Continuação do Capítulo 02

Fazia pouco mais de um mês desde que Beth descobrira que estava grávida. Wrath e os demais estavam tão transtornados com o que acontecera com Marissa e com o posterior sofrimento e desligamento do mundo de Butch, que não perceberam que havia outra mulher grávida com eles. Mahg, conseguira, ao menos, fazer com que o guerreiro bebesse e não morresse de fome, e aquilo fora uma vitória, que deixou todos na Irmandade contentes. Beth sentiu, então, que estava no momento de partir. Embora estivesse apenas com um mês e meio de gravidez, em mais algumas semanas seria impossível disfarçar o odor das fêmeas vampiras grávidas, fora que Wrath, com seu tato superdesenvolvido, sentiria as mudanças em seu corpo.

***

Estava amanhecendo. Beth tinha deixado todas as suas coisas preparadas para a fuga. Ela fugiria quando o dia amanhecesse e os vampiros não pudessem ir atrás dela. Como mestiça, Beth tinha tolerância à luz do sol. Isso seria muito bom, ajudá-la-ia em seus propósitos. Ela se deitou para fingir dormir.

Pouco tempo depois, Wrath, junto com seu cachorro – na verdade um descendente do primeiro que lhe servira como guia, havia vários anos – entrou no quarto também. Apenas a presença dele já trazia todos os hormônios de Beth, ainda mais agitados, devido à gravidez, à ebulição. Sua presença imponente, maciça, deixou-a sem fôlego, como infalivelmente fazia desde que o conhecera.

Leelan? ─ ele sussurrou, desfazendo-se de sua jaqueta de couro e logo depois desabotoando um a um dos botões de sua camisa preta.

Com o fôlego preso, tanto por desejo quanto pelo que pretendia fazer, Beth murmurou:

─ Sim, nallum?

O grande macho caminhou até a cama, tirando no processo seus óculos escuros e os deixando cair sobre o criado-mudo. Seus resplandecentes, claros e cegos olhos a fascinavam. Wrath se ajoelhou sobre um joelho e segurou uma das mãos de Beth.

Leelan, você está estranha. Eu senti...

Ele pôs a mão dela contra seu potente coração, que acelerou quando sua pele sentiu a pele dela.

─ Eu sinto que algo está errado, Leelan. Você... tem alguma coisa para me contar?

O coração de Beth disparou. Não podia contar a verdade.

─ Não, meu hellren... não está acontecendo nada. Eu... quero apenas dormir.

Wrath puxou sua fêmea para ele com força, fazendo-a abrir as pernas e envolver seu poderoso peito com ela. A fragrância de sua excitação subiu às narinas dele, e logo o delicioso cheiro másculo, temperado com especiarias se espalhou pelo quarto. Sua essência de vinculação.

Beth aspirou profundamente aquele perfume, inebriando-se. Sabia que seria a última vez que o faria.

─ Não acho que queira dormir, leelan... ─ ele sussurrou, sorrindo, exibindo as pontas longas de suas presas brancas e brilhantes.

Beth gemeu.

Wrath a pôs atravessada na cama, deitada de bruços, e rasgou de cima a baixo a camisola que ela usava. O macho se inclinou sobre ela, enorme, seus cabelos longos deslizando e acariciando os ombros nus de Beth numa carícia delicada como as asas de uma borboleta. Beth gemeu. Ainda por dentro das calças de couro que ele usava, ela podia sentia seu membro rijo, grosso, pulsando de excitação. Não podia se permitir! Se deixasse seu macho amá-la mais uma vez, não conseguiria partir.

─ Não, meu hellren... por favor. Sim, vontade eu tenho, mas não acho que eu esteja preparada depois da maratona sexual de minha Necessidade... e depois de tudo o que aconteceu com Marissa e Butch.

Quase instantaneamente Beth se viu virada sobre as costas, Wrath inclinado sobre ela, em seu rosto uma expressão de medo e preocupação.

Leelan, eu fui muito bruto? Fiz algo que a feriu?

Beth sentiu vontade de chorar, mas se controlou.

─ Não, meu Wrath... você foi... o homem mais maravilhoso do mundo! Me serviu em minha Necessidade como eu tenho certeza que nenhum outro teria feito. Mas ainda estou cansada, ouvir dizer que isso é normal.

