mínima chance, e, de brinde, viria um bebê também.
***
Rhage chegou ao corredor a tempo de ver Mary caindo devagar, seu corpo cobrindo o pequenino, impedindo-o de ser atingido. Seu coração deu um salto, sentiu a tatuagem se agitar. Viu que V se aproximava do lesser, sorrateiro, e o segurava, cravando a sua adaga entre suas costelas, enquanto sussurrava:
— Não vai nos tirar outra shellan, seu desgraçado — e enfiou em seguida sua adaga no coração do lesser, fazendo-o explodir em uma nuvem de brilhante pó.
As pernas de Rhage não queriam se mover, mas ele fez um esforço, e, enquanto isso, viu chegando mais dos reforços que pedira. Butch e Z saíram com outro lesser, tentando não causar ainda mais alardes, e ele sabia que aquele estava acabado.
Sentia a besta dentro de si arruinada, era como se a grande fera estivesse fraca, assim como estava seu espírito. Foi Xhex quem desvirou Mary e pegou o pequeno. Rhage se abaixou no chão.
Mary sorriu calma, e levou a mão ao seu rosto.
— Meu amor... — ela disse debilitada.
— Não, Mary. Vou cuidar de você. Minha shellan, vou cuidar de você — ele disse tentando não chorar. Pegou-a junto ao peito, saindo do shopping e levando-a consigo.
***
Já fazia mais de 72 horas que Mary estava na sala de cirurgia, não havia sinais de melhora em seu quadro, e Jane trabalhava intensamente. Rhage parecia ter envelhecido pelo menos 50 anos nas últimas horas.
Mary não tinha consciência de muita coisa. Abriu os olhos devagar. De imediato reconheceu a parte do centro de treinamentos que fora transformada em enfermaria. Respirou fundo e olhou para o lado. Estava lá uma figura pequena de mulher vestida com um manto negro que lhe cobria a cabeça, embora, por debaixo do pano, uma luz brilhante era emitida. Mas transparecia tanta paz que ela não se assustou.
— Bem vinda. Você dormiu bastante.
— Pela Virgem Escriba, onde está o Dimitry? — ela se assustou, e a pequena mulher sorriu.
— Está no banho. A shellan do irmão Zsadist está cuidando dele juntamente com a rainha.
Mary sorriu aliviada. Sabia que ele estava bem.
— Você — a mulher apenas disse.
— Eu o quê? Quem é você? — Mary perguntou assustada.
— Você merece o seu hellren, merece seu filho, e merece ainda mais por ter protegido a vida dele. Mostrou-se honrada e de palavra. E é por essa razão que estou aqui — a Virgem Escriba se aproximou da cama onde Mary estava. Colocou a mão sobre o ventre dela, que gritou alto... Tão alto que sentiu algo dentro de si se rompendo, e desmaiou a seguir, não antes de ouvir algumas palavras no Antigo Idioma de seu hellren.
Capítulo 8
Rhage entrou no quarto o mesmo instante em que Mary gritava como se tivesse com todos os demônios do universo atrás dela. Entretanto, quando entrou e a tocou, ela já estava inconsciente novamente. Seus Irmãos e suas shellans entraram atrás dele, preocupados.
Rhage a abraçou.
— Leelan, Leelan... — ele chamou repetidas vezes, mas foi em vão.
Depois de meia hora, todos saíram, deixando que ela dormisse tranquilamente. Com a insistência do rei, Rhage se ausentou do lado dela, apenas para tomar um banho rápido e fazer com que Dimitry dormisse, pois ele estava agitado, e só dormiu sossegado ao encontro dos ombros de Rhage.
Quando Rhage entrou novamente no centro de operações, Jane estava de saída.
— Como ela está?
— Bem. Embora ainda esteja desacordada. Vou deixar você um pouco com ela, está bem? — ela disse e saiu após Rhage concordar.
Com passos lentos, ele caminhou até a maca e ficou de pé ao lado de Mary, acariciando os cabelos dela. Falava baixinho palavras doces e olhava para seu rosto pálido.
— Doce Mary, você é tudo que eu sempre sonhei em uma shellan. Você foi muito corajosa. Muito! E eu te amo ainda mais, pela sua força. Meu amor por você é eterno, minha doce Mary.
Ele olhou para as mãos dela ao sentir um leve aperto na sua, que segurava as dela carinhosamente. Seus olhos azuis voaram em direção ao rosto de Mary enquanto seus lábios pronunciavam seu nome com surpresa.
