Reese nunca se iludiu a ponto de achar que quando tudo acabasse só teriam coisas boas a dizer, dariam uma festa e poderiam seguir as vidas da melhor forma que pudessem. Haveriam consequências. Haveriam problemas. Ela só não tinha imaginado que entre os problemas haveria o corpo da ex-namorada de Cassian em uma mesa de necrotério improvisada no laboratório do avião.

Ele estava muito calado, sentado em uma das cadeiras do avião e encarando a parede oposta com o olhar vazio. Theo e Damon, que também tinham sido bons amigos dela, tinham desaparecido avião adentro desde que tinham sido buscados, e não apareceram para falar com ninguém.

Ali na cabine de comando, estava se tirando um tempo para colocar ordem no que tinham encontrado. Strucker e Hodge estavam presos, cada um em um módulo de contenção. O corpo de Stryker tinha sido enfiado em um saco e jogado em uma cabine vazia do Zephyr. Quem precisava estava recebendo primeiros socorros, incluindo os inumanos resgatados do prédio onde Hodge estivera. Estava claro que vários deles tinham agido sob coerção ou controle mental direto, e aos poucos os agentes iam conversando com eles para entender o que tinha acontecido. Agnes porém tinha escapado, junto com o inumano chamado Vex. Jesus, um outro inumano, desaparecera muito antes do combate acabar.

Reese se sentia péssima, mas não era nada que Balu pudesse ajudar. Tocar os sentimentos de Stryker tinha sido… terrível. A quantidade de ódio que ele sentia era esperada, Reese estava acostumada a essa altura a mexer com as emoções de pessoas que queriam matá-la. O que a surpreendeu foi o quanto ele se odiava, e o quão… suicida ele era. Tornou quase impossível alterar as emoções dele, tentando reprimir que os sentimentos dele sufocassem seus próprios pensamentos. Havia sido no mínimo exaustivo brigar com um desejo suicida que não era seu enquanto tentava se concentrar para completar uma tarefa. Esperava nunca mais ter de fazer algo parecido.

Por outro lado, tinha de admitir, tinha sido um tanto… elucidativo. Agora, quando olhava para Héctor e Alexis, conseguia entender. Era sim possível alguém se odiar tanto que aceitaria trair a própria espécie. E era trágico.

Héctor, conversando em um canto com Alexis, acabou percebendo que ela estava encarando. Ela abaixou o rosto, mas era tarde, e Héctor já estava vindo se sentar ao seu lado.

— Você não parece bem — ele comentou. — Conversou com Balu?

— Não acho que ele possa me ajudar. Uma boa noite de sono, talvez.

— Tem certeza? Você parece pálida, meio verde também. E suando um pouco.

Ela também se sentia enjoada, então tinha certeza de que ele estava sendo sincero.

— Vou cuidar disso depois. Tem pessoas precisando mais que eu.

Héctor apenas assentiu, agora olhando para Alexis do outro lado da cabine, que estava encostado contra a parede e abraçando Eras contra si, os olhos fechados, os dois parecendo apenas quererem descansar ali por quanto tempo pudessem.

Isso fez o estômago de Reese afundar, a culpa pesando no estômago. De certa forma, ver duas pessoas que se gostavam de forma tão genuína em sua frente, a fez se lembrar de quando tinha tentado usar Héctor da mesma forma.

— Eu manipulei você — ela falou, de uma vez.

— Eu sei — ele respondeu, ainda olhando para os dois.

— Me desculpe. Eu não devia ter feito isso.

— Tudo bem — Héctor abriu um sorriso pequeno. — Não é como se eu pudesse julgar alguém.

Olhando por esse lado, realmente, mas isso não fazia ela se sentir melhor.

— E o que você vai fazer agora? — Ela perguntou.

Héctor deu de ombros.

— Dunalanis e Krystorian estão pegando os dados que a S.H.I.E.L.D. recolheu para levar pra Attilan. Eles querem mudar como as coisas são feitas por lá, o processo de terrigênese e todo o resto, e pediram Eras para acompanhá-los, mas ele decidiu ficar aqui com Alexis até poder pisar em Attilan em segurança. Eu estava falando com Alexis porque eles decidiram parar e viver uma vida tranquila por agora, mas eu ainda sinto que tem muito que eu poderia fazer e… Não sei. Esperava tê-los como companhia. Alexis continua resmungando que me detesta, mas — Héctor riu. — Depois que eu limpei a ficha dele, ele tem sido bem mais aprazível. E nós sabemos lutar juntos, então parecia uma boa ideia. Mas agora eu não sei.