Ela se aproveitou do fato de que Wrath não tinha muito experiência com Necessidades, uma vez que sempre a fizera, até aquela vez, usar morfina, e jamais atendera Marissa quando essa fora sua shellan. Mesmo já tendo passado um mês e meio do período de sua Necessidade.

Na mesma hora em que disse essas palavras, ela viu as grossas sobrancelhas escuras de Wrath deixarem de se franzir.

─ Tudo bem, Leelan... não se preocupe. Depois nós podemos continuar. Mas eu gostaria que tomasse de minha veia. Desde a Necessidade você não se alimenta, e te quero sempre saudável.

Beth pensou bem. Ela tinha que se alimentar o máximo que pudesse, por causa da criança que carregava. Deus sabia quando ela poderia se alimentar de novo!

Wrath se sentou na cama e se recostou à cabeceira. Afastou a cabeleira do ombro, expondo seu pescoço grosso para sua shellan. Bastou ver a pulsante jugular para a boca de Beth se encher d’água e suas presas crescerem.

─ Vem, leelan, vem cá... ─ Wrath disse, incitando-a a montá-lo e pressionando seu rosto em seu pescoço. Beth grunhiu contra sua pele fragrante e passou a língua pela pulsação uma, duas vezes. A cada toque cálido da língua ou dos lábios, Wrath se retesava e grunhia roucamente. ─ Por favor, leelan... logo...

Beth cravou suas presas profundamente e sentiu a ondulação de poder no quarto enquanto Wrath rosnava. As luzes das velas tremularam. Ao primeiro gole da energia vital de Wrath, tão poderosa e pura, Beth grunhiu, sentindo sobre sua língua o rico sabor de vinho tinto doce e envelhecido em tonéis de carvalho. Aos goles, ela passou a beber e, enquanto isso, roçava seu sexo contra o vulto duro e grosso coberto de couro. Logo um fulminante orgasmo a atingiu.

Wrath a abraçou forte, sentindo-se honrado por sentir sua fêmea satisfeita, tanto a fome quanto a necessidade. Garantir sua segurança, saúde, felicidade e prazer era seu direito e privilégio.

Beth passou meigamente a língua pelos furos no pescoço dele, selando-os. A vontade de chorar era ainda mais forte.

─ Me desculpe por não aceitar você em meu corpo hoje, meu hellren...

Leelan, jamais se desculpe por algo tão... tolo. Apenas deite-se aqui comigo e descanse...

Ela se deitou ao lado dele e recostou sua cabeça em seu peito. Logo as persianas correram automaticamente, denunciando o nascer do sol. Beth esperou. Logo Wrath adormeceu, e ela sabia que o sono dele era profundo.

Levantou-se cautelosamente. Vestiu-se e pegou a mala que deixara preparada e sua bolsa. Parou ao lado de Wrath, deitado na cama apenas com calça de couro, e o admirou por alguns minutos. Para não soluçar, mordeu seu lábio inferior e suas presas o rasgaram. Apenas lágrimas deslizaram por sua face.

Beth pôs a mão em seu ventre. Então se virou e caminhou todo o percurso para sair da casa. Como rainha, ela tinha todas as senhas e códigos de segurança, o que a ajudou a sair da propriedade sem chamar a atenção de ninguém. Àquela hora, até Fritz estava dormindo.

Sabendo que pegar qualquer carro da Irmandade seria como revelar a Vishous a rota exata de sua fuga, ela saiu a pé e caminhou durante alguns quilômetros para pegar um táxi ou uma carona. Uma carona seria ainda melhor, mais difícil de ser encontrada.

De repente, ela viu uma pessoa que não imaginava que encontraria. Temeu ter sido revelada. Recostado contra uma árvore à beira do caminho, um homem lindo e imenso a olhava enigmaticamente. Suas roupas de couro preto e muito metal, seus piercings logo o denunciavam: o misterioso Lassiter.

Beth se virou para fugir, mas o homem disse:

─ Calma, rainha. Eu estou aqui para ajudá-la.