— Mary!
Mas ela não disse nada, apenas o encarou, firme.
— Mary? Alguma coisa errada? Meu amor, fala comigo — ele pediu apreensivo.
Mary ofegou como se tivesse acabado de correr quilômetros. Rhage segurou o rosto dela com carinho.
— Está doendo? Mary! Fala comigo! Fala comigo...
Mas não houve resposta, e ele já estava apavorado, sem entender o que acontecia, quando ela segurou seu braço ao encontro do rosto dela. Ela ofegou mais uma vez. Rhage se assustou com o peso das mãos femininas. Era como se seu braço tivesse sido segurado por Xhex. Olhou para as mãos dela, espantado, ao mesmo tempo em que ela puxava o braço dele ao encontro de seus lábios.
Rhage pulou de espanto quando viu as presas dela se alongando e se cravando em seu pulso com força.
O grito dele ecoou por toda a mansão. Ela sugava forte, e seu membro crescia e saltava na mesma proporção.
Jane foi a primeira a entrar na sala e ver Mary segurando o braço dele enquanto se alimentava com fúria. V entrou logo em seguida com o revolver apontado em direção ao Irmão.
— O que está havendo? — a voz profunda do rei surgiu como um trovão.
Mas Rhage não pôde responder... Seus olhos estavam fixos no rosto dela. V se aproximou e ela rosnou feroz, ainda sem soltar o pulso que sangrava em sua boca.
— Se afastem — Rhage sussurrou, e todos se afastaram.
Cinco minutos depois ela o soltou, aparentemente satisfeita. Rhage segurou o próprio pulso e passou a língua, selando os furos que ela não soubera como fechar.
Jane se aproximou, já que Mary estava deitada de olhos fechados. Com cuidado, afastou os lábios dela, e todos viram as enormes e claras presas que saltavam de sua gengiva, firmes.
— Pela Virgem, o que é isso? — Jane disse também impressionada.
— O cheiro dela também mudou — Rhage disse ao mesmo tempo em que Mary gritou mais uma vez, enrolando-se em torno do próprio corpo, sentindo fortes dores.
Os lábios dela se abriram e ela disse alto, chamando a atenção de todos por falar as palavras na Antiga Língua:
— Esteja em seu macho, assim como ele estará em ti. Bebe de teu homem e proclama a sua semente.
O rei repetiu as palavras respeitosamente, diante o espanto dos outros que chegaram ao quarto também assustados com a situação.
— Porque ela disse isso? Como soube...
Epílogo
Anos depois...
Mahg entrou no pit furiosa, seus cabelos loiros na altura da cintura.
— Mahmen! — ela chamou.
— Oi, Mahg — Jane apareceu vindo de um dos banheiros. — Mahmen, eu odeio o Vishous. Eu odeio — ela se sentou pesadamente no sofá, seus cabelos balançando sensualmente.
Jane a olhou. Não podia negar que Mahg se tornara uma linda fêmea. E depois de sua transição, estava cada vez mais feminina. Agora era impossível negar que V não tivesse mudado o comportamento com ela. Antes os dois brincavam alegremente, e tinham uma relação invejada. Até que a transição da garota viera. V proibira Qhuinn de alimenta-la, o que se tornara um transtorno, pois Qhuinn se ofendeu, pois achava que era por seu defeito genético, seus olhos de cores díspares. Então fora Blaylock quem assumira a situação. Todos sabiam que ele e Qhuinn eram um casal, mas também eram abertos na relação. V e Butch preferiram que Blay fizesse o serviço, pensando que ele era homossexual. Mas o macho se revelara bissexual e deixou claro que era um macho como outro, e que, se se sentisse tentado, tomaria Mahg como dele, embora sua preferência sexual fosse outra. Fora um Deus nos Acuda, pois V não deixou o comentário passar ileso e socou a cara de Blay, e Qhuinn tomou as dores. Foi um pandemônio no qual o rei tivera que por ordem. Enfim, Wrath decidiu que Blaylock ajudasse a jovem, mas que prometesse não levar as coisas para o lado sexual.
Outra lembrança de algo muito mais sério veio à tona nas memórias de Jane, não fazia nem dois meses que outra briga havia acontecido. Mahg mantinha uma amizade incomum com Blay e Qhuinn, isso não era um segredo para ninguém. A garota, porém, resolvera que queria alimentar um macho, e Blay era bem aberto nessas questões, e deixou que Qhuinn e Mahg ficassem a sós.