— Bem… Ainda temos espaço para alguém com super-força na equipe. E… uma bússola moral, talvez.

Ela pensou que Héctor fosse recusar imediatamente, mas o garoto sustentou um sorriso simples, se recostando na cadeira e observando o movimento na cabine.

— Quer saber… Acho que vou pensar sobre.

[...]

— Você tem certeza, Balu? — Olivia perguntou, passando a mão carinhosamente na cabeça da esposa.

— Absoluta, ela tá bem — o curandeiro respondeu, ao que Marisa trocou um olhar levemente sarcástico com ele.

— Olivia querida, deixe o garoto ajudar outras pessoas. A única coisa que eu preciso agora é uma boa noite de sono.

Balu certamente também aceitaria uma dessas. Ninguém estava gravemente ferido — o que não era necessariamente algo a se comemorar, considerando que os ferimentos graves tinham na verdade terminado em morte — mas queria se certificar de que ninguém precisaria sequer entrar em um hospital quando saíssem dali. Queriam evitar perguntas.

Haviam poucas pessoas na fila. Ele se aproximou de Liza, uma das inumanas controladas que tinham recuperado protegendo Hodge, e ela o olhou com uma boa quantidade de receio, se encolhendo um pouco para longe.

— Eu só quero ver se você está bem.

— Estou.

— Eu sou curandeiro. Me deixe ajudar.

Ela continuou desconfiada, mas se aproximou um pouco, deixando Balu colocar a mão sobre a testa dela. Aos poucos começou a espalhar seu poder pelo corpo da mulher, descobrindo uma quantidade preocupante de ossos quebrados. Era surpreendente que ela não estivesse chorando de dor.

Começou com uma fratura na clavícula, pousando a mão ali e a vendo se contorcer um pouco, mas começar a relaxar em seguida. Enquanto procurava outras fraturas, e cuidava de curá-la, Sirius se aproximou.

No meio dos agentes de campo se recuperando, ou das ajudas temporárias indo embora, Sirius acabou pegando para si a responsabilidade de fazer o contato entre o que tinham encontrado e a central da S.H.I.E.L.D.. Balu, que tinha visto Luke se acertar aos poucos em seu papel de líder, reconheceu o mesmo processo com Sirius, mas não sabia se ele percebia isso. Não ia ser ele a contar.

— Ok… Balu, aí está você — ele comentou, com um tablet em mãos, riscando algo com uma caneta. — A S.H.I.E.L.D. está negociando um trabalho com o Lorne, e ao que parece ele vai aceitar. Se você puder entregar os documentos para ele depois, só caso ele ainda esteja planejando alguma gracinha, eu agradeceria.

— Não é problema.

— Ótimo, obrigado — Sirius se virou para Liza. — E você, como a I.M.A. te achou?

Ela fechou a cara, não parecendo interessada em responder. Mas Sirius estava preparado para isso também.

— Até onde eu sei, nós acabamos de te tirar de controle mental — ele comentou. — Se ajudar a gente, talvez possamos te ajudar. Limpar algumas coisas da sua ficha, por exemplo.

Balu moveu as mãos para cuidar de uma costela trincada, e ela pareceu pensar por um instante, como se vê-lo a curar fosse a evidência de que precisava de que, realmente, eles queriam ajudá-la.

— Eu fui pra I.M.A. de livre e espontânea vontade. E depois quando ficou estranho, eles prometeram curar minha mãe. Eventualmente ficou estranho demais e eu quis ir embora, mas eles tinham outros planos.

— Curar sua mãe de quê? — Balu perguntou.

— Câncer. Eu não tinha dinheiro pra pagar.

Balu conteve a vontade de suspirar. Não podia simplesmente ouvir uma coisa dessas e ignorar. Ela tinha ficado desesperada suficiente para se juntar a uma organização criminal para ajudar a mãe.

— Eu posso curar sua mãe — ele comentou. — Aparentemente “câncer” faz parte da lista de doenças que eu sei combater. Fiz isso ontem mesmo.

Liza o olhou, surpresa, e depois de volta para Sirius.

— Em troca de quê? — Ela perguntou, a voz tremendo por um instante. — Eu virar agente da S.H.I.E.L.D.?