─ Me ajudar? ─ ela estranhou. Na verdade, Lassiter sempre fora muito estranho, enigmático e misterioso.

─ Rainha, sinto o cheiro do rei em toda parte em você...

Beth corou na hora. Wrath sempre se preocupava em deixar o cheiro de sua vinculação nela, muitas vezes inconsciente disso, como advertência a outros machos. Logo, entretanto, ela empalideceu ao lembrar de algo que as palavras de Lassiter suscitaram: Wrath bebera seu sangue várias vezes, e ela bebera o dele. O sangue dele estava dentro dela, e isso o faria encontrá-la em qualquer lugar, fosse onde fosse que ela estivesse. Com olhos desamparados, ela olhou para Lassiter.

Ele lhe estendeu sua mão elegante.

─ Venha comigo, rainha. O futuro de vossa raça deve ser resguardado a qualquer custo.

Ela estremeceu. Não entendia como, mas parecia que ele já sabia de sua gravidez, quando ela não contara a ninguém.

Temerosa, ela pôs sua mão sobre a dele, disposta a seguir para onde quer que ele a levasse...

***

Wrath estendeu o braço, a fim de puxar sua shellan para perto de si. Entretanto, não a encontrou. Franziu as sobrancelhas. Onde ela estaria?

Ele se levantou e procurou por todas as dependências do quarto. Ela não estava. Eram 12 horas da tarde. Então encontrou um envelope. Achou estranho. Como não poderia ler, devido a seu estado de cegueira total, guardou-o no bolso e a procurou pela mansão, enfim indo atrás de Fritz, quando não conseguiu achá-la de jeito algum.

─ Fritz, você viu minha shellan?

─ Meu rei... ─ o pequeno homem disse se curvando, mesmo sabendo que Wrath não perceberia esse gesto. ─ Eu não vi a rainha, amo, pensei que ela se levantaria junto ao senhor.

Um arrepio de alarme percorreu a espinha de Wrath. Então se lembrou do envelope. Uma premonição horrível o atingiu.

─ Fritz, por favor, poderia ver isso aqui para mim? ─ ele disse entregando o envelope ao doggen.

Fritz o pegou e deu um gritinho:

─ Mas amo, esse envelope está dirigido a mim! E é da ama! Está dizendo, “Para Fritz, para que ele leia para Wrath”.

Só mesmo ouvir essas palavras deixaram as poderosas pernas do macho bambas. Ele precisou se apoiar à parede.

─ Leia ─ sua voz mais parecia um grunhido gutural.

O doggen hesitou levemente, mas logo começou a ler:

─ “Meu Hellren, me desculpe por não estar com você. Eu não posso. Por isso fugi. Estou à espera de seu filho, ou filha, e não posso correr o risco de que você queria matá-lo por temer a minha morte. Preciso assegurar a vida de meu bebê... mesmo que isso signifique minha morte. Não o julgo, talvez, se eu estivesse em seu lugar, faria igual, mas não estou, e para mim nada mais importa, a não ser gerar um filho que será parte de você. Não sei se ainda nos veremos algum dia, se eu sobreviver ao parto, levarei seu filho direto para seus braços, se não, providenciarei antes uma maneira de que ele seja entregue ao pai. Não me odeie, por favor. E jamais se esqueça, eu te amo profunda e eternamente. De sua shellan Beth.”

Enquanto o doggen lia, pequenos cataclismos iam se formando: lâmpadas se quebraram, outras piscaram, quadros se moveram nas paredes. Entretanto, quando terminou, parecia que uma mini tormenta se gerava no cômodo – a antessala da sala de jantar. Uma onda impactante de energia retumbou como um pulsar de coração pelo ambientes, gerando ondas concêntricas que logo se espalharam pela casa, derrubando alguns móveis e estilhaçando todos os vidros e espelhos.

Os Irmãos e suas Shellans, bem como Meg, Nalla, Darius, Dimitry, Qhuinn, Blaylock, John e Xhex, quando sentiram a expansão de energia e viram os estragos que estavam sendo feitos aparentemente do nada, correram até o cômodo de onde parecia se gerar o cataclismo. Quando chegaram lá, assustaram-se com o que viram: Wrath levitado no ar, seus longos cabelos negros se movendo com as ondulações de energia escura que saiam dele, todos os músculos do corpo contraídos, os olhos verdes com um fulgurante brilho enquanto ele gritava. Fritz, amedrontado, se encolhia perto de uma parede.

