Ira
1 Capítulo 1
Ele se sustentou na estrutura de porcelana do vaso sanitário, e empreendeu toda a força que seus braços esqueléticos poderiam realizar para que sua cabeça não entrasse na maldita privada. Mas não foi o suficiente.
— Ei, Mark, puxe a descarga! — gritou George Wilden, sorrindo enquanto empurrava, com atrocidade, a nuca de Jason em direção ao interior do vaso.
Mas Jason não gritava; seus rangidos e ruídos raivosos eram resultados de seu esforço em escapar da humilhação violenta.
No exato momento em que Mark Batson acionou a descarga, Jason escapou das mãos dominadoras de George, e ergueu a cabeça energeticamente, dando margem para que apenas alguns respingos de água gotejassem em seu rosto.
Mal escapou da investida, e Mark o chutou com força no estômago, fazendo com que Jason se encolhesse de dor sobre o chão sujo do banheiro masculino.
Mas ele ainda não gritava. Nem mesmo quando George desferiu um soco em seu rosto, e sua boca jorrou sangue através do corte feito pelo contato entre o anel de ferro do garoto e a pele de seus lábios.
— Não vale a pena, huh? — sussurrou George, a voz escapando potente e grave, mesmo que ele não gritasse. — Da próxima vez que pensar em olhar pra minha namorada, lembre-se disso aqui...
E acertou outra vez o rosto de Jason, fazendo o garoto grunhir e estender o braço sobre o rosto.
— Eu não acreditei quando vi que ‘cê tava olhando pra ela — George voltou a falar. — Achei que você era bicha. Pelo menos desse boato você já escapou.
Mark riu, a voz escandalosa e boba ecoando nos ouvidos atordoados de Jason como uma buzina desagradável num trânsito ruim.
— Eu não tava olhando... — Jason começou, mas George o interrompeu.
— O quê?
Jason o encarou, tentando não mostrar medo, mas quase podia sentir seus olhos ardendo de covardia, e os músculos tremendo de pânico.
— Eu não... tava olhando pra ela, eu juro que não estava... — repetiu, entre pausas, para não deixar o sangue escorrer sobre o queixo.
George abriu um sorriso de escárnio, os dentes perfeitamente brancos alinhados em fileira sob os lábios vermelhos vivo.
Ele ia proferir mais algum comentário odioso, quando o barulho estridente do sinal da escola invadiu o banheiro.
— Acho que já deu por aqui. — concluiu, e fez um sinal com a cabeça para que Mark o acompanhasse. O amigo, fiel adulador que era, sorriu macabramente para Jason antes de ir embora.
Ele permaneceu no chão por alguns minutos, antes de levantar-se e encarar o espelho sobre a pia do banheiro. O rosto pálido e cheio de acne estava rubro, marcado por hematomas. O sangue escorria da boca, em pausas, e ele usou uma das mangas do casaco negro para tentar estancá-lo.
Sua cabeça doía como se um compressor estivesse a esmagando de cima para baixo, e o ardor na boca fazia parecer que chamas flamejavam sobre os lábios.
“Eu juro que não estava olhando”, ele pensou nas palavras ditas há pouco. “Eu juro”...
Ele não precisava jurar nada para George Wilden, aquele desgraçado problemático. Mas era covarde, medroso até a medula, e fraco demais para conseguir aderir à raiva contida em seu interior assim que o confronto surgia.
Ele sempre fora dessa forma, cruel apenas consigo mesmo, e introvertido o suficiente para que não pudesse proferir uma palavra sequer contra alguém, boa ou ruim. Não era a primeira vez que fraquejava, mesmo quando sentia todo o ódio acumulado explodir em seu peito. Ele sempre caía, dobrava-se em seus joelhos, lambia os pés de qualquer valentão que o ameaçasse, e a Angleside era cheio deles.
George Wilden era o pior, e cumpria todos os requisitos de um bully popular: amargurado com a própria vida e cheio de feridas emocionais que procurava estancar com socos e bestialidade. Jason achava que ele devia apanhar do pai, ou qualquer uma dessas justificativas que davam margem pra que gente que nem ele fizesse esse tipo de coisa.
