Iris
12 The Twilight Zone
A brisa matinal que chocava-se contra Orube, cavalgando determinadamente, agitava os cabelos violetas da ninfa. Já havia quase uma lua que deixara Anr’kash, despedira-se de sua companheira djinn e seguira com a bênção da Khaliff Yash’yimn. Recebera instruções do Pentágono para que viajasse por entre as florestas densas, até chegar numa cadeia de montanhas ao sul. Era um dos últimos limites do continente, e por mais que Orube tivera pesquisado e tentado colher informações, não conseguira nada relevante. Estava a uma dúzia de amanheceres de distância, e não tinha certeza se poderia abrigar-se em alguma estalagem. Em locais desconhecidos e pouco desbravados como este, era um perigo confiar em qualquer criatura – e a ninfa sempre relembrava o golpe de sorte que fora conhecer Ny’slor.
A maga lia um de seus apurados mapas, enquanto atravessava uma trilha bastante usada por entre a floresta, aparentemente, e traçava uma rota rápida até seu suposto destino. Longínquo, mas aproximando-se, era possível ouvir uma trotar de dois cavalos, e isso fez com que Orube parasse por um instante. Percebendo a aproximação, guardou seus pergaminhos em sua algibeira, a tempo de ouvir uma voz bastante conhecida ecoar bem próxima a si.
–Orube! – clamou a meio-elfa.
–Lúthien? – a maga olhou em torno. – Lichast!
Puxou a rédea de seu cavalo, postando-se em frente aos dois grandes amigos. Sorriu, por estar em tão agradável companhia novamente.
–Estive terminando minha missão há pouco. O Pentágono pediu-me que seguisse até as ilhas além das montanhas, e Lichast contou-me que você estava por perto.
–Sim, minha cara barda, estou em direção às montanhas. Vincent está de encontro a mim.
A ninfa fez uma pausa, e retornou a um tom um tanto melancólico.
–Se me permitem, eu preciso continuar em frente. Em poucos dias, o solstício acontecerá, e assim a bênção de Nix enfraquecerá...
–Que os elementos lhe guardem, Orube. – proferiu o sátiro, despedindo-se.
A maga assentiu levemente com a cabeça, e tornou a puxar as rédeas de sua montaria, seguindo em frente. A barda e o shaman seguiram por outro caminho, que os levaria diretamente a sul. Orube notara um clima diferente entre si e seus amigos, e isso a deixara preocupada. Tentou afastar os pensamentos nebulosos de sua cabeça, e continuou sua viagem, seguindo sua rota.
O sol postava-se no horizonte, e a ninfa começava a preocupar-se. Apesar de saber que os perigos saíam predominantemente à noite, notava estar próxima ao fim da floresta, e ignorava a sensação de ser seguida com os olhos ao cavalgar pela trilha. Conseguia notar runas criadas por necromantes, rastros de escolas como a Obsidiana. Eram eles que dominavam este local? Temia por antecedência. Continuou firme, ignorando o sentimento de medo que começava a dominar-lhe e a tirar-lhe as forças. Sendo assim, após algumas horas, finalmente deixou a floresta para trás, com toda a sua aura perigosa dominante. Entretanto, isto não significava que estaria em total segurança.
–x-
Vincent sentia medo. Insegurança.
Atravessava uma caverna por entre os limites rochosos das montanhas, enquanto sentia um aperto crescente. Havia ouvido um chamado de Orube, e tentava chegar o mais rápido possível para atender. Sabia que sua amada estava ali, próxima a si, e não conseguia deixar de sentir medo.
Iluminava seu caminho com uma antiga tocha e a cada passo dado, a luz ao final da caverna afastava-se mais. Por impulso, jogou sua tocha ao chão, fechando os olhos e seguindo em frente, deixando que sua intuição o seguisse. Manteve sua espada em mãos, guiando seu caminho. Ao fundo, ouvia o som do fogo a espalhar-se calmamente, e alguns chiados desesperados de criaturas demoníacas. A luz do luar passou a brilhar fortemente, e então abriu seus olhos. Estava agora na beira de um abismo, e ao fim do cânion que o dividia, era possível ver um enorme forte de pedra com bandeiras roxo-escuras agitando-se com o vento frio a soprar.
Olhou em torno, e observou o final da densa floresta logo atrás de si. Viu também um conhecido cavalo branco, com algumas algibeiras em seu dorso. Seria possível?
Montou no belo cavalo, reconhecendo-o. Orube. Puxou suas rédeas e trotou por uma sinuosa trilha montanha abaixo. O cavalo não o estranhara – conhecia-o desde o dia em que a ninfa também o encontrara pela primeira vez. Bebendo de uma poção de invisibilidade, continuou a trotar, mais sorrateiramente, pela planície que dividia o abismo e o forte da Escola Obsidiana. Parou ao observar, no horizonte, um grande quimera a planar, descendo próximo a si. Era uma grande besta, com corpo e cabeça de leão, cabeça de serpente e grandes asas que se assemelhavam às de um dragão, embora pertencessem à serpente.