─ Que porra está acontecendo...?! ─ gritou Zsadist, logo se pondo em frente a Bela para proteger sua shellan grávida de qualquer perigo.

Todos os protetores Irmãos estavam fazendo o mesmo, inclusive Dimitry estava protegendo Mahg, sua prima.

Rhage, envolvendo Mary, correu até Fritz, perguntando-lhe agressivamente:

─ Que diabos aconteceu, Fritz?!

─ Amo, a senhora Beth fugiu!

─ Que merda é essa? ─ grunhiu Vishous. Como Fritz demorou a responder, tremendo como estava, o macho o segurou pelo colarinho e o levantou até ficarem cara a cara. ─ Vamos, doggen, diga!

─ Pare com isso, V! ─ gritou Jane. ─ Não vê que o está assustando ainda mais?!

Ele largou Fritz, que voltou a se encolher contra a parede.

─ A ama Beth fugiu, e deixou uma carta para eu ler para o rei! Ela está grávida, e teme pela vida de seu filho se ficar aqui.

─ Caralho! ─ disse Tohrment, segurando o ombro de Nalla e a puxando mais contra si. Então ele olhou para Wrath, ainda possesso pela dor e a raiva. Ele parecia que ia se desintegrar a qualquer momento. ─ Irmãos, vamos, temos que conter Wrath antes que ele destrua tudo, inclusive a si mesmo.

Butch, com as palavras de Fritz, estava em choque, tremendo, relembrando o que acontecera à sua amada shellan.

Pálido, John assoviou para Qhuinn e Blay, falando com eles na língua dos sinais. Estava preocupado, pois Beth era sua irmã.

Foi uma luta para que todos aqueles machos conseguissem conter Wrath. Foi necessária a força conjunta de todos eles para conseguir pará-lo e conseguir lhe inculcar um pouco de calma e capacidade de raciocinar com alguns golpes bem dados.

─ Wrath, acalme-se, vamos encontrá-la! ─ gritou V. ─ Ela não vai conseguir se isolar, não hoje em dia, com tudo sendo capaz de ser controlado pela tecnologia! Com meus computadores, serei capaz de dizer cada passo que ela deu!

─ E você pode encontrá-la, Irmão ─ disse Phury. ─ Use o vínculo de sangue que ambos têm! Seu sangue é poderoso, e corre por ela, principalmente agora que ela carrega uma parte de você com ela.

Ofegando, Wrath se forçou a se acalmar. Seus Irmãos tinham razão. Beth poderia ser encontrada bem facilmente. E ela não poderia ficar muito tempo longe, precisaria de sangue, principalmente agora, que estava grávida e tinha que se alimentar por dois. Endireitando-se, ele disse, a voz uma barra de gelo:

─ Vishous, leve a porra do seu traseiro até os computadores e não saia deles até que a encontre ─ ele apertou uma pequena estátua sobre uma mesinha com tanta força que ela se despedaçou. ─ Irmãos, ainda não podemos sair, pois o sol está no auge. Mas assim que o crepúsculo descer, vamos todos à procura de minha shellan. Esqueçam o Ômega. Esqueçam os Lessers. Beth é a única que importa, agora.

Capítulo 03

Wrath estava parecendo um animal ferido. Por mais que fizesse, ele não conseguia encontrar Beth. Era incrível, mas parecia que ela tinha sumido da face da Terra. Em primeiro lugar, ela não levara telefone celular consigo. Se tivesse levado, Vishous já a teria encontrado, pois os celulares de todos dentro da casa tinham rastreadores. Mas ele não conseguia imaginar como ela estava se sustentando sem usar o cartão de crédito. Ela não retirara dinheiro algum da conta conjunta que os dois mantinham, e apenas uma pouca quantidade fora retirada do cofre, tão pouco que mal daria para uma pessoa viver por algumas semanas. O mais impressionante, entretanto, era o fato de que ele não estava conseguindo encontrá-la através do vínculo de sangue que os unia. Isso era algo totalmente inexplicável, uma vez que, agora, levando uma parte dele consigo, dentro dela, o laço era muito mais forte. Era como se algum tipo de energia interferisse, e toda vez que ele tentava encontrá-la, deparava-se com uma barreira que parecia interferência. Fazia quase três meses que Beth partira, e ele temia por sua vida. A gravidez era sempre perigosa para uma fêmea vampira, e ele estava se corroendo por dentro com a ideia de que algo de ruim estava acontecendo com sua shellan.