Mas Jason não o perdoava, não quando parecia que todos estavam seguindo em frente com suas vidas íntegras, e ele era o único que ainda era machucado. Não quando havia tantas campanhas de merda sobre o bullying e gente como Wilden ainda escolhia ser hostil daquela forma. Era a pura e simples maldade, escondida nas entranhas e efervescida quando se é jovem.
— E aqui estou eu, pensando em tudo isso e não movendo um dedo... — sussurrou, encarando o reflexo no espelho com uma raiva tão brutal que qualquer um que o visse pensaria que estava prestes a quebrá-lo em pedaços.
Covarde, mil vezes covarde, pensou. Por que estava ali, de qualquer maneira?
Lavou o rosto depressa, e apressou-se a sair da escola.
Lá fora, o enorme prédio cinzento e castigado pelo tempo da Angleside’s High School manchava o mar branco de neve que se formava sobre a rua. Era outubro, e o frio de Waltham, em Massachusetts, rasgava qualquer agasalho e penetrava nos ossos como um veneno gelado.
Jason odiava o frio infortuno, mas a neve o acalmava de um jeito enigmático. Delicada, sem pressa, seus flocos imperceptíveis, e ainda assim conseguia fazer-se notar no final do dia. Ele gostava dessa metáfora.
Observou as estradas pintadas de branco mais uma dezena de vezes, enquanto esperava o ônibus parar próximo à pequena casa entre a floresta de árvores decíduas cobertas de neve.
Assim que entrou, o ranger da porta denunciou a sua chegada, e John surgiu na sala a passos pesados. Jason engoliu em seco quando viu a figura robusta e ameaçadora do padrasto na sua frente.
— As cervejas? — perguntou, arqueando uma das sobrancelhas falhadas.
Merda, ele sabia que estava se esquecendo de alguma coisa.
— Desculpe, eu...
— O que houve com seu rosto? — interrompeu John, apontando com a cabeça para a boca ferida de Jason.
— Não foi nada, um acidente, escute... Eu me esqueci das bebidas, mas eu posso...
— Deixa pra lá. — E voltou ao quarto, resmungando alguma coisa sobre irresponsabilidade e as durezas que passava naquela vida.
Jason correu para o quarto e bateu a porta com força, após entrar. O que aquele inútil sabia sobre dificuldades, de qualquer forma? Ainda que trabalhasse numa loja qualquer de artigos esportivos e conseguisse algum dinheiro minguado, sobrevivia do dinheiro deixado pela mãe de Jason antes do câncer a vitimar, e o usava para se entupir de cigarro e cerveja. Não condizia em nada com o perfil de patriarca esforçado que ele tentava passar.
Procurando cessar o esgotamento que pensar no padrasto lhe causava, Jason tirou as roupas e o agasalho pesado, e tentou relaxar no colchão duro de sua cama. Tudo que precisava era de um chuveiro quente, mas o corpo cansado não cumpria seus desejos. Era quase fim de tarde quando ele finalmente conseguiu que o sono lhe envolvesse, e a partir daí sucedeu-se uma série de pesadelos ruins, que o atormentaram durante todo o descanso e o impediram de repousar.
Havia sangue, uma enxurrada de imagens de sangue, e ele podia sentir a dor de cortes em sua carne, mesmo que nenhuma das sensações fosse real. E o frio, aquele maldito frio que mordia seus ossos e o fazia se encolher de agonia sobre a cama...
Ele acordou de súbito, suando como um porco perto de uma fogueira, e imerso em absoluta escuridão.
A janela estava fechada, como de praxe, e alguns longos galhos vetustos envergavam-se em direção ao vidro e o acertavam ritmicamente. Clic, clic.
A saliva de Jason travou em sua garganta. Nada naquela situação estava certa. A escuridão, de alguma forma, parecia mover-se dentro do quarto, como uma figura espectral inquieta. O frio do local não era natural, não podia ser, não quando Jason sentia seus músculos travarem e apenas mover um dedo parecia impossível.
Clic, clic.