Assim que a quimera pousou ao chão, transformou-se em um elfo, de estatura alta e cabelos verde-escuros. O guerreiro fechou seus olhos, ainda invisível, e desfez o poder da poção. Retirou o capuz que cobria sua cabeça e olhou nos olhos do elfo. Notou que não possuía íris, e brilhavam em um tom de verde tão escuro quanto seus cabelos.
O elfo sorriu, enquanto observava com desprezo o humano em sua coragem.
–O grande arauto do cataclismo? Então isto vai ser bastante interessante. – deixou uma risada sarcástica escapar, em tom baixo.
–Do que você está falando, Lökhen? – proferiu Vincent, dirigindo-se furiosamente ao elfo em suas vestes negras.
–Veja.
O elfo fechou os olhos, e uma luz negra fora expelida de sua boca. Olhou novamente para Vincent, e em um mover de dedos, um orbe púrpura tornara a pairar no ar, com Orube presa em seu interior.
–Estou pensando em ficar com ela. É uma gracinha, não?
A fúria do guerreiro crescera de maneira colossal. Empunhou sua espada com raiva, e investiu contra o arauto esmeralda. Seus golpes eram certeiros, mas ainda assim, não surtiam dano. A cada ataque, o necromante afastava-se mais, e iniciava a conjurar magias que, pouco a pouco, faziam meteoros atingirem o solo, machucando Vincent. O humano teve a chance de ferir gravemente uma das pernas do elfo, mas ainda não o impedindo de continuar a criar suas magias. No segundo em que a espada do arauto do cataclismo passava pelo peito de Lökhen, uma onda de sombras o afastou e fez-lo tombar, enquanto uma estaca sombria emergira do chão para atravessar seu peito.
Fora possível ouvir um grito abafado, ecoado pelo orbe onde a ninfa permanecia presa, e a risada do arauto esmeralda ecoando pela planície.
–Este era o destino, cataclismo. – proferiu Lökhen. – Não há poder que possa deter a mim, o escolhido da escuridão. Não existe noite, não existe caos que possa combater a morte! Ela sempre trará a desolação para todos, e não podem fugir disto!
Enquanto ouvia estas palavras sendo ditas em sua mente, Vincent tivera em sua visão Chaos, sua grande deusa. Apesar de seus longos cabelos flamejantes parecerem consoladores agora, num cenário de morte, ele sabia que não estava pronto para partir. A deusa assentiu com um sorriso, e tomou sua espada em mãos.
–Você está certo disto, arauto? Você será consumido, mas manterá sua consciência. Eu espero que você consiga dominar a essência do dragão.
–Eu faria o que fosse preciso.
–Então renasça, meu jovem guerreiro. Renasça como o caos, e deixe que ele o guie.
Seu corpo, que jazia inconsciente enquanto o elfo proferia as palavras para Orube, começara a emergir em uma essência escarlate. Sua armadura, banhada em sangue, reluzia da mesma maneira que sua enorme espada prateada, com runas rubis em sua extensão. Grandes asas negras envolveram-no, e fizeram-no pairar no ar. Seus olhos tornaram a brilhar em um escarlate ainda mais vívido do que antes, e eles observaram o elfo, refletindo toda a raiva que ali jazia.
–Não é você que irá me parar, grande arauto. – proferiu em tom de escárnio, enquanto voava até o elfo, com sua espada empunhada em mãos.
O elfo proferiu o início de uma magia, sem conseguir terminá-la. Fora interrompido com o sangue jorrando de sua boca, escorrendo por entre seu queixo, e molhando suas vestes.
–Você estava errado. O caos é o início, e tudo ao caos retorna. Esta é a ordem das coisas.
–P-pois eu lhe amaldiçôo... E v-você nunca retornará aos braços de sua... amada. N-nun..nunca!
O orbe em que Orube permanecia presa tornou a desaparecer no ar. Vincent soltou um grito que ainda refletia a raiva contida, e voou para o forte da Escola Obsidiana. Segurando a cabeça do arauto esmeralda em mãos, pousou no topo de uma das torres, e emitiu um chamado para que todos os integrantes da seita o vissem.
–Seu líder está morto, e eu reclamo seu posto. – os necromantes, bruxos e aprendizes pareceram, por um instante, surpresos, mas logo recobraram o silêncio inicial. — Respondam a mim, agora, e renasçam como soldados do caos.
Com seus poderes infinitamente amplificados por Chaos, criou um orbe vermelho-escuro, com uma essência negra em seu interior, e jogou-o ao chão, observando àquela legião de criaturas transformando-se em demônios serventes a si. Uma aura negra passara a habitar cada um daqueles indivíduos, e, sendo assim, Vincent sentia seu poder crescendo dentro de si.
Voando acima de seu exército, o líder ordenou que localizassem o Arauto da Noite, e que trouxessem todas as informações o mais rápido possível. Seguiu para uma grande sala no topo do castelo que permeava o forte, e passou a olhar o horizonte negro que pairava ao seu redor, através de um enorme vitral.
–Nunca, é? Veremos.
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