— Que porra Beth está pensando? Leelan, por que você está fazendo isso comigo? — ele disse, apertando o tampo da ridícula mesa de seu escritório, tão elegante e delicada que parecia desconjurada quando ele estava sentado a ela. Ao seu lado, George Terceiro ganiu suavemente. O Golden Retriever sempre sentia quando seu dono estava triste, angustiado ou sob qualquer emoção intensa.

Acariciando o cão, Wrath tentou se recompor. Por pura força de vontade ele se levantou e acompanhou o cachorro, saindo do gabinete e percorrendo o corredor, para logo descer as escadas para a primeira refeição da noite. Toda noite ele se sentava junto aos seus guerreiros na sala de jantar. Tinha que ocupar o seu lugar, seus homens tinham que ter em mente, a cada noite que saíam para lutar, que seu rei, fosse o que fosse, sempre estaria ali com e para eles, firme e forte. Entretanto, desde que sua shellan partira, sua fome desaparecera. Ele se sentava à cabeceira da mesa e remexia a comida, conseguindo engolir apenas algumas porções, para logo fingir que comia bem, quando boa parte da refeição ia parar na goela de George. Ele agradecia sua velocidade superior, que permitia que lançasse a comida para o cachorro sem que os Irmãos percebessem. Não era uma criança para ter um monte de machos preocupados com sua saúde.

Quando Wrath entrou na sala, deparou-se com o péssimo clima que se instalara na casa. Parecia que uma maré de azar atingira toda a Irmandade da Adaga Negra. Primeiro, fora a morte de Marissa e do bebê que ela levava no ventre, em seguida a fuga de Beth grávida. Ele temia que mais desastres acontecessem.

De repente, os sons ficaram distantes. Era como se alguém tivesse coberto seus ouvidos com algo, de modo que ele ouvia apenas sons indistintos.

— Wrath! — era a voz de Rhage.

A próxima coisa que o rei tomou conhecimento era que seu grande e duro corpo doía. Ele se sentou, e sob suas mãos sentiu o chão frio de mármore. Ele caíra?

— Porra, Wrath, que matar a gente de susto?! — dizia Vishous.

— Mas o que foi que aconteceu? — ele grunhiu. Sua cabeça estalava de dor.

— Você simplesmente desmaiou, cara! Caiu como uma árvore no chão. Olha, sei muito bem de seu fodido problema — disse Tohrment. — Sou o último que devia falar isso para você, mas não pode continuar assim, Wrath. Você realmente pensa que a gente não percebeu que você não come? Pior, não se alimenta! Qual foi a última vez que tomou de uma veia? Aposto que há meses atrás.

Wrath grunhiu. Não queria ser repreendido. Simplesmente ele não podia se alimentar de nenhuma outra fêmea, fosse qual fosse. Ele sabia que as Escolhidas iriam todas até ele bastasse um chamado, mas não conseguia se imaginar bebendo de outra fêmea que não fosse sua shellan. Naquele momento, seu estômago, como se lembrando de quanto tempo não bebia sangue, rugiu, esfomeado. Wrath se encolheu, as mãos na barriga. Não sentia fome de comida sólida, nem sequer o cheiro dela o atraía, mas em sua mente vinham visões do rico, vermelho e quente sangue de Beth. Lembrava-se muito bem da época quando ainda podia ter vislumbres de cor.

— Você não vai gostar do que fiz — disse Jane — Mas acabei de telefonar para Phury para que ele viesse aqui com uma das Escolhidas. Mandei que trouxessem a Layla, já que todos aqui estão acostumados a beberem dela.

Wrath grunhiu e se levantou. Mas não com a mesma disposição e força com que sempre fazia.