Ele olhou para a janela novamente, e viu um conjunto de galhos finos arranharem a superfície do vidro. Mas desta vez era diferente, e os ramos flexionavam-se e batiam contra o vidro com uma insistência incomum. Clic, clic.
Jason apertou os olhos. Não, a escuridão lhe pregava peças; só essa ideia poderia explicar o porquê do vidro parecer se mover, e a janela subir lentamente, deixando escapar o ar cortante da noite.
Então os galhos invadiram o quarto, e Jason se encolheu na cama ao perceber que os ramos ficavam maiores e moviam-se de forma coordenada, como ossos que sabiam onde se apoiar e encontrar seu caminho para dentro do local, como sombras ansiosas pelo toque. Como dedos.
Não, não dedos, garras. Jason sentiu escorrer as lágrimas de pavor sobre seu rosto quando a luz da lua iluminou o que entrava; corpo inteiro, não apenas as mãos sujas e necrosadas utilizadas para fazer sua entrada.
A coisa parecia ser toda feita de ossos negros, e a pouca pele grudada a eles era também preta; mas o aspecto, Jesus, a textura daquilo fez Jason querer vomitar. A carne desprendida aparentava estar decomposta, e pingava um líquido escuro como óleo, um fluído gosmento que se espalhava por onde quer que ele tocasse.
A cabeça tinha um formato estranho, como a de um inseto, e na extremidade de baixo, onde deveria estar uma boca, havia uma cicatriz branca e pútrida que soltava o mesmo líquido preto que o resto do corpo. Não possuía olhos, mas, de alguma forma, parecia estar encarando Jason enquanto retorcia o corpo e esgueirava-se pelo pouco espaço aberto da janela; e enquanto fazia isso, seus ossos estalavam, e o som do fluído escapando de sua carne nauseava o garoto.
Jason queria gritar, berrar o mais alto possível, chamar pelo padrasto e fugir daquilo enquanto ainda não estava completamente dentro do seu quarto, mas não conseguia. Seu corpo não se movia, sua boca entreaberta só emitia ruídos de terror, as mãos apertando os cobertores com força, e as pernas encolhidas, próximas ao peito.
A coisa parou à sua frente, imóvel, visível mesmo na escuridão, observando-o. Jason queria acreditar que ainda estava imerso em seu pesadelo, mas o frio do lugar era tão real quanto o pânico que o dominara. Ele fechou os olhos com força, na alma a esperança de que, quando os abrisse novamente, aquilo não estaria mais ali.
— Por favor, por favor, por favor... — sussurrou para si mesmo, ainda de olhos cerrados.
E então ele os abriu.
Só o que enxergava agora era a janela aberta e seu pequeno armário de madeira, fechado.
Ele apertou os olhos, e inclinou-se sobre a cama, tremendo, para ter a certeza de que realmente havia ido embora. O frio zombava de seu estado aterrorizado, e secava as lágrimas de seus olhos.
Jason suspirou com cautela, o receio ainda imponente. Apenas quando voltou à sua posição original foi que sentiu o cobertor aquoso e grudento, e a sensação aterradora da presença sobre as costas.
Antes mesmo que pudesse gritar, as garras frias e úmidas seguraram seus ombros e a boca putrefata emitiu um hálito podre perto de seu rosto. O cheiro nauseante de um animal morto invadiu as suas narinas, fazendo-o debruçar-se sobre a borda da cama e vomitar.
Sentiu-se tonto, e havia um zumbido estridente sendo emitido em seus ouvidos, uma droga de barulho que não cessava. Sua boca tinha um gosto podre, o pior gosto que já sentira na vida.
Não resistiu, desmaiou. E os pesadelos com sangue e dor tornaram a invadir sua mente, dessa vez mais fortes.
∞
Clic, clic.
Galhos de verdade investiam contra a janela quando Jason acordou. Antes mesmo de recobrar a consciência por inteiro, ele saltou da cama de súbito, desorientado e arregalando os olhos em direção a todos os cantos do quarto.
Não havia nada que indicasse o horror que marcara presença ali na noite anterior.
Noite.
Ele mirou o relógio sobre a pequena cômoda ao lado de sua cama. Marcava exatas sete horas da manhã, e Jason constatou o horário quando olhou pela janela e observou o sol encoberto pelas nuvens pesadas.
