Irmãos!?
2 Famílias
Notas iniciais
Meu pai é um idiota! Conheceu uma mulher a uns 3 meses atrás, não a viu mais do que uma dezena de vezes e agora ela está vindo pra cá morar com a gente. Aposto que ele nem mencionou a ela o fato de ter uma filha. Quero só ver a cara que ela vai fazer ao descobrir que o meu pai tem uma filha de 18 anos.
‘Pai! Essa mulher vai mesmo vir morar aqui?’ Gritei.
‘Vai sim Laís. E você vai tratá-la bem, ouviu?’ Respondeu meu pai.
‘Ah, eu vou? E quem vai me obrigar?’
‘Eu sou teu pai, tenha mais respeito.’
‘Meu pai ou não, não pode me obrigar a aceitar uma estranha aqui. Eu nunca nem a vi papai. E se ela for uma bruxa? E se ela não gostar de mim e roubar toda tua atenção?’
‘Então é isso? Você está com medo de perder minha atenção pra ela?’ Assenti com a cabeça e lágrima nos olhos ‘Oh! Meu amor, isso nunca vai acontecer. Você sempre vai ser a minha garotinha, não se preocupe. Além disso, quem não amaria você?’
‘Muita gente não me ama papai, e por vezes eu não me sinto merecedora de ser amada mesmo.’ Suspirei. ‘Vou pro meu quarto.’
***
‘Mãe, a gente precisa mesmo ir?’ Perguntei torcendo para que ainda fosse possível tirar da cabeça dela essa ideia tosca de irmos morar com um estranho que nunca vi na vida.
‘Sim, Luís! Nós precisamos e vamos mesmo sair dessa casa. Mas não se preocupe, não vamos vendê-la. Assim, se você por algum motivo insano da tua parte preferir abandonar a tua mãe lá pra morar sozinho aqui, você vai poder.’ Respondeu minha mãe com lágrima nos olhos. Ela sempre fazia isso com o intuito de me deixar mal. E o pior de tudo é que ela sempre conseguia.
‘Mãe! Não faça essa cara de choro para mim, não precisa desse drama melodramático todo.’ Revirei os olhos. ‘Eu só não acho legal irmos pra uma casa estranha. Melhor seria que ele viesse morar aqui.’
‘Ah Luís! Porque quer tanto que moremos aqui? Nenhum de nós dois têm amigos aqui. Então pra quê? Por quê?’
‘Porque eu gosto daqui? Porque eu estou de saco cheio de tantas mudanças que fizemos? Porque de todos os lugares e casa que moramos, aqui foi o único lugar que me deu algum ânimo? Será que é por esses motivos, mãe?’ Mamãe sempre me arrastando pra um lugar diferente. Não que eu pudesse culpá-la, acho que ela era como meu pai do tipo que gosta de uma boa aventura, que não gosta muito de ficar muito tempo em um mesmo lugar.
Eu sei, um pouco de egoísmo da minha parte levando em consideração que ela ficou mais de 8 anos sem se deslocar pra lugar algum pra poder cuidar de mim. Ela acreditava e ainda hoje acredita que crianças que viajam demais não têm tempo de se divertirem como crianças de verdade.
‘E quem te garante que lá você não vá se sentir da mesma forma que se sente aqui?’
‘Qual é, mãe? Vai me dizer que lá também é cheio da natureza e de paz e tranquilidade?’
‘Não, é claro que não. Mas tem um parque lindo onde eu conheci o “estranho”, posso te levar até lá.’
‘Ótimo, vai me levar para o lugar onde conheceu o responsável por destruir minha vida.’ O que ela estava planejando com isso?
‘Está bem. Pense como quiser Luís, mas deveria dar uma chance ao lugar. Quem sabe assim como eu e ele você também não encontre o amor da sua vida por lá.’
***
‘O amor da sua vida, pai? Sério isso?’ Perguntei incrédula.
‘É, ela é o amor da minha vida. E você gostando ou não vai ter que aceitar isso.’
‘Pai, pelo amor de Deus! Você levou uma eternidade pra perceber o quanto amava minha mãe. MINHA MÃE! E agora vem dizer que o amor da sua vida é essa mulher que conheceu a apenas 3 meses? MINHA MÃE ERA O AMOR DA TUA VIDA! E não essa estranha que nunca deu as caras por aqui e que você viu umas poucas vezes.’
‘Eu a amo Laís, aceite isso ou trabalhe e arranje uma casa para morar.’ Ele soltou essas palavras bufando.