— Quem deu ordens para se intrometer em minha vida, Jane?! — ele rugiu, ameaçador.

Na mesma hora a essência de vinculação de Vishous se ergueu, e vinha com uma nota de advertência.

— Pode ser meu rei, Wrath, e meu amigo, mas não deixarei que grite com minha shellan – o macho disse num tom áspero e ameaçador.

— Então peça para que ela não se meta em minha vida. Aliás, não quero que nenhum de vocês me amole!

— Se fazemos isso, Wrath — disse a melodiosa voz de Mary — é porque queremos seu bem. Estamos todos preocupados com você.

A calma voz da shellan de Rhage acalmou Wrath. Ele disse:

— Peço desculpas a todos por minhas maneiras, mas não pelo meu pedido. Metam-se todos com seus próprios assuntos.

Ele ia se virando, mas logo sentiu quando Phury se materializou ali ao lado de Layla, a Escolhida.

— Wrath, meu rei — disse Phury indo até ele e apertando seu ombro.

— Meu senhor... — a Escolhida, pelo som de tecido se movendo, estava fazendo algum fodido tipo de mesura que devia ser similar a ficar de joelhos.

— Ora, se levante — ele disse. — Não quero nada dessas merdas de cerimônia comigo.

A Escolhida pareceu chocada com suas palavras, dada a sua mudez. Wrath não se desculpou, embora se sentisse meio envergonhado. Ele estava mesmo sendo um FDP. Descontava seus problemas sobre todos que estavam ao seu redor, e que queriam apenas ajudá-lo.

O cheiro de Layla era muito bom. Um aroma de jasmim, de baunilha e de fêmea, e que lhe trouxe água na boca. Não no sentido sexual, mas gastronômico mesmo. Ele sabia muito bem, quanto mais gostoso o cheiro natural de uma fêmea, mais saboroso seu sangue. Resolveu, então, aceitar o oferecimento dela.

— É uma honra para mim aceitar o que tão generosamente me cede, Escolhida. Mas... vamos para um lugar mais privado.

Ele não queria se alimentar de outra fêmea na presença de outros, mesmo que não os visse. Foi andando em direção a uma sala próxima à sala de jantar acompanhado de George e sentiu que ela o acompanhava.

Quando as portas foram fechadas, ele foi até o sofá e se sentou lá.

— Venha — grunhiu.

A Escolhida se aproximou dele e se ajoelhou entre as poderosas pernas do macho. Sabendo que ele não tomaria de seu pescoço, ofereceu-lhe o pulso.

Wrath o aceitou com reservas. Sentia a pulsação sob a pele suave do pulso delicado com seus dedos, mas uma sensação estranha o atingia. Tinham sido muitos anos se alimentando apenas de Beth.

Sentir aquela pulsação aumentou a sua fome, que fez seu estômago rugir. Ansioso, ele cravou suas presas na pele macia, suas narinas se dilatando quando o rico aroma acobreado o atingiu. Mas ao primeiro gole, seu estômago se revolveu. Era como se não quisesse aceitar o alimento que ele forçava a entrar lá dentro. Afastando-se da escolhida com um salto, Wrath cambaleou pelo cômodo até encontrar a porra de um daqueles tais de Ming que Darius sempre valorizara tanto. Esvaziou o escasso conteúdo de seu estômago ali dentro. Suado, ele se ajoelhou. Seu estômago se revolvia como se ele tivesse posto algo estragado ali dentro. Mas ele sabia que o sangue da Escolhida era um sangue bom, puro e limpo, forte. O problema estava nele.

Logo um som baixo se fez ouvir. Um lamento que parecia misto de horror, tristeza, vergonha. Era a Escolhida, que tentava evitar chorar ali, na frente dele. Erguendo as mãos na direção em que ele achava que a fêmea estava, ele tentou se explicar:

— Me desculpe, Layla... A culpa não é sua... Não é que seu sangue seja ruim, poluído ou qualquer merda assim, ele apenas... não é o de Beth.

— O senhor sente... muita falta.

Wrath fechou os olhos, mesmo que não fizesse diferença mantê-los abertos ou fechados. Firmou os cotovelos nas coxas grossas e apoiou a cabeça nas mãos, sentindo seus longos cabelos deslizarem para a frente, cobrindo seu rosto. O que era providencial. Pela primeira vez desde que Beth fugira, ele se permitia chorar.