Sua cabeça fora monopolizada por pensamentos confusos, ferroadas insistentes contra seu cérebro, forçando-o a enlouquecer de vez. Teria sido a noite anterior um projeto de sua imaginação, e todas aquelas sensações ruins partes de um pesadelo anormalmente vívido? Se sim, por que infernos ele ainda podia sentir o pânico em todo o seu corpo, além daquele maldito gosto amargo que insistia em corroer sua boca?
Ele encarou a cama desarrumada e, num ato impulsivo, correu até o cobertor e tateou toda a sua superfície em busca de rastros do óleo pegajoso. Ainda apalpava o tecido quando ouviu três fortes batidas na porta de seu quarto, fazendo-o afastar-se depressa do colchão.
— S-Sim...? — perguntou, a voz rouca e falhada saindo da garganta seca.
— Tá atrasado, moleque — berrou John, do outro lado. — Também tenho que te acordar, agora?
Jason permitiu que sua confusão desse lugar à raiva por alguns minutos.
— Acordei muito tarde, eu estava cansado... — respondeu, aproximando-se da porta para garantir que o padrasto não entrasse.
John não respondeu; Jason ouviu seus passos pesados afastarem-se do quarto, e, quando teve a certeza de que ele já havia saído, correu para o banheiro e girou a torneira da pia.
Encheu a boca de tanta água que começou a se engasgar, e escovou os dentes duas vezes, mas nada foi efetivo contra o gosto repulsivo que o fazia recordar-se da noite passada.
Apoiou-se na pia, e, ao olhar para o espelho pela primeira vez desde que acordou, notou um reflexo diferente o encarando. Ainda era o seu rosto franzino e pontilhado por espinhas; a mesma bochecha encovada e marcas escuras e mórbidas sob os olhos pequenos. Todavia, de alguma forma, sua aparência tinha mudado. Jason não conseguia identificar o elemento distinto, mas algo sobre os eventos recentes o deixava temeroso acerca de sua natureza.
Ele não conseguiu se concentrar em qualquer coisa durante o resto do dia. Na escola, sempre que tentava ouvir uma palavra do que os professores tinham a dizer, tudo o que conseguia escutar era um ruído abafado, deixando-o tonto e enjoado.
Quando a Sra. Wells, sua professora de Matemática, tocou em seu ombro e lhe perguntou o que o estava incomodando, ele desvencilhou-se do contato como se os dedos dela estivessem em chamas. Ele não sentia mais frio, no entanto. Mesmo com a neve pesada caindo lá fora e os ventos frígidos rasgando o ar, seu corpo havia estranhamente se habituado ao tempo gelado.
O ápice das desagradáveis manifestações que lhe atentaram ocorreu no refeitório, no momento em que se sentou numa mesa afastada e tentou entender por que inferno estava se sentindo daquela maneira. Foi quando viu George Wilden passar por detrás de uma fileira de cadeiras, abraçado à namorada e seguido de perto por Mark Batson.
Um frenesi de cólera e raiva o domou, e ele sentiu suas unhas arranharem a superfície da mesa, quase a rasgando, tamanha a fúria que penetrava seu interior. O ódio a Wilden era costumeiro, mas aquela sensação era alguma coisa diferente, nem um pouco natural e mais destrutiva que o comum. Como se uma dose gigantesca de adrenalina fosse injetada em suas veias em míseros segundos.
E então veio a voz. No começo, Jason pensou que fossem seus próprios pensamentos, mas tornou-se repetitivo, incômodo e tomou um tom próprio dentro de sua cabeça.
Vá atrás dele, dizia, fazendo-se ecoar por sua mente. Pegue-o. Faça-o pagar. Vá atrás dele.
Ele levantou-se da cadeira, arfando e rezando aos céus para que não estivesse louco.
— Deus, o que está acontecendo comigo? — murmurou para si mesmo, não esperando realmente uma resposta.
Mas achou ter ouvido uma risada maliciosa no fundo de sua consciência.
∞
Os dias seguintes tornaram-se os piores da vida de Jason.