‘Como você chama essa atitude? Trocar-me por um rabo de saia qualquer. Isso é eu não perdendo tua atenção? Isso é como você demonstra o quanto me ama? ISSO é você doente papai. Isso tudo que você está sentindo não é amor, é doença. Vá se tratar! E... Saia do meu quarto.’ Eu mal consegui pronunciar essa última parte, foi mais um murmúrio que uma fala.
‘Eu te dei tudo! Você não pode ao menos tentar aceitá-la?’ Ele falou já fora do meu quarto com a porta aberta.
‘NÃO!’ Gritei jogando-lhe forte uma almofada para que ele percebesse a intensidade da minha raiva. Ele escapou da almofada fechando a porta.
***
O que farei com essa menina! É uma ingrata! Não merece todo o mimo que lhe dou. Talvez eu devesse ter falado com ela antes sobre o assunto. Bom... Agora isso não importa mais, já fiz, tá feito.
Vou ligar pra Mary, ver se ela já tá terminando. Que bom que ela não tem filhos, isso já é complicado o suficiente graças a Laís. Essa menina tá cada vez pior desde que Sally morreu.
Ela acha que é a única a sofrer com isso? Eu também sofro com a falta de Sally, ela era minha mulher, o ar que eu respirava. Mas eu tenho que ser forte, porque se eu não for forte nessa casa, quem vai ser?
Não que eu seja tão forte assim, sei que não sou. Mas faço o melhor que posso. Eu tento superar isso a minha maneira, ela porém nem se esforça por isso. Parece que ela faz questão de sofrer.
***
Encontrar o amor da minha vida? É assim que minha mãe quer me convencer a me mudar? Nem parece que me conhece e é a minha mãe. Era pra ela me conhecer melhor que ninguém, não é mesmo? Ela tem agido como uma louca desde que meu pai morreu.
Parece que tá sempre fugindo de algo ou alguém. O que não faz sentido, minha mãe sempre foi tão amável e gentil com as outras pessoas. Sempre se importou mais com os outros que consigo mesma.
É assustador ver ela assim, tentando desesperadamente fugir da dor na qual meu pai nos deixou. Não dá pra fugir desse tipo de dor, é preciso enfrentar. Quando ela vai perceber isso? Quando ela vai perceber que ficar fugindo de todos os locais que tenha algo que a faça lembrar dele não vai adiantar de nada?
Fui até a cozinha, estava com fome. Vi minha mãe chorando.
‘Mãe? O que você tem? Machucou-se?’
‘Não… ou melhor… sim, mas não é o tipo de ferimento que eu possa pôr um band-aid ou mesmo curar com remédios.’
‘Eu sei mãe. Também sinto falta do pai.’ Abracei-a, sempre detestei ver mulheres chorar, mas minha mãe é diferente. Ela quase nunca chora, não na minha frente ao menos. E é por isso que quando a descubro chorando me parte o coração. Suspirei. ‘Tudo bem, mãe! Eu vou tentar aturar esse cara, mas saiba que só vou fazer isso por você!’ Ela me abraçou forte e pude sentir que ela sorria um pouco. O que me deixou mais tranquilo.
‘Obrigada Luís! Tenho muito orgulho de te ter como filho.’
***
O Luís é um ótimo garoto. Tenho sorte de ter um filho como ele. Não deve ser fácil aguentar uma mãe como eu. Mas eu sei que tudo vai se ajeitar.
Eu entendo que ele não queira sair daqui. É um lugar tranquilo. Geralmente eu me sentiria ótima morando aqui, mas lugares calmos e tranquilos me fazem lembrar muito o pai dele. Já é difícil superar quando ele é igual ao pai, ficando aqui então é pior ainda.
Tenho certeza de que James amaria isso aqui. Eu nunca venderia esse lugar, pois sei que se James fosse vivo não me perdoaria se o fizesse e também sei que Luís um dia pode decidir morar aqui. Além disso, se ele demorar a se casar não vai ser por falta de moradia.
Eu quero tanto que ele seja feliz, espero que ele encontre uma garota bacana e que o ajude a superar a morte do pai. Não está sendo fácil pra nenhum de nós, mas me sentir tão amada como tenho me sentido tem ajudado.
Espero que homem que tem me dado tanta alegria não fique muito chateado por ganhar um filho de brinde. Seria horrível se isso estragasse nossa relação. Mas é como dizem “Onde comem 2, comem 3” Então imagino que uma boca a mais pra alimentar não o fará surtar.
Arrumamos as coisas, pusemos as malas no carro e fomos rumo a nova vida. É a hora da verdade. Agora é o TUDO ou NADA. Espero que tudo corra bem. Não vou aguentar ser abandonada de novo.
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