— Não sabe o quanto. Não sabe o quanto...

***

Beth apertou seus punhos. Às vezes, as saudades batiam com tanta força que ela sentia vontade de gritar. Tremendo sob o cobertor esfarrapado, ela acendeu a vela com apenas um movimento de sua mão. Acabara de sonhar com seu hellren. No sonho, ele a abraçara, seus olhos verde incandescentes cuja visão ele reservava geralmente só para ela a mirando com carinho e desejo, seus macios cabelos longos, negros e pesados entrando em contato com as mãos dela.

Nesse momento, uma onda de fome atingiu Beth. Ela estava preocupada. Nunca mais se alimentara desde que fugira, e o sangue era necessário para o desenvolvimento de seu bebê. O problema era que ela estava num lugar muito ermo. O chalé em que estava era praticamente nas Catskills, e ela não tinha vizinhos. Fora que beber de outro macho era praticamente impossível para ela. Mas ela tinha que fazer algo. Não podia correr o risco, mais um, de seu bebê morrer por causa de inanição.

Com um sorriso fraco, Beth pôs as mãos em seu ventre. Ele já estava arredondado e com uma leve rigidez típica das barrigas de mulheres grávidas. Era maravilhoso sentir a vida que se gerava dentro dela. Um pedacinho de seu Wrath. De seu amado hellren.

Beth se levantou. Arrastou-se para a pequena cozinha do chalé e preparou uma refeição composta de pão, ovos e presunto para si. Sempre comia, por menos fome de comida que tivesse, para tentar enganar seu estômago e fazer com que sua criança recebesse os nutrientes necessários ao desenvolvimento. O ruim era que um nutriente essencial, o sangue, ela não estava ingerindo.

Ela não conseguiu comer, entretanto. Seu estômago, no momento, não aguentaria ingerir nada que não fosse sangue. Beth se sentou no batente da porta da cozinha, sua visão fixa até onde conseguia enxergar, dada a escuridão da noite, seus olhos cheios de lágrimas.

— O que eu vou fazer?

Ela estava, como bem dizia o ditado, entre a cruz e a espada. Sua criança precisava viver, mas morreria de qualquer maneira, ela ficando ali ou voltando para casa. Se continuasse ali, sem sangue, o bebê morreria de fome; se voltasse, Beth tinha certeza que Wrath continuaria com a horrenda ideia de aborto.

Ela estava se sentindo tão fraca que ficou ali, sentada, no frio, sem conseguir sequer se levantar.

“Será que será esse meu destino? Morrer aqui, grávida e sozinha?”, ela pensou, triste.

De repente, ela escutou um som estranho, fora os naturais sons noturnos das montanhas. Ela se assustou, mas não teve forças para se levantar.

— Quem está aí? — perguntou, temerosa.

Um homem apareceu ante sua visão. Era um macho grande, forte, de cabelos longos até a cintura, loiro-escuros. Ele trazia às costas um grande equipamento de acampamento.

— Olá... — ele falou, com um grande sorriso. Mas o sorriso sumiu quando ele a viu ali, sem forças e pálida. — Pela Virgem Escriba...

“Ele é um vampiro?”, Beth pensou, a mente meio enevoada, enquanto tentava mais uma vez se levantar. Em menos de um minuto o rapaz soltou seu equipamento no chão e correu até ela, baixando-se e pondo a mão sobre sua testa molhada de suor.

— Céus, moça, sinto sua fome de longe! Há quanto tempo não se alimenta?!

Ele rasgou as próprias mangas das roupas que vestia, muito apertadas nos braços para poder subi-las, e pôs o pulso contra a boca de Beth.

— Vamos, beba!

Ela se recusou, movendo a cabeça de uma forma lenta para os lados.

— Vamos, não seja teimosa! Você irá morrer se não beber, eu sinto o quanto está fraca! Bem, vai tomar à força, então!