Eles não transaram, mas se beijaram ardentemente depois que Qhuinn tomara a artéria de Mahg pela primeira vez. Era o que ela queria... mas não podia contar que V entraria no Pit justamente naquele momento. Qhuinn vestia suas calças de couro, mas não podia negar que estava duro como o inferno. V o tirou de cima dela de supetão, com um único puxão, jogando-o longe, e Mahg gritou horrores, pois estivera quase tendo seu primeiro orgasmo só com Qhuinn se esfregando contra ela. Ela pudera visualizar os olhos diamantinos de V, que estavam em chamas, enquanto seu pescoço sangrava. Ela gritou desesperadamente quando V e Qhuinn entraram numa luta infernal.
Jane chegara naquele momento, mas, sozinha, jamais conseguiria por fim naquela luta estúpida. Mahg ficava tentando separar V de Qhuinn inutilmente, seu pescoço sangrando, pois não tiveram tempo de selar os furos. Assustada, Jane fora para a sala de jogos da mansão, encontrara Rhage e o Rei, que voaram para o Pit, pondo fim naquela luta. Quando Butch chegara, Mahg chorava desconsolada, enquanto Jane tentava falar com V. E Blay, que aparecera de repente, falava com Qhuinn enquanto Rhage o segurava.
— Que diabos acontece aqui, Irmãos? — Butch perguntara.
— Butch... — Mahg chorara, abraçando-se a ele, que notou as fendas em sua pele e as selou.
— Ele tem sempre que estragar tudo... tudo... o V estraga tudo! — Mahg chorara.
— Conta a ele, Mahg. Conta que deixou esse fodido desgraçado tomar de sua veia. Ela o deixou se esfregar nela, e se eu não tivesse chegado, esse filho de uma puta estaria metido dentro dela! — V gritara, ainda descontrolado.
— Eu não acredito, Qhuinn, eu vou te esfolar — Butch caminhara lentamente para onde Qhuinn estava sentado.
Mahg gritara, e Blay e Rhage se interpuseram entre os dois.
— Eu quero todos vocês fora daqui. Seus fodidos malucos... Butch, tire Mahg daqui e não se envolva nessa briga desgraçada... — foi Wrath quem dissera, e Butch suspirara antes de obedecer.
Após uma hora, V entrara no quarto de Mahg, que chorava compulsivamente. Jane a estava consolando. Ele entrara com ares de poucos amigos.
— O Wrath conseguiu impedir que eu o matasse, confirme a história de que você queria que alguém se alimentasse de você.
— Sim, queria, e pedi a ele que fizesse isso — ela dissera atrevida.
— Por que diabos você deixou que ele se esfregasse em você daquela maneira, Mahg...?
Fora um sermão longo. Jane ouvira atenta. Se fosse verdadeiramente de pai para filha, seria perfeito, mas ela sabia que não era só isso.
***
— O que houve, dessa vez? — Jane perguntou pacientemente, voltando ao drama atual.
— Ele não me deixou treinar... e me mandou ficar no meu lugar como uma fêmea! — ela contou irritada.
— Deve ser porque você é uma fêmea, não?
— Mas, mahmen... Por que eles não podem me deixar treinar com os recrutas? Eu só quero lutar.
— Mahg, temos essa mesma conversa desde que você era pequenina. Não te quero lidando com os lessers.
— Mas, mahmen, não quero ser apenas uma shellan, quero lutar — ela disse, fazendo bico.
— Você tem um porte aristocrático, e V admira isso.
— Quero que esse porte vá para o inferno. A Xhex não pode lutar? Por que eu não?
— A Xhex é meio Sympath, esqueceu? E, além do mais, ela já luta a séculos...
— Se eu começa a lutar logo... daqui a pouco também estarei lutando a séculos...
Jane balançou a cabeça, vencida, e se sentou ao lado da filha e acariciou seus cabelos.
— Meu amor, escute. Vai chegar um tempo em que você vai lutar. Mas, por enquanto, seja essa mocinha linda e comportada, sim?
— Não sou mais uma criança, mahmen...
— Eu sei que não... mas não deixe o V saber — Jane riu.
— Nem o Butch — ela completou com uma careta, e ambas riram. — Mahmen, mas um dia eu vou mudar... ser como você?
— Sim, meu amor, você vai... — Jane disse enigmaticamente.
***
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