Para começar, sua aparência estava mudando: a pele afinava-se, e os ossos tornavam-se cada vez proeminentes, conforme o passar do tempo. No banho, Jason notava escorrer tufos de seu cabelo, junto com a água, em direção ao ralo. A boca secava-se com uma facilidade absurda, e a escassez de saliva gerou rachaduras críticas em seus lábios. Não demorou em desenvolver um mau hálito repulsivo, que o fazia desejar engolir litros de qualquer desinfetante barato a fim de tentar aliviar o cheiro podre que deixava escapar.
E, é claro, havia a abominável voz em seus pensamentos. Ela tornou-se uma constante, e abarrotava sua cabeça com reflexões pessimistas e sensos negativos.
Situações corriqueiras como esbarros na rua ou barulhos incômodos transformavam-se em gatilhos para rompantes de raiva que o levavam à exaustão. Antes submisso à sua fúria, agora Jason precisava impedir a si mesmo de cometer qualquer ação hedionda e cruel, pois uma cólera terrível corria em suas veias, tão presente nelas quanto o seu próprio sangue.
Mas não era fácil resistir aos impulsos, não quando a execrável voz em sua mente insistia em zombar, estimular, atear fogo aos seus instintos inflamáveis. Ela adquirira uma consciência própria, mesclara-se aos sentidos de Jason como um parasita fundindo-se ao seu hospedeiro. Tornou-se quase impossível distinguir quais eram os seus pensamentos e quais eram os pensamentos do que quer que estivesse em sua cabeça. A única certeza era a raiva e o rancor, pungentes em sua alma e prontos pra explodir.
E foram sob essas circunstâncias, numa sexta-feira, quando a euforia imperava sobre os jovens estudantes da Angleside, que Jason encarou a explosão.
Começou quando ele escutou uma conversa entre George e Mark, no fim do período. Não era sua intenção ouvi-la, mas ambos conversavam perto do laboratório de Biologia, quando Jason enfiava bruscamente os livros em sua mochila, apressado para ir embora.
— Cara, onde você tá indo? — perguntou Mark, assim que viu George virar o corredor e afastar-se dele. — Achei que ia encontrar a Claire...
— É minha babá, agora? — indagou George, e em seguida abriu o típico sorriso detestável. — Eu vou pro campo, preciso treinar antes do jogo de amanhã. Te vejo depois?
Cumprimentaram-se e Jason virou-se, rapidamente, temeroso de que Wilden encarasse o vidro da porta e o visse escutando.
Experimentou, com uma maior intensidade, a ira que o dominava sem descanso nos últimos dias.
Dê um jeito nele, clamava a voz. Faça-o pagar. Você sabe onde ele vai estar.
Jason tentou lutar, depositou todas as suas forças em continuar onde estava, mas aquilo em sua cabeça era mais forte e mais rápido que a sua consciência, e ainda mais vigilante que a sua sensatez.
Andou vertiginoso em direção ao fundo do prédio, onde a escadaria suja e cinzenta dava em direção ao campo de baseball aberto.
Seus sapatos mancharam-se com a mistura de lama e neve sobre a grama, enquanto ele caminhava a passos lentos, a barriga dando voltas e um insólito gosto de sangue na boca.
Vá em frente, não seja covarde, você é tão covarde...
Encontrou George se aquecendo em uma parte afastada do campo, uma área infestada de bandeirolas coloridas sustentadas por hastes de madeira, fincadas no solo enlameado.
Permaneceu imóvel, encarando o outro terminar a série de exercícios físicos bem coordenados. Quando George o notou, franziu a testa e parou de imediato o treinamento. Jason engoliu em seco ao perceber que ele estava caminhando em sua direção.
— Ei, você! — gritou, enquanto se aproximava. — O que está fazendo?
Jason não respondeu. Estava com medo; não de George, de outra coisa.
— Tô falando com você, bicha! — George chegou perto o suficiente para que apenas alguns centímetros de distância o afastassem de Jason. — Veio me olhar treinar? Isso te excita? É verdade o que dizem por aí?
Mas Jason permanecia impassível, preso dentro de sua própria consciência. Tudo o que existia era a voz, sussurrando em seu ouvido incessantemente, as mesmas palavras, os mesmos estímulos incontroláveis: Acabe com ele, faça-o pagar, não o deixe falar contigo dessa forma. E, cada vez que Jason tentava lutar contra, elas voltavam-se contra ele: Fraco, covarde, frouxo. Foi para isto que sua mãe morreu?
— Cale a boca... — suspirou Jason para a própria cabeça.
Mas George tomou aquelas palavras para si, e sua expressão passou de escárnio para fúria em poucos segundos.
— Não me mande calar a boca, seu merda... — E cerrou os punhos, preparando-se para acertar Jason no meio do rosto.
Acabe com ele, agora, comandou a voz.
E Jason, não mais resistindo, obedeceu.
Ele não soube como conseguiu a força, ou a coragem, sequer a facilidade. Mas segurou o pulso de George antes que ele concretizasse o ato do golpe, e o torceu para o lado com uma destreza assombrosa. Ouviu o crack!, e, logo em seguida, os gritos desesperados do garoto, que caíra de joelhos segurando o carpo quebrado com a outra mão. O molde do pulso estava torto, e o osso proeminente sob a pele sinalizava a seriedade da fratura.
Em seu interior, Jason experimentou a satisfação da voz ao assistir o momento, e o júbilo dela tornou-se o seu júbilo também. Era uma sensação de êxtase sobre-humano, um prazer espantoso que inebriava seu corpo e o arrepiava por inteiro. Mais do que isso: era a melhor coisa que sentira nos últimos dias, quando tudo dentro dele parecia apodrecer e se corromper. Pela primeira vez, o prazer tocava-lhe o âmago.
E ele queria mais.
Desferiu uma série de socos e pontapés no estômago de George, que estatelou as costas sobre a grama suja do campo, numa tentativa inútil de escapar das investidas. Jason tornara-se uma máquina de golpes, dotado de uma força monstruosa, e sem qualquer indício de pausa. Seus olhos traduziam o mais puro ódio, a boca entreaberta rangia de prazer pela violência a cada soco que dava, e o sangue do inimigo, inundando suas mãos, lavava qualquer vestígio de piedade.
Isso, continue, por favor, está tão bom... Não ouse parar, nem pense em parar.
— Por favor... — implorou George, a gengiva expulsando o sangue rubro, e os dentes perfeitamente brancos partindo-se conforme Jason o agredia. — Por favor, pare...
Mas Jason não o ouvia, ele não estava mais lá; a posse de seu corpo era da mais profunda raiva, da ira que massacrava o pudor e fazia o garoto vivenciar um prazer puro e cobiçado.
Quando o êxtase finalmente passou e o pouco de sua consciência tornou a preencher o seu cérebro, Jason se viu sobre o corpo imóvel de George. Suas mãos estavam banhadas de sangue, que também respingara aos montes sobre seu rosto e manchara toda a sua roupa. A cara de George era um retrato irreconhecível — seu rosto inchado e deformado deu a Jason o atento necessário para levantar-se repentinamente, e perceber o que acabara de fazer.
— Não, não, não... — Sua voz ampliava-se conforme o desespero crescia. — Não, eu não posso ter feito, não teria como...
Ele correu para longe da cena, num ato de descrença e exasperação, como se o fato de fugir do local o afastasse da culpa.
Suas pernas queimavam enquanto ele embrenhava-se na pequena floresta que contornava as ruas de Angleside, e somente parou quando sentiu as maiores náuseas que já sentira na vida — tinha quase certeza de que seu intestino misturava-se aos demais órgãos internos, fazendo o caminho até a garganta.
Apoiou-se no tronco de uma árvore, e debruçou-se sobre o tapete alvo de neve sob seus joelhos, pronto para aliviar o engulho. Quando finalmente expeliu o vômito, gritou de horror no meio da ação: expulsara o mesmo líquido negro que a nefasta criatura daquele dia deixara como rastro.
Ao ver o fluído negro e espesso espalhando-se sobre a neve, encostou-se à árvore e enfiou a cabeça entre as mãos sujas de sangue.
— Está dentro de mim! — constatou em voz alta.
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