Ele mesmo rasgou o pulso, deixando o odor de sangue fresco fluir no ar. Na mesma hora, a contragosto de Beth, seus caninos cresceram e seu estômago rugiu. Ela não queria beber de outro homem, mas seus instintos a desobedeceram. Talvez fossem os instintos de uma mãe que queria salvar sua cria a todo custo. Seus lábios se fecharam sobre o rasgo no pulso grosso, e logo ela bebia sofregamente, selvagemente. Suas mãos, como garras, prenderam com força o braço do homem contra si enquanto ela se alimentava como jamais fizera em sua vida, de uma forma voraz. Ela bebeu por tanto tempo que temeu, senão pela vida, pela força ou integridade física do Bom Samaritano.

Logo uma sonolência, uma sensação de saciedade estranha a acometeu. Ela sentia a força aos poucos retornando ao seu corpo, o calor a percorrendo como uma onda. Engraçado, ela não tinha percebido, antes, o quanto estava fria...

— Bom... Assim mesmo... Nossa, ainda bem que eu me equivoquei de caminho... Valeu a pena deixar o Angher, meu namorado, esperando...

Beth ergueu os escuros e sonolentos olhos para o lindo macho à sua frente. Balbuciou:

— Namorado?

O rapaz sorriu, e falou num tom suave, meio afeminado:

— Sim, namorado. Angher... o macho mais lindo e maravilhoso desse mundo!

Ele era gay? Imediatamente Beth se sentiu menos culpada por ter bebido dele. Não era uma traição ao seu Wrath.

Ela se levantou devagar, ainda meio fraca e cansada.

— Muito obrigada... Você salvou duas vidas, agora.

— Duas?

— Sim — disse Beth pondo as mãos sobre seu ventre e sorrindo fracamente. — A minha e a de meu bebê.

O macho deu um gritinho e levou às mãos ao rosto, um grande sorriso iluminando as feições de anjo.

— Fabuloso!! Querida, que bom!! Eu simplesmente, adooooro crianças! É uma pena que eu não possa ser agraciado com a dádiva de ser mãe... Angher daria um pai fantástico... — ele se recompôs e disse. — Eu sou Kindhy.

Beth estendeu a mão, mas hesitou na hora de dizer quem era. Decidiu-se por apenas se apresentar como Beth e evitar revelar qualquer vínculo com rei da raça.

— Beth.

Ele lhe apertou a mão e depois franziu a testa.

— Mas onde está o seu hellren? Como ele pôde deixá-la num momento tão frágil desses, a gravidez?

Beth corou.

— Meu hellren... é um homem maravilhoso. Mas eu tive que fugir dele. É que ele queria fazer com que eu tirasse nosso filho. Entenda, não é que ele seja mau, é que ele teme por minha vida.

Com uma expressão de simpatia, Kindhy segurou a mão dela.

— Posso amar crianças, mas entendo seu hellren. Tantas mahmens morrem durante as gestações...

— Quer entrar? — Beth ofereceu. — Pode dormir aqui, se quiser. Está muito frio aí fora.

Kindhy sorriu.

— Muito obrigada. Eu vou aceitar o oferecimento e aproveitar para ligar para Angher. Talvez ele possa me encontrar.

Na verdade, após o telefonema, descobriu-se que Angher morava mais perto do que todos pensavam. Com as indicações de Kindhy, ele dirigiu até o chalé de Beth e ela ficou impressionada. Angher era um afro-americano imenso, com quase dois metros e constituição de touro. Quem visse os dois machos separadamente, jamais imaginaria que eram gays. Juntos, entretanto, a história era outra. O macho claramente dominador e sério que Angher parecia se derretia quando olhava ou estava perto de Kindhy, ficando um macho protetor, vinculado e carinhoso.

Os dois se dispuseram a alimentar Beth enquanto ela estivesse nas Catskills. Elevando uma prece a Deus, em seguida à Virgem Escriba, ela aceitou, pois conhecer aqueles homens parecera um milagre. Finalmente sua filha, que ela tinha certeza, embora não soubesse como, de que era uma menina, teria uma chance de viver. A herdeira do trono dos vampiros, se dependesse dela, seria tão forte e honrada e maravilhosa como o pai.

Notas finais
(nota da autora e beta: irei mais uma vez cortar a história para inserir aqui a primeira parte da história Destination Anywhere)