Iris

10 Fullmoon


O entardecer violeta engrandecia a vista do topo das colinas em que a maga encontrava-se. Era possível observar limites desconhecidos para ela, e também para a djinn que a acompanhava já haviam semanas. Permaneciam em silêncio, e este era um dos locais favoritos para ambas. Ouvia-se naquele local apenas o barulho do vento soprando sobre as árvores distantes, e, raramente, grifos e outros animais cruzando os céus. A ilusionista rodeava-se de mapas e pergaminhos antigos que estudava, com a intuição de que estava próxima do local seguro do que procuravam. Ao mesmo tempo, Orube lia cartas que lhe foram trazidas de locais distantes, dos outros escolhidos pelo Pentágono. Dentre todas as cartas que amontoavam-se, apenas duas provinham de seu amado, e a angústia crescia pouco a pouco, enquanto a ninfa notava que já não o sentia nos pensamentos como antigamente. Ainda assim, suas palavras transmitiam-lhe tanta segurança, e os planos, os sonhos que compartilhava com sua amada, diziam-lhe que tudo daria certo no final. Apesar das dúvidas que permeavam sua mente, ela preferia acreditar que ainda poderia realizar seus sonhos ao lado de Vincent.

Moveu a cabeça rapidamente, levando consigo os pensamentos preocupados, e tornou a ler o pergaminho de Lúthien. A meio-elfa contava-lhe boas novidades, assim como relatava alguns grandes perigos que passara nas mãos de piratas e mercenários, pelas praias no leste do continente. Superficialmente, comentara sobre o artefato que buscava, limitando-se a dizer apenas que era um poderoso diadema, protegido pela rainha dos mares. Orube entendera que seria deveras perigoso se a barda fornecesse mais informações, e contentara-se com as notícias dos avanços de sua antiga companheira.

O pergaminho seguinte provinha do sátiro Licaste, e o mesmo falava-lhe de profecias e suspeitas que confundiam e abalavam a maga. Era fácil de se observar que falava de Vincent, e da forma como ele mudava lentamente, estando mais distante e fechado. Disse, por final, que sua busca chegaria ao fim em apenas alguns dias, e ele voltaria ao encontro do Pentágono. Mencionou acompanhar Lúthien, e a ninfa notou um sentimento protetor provindo do shaman. A carta chegava ao fim, e Orube colocara-a ao lado das outras, deitando-se na relva para observar as estrelas surgindo no firmamento, uma a uma.

–Oeste. Precisamos seguir a oeste.

A ninfa levantou-se rapidamente, surpreendida pelas palavras repentinas.

–O manto, Orube. Encontrei alguns papéis sobre "uma relíquia noturna" em posse de necromantes e outros discípulos da Escola Obsidiana.

–Uma vez... quando eu era pequena, eu ouvia meus pais falando...

–Pais? Seus pais humanos, certo?

–Os únicos que eu tive, Ny'slor. — Os olhos da djinn passaram a olhar para o chão, talvez por arrependimento. — Enfim. Lembro-me de ouvi-los dizer que em terras desconhecidas, onde o poder divino dos alados não nos protegia, escolas como estas faziam moradia.

–Sim, e é verdade. Há muito tempo atravessei as muralhas protetoras das grandes cidades dominadas pelo Pentágono, e a realidade aqui é diferente. Você está há tempo suficiente aqui para notar isto.

–Bem, o que eu queria dizer, era que talvez precisaremos ser mais cuidadosas. Não sabemos o domínio destas escolas nem quanto poder estes aprendizes detém, apenas que são cruéis e fariam qualquer coisa para proteger coisas que considerem importantes.

–Entendi. Partiremos ao amanhecer, aconselho-a a descansar esta noite.

A djinn já havia guardado em sua algibeira todos os mapas e cartas, e preparava um feitiço de teletransporte.

–Onde você vai agora, Ny'slor?

–Eu? Caçar.

Um flash de luz levemente azulada agraciou os olhos de Orube, e ela tomou as rédeas de seu cavalo. Voltara para a cidade, e seguiria o conselho de sua companheira. Com tantos pensamentos nebulosos em sua mente, não conseguira sonhar, nem mesmo pensar em Vincent nesta noite.

-x-

O céu nebuloso que pairava nos arredores da antiga vila que a maga e a ilusionista antes pousavam agora era lentamente deixado para trás. No horizonte, era possível observar tons azulados, bem como a silhueta diminuta de árvores e montanhas. Enquanto atravessavam locais desconhecidos, a djinn montava mapas apurados, para caso precisassem voltar. Orube, por sua vez, procurava respostas para determinadas questões que a atormentavam, e/ou, relembrava fatos do passado. Sentia falta de Lúthien, que a acompanhara na jornada anterior, e costumava entoar cantigas durante suas longas viagens a cavalo, ou ainda tocava sua lira encantadora.

-Ny'slor...

-Sim?

-Você não acha que está tudo muito silencioso?

-Bem, isto é uma planície. Não vejo animais nem algo que poderia, ou deveria, fazer algum barulho.

-Exatamente. Já fazem incontáveis horas que estamos atravessando esta estrada, e só observei algumas runas dispostas pelo chão. Como aquela.

Pararam suas montarias, e ponderaram sobre observar, e tentar retirar alguma informação. Desta maneira, conduziram seus cavalos planície adentro, distanciando-se da estrada que seguiam.

-Eu já vi runas como estas. São runas solares, criadas por alquimistas. — proferiu Orube, enquanto aproximava-se mais dos escritos brilhantes que riscavam a grama verde-amarelada. — Podem ser usadas para proteção, ou para transmutação, embora ainda existam diferentes utilizações para elas.

-Interessante. Estas inscrições me parecem muito familiares, embora eu tenha certeza que nunca vi uma destas antes. Acredito que haja alguma aldeia próxima, mas não vejo sinais de civilizações.

-É porque... ela não está na superfície.

A maga adentrou o centro do círculo, e usou o amuleto que lhe fora dado por Nix para reativar todas as runas em conjunto. O horizonte, antes nebuloso, agora esclarecia-se em tons azuis. A ilusão começara a decair, e era possível ver uma imponente construção diante de seus olhos. Um colossal castelo de mármore, em uma arquitetura completamente alheia aos conhecimentos da ninfa, materializara-se naquele local. Não era possível observar o topo do castelo, pois atravessava o limite das nuvens.

Tornaram a montar seus cavalos e seguir para os portões, guardados por dois djinns, semelhantes à Ny'slor. Suas caudas eram similares a ciclones, de onde era possível observar pequenos raios espalhando-se em diversas direções, e vestiam armaduras prateadas. Assim que as duas aventureiras aproximaram-se dos dois guardiões, os portões abriram-se, e as mesmas atravessaram os limites, passando pelos dois djinns, imóveis em seus postos.