— Me basta se você não usar mais seus poderes pra atrapalhar a vida dos mutantes — Balu respondeu, dando de ombros. — O que mais quiser fazer… A vida é sua. Vá ser feliz.

— Eu… obrigada.

— Por nada.

Tinha ouvido mais “obrigados” naquele dia do que em muito tempo. Ele terminou com Liza, e depois pegou os documentos com Sirius e entregou para Lorne. E então, ele se recostou em uma das cadeiras da sala central para pegar um ar. Dali, conseguia ver o corpo de Niko no laboratório, e sentiu o estômago revirar. Não fazia tanto tempo que ela tinha aparecido na Mansão Xavier, que agora nem existia mais, implorando por ajuda para um amigo, mesmo sabendo que todos ali a odiariam. E agora ela tinha dado a vida por uma causa que sequer era dela.

De certa forma, isso fazia Balu sentir um forte senso de dever. Esse tipo de coisa não podia continuar acontecendo. Onde estavam falhando? Por que ainda não tinham conseguido fazer tudo acabar? Qual seria o próximo passo?

Não sabia. Mas ia descobrir, porque seria impossível deixar a situação continuar assim. Estava preso em uma luta eterna, já sabia disso. E não ia parar até chegar à vitória.

[...]

— Damon, convenhamos — Theo comentou, de pé, no meio da sala, os braços abertos indicando o cômodo. — Isso é ridículo.

Fazia um mês desde a prisão de Strucker e a consequente dissolução de seu plano de uso do terrígeno. Nos primeiros dias, Theo acordava de madrugada depois de um sonho muito vívido com Niko, e levava alguns instantes para se lembrar de que ela não iria mais voltar. Então se segurava para não cair no choro, mas o fazia assim mesmo, e acabava acordando Damon para consolá-lo.

Depois de um tempo, Theo começou a sair de sua cabine, mas isso não ajudou tanto quanto gostaria. Cada canto do Zephyr o lembrava de Niko, e depois, quando enfim conseguiram outra base, mesmo no novo lugar, os procedimentos, o símbolo da S.H.I.E.L.D., tudo era um grito frequente da ausência dela,, bem em sua cara.

Eventualmente foi obrigado a aceitar que precisava se ausentar da organização por tempo indeterminado. Então Damon, que não podia voltar para casa e tinha perdido a Mansão Xavier como lar temporário, apareceu dizendo que tinha estorquido o pai para usarem um dos apartamentos dele em Nova York.

Era o melhor cenário possível, considerando que a alternativa seria voltar pra Escócia e acabar se afastando de Damon, o único amigo que lhe restara a essa altura. Então não demorou a aceitar, e ali estavam.

É claro, quando Damon disse “um apartamento”, tinha imaginado exatamente isso. Talvez um estúdio, ou algo parecido. Mas não. A ideia de Damon era que os dois morassem sozinhos em um duplex de cinco quartos com vista panorâmica sobre Nova York.

— Eu sei! — O mutante respondeu. — Eu disse que queria o apartamento com cobertura, não esse loft apertado.

Apertado? Damon, minha casa da Escócia cabe nessa sala, eu tenho certeza disso. Quantos banheiros tem nesse lugar? Vinte?

Três. E um lavabo.

Theo suspirou. Era loucura. Nunca tinha parado muito pra pensar no dinheiro de Damon quando estavam fingindo que eram só amigos, mas agora que existia um relacionamento amoroso e iriam morar juntos, era demais.

— Sem chance, Damon. Eu não posso ficar aqui de graça desse jeito.

— Olha só, eu vou falar isso agora porque não pode ser uma questão no futuro. Eu sou rico, Theo. Podre de rico. Rico a ponto de que meu pai só pisa naquela joça de empresa porque ele quer muito, porque se não quisesse ele podia contratar um CEO e sumir. Se você vai sair comigo tem que começar a lidar com isso. Não vai ser só um jantar chique em algum lugar, é a minha vida inteira. Os imóveis, os carros, tudo. E eu quero você do meu lado, então, se vira pra dar conta.

— Não é tão simples assim.

— É simples sim. O que você quer, um estágio com o Sr. Stark? Eu posso te arrumar um.

— …o que?

— Bem, você disse que não quer ficar aqui de graça, então eu posso te arrumar um estágio e aí você se diverte comprando parte do supermercado do mês, e me deixa te mimar o resto do tempo. Que tal?

— Você simplesmente pode me arrumar um estágio com Tony Stark?

— Você conhece outro Stark por acaso?

Theo deixou o queixo cair. Damon caminhou até a cozinha, olhando curioso para a bancada e passando a mão no granito, como se analisasse alguma coisa, não parecendo ter se dado conta do absurdo que tinha acabado de falar.

— Então quer dizer que você simplesmente conhece Tony Stark a ponto de poder me arrumar um ESTÁGIO e eu não deveria estar surpreso por isso?!

— Meu pai é um multimilionário dono de uma indústria médico-tecnológica. É claro que eu conheço Tony Stark. Quantas vezes você acha que ele já foi jantar lá em casa? Sem falar em todos os coquetéis chatos que eu tive que atender e fazer média conversando com as pessoas… Tony era uma das únicas boas companhias, odiava aquela chatice tanto quanto eu. Foi ele quem me deu minha primeira dose de uísque.

— E você teve a audácia de ficar bravo comigo porque eu conheci o Gavião-Arqueiro e não te contei. Impressionante, Damon.

— Você tá falando demais — Damon comentou, deixando a bancada e voltando até Theo. Ele puxou o garoto pelos quadris, deixando um beijo estalado sobre os lábios dele. — Tony vai adorar o que você criou pras suas vértebras. Vai querer o estágio ou não?

— É claro que eu quero o estágio.

— Maravilha! Então você vai ficar, não é?

Havia um brilho nos olhos de Damon, uma esperança gritando por trás das íris claras dele. Theo percebeu que por um instante, Damon tinha receado que tudo fosse demais, e que acabaria indo embora.

Theo soube que jamais queria ir embora.

— Enquanto você me aturar, eu fico — Theo respondeu, um sorriso de canto aparecendo no rosto.

— Então vamos logo começar os serviços, temos uma casa pra batizar.

— Batizar?

Antes de Theo terminar, Damon o puxou para um beijo, o levando até as bancadas e o puxando consigo para cima do granito.

[...]

Quando se namorava alguém a sério por algum tempo como Luke e Nath vinham fazendo, era de se esperar que eventualmente chegassem ao ponto de conhecer a família um do outro. Com as circunstâncias especiais nas quais tinham se encontrado por tanto tempo, e também considerando que até pouco tempo Nath sequer conhecia sua família, fazia sentido que isso não tivesse acontecido ainda.

Agora, porém, sem I.M.A., sem Instituto, e com ambos de volta às suas casas, pareceu certo arranjar o encontro. E embora não existisse motivo algum para Luke estar nervoso, estava andando de um lado para o outro na sala de casa, conferindo o relógio a cada instante e esperando Nath chegar.

— Você tá me deixando tonto — Peter, seu irmão legal, comentou. O irmão chato, Thomas, deu um jeito de sair de casa assim que soube que Nath estava vindo e não disse quando iria voltar.

— Me dá um tempo, eu tô nervoso.

— Meu filho, se ele te faz feliz, a gente tá feliz por você. Não tem com o que se preocupar — sua mãe comentou.

Luke quis responder, mas não soube como, então ignorou e continuou andando no mesmo lugar. Precisamente às duas e sete, a campainha da casa tocou e ele correu até a porta, a abrindo de uma vez.

Nath estava na frente. Usava uma argola dourada na orelha direita que Luke admirando muito em como o deixava ainda mais maravilhosamente bonito que era. O cabelo tinha voltado ao crescer, mas para surpresa de Luke, Nath disse que ia continuar raspando por um tempo, porque tinha gostado do jeito que ficava careca.

Luke, que achava que a coisa mais bonita sobre Nath era a confiança recém adquirida, só pode concordar.

Atrás dele, estava a mãe e o padrasto, trazendo sacolas de bebida e uma torta de frango. E ao lado de Nath, só podia ser a irmã. Clarissa.

— MEU DEUS VOCÊ É O LUKE MESMO! — Ela exclamou, se jogando no garoto para um abraço.

E rápido assim ficou claro que não havia nada com o que se preocupar.

As famílias dos dois se deram bem imediatamente. Clarissa e Peter grudaram no video-game na sala por boa parte da tarde, e depois de passar um tempo conversando com os respectivos pais e sogros, Nath e Luke se juntaram a eles.

O dia terminou com o casal convencendo os pais a deixarem Nath passar a noite ali, não que fosse difícil com Nath já sendo maior de idade, Luke a alguns meses de também ser e os dois já tendo dividido um quarto no Instituto por muito tempo. Assim, depois de Clarissa ser levada embora reclamando porque também queria ficar, Luke soube exatamente onde os dois poderiam terminar o dia.

Levou Nath até seu quarto, abrindo a janela e saindo para o telhado da varanda frontal. Pegou consigo um pacote de salgadinhos e chegou a ver Peter de olho na janela de seu quarto do outro lado, mas o garoto logo deu um sorriso engraçadinho, apagou a luz e foi se deitar.

Então, Nath surgiu ao seu lado, e os dois estavam sozinhos.

“Você vem muito aqui?”, Nath perguntou.

Luke tinha gostado de ouvir a voz de Nath ao longo do dia, mas agora sabia que ele ainda preferia usar o ASL quando pudesse, como quando estivessem sozinhos. Entendia isso. Parecia algo muito íntimo aos dois.

“Bastante. Mas até hoje só Peter tinha me acompanhado.”

“Ah, eu sou especial, então?”

Luke riu. O humor de Nath também estava melhor.

Ele passou o saco de salgadinhos para o outro lado, se aninhando para perto de Nath. Não havia lua naquela noite, mas isso não atrapalhou Luke de apreciar a noite estrelada.

“E agora?”

Luke queria dizer que agora iriam apenas relaxar e aproveitar a vida, mas sabia melhor. Nath sabia melhor. Tudo que tinha acontecido com a I.M.A. era apenas um de vários problemas que, como mutantes, sempre iriam enfrentar.

“Agora… Tem mais uma coisa que temos de fazer.”

[...]

Cassian chutou mais uma pedrinha, vendo-a rolar discretamente até os escombros abaixo. Não tinha sobrado muita coisa da Mansão Xavier além de uma pilha de tijolos queimados e muito maquinário destruído. O terreno ainda pertencia a Xavier, e era provável que ele fosse refazer a casa quando voltasse de seu passeio com os Shi’ar — sim, depois da tragédia recente, finalmente alguém tinha conseguido encontrá-lo para dizer o que estava acontecendo, e ele já tinha anunciado seu retorno —, mas até lá, não havia nada além de restos para se olhar.

Ir ali tinha sido ideia de Héctor. Ele disse que queria ver o que tinha acontecido, entender o tamanho da crueldade de seus inimigos, etc… Cassian não tinha muito interesse de fazê-lo, mas Reese parecia interessada em agradá-lo e ele gostava de não ter dor de cabeça, então apenas concordou. Agora que estava ali, porém, desejava não ter ido.

Nunca tinha gostado do lugar e do que ele representava, mas era obrigado a admitir que, no mínimo, o Instituto era um lugar para mutantes irem quando não tinham outra escolha, um lugar onde crianças e adolescentes podiam aprender a conviver com suas habilidades sem medo de julgamentos. Com todos os problemas que tinha com a filosofia de Xavier, sempre tinha gostado do Instituto existir como alternativa. Agora…

Ele se sentou sobre um robô de defesa caído, e ficou esperando enquanto o resto da equipe — agora formada por Reese, Marlene e Héctor — andava pelo local, procurando por itens que poderiam ser queridos por algum mutante que deixara para trás ao fugir com pressa. Não parecia estar indo muito bem. Cassian não via sentido em ajudar.

Não via sentido em muita coisa. De todas as pessoas que poderiam ter morrido naquele ataque, que fosse Niko era trágico. Irônico, até. Cassian sabia que ela tinha passado um bom tempo tentando se redimir, mas diria que a obsessão dela com isso ia muito além do que era sua culpa. E no fim, ela tinha perdido a própria vida no processo, e pra quê? O que tinha de fato mudado?

Strucker estava preso, mas com certeza não para sempre. E sempre haveria alguém algum problema, alguma situação, alguma coisa. O mundo não estava de repente muito simpático a mutantes. Não ia demorar para alguma outra ideia ser organizada contra eles, e então? O que fariam?

— Eu não esperava te ver aqui.

Cassian se virou, cansado e desinteressado. Era Luke falando com ele. Atrás dele, o resto de seus Novos Mutantes — o que tinha sobrado deles, ao menos — e Theo, se espalhando pelo local e começando a revirar os escombros também.

— Não estamos roubando suas coisas, se é isso que quer saber — Cassian resmungou, olhando para o movimento do local.

Estava cansado. Sentia que ia ter de passar o resto da vida lutando pelo direito de existir. Para estar vivo. Para não precisar se esconder. Não sabia se tinha forças para isso. Não sabia como ia viver com o mundo tentando lhe tirar a vida.

— A gente só queria vir olhar — Luke comentou. — Era nossa casa.

Claro. Fazia sentido. O restante do time de Luke aos poucos foi se encontrando com os integrantes da Irmandade que estavam no lugar, e uma ou outra conversa começou a acontecer. Cassian se pegou pensando de repente se tivessem conversado antes se o resultado final poderia ter sido um pouco diferente, mas não se culpava por isso não ter acontecido. Também não culpava Luke. Os dois estavam em momentos muito diferentes, e tinha certeza de que um acordo entre os dois era tão inimaginável na mente de Luke naquela época quanto na sua.

— Mas é bom que você esteja aqui — Luke comentou. — Eu ia mesmo te procurar, eventualmente.

— Pra quê? Eu tô fichado na polícia?

— Não. A S.H.I.E.L.D. limpou todo mundo que participou do ataque final. Vocês estão livres.

— Hm. O que quer então?

— Algumas coisas que eu tenho pensado… Xavier, Bobby… Eles tem razão sobre o mundo que querem construir. Eu não acho que separar humanos e mutantes é a solução. Toda minha família é humana, eu tenho um irmão que não fala mais comigo por quem eu sou, mas tenho pais e um irmão que me amam. Então, sim, eu acredito no mundo que eles querem construir. Eu preciso acreditar, porque de outra forma eu teria de aceitar que nunca mais poderia ver minha família para conseguir viver uma vida segura, e eu não quero aceitar isso. Não vou aceitar.

Cassian se lembrou de sua mãe. No meio de tudo vinha tentado mantê-la longe dos detalhes do que vinha fazendo, mas poder voltar para casa, saber que apesar de ter perdido o pai ainda a tinha… E Niko tinha sido parte de sua vida por um bom tempo. Cassian entendia esse desejo de Luke, compartilhava dele.

— Então você está aqui para tentar me retrucar. Não gaste sua energia. Xavier é um idiota se ele acha que continuar passando a mão na cabeça dos humanos vai resolver o problema.

— Sim. Você tem razão.

Cassian se virou surpreso para Luke. Tinha? Ouvira Cather contar como Luke tinha simplesmente deixado que ela matasse Stryker, e não pensara muito disso na hora, mas agora…

— Qual seu ponto aqui, Luke?

— Eu guiei meus Novos Mutantes para salvar pessoas o ano inteiro, inclusive de uma igreja que pregava a nossa morte, acreditando que eventualmente isso ia fazer tudo melhorar. Tudo que a gente ganhou foi um ataque bioquímico na nossa cidade. Meu ponto, Cassian, é que Magneto está certo também. Não sobre o fim, mas sobre o meio. Não vamos chegar em um mundo pacífico jogando flores para cima. Meu ponto é… Existe uma frase, não se sabe ao certo quem disse embora às vezes seja atribuída a Guevara: há de se endurecer sem perder a ternura. É isso que eu quero fazer. Nós queremos nos juntar à Irmandade, e tentar fazer as coisas de outra forma. Não o jeito do Magneto, não o jeito do Xavier. O nosso jeito. Com afeto pelos nossos aliados, paciência com quem não é e poderia ser, e sem tolerância para quem não tiver esperança.

Cassian se levantou, devagar, olhando para o seu time e o time de Luke que agora tinham parado e conversavam em um círculo em meio aos escombros. Poderia ser…

— Como sabemos que isso vai funcionar? — Cassian perguntou.

— Não sabemos, mas a gente pode descobrir. A gente pode se ajustar aos poucos. Estamos tentando fazer algo novo, não vai dar certo logo de cara. Mas eu acho que vale à pena — então, Luke estendeu a mão para ele. — O que me diz?

Ia ter de ficar lutando o resto da vida, sabia disso. Podia fazer isso como já estava fazendo, ou podia encontrar um jeito melhor. Talvez esse fosse o jeito melhor. Só havia um jeito de saber. Cassian apertou a mão de Luke.

— Sejam bem-vindos